O Unicórnio de Um Coelho
34 Quando o azul não é mais visto...
Notas iniciais
O doutor Lorson precisava do resultado dos exames da paciente Daiane, então Kelly Audrey estava procurando por todos os andares, apesar de já ser quase a hora de sua saída. Chegou à bancada de recepção para questionar a chefe do arquivo que naquela noite estava cobrindo o atraso da recepcionista. Havia uma movimentação intensa na entrada do hospital e o sábado a noite mal tinha começado.
Claudia estava dando ordens e informações às outras enfermeiras da entrada e da emergência, por isso Kelly nem a abordou, indo para a assistente da mulher que estava sentada diante do computador da recepção e registrando as entradas dos civis. Chegou a perguntar a jovem garota sobre os arquivos do paciente do doutor, mas a menina, nervosa com a movimentação, não soube responder com certeza. Ela tinha que insistir:
— Vamos Karina, é só dizer onde está que vou procurar. Tenho que ir para minha casa ainda hoje — a mulher pediu quase suplicante e cansada, debruçada no trecho de balcão bem na frente da moça.
Karina suspirou, parecendo também cansada.
— Eu não sei. Não lembro os nomes do doutores de cabeça... Desculpe mesmo.
De repente, um rapaz enfermeiro chegou por trás do balcão, interrompendo-as:
— Dê entrada nesses dois aqui, estão da emergência 1. Se tiverem ficha no sistema, anota os contatos para depois, porque eles estavam sozinhos e vamos ter que achar a família — e jogou dois documentos sobre a pilha de fichas que Karina tinha ao lado do teclado do computador. Ela olhou-o e assentiu pegando o primeiro e conferindo o nome.
Kelly prestou atenção assim que o enfermeiro falou da emergência 1, pois era dos casos de atendimento prioritário e era muito cedo para algo movimentar aquela área. A mulher baixou o olhar no trabalho da garota e logo seu corpo endureceu, deixando de reagir. Chocada e com o suor frio, ela pegou o documento com urgência e tremeu ao ler o nome novamente e virar-lo para ver a foto, seu filho mais novo tinha dado entrada no seu trabalho.
— Está tudo bem? — Karina perguntou, olhando-a com estranheza após ver a rápida mudança de cor e animo da enfermeira chefe do quinto andar.
***
David pôs o perfume e chegou até o espelho do seu quarto, olhou-se com um sorriso confiante e conferiu se a jaqueta na mão estava limpa com uma boa inspiração, então a vestiu. Ignorou o silêncio da casa ao descer as escadas e foi para a cozinha atrás de algo para comer, ainda tinha um tempo antes de ir encontrar Bianca.
Surpreendentemente, ouviu um rugido diferente na rua do bairro e reconheceu o som do caminhão. Com passos desconfiados, foi em direção à sala, escutando o motor parar logo em frente da casa. Como suspeitou, Stan entrou pouco depois de estacionar o cavalinho de seu caminhão. O homem estava com uma expressão séria e parou assim que encontrou.
— O que houve? — David estranhou, afinal o padrasto não costumava trazer o caminhão dele até a casa.
— Está pronto para sair? — não o respondeu.
— Sim, eu vou... — e o telefone na mesa de apoio perto de Stan tocou. Muito veloz o homem o atendeu, sem nem terminar de ouvir David, mas o rapaz suspeitou de que algo preocupante estava se desenrolando, o que o deixou concentrado.
— Alô? Não, não moça. Eu já sei. Obrigado mesmo assim por ligar, já estamos indo — desligou e virou-se para ele. — David, nós temos que ir para o hospital e encontrar sua mãe.
— Aconteceu algo com ela? — ele moveu-se preocupado, indo de encontro ao padrasto para buscar a chave do carro na mesma mesa de apoio do telefone.
— Não, foi seu irmão — David parou o encarando. — O carro em que ele estava sofreu um acidente. Ainda não sei os detalhes, mas ele está na emergência do hospital e Kelly precisa de nós lá para... — Stan encarou-o com receio maior, engolindo em seco — para o caso do pior acontecer. Ela precisa de nós dois.
Algo reagiu no interior do Audrey mais velho, mas ele o suprimiu logo, ainda tentando encaixar as peças, afinal achava que Francis estava em casa, trancado no quarto como sempre, ainda mais sabendo que o irmão tinha reclamando de ficar o final de semana sem Jack. Mas o que o fez agir e concordar foi pensar na mãe e em como ela estaria naquela situação completamente sozinha, por mais controle emocional que Kelly tivesse.
Pouco depois, ele e Stan estavam no carro e a caminho do hospital.
— Devagar David, pelo amor de Deus! — disse o homem após vê-lo acelerar para passar o semáforo que estava no sinal amarelo. — Não queremos outro acidente tão logo.
— Verdade — o rapaz assentiu e foi com mais calma, enquanto o padrasto verificava o telefone, tentando falar com Kelly e saber aonde encontrá-la.
— Sabe o telefone de Jack? — Stan perguntou depois de alguns minutos. David o olhou por um segundo, confuso da razão de Jack ser envolvido naquele assunto, então o homem esclareceu: — Precisamos informá-lo do que aconteceu, ele pode nem estar sabendo.
David aproveitou a parada em um sinal vermelho para procurar o número no celular e deixar pronto para a ligação, entregando a Stan e voltando a dirigir. O padrasto bufou logo depois, avisando que não chegou a chamar e perguntando se havia outro numero, mas o rapaz não tinha.
***
Miriam estava no sofá de sua casa, assistindo a um filme com seus dois irmãos e a mãe, quando sentiu algo no estômago e, do nada, estava repassando as memórias com Francis, como os momentos Jack foi surgido nas conversas dele e dia após dia que passaram até oficializarem para ela que os dois estavam juntos.
Contudo, ela percebeu que eram estranhos seus pensamentos repentinos e a sensação no estomago que se revirava apreensivo, então caminhou pela casa, arrumando um copo de água para aliviar o aperto em seu interior que podia muito bem ter sido causado pela lasanha do jantar, mas mesmo depois Miriam notou que aquela sensação não era física, ela estava aflita e não sabia por que, no fundo uma preocupação e tristeza havia se instalado.
***
As horas escorreram grossas pela madrugada e começaram a contar o inicio da manhã de domingo. Na sala de espera da ala D do hospital regional, toda a família Audrey ainda aguardava noticias promissoras após a autorização e aviso da cirurgia para reparar ossos quebrados e conter algumas hemorragias internas. Felizmente o médico responsável surgiu e parou diante deles.
Como qualquer mãe que ama o filho, Kelly já tinha abraçado David milhões de vezes, chorado e rezado com toda a fé que tinha para que o caçula não tivesse complicações e vivesse, superando aquele momento. E carregando o olhar mais cansado de todos os três, a mulher encarou o médico e colega de trabalho com expectativa. O homem suspirou, justamente porque a conhecia e compreendia o afeto que tinha pelas suas crianças, usando um tom de voz neutro e direto avisou que as coisas ocorreram bem, Francis estava estável e fora de perigo.
***
Foi como acordar de um longo sono sem forças, sem memória e sem dor, se aproximando da realidade lentamente e com inocência. Primeiro ouviu alguns murmúrios e depois, aos poucos, compreendeu a movimentação a sua volta, os bipes, o pingo, a saída de alguém que logo retornava, abrindo a fechando uma porta... Então juntou energia suficiente para abrir os olhos. A visão estava embaçada e pouco definível, até que a consciência do quarto do hospital e da família ali o despertou para a realidade. O unicórnio suspirou forte, já aflito ao se lembrar de tudo, porém sem vigor algum em seu corpo, e uma lágrima sutil escorreu com um rápido lamento.
— Francis! — a mãe o notou e debruçou sobre ele, sorrindo e tocando o alto de sua testa no lado onde não havia um curativo. — Está tudo bem, estamos aqui. Você vai ficar bem — ela encarava-o e ele olhou-a de volta, a garganta estava seca e finalmente sentiu o incomodo do braço esquerdo remendado e dos inchados de onde havia batido ou se ferido durante o acidente. Contudo, não importava. Olhando a mãe, o menino murmurou o nome de Jack e ela entendeu, sem querer que ele se esforçasse disso logo: — Ele não está. Não conseguimos encontrá-lo, Fran.
—... ele estava comigo — sussurrou confuso e com aflição, começando derramar mais algumas lágrimas, sem saber quanto tempo havia se passado e qual era o estado do coelho, cogitando até mesmo que o mundo tivesse o perdido, e com isso a melhor coisa que existia na sua vida foi-se junto e para sempre.
A expressão afetuosa de Kelly assumiu uma neutralidade ao ouvi-lo e logo se virou para o padrasto, logo atrás dela da beirada da cama:
— O rapaz sem documento pode ser o Jack — informou e olhou o outro filho com seriedade: — David informe o médico, por favor.
David? Francis pensou e seguiu o olhar da mãe direto para próximo da porta, definiu apenas um vulto embaçado e colorido a distancia que logo saiu do quarto sem nenhuma relutância. Algo na expressão da mãe ao olhar o marido, algo na forma que o homem baixou o olhar um pouco perturbado e se afastou depois de saberem, denunciou.
— O que...?
— Shiii — pediu Kelly com afeto novamente, ouvindo-o, mas com cuidado para que não se esforçasse demais depois de apenas algumas horas.
— O que aconteceu? — ele concluiu determinado e esperou quando ela não lhe disse nada por um tempo.
Kelly suspirou sustentando olhar fixo de Francis, então calmamente começou a falar:
— Francis, o carro que você estava invadiu a outra pista e bateu, foi jogado para um barranco e ficou destruído. — O unicórnio sabia bem dessa parte, todos os detalhes ainda estavam nítidos em sua memória ao ponto dele quase poder sentir as sensações, sons e cheiros. Porém Kelly continuou calma, afagando uma de suas mãos: — Houve três vitimas... Você deu muita sorte, quebrou o braço, teve alguns cortes e um trauma no ombro e outro na cabeça. — Ela se calou tensa, focada nas reações do filho quando ele a olhou atento. — O motorista não sobreviveu — despejou e uma mistura de confusão, medo, tristeza e, no fundo e bem pouco, revolta e alivio inundou-o, fazendo Francis se engasgar e tossir breve, gerando algumas dores dos machucados que o distraiu rapidamente.
— E Jay...? — o garoto voltou a olhar a mãe, sua visão estava embaçada e os fundos dos olhos já ardiam prontos para despejar lagrimas de angustia.
— Ele está na UTI. Os médicos estão tentando estabilizá-lo ainda. Ele oscila em momentos promissões e colapsos, parece que tem sempre algo novo para fazer os doutores descobrirem... — O ardor nos olhos chegou à frente e Francis soluçou, desabando, apesar das dores internas nas costelas. A mãe sustentou sua postura e acariciou seu rosto, angustiada, mas na busca de acalmá-lo com uma voz pacifica: — Não se preocupe. Seu irmão deve trazer alguma novidade, se deus quiser vai ficar tudo bem, Jack é um rapaz forte...
O que se passava na mente do unicórnio era que Jack precisava saber que ele estava ali, vivo porque ele o protegeu e que estavam juntos, por isso o coelho não podia desistir ou ele também desistiria depois de tanto esforço. Era importante Jack saber, mas ele não podia sair daquela cama tão logo, muito menos naquela mesma hora como sentiu vontade, seus cortes costurados e dores profundas mascaradas pelos analgésicos e sedativos não o deixariam se mover, nem aquelas pessoas permitiriam que saísse andando pelos corredores.
***
Os dias se passaram como um ácido que corroia uma ferida não física, deixando-a mais profunda e quase sem esperança de solução. A movimentação no leito de tratamento intensivo de Jack Robinson, de dezoito anos, era cotidiana e incluía algumas idas à pequena cirurgia e exames. A UTI ficava no andar superior da onde Francis ainda permanecia sob observações e tratamentos, e tudo que o garoto conseguia saber do namorado vinha por sua mãe, afastada da função de enfermeira, mas lhe fazendo companhia e com contatos confiáveis no hospital.
Grace, a mãe adotiva de Jack, foi contatada através da ficha que o garoto tinha no hospital. A mulher loira havia deixado a rotina do consultório de advocacia para estar presente no hospital, mas mal pode ver o filho. Ela e Kelly acabaram se encontrando nos corredores e na lanchonete.
— Eu nem sei o que ele estava fazendo indo para as montanhas — disse Grace melancólica durante um simplório almoço com a recém conhecida mãe do outro garoto que estava no carro. — Havíamos passado o dia juntos, com sempre, normal, feliz... Eu realmente não sei.
— Meu filho estava com ele, mas não disse muita coisa ainda. — Kelly comentou, sentada do outro lado da pequena mesa que partilhavam, deixando que a mulher desabafasse. — Francis é meio difícil de contar o que ele está passando e, depois daquilo, o trauma deve estar o bloqueando... Quando souber de algo vou te contar, pode deixar.
Grace olhou-a e sorriu fraco, não tinha animo para estar feliz e, talvez, saber a real razão da súbita viagem do rapaz podia não deixá-la feliz e nem mais aliviada da situação.
— Nem sei quem é seu filho — falou sem qualquer intenção, pensando em Jack e na rotina que tinham. — Nos últimos anos estive ocupada e acabei tratando Jack como um adulto independente. Deixamos de falar sobre muitos assuntos, sobre seus amigos, então... Desculpe por não conhecer seu filho. Mas obrigada.
Kelly observou-a e percebeu que seu genro ainda não tinha se aberto para a própria família e, já que desconhecia as razões, ficou em duvida se devia esclarecer ou não naquele momento. Era uma decisão difícil e, com tanta preocupação na mente, decidiu apenas deixar o tempo passar e fluxo do universo resolver como deveria ser.
No décimo dia após o acidente, uma noticia caiu no colo de Grace e seu marido como uma bomba jamais imaginada. Jack havia se estabilizado por bondosas 48 horas, porém quando os médicos acharam que podiam acordá-lo, não viram reações, suspeitaram da lesão na cabeça e iniciaram um processo para saber a razão do coma e tentar reverter-lo.
***
Francis caminhava pelos corredores do hospital, sempre explorando lentamente e distraindo sua mente com conversas com sua mãe ou o padrasto, até mesmo seu pai havia aparecido num domingo que passou e contando coisas de sua ultima viagem, distraindo-o do que o fazia não querer receber alta tão logo: um coelho que dormia.
O brilho do sol que passava pelas grandes janelas de uma sala de espera alcançava sua pele e o aquecia, o fazendo se lembrar de como era o mundo fora daquele prédio branco e com cheiro de álcool e limpeza intensa, mas não gerava nenhuma necessidade de voltar para a vida lá, porque o mundo estava resumido e era ali que seu coração ficaria.
Francis, com o braço esquerdo imóvel em gesso, moveu-se, coçando a atadura que recobria quase todo o joelho com a mão direita e encarando distraidamente a paisagem além da vidraça em mais uma manhã.
— Como vai ser? — de súbito seu acompanhante perguntou, chamando sua atenção facilmente.
Quando David estava lá, sempre tinha um ar de cansado e tédio e normalmente não trocavam nenhuma palavra, porém o irmão não parecia relutar em passar aquele tempo ao seu lado. Estavam sentados no mesmo sofá de almofadas da sala, encarando o nada.
— O quê? — Francis questionou confuso. Seu rosto ainda tinha alguns inchados e roxos, mas as incômodas faixas que prendiam o corte da testa nos primeiros dias haviam sido substituídas por um curativo menor.
— Como vai ser se ele não passar dessa? — David o olhou de volta, sem expressão alguma, mas analisando a reação do irmão.
O menor tremeu involuntariamente, assustado com o fato de ter que pensar numa resposta para aquilo. Uma agitação de fuga começou a borbulhar, trazendo tensão gradativa enquanto a pergunta ecoava e se repetia em sua mente. Francis não queria pensar naquilo, desviou o olhar, mas a sensação de pressão continuou, então curvou-se, tampando os ouvidos com as mãos como podia e fechando os olhos, balançando e buscando sua alternativa para se acalmar a mente: lembrando seu filme favorito, repassado toda a história, todas as cenas, todos os detalhes dos personagens, da atuação dos atores, dos nomes dos atores e suas historias, focando nisso e fugindo mentalmente daquilo tudo.
— Hey? — David o tocou no ombro e não adiantou nada. — Hey! Para com isso! — segurou uma das mãos que tampava seu ouvido. — É sério Francis! Se o pior acontecer, você tem que pensar na mãe, em tudo que ela está fazendo para você até agora, tudo pelo que ela está passando por culpa sua — o unicórnio parou e lentamente o olhou, tomando ciência. — Você não vai poder desperdiçar a sua vida se encolhendo no quarto e morrendo seco e com dor só porque Jack pode não existir mais. Tem que pensar nela. Tudo que ela vai querer depois disso é ver você vivendo a melhor vida que pode.
Francis encarou o irmão, uma nova preocupação nascendo. Será que conseguiria seguir em frente, fazer a mãe ter orgulho dele? Será que seria forte o suficiente? A dor mencionada parecia muito amarga para carregar pelo resto da sua vida, supostamente mais merecedora de continuar, e as lembranças jamais o deixaria livre daquele momento, daquele provável fim de relacionamento.
Subitamente David sorriu de leve, irônico, mas com empatia e pesar:
— Você sempre teve uma merda de vida, irmãozinho. — afagou seu ombro. — Mas pelo jeito é igualmente forte para resistir. Use o que passou para não morrer como um perdedor, por que... — o Audrey o encarava íntimo e simpático como nunca antes — já está vencendo lutas que ninguém imagina e nem vão passar.
— David, eu... — o menino falou sentimental, desconhecendo o apoio do irmão, mas David já demonstrava que recuaria se viesse lhe dar um abraço.
— Boas noticias! — um enfermeiro que fez amizade com os Audrey’s surgiu interrompendo-os. — Você vai poder ir para a casa! — sorriu, mas Francis não o acompanhou, afinal, aquilo significava que ficaria a quilômetros de distancia de Jack.
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