O Ultimo Dragão Negro

2 Capítulo 2 - O Leão Quadriculado


Notas iniciais
Rolbo, Cale e seu escudeiro Vincent se deparam com o valente Leão Quadriculado da Casa Osgrey

– Eu conhecia um rapaz da baixada das pulgas, um dia ele estava com tanta fome, mas com tanta fome que disse: "Eu poderia comer um urso". E então ele veio para aqui caçar ursos. — Contou Cale alegremente para Vincent enquanto cavalgavam paralelamente. O palafrém negro de Cale era esplendido, sua crina era longa e brilhante o que rendeu-lhe o apelido de Tempestade Negra. Ou só Tempestade, como Vincent costumava chama-lo.

– Em Mataderrei tem ursos?

– Deve ter, é o que a história diz certo? Mas enfim, ele passou o dia inteiro procurando um urso e sem perceber o sol havia fugido de vistas e a noite escura tomava conta de tudo. Ele não conseguiu achar o caminho de casa, não tinha armas e estava faminto.

– Ele não tinha armas para caçar o urso!? — Perguntou Vincent espantado.

Um pouco mais atras Rolbo ouvia a história calmamente. Já ouvira Cale contar a mesma história milhares e milhares de vezes em sua infância — do modo que no meio de seu medo e fome o garoto enfrentou um urso negro gigantesco com as próprias mãos e o derrotou com um pedaço de tronco — mas não ouvia o amigo recitar a velha história havia tempos. Aquilo seria otimismo? Não fazia ideia.

Lore morrera no inverno, enquanto Cale seguia o Lorde do Rochedo para suprimir um dos inúmeros focos de revolta dos Reyne de Castamere. Começou com uma febre que gradativamente a consumiu. Quando Cale voltou da guerra encontrou somente Vincent e a lápide da amada. Caído em depressão e se afastando de seus serviços, chegou uma hora que o Lorde do Rochedo não tolerou mais suas inadimplências e o expulsou juntamente com o garoto de suas terras. Rolbo os seguiu fielmente como todo bom amigo de infância.

De fato Cale nunca soubera quem era o pai de Vincent, mas desde então o tratou como se ele fosse do seu próprio sangue. Atitude honrável em dias como aqueles em Westeros.

– ... ele então acendeu uma fogueira para assar o urso, mas a fogueira ficou tão grande, mas tão grande que pode ser vista por seus pais lá da baixada. Eles então a seguiram e encontraram o garoto, todos comeram guisado de urso aquela noite.

– Essa história é verdadeira? — Perguntou Vincent maravilhado.

– Sim, claro, eu conheci o garoto. Garoto valente. — Cale soltou um sorriso satisfeito e começou a cantar. — Oh, e ela era doce e pura e bela! A donzela com mel nos cabelos! Cabelos! Cabelos! A donzela com melnos cabelos!

Rolbo deu uma risada sonora e todos começaram a cantar em uníssono:

–O urso cheirou o odor no ar de verão. O urso! O urso! Preto e castanho e coberto de pelo! Cheirou o odor no ar de verão...

– ... fungou e rugiu e cheirou-o, babão! Mel no ar de verão! - Completou uma voz masculina pesada entre as arvores. — Região perigosa para cavaleiros andantes nos dias de hoje. Ainda mais tão bem armados.

Vincent retesou o seu arco rapidamente e Rolbo desembainhou sua espada longa.

– Parem. — Disse calmamente Cale. — Ele não está sozinho.

O homem era alto e de cabelos negros, e em seu peitoral um Leão Quadriculado avisava a qual casa aquele cavaleiro pertencia. Ele botou dois dedos entre os lábios e deu um assovio estridente.

Em segundos arqueiros, e uma duzia de cavaleiros saltaram dentre as arvores com armas em mãos.

– Bem meus amigos... — Prosseguiu o homem alto. — Meu nome é Sor Eustace Osgrey, a sua volta vocês podem ver meus filhos e meus homens, então pergunto gentilmente onde é que vocês estão indo?

– Nós estamos caçando, Sor.– Disse Cale ironicamente.

Sor Eustace enrolou a ponta de seu bigode com seus dedos hábeis e prosseguiu:

– Raro ver homens caçando com espadas longas e cavalos de guerra. Pergunto novamente rapazes, onde vocês estão indo?

Cale pensou por um momento e admitiu:

– Campina. Estamos indo para a Campina.

Sor Eustace ficou rigido por um momento, seu olhar ficou frio e calculista.

– Dragão Vermelho ou Negro? — Perguntou rispidamente.

– Mas que merda de...

– Vermelho ou Negro? — Repetiu Osgrey elevando o tom de voz

A situação estava ficando violenta, Rolbo se inclinou em sua cela e interveio.

– Negro, Sor. Somos todos cavaleiros aqui, exceto o garoto, que ainda é um escudeiro. Estamos indo jurar nossas espadas para Fireball. — Ele analisou um momento os cabelos escuros de Osgrey antes de continuar — O que um Nortenho faz tão ao Sul?

– O que todos Nortenhos deveriam fazer. Defendendo o Dragão Negro. — Sor Eustace deu um sorriso caloroso. — È bom ver cavaleiros da mesma causa hoje em dia, mas sinto lhe informa-los; Fireball esta nas Terras Ocidentais agora.

– O que diabos ele está fazendo nas Terras Ocidentais?

– Lutando! — Gritou um dos filhos de Osgrey, baixo e com os cabelos igualmente negros. — Ele matou Lorde Lefford e derrotou bravamente Damon Lannister, logo depois em Lannisporto, ele...

– Quieto garoto! — Interrompeu Eustace. — Mil olhos e mais um... — Lembrou o filho do velho ditado.

Um silencio pesado se instaurou entre o grupo enquanto um homem estudava o outro. Até que por fim Sor Eustace prosseguiu.

– Terras da Coroa. O Fireball já deve ter acabado com Lannisporto. È para lá que os Blackfyre estão indo, e é para lá que os Targaryen estão indo também. Se quer chegar a tempo de jurar sua espada e conseguir um pouco de glória por uma causa justa é melhor irmos agora. A proposito. Esses são meus filhos: Edwyn, Harrold e o boca aberta do Adam. Garotos, cumprimentem os Sores.

Um por um, os garotos de cabelos negros saudaram os cavaleiros andantes, e Adam ofereceu um odre com água.

– Vocês não tem vinho? — Perguntou rancorosamente Cale.

– Não se pode lutar bêbado, Sor. — Respondeu sorridente Adam.

– Temos poucos dias homens! — Gritou Sor Eustace para os cerca de vinte homens que agora o seguiam. — Marchando!

O dia de caminhada foi exaustivo. Com diversas paradas para dar de beber aos cavalos e checar a localização.

No começo da noite um grupo de cavaleiros cansados fizeram um circulo em volta de Osgrey e de um jovem batedor ofegante:

– Um dos meus batedores relatou ter visto homens do Lorde Arryn nas Hastes. Temos pouco tempo de vantagem, dois dias, um talvez, até eles chegarem a Campina. Não podemos nos esbarrar até estarmos juntos com os Dragões. — Relatou Osgrey. — Cale, você e seus amigos são andantes, conhecem Westeros melhor que qualquer um de nós.

– Se contornarmos por Porto Real vamos esbarrar com eles na Estrada do Rei. — Disse Cale pensativo. — A melhor opção é atravessar o Vago. O leito do rio deve estar raso para os cavalos, estamos no meio do verão.

– Bem pensado. — Acrescentou Harrold logo ao lado. — Isso nos pouparia de passar perto demais de Porto Real. Maekar deve estar começando a marchar com suas tropas agora mesmo.

– Então pelo Vago atravessemos. — Concluiu Eustace em tom bem humorado. — Quero dois homens de vigia. O resto descansar. O dia vai ser duro amanhã.

O chão estava duro e a noite estava fria. Rolbo se remexeu em suas penas ansiosamente. Havia sonhado com Lore de novo. Saberia Cale que na verdade ele era pai do garoto? Ou pior, o que o amigo faria se soubesse do caso que eles tiveram enquanto ele lutava pelos Lannisters? Cale era frio em tudo que não se relacionava ao garoto. Eram tempos perigosos aqueles.

Se viu impaciente o suficiente para se levantar e se por a andar pelo pequeno acampamento. O vento frio da noite batia em seu pescoço suado refrescando um pouco as preocupações. Seu coração pesava ao imaginar a batalha eminente e desabava ao pensar no que estava em jogo caso perdessem. A vida não era fácil quando tudo que se era e que se podia ser é um peão enquanto os lordes jogavam seu jogo dos tronos. Deu alguns passos até notar Eustace sentado afiando sua espada.

Aproximou-se relutante e perguntou.

– Noite difícil?

– Dias difíceis, noites difíceis, vida difícil.

O semblante do cavaleiro parecia ter envelhecido décadas desde a reunião um pouco mais cedo. Linhas de expressões denunciavam o estresse e a idade. Seu olhar era carregado de dor. Após um tempo, banhados apenas pelos sons da noite e da pedra de amolar Osgrey prosseguiu.

– São tudo o que eu tenho. Esses garotos. Tenho uma filha também. Alyssane, a coisa mais linda que você poderia ver. — Ele parou por uns segundos e encarou o próprio reflexo na espada. — Se eles não voltarem para casa... Se eu não voltar para casa...

– Se é tão complicado assim por que luta?

– Porque a vida é assim rapaz. Você cresce brincando com espadas, você vive calejando suas mãos e praticando, praticando e praticando para chegar um dia que alguém vai te chamar e pedir para sacrificar todos seus anos por uma disputa. Sabe qual é o nome que dão para isso?

– Tolice? — Respondeu Rolbo rapidamente.

– Não rapaz, o nome disso é dever. Dever e honra vem um ao lado do outro. Os senhores podem estar lutando e morrendo por uma cadeira fria, mas meu dever e minha honra repousam com minha família. E minha família repousa em qual lado as flechas caírem. E se eu tiver a opção, vou lutar e morrer para que elas caiam do lado que eu desejo. Dever e honra.

– Dever e honra... — Rolbo repetiu. Aquelas palavras soavam tão tristes.

– Rapaz, você tem família?

– Eu...

A noite foi interrompida pelo som grave das cornetas.

– O que é isso? — Perguntou Rolbo assustado enquanto todo acampamento ganhava vida e se armava a sua volta.

Sor Eustace Osgrey se levantou e agarrou sua espada.

– Sangue garoto. Isso é o grito que os homens dão quando vêem sangue se aproximando. Pegue sua espada. Temos alguns homens para matar antes do dia amanhecer.

Em algum lugar atrás do sol nascente, o falcão e a lua da casa Arryn crescia e tomava forma nos estandartes. A infantaria do Leão Quadriculado já tomava seu lugar e Cale gritava seu nome mandando-o recuar e dar espaço aos arqueiros.

Arcos retesaram, gritos de "disparar" foram proferidos. Espadas foram desembainhadas e orações ao Guerreiro foram proferidas.

Dever e honra. Pensou tristemente antes das flechas começarem a voar.

Notas finais
Nas obras de Martin, Eustace Osgrey aparece somente no livro "The Knight of The Seven Kingdoms" no segundo conto titulado "The Sworn Sword", na qual a narrativa se passa anos após essa Fic. Na obra original o simbolo da Casa Osgrey é tido como "O Leão Xadrez" Na Fic eu preferi variar para "O Leão Quadriculado" até para não ficar muito em destaque no titulo que se tratava de Eustace Osgrey mais jovem. Mas caso alguém já tenha lido o livro e se sinta ofendido com minha mudança, deixo nessas notas minha justificativa.