O Trono de Gelo e Fogo
9 O Festim da Última Colheita
Notas iniciais

Havia se passado alguns dias da chegada de Arya e Sandor ao Ninho da Águia, Lady Sansa Stark sempre fazia suas refeições na companhia de sua irmã mais nova. Sempre havia alguma história para contar, Arya Stark contou a sua irmã como ela viveu entre a Irmandade Sem Estandarte, e como Sandor Clegane derrotou Beric Dondarrion em combate único; e conseguiu como prêmio levá-la como prisioneira, Sansa se assustou com a parte da história em que Arya descreveu como Thoros De Myr ressuscitará seu suserano que já havia morrido pelo menos uma dúzia de outras vezes.
Arya já usava vestido e tentava se portar como uma Lady, Ela não tinha muitas alternativas depois de Sansa ter ordenado que Myrcalla queimasse as antigas roupas surradas da viagem. Por algum motivo desconhecido Arya notara algo de diferente em sua irmã de cabelos acobreados, Sansa ainda possuía a mesma educação e modos que irritavam Arya e a faziam ficar entediada com tantas palavras gentis e mensuras aqui e ali, porém Sansa estava cuidadosa com suas idas e vindas sem falar em seus sumiços no meio da noite. Sansa só permitiu que Arya carregasse Agulha por que Jon havia lhe dado o presente e Sansa gostava disso, gostava de saber que havia lembranças boas as quais podia tocar e lembrar-se de Winterfell, de Robb, Bran, Rickon e o bastardo Jon Snow.
Já Sandor Clegane sempre acompanhava Sansa em todos os lugares que ela fosse. Ele ainda conversava muito com Arya que procurava evitá-lo por motivo que Clegane desconhecia e ignorava. O Cão de Caça falava pouco quando estava acompanhando sua nova dona, mas sempre que estava a sós com Arya, procurava puxar conversa sobre qualquer coisa. Um dia pela manhã Clegane teve uma discussão com Arya no desjejum, Arya insinuara que o Cão estava de flerte com Iris Redfort no jardim do castelo, e quando Sandor a questionou o porquê do ciúme; Arya jogou um pedaço de torta de lampreia no rosto de Clegane que em resposta lhe jogou todo o empadão de porco que comia em sua cabeça sujando seu vestido de cetim verde com arabescos dourados. Sansa riu tanto da situação que chorou e corou por um bom tempo sem poder falar uma palavra se quer. Arya saiu correndo e se trancou no quarto por um dia inteiro.
Arya estrou no quarto de Sansa.
— O que está fazendo? — fez uma careta com os lábios. — Brincando de camponesa?
Iris e Myrcalla vestiam Sansa com um vestido de ráfia.
— Nós vamos sair do castelo esta tarde para o festim da última colheita. — Sansa sorria e cochichava com Iris. — Venha até mim irmã.
— O que quer? — Arya disse hesitando.
— Oras... você também deve se vestir como uma camponesa Lady Arya — Iris falou enquanto pegava outro vestido de ráfia azul.
Arya pegou o vestido em um movimento brusco.
— Arya... — Sansa desceu do banco em que estava e abraçou sua irmã com um dos braços e com a outra mão acariciou o rosto dela. —Ainda com raiva? — começaram a andar em direção as janelas —, esqueça-os eles são apenas servos nossos. — Sansa tinha um sorriso sínico enquanto falava.
— Quê? — Arya tentou se livrar do braço de Sansa, mas por algum motivo não conseguiu. — N-não é nada disso, eu não suporto essa sua amiga.
— Tem certeza? Parece-me que você não suporta é que outra mulher se aproxime de Sandor. — Os olhos de Sansa se comprimiram em uma linha fina e azulada.
Arya ficou tensa, percebendo isso Sansa Stark mudou o assunto.
— Venha irmã, vamos nos divertir um pouco. — Ela começou a conduzir Arya para o banco.
Iris e Myrcalla começaram a tirar o vestido de Arya.
— Para onde vamos? — Arya franziu o cenho.
— Para o festim da última colheita em Ferrobles, Senhora — o Sorriso de Myrcalla perdeu a força quando encontrou o rosto serio da Stark mais nova.
— E por que temos que nos disfarçar?
— Por que ninguém pode saber que sou quem sou — Sansa respondeu. — Vai ser divertido irmãzinha.
As garotas passaram um bom tempo se arrumando para se parecerem com camponesas e Sansa explicou a Arya que fora do Ninho da Águia ela deveria chamá-la de Alayne Stone, por que ninguém poderia saber que Sansa Stark estava viva.
Elas fizeram toda a descida da Lança do Gigante tranquilamente apesar de o céu está parcialmente nublado não nevava naquela tarde. Mya Stone as guiou por todo o caminho até os Portões da Lua, onde iriam se encontrar com Sandor Clegane, Albar Royce e Donlowey o ajudante do ferreiro.
— Lady Sansa... — era Sor Albar — perdão, Alayne os cavalos já estão selados do outro lado do muro, vamos por aqui.
Albar as guiou por um estreito corredor próximo dos muros e em seguida entraram em uma torre e começaram a descer uma escada em espiral, até pisarem em terra úmida, Sor Albar abriu um pesado portão de ferro que saía na lateral dos muros do Portão da Lua.
— Vamos logo — era o Cão de Caça usava roupas de ráfia e couro negro e segurava Estranho pelas rédeas.
Arya foi logo montando em Covarde, ela estava feliz em ver que seu cavalo estava com uma boa aparência.
Iris dividiu a montaria de Sor Albar e Myrcalla subiu na montaria do ajudante de ferreiro que usava sua capa marrom e sua camisa de ráfia.
Sansa foi a última a sair de dentro da passagem secreta, ela havia puxado o capuz de sua capa para cobrir-lhe a cabeça. Antes que Sansa se aproximasse de sua égua cinzenta, Sandor se ajoelhou e fez uma concha com as mãos para que Sansa usasse como degrau e montasse com mais facilidade. Aquela cena fez Arya lembrar de algo que ela queria esquecer.
— Vamos por fora da estrada até saímos da visão dos guardas das torres.
— Você que manda — respondeu Donlowey mascando um pouco de tabaco.
Albar Royce assumiu a dianteira do grupo e seguiu em um trote lento.
— Está animada para relembrar os dias na estrada? — Clegane se aproximou de Arya.
Arya limitou-se a encará-lo. Traidor, foi só colocar os malditos olhos na minha irmã e ele já esqueceu o que tivemos. Arya disse a si mesma sentindo borboletas dentro de seu estômago.
— Cerveja, galinha frita e dura, uma boa briga de taverna. — Sandor riu alto.
— Não tenho motivos para relembrar de nada do que passou. — Arya disse fazendo pouco caso de Sandor.
Sandor a segurou pelo braço com força, Arya gruiu.
— Não tente nenhuma gracinha mocinha — O lábio queimado de Sandor formou uma curva hedionda para baixo. — Você sabe o que acontece com crianças fujonas! — Ele a largou.
— Quem parece está tramando algo é você, assassino. — Arya carregava Agulha na cintura oculta pela capa.
— Eu tenho observado você — retrucou Clegane.
— Eu também...
— Fazendo o quê? — Clegane fitou Arya de cima a baixo.
— Me censurando — ela deu uma olhada para Donlowey e sorriu. — Você está indo tão bem com a minha irmã como você imaginava? Será que ele vai falar que está se encontrando com Sansa nas noites em que ela some do quarto? — foi a vez de Arya se aproximar de Sandor. — Ou talvez você prefira uma das servas dela...
Sandor limitou-se a olhá-la com perplexidade.
— Você aí, grandão... — era Mya Stone. — Me dá um gole de seu vinho?
Sandor e Arya se entreolharam, a conversa findou e Mya bebia o vinho no odre enquanto olhava para Clegane com olhos brincalhões.
— Gosto do meu vinho como os homens... fortes e amargos. — Disse Mya Stone devolvendo o odre ao Cão de Caça.
Apesar da estrada ser uma longa e tranquila descida do Ninho até Ferrobles, o grupo decidiu seguir por fora da estrada ocultando sua presença dos camponeses e soldados que ora subiam ora desciam pela estrada. As copas das árvores estavam descobertas, mas havia uma espessa camada de neve no chão e os cavalos avançavam em um lento galope. Albar Royce ia a frente e Donlowey o seguia, o alto ajudante de ferreiro era tímido e andava de cabeça baixa em seu garrano.
— Ei, você aí? — Arya tocou os calcanhares em Covarde para que ele avançasse.
Donlowey se virou para olhá-la por entre mechas de cabelos loiros desgrenhados.
— Você é ferreiro?
— N-não Senhora, sou ajudante — o rapaz se empertigou na sela.
— Conheci um ferreiro uma vez — Arya encarou o rapaz alto que estava a sua direita. — Ele era um idiota. Qual o seu nome?
— Donlowey Humphrey.
— Mas você pode chamá-lo de Don — disse Myrcalla.
Arya pensou em um nome falso, como o que Sansa estava usando.
— Eu sou Suzan Stone —, Arya soltou um sorriso torto. — Apenas Sansa, Sandor, Iris, Sor Albar, Myrcalla e Mya sabem quem sou de verdade. — Ela lançou um olhar na espada média que o ajudante de ferreiro trazia no cinto. — Sabe usar isto? — ela apontou para o cabo da lâmina.
— Sei sim, pratico com todas que forjo na ferraria. — Humphrey deu uma rápida olhada para Arya.
— Ferrobles é uma aldeia bem tranquila senho... — Myrcalla se lembrou de não tratar Arya e Sansa como nobres. — ... Suzan, não se preocupe.
Arya notara que apesar dos rumores de guerra atrás das imponentes Montanhas da Lua e seu único portão, O Portão Sangrento, tudo era calmo e pacato demais. Nos últimos dias ela não ouvira se quer uma discussão acalorada ou uma briga de socos que seja, muito diferente de quando estava na estrada com o Cão de Caça. O marasmo entediava a garota aventureira, mas a boa comida e as noites de sono tranquilos a estavam vencendo e Arya Stark se acostumara com a vidinha de acordar tarde e usar vestidos de uma Lady.
Arya atiçou Covarde para avançar mais uma vez.
— Alayne, por que estamos indo a está aldeia mesmo? — Arya quis saber.
— Nos divertir um pouco irmã —, Sansa sorriu. — Pense nisso como uma pequena aventura pelo condado do Ninho da Águia.
Arya se virou na sela, por que ouviu a risada fungada de Sandor Clegane.
— Eu te disse! — Exclamou Clegane com um aceno de cabeça.
A garota magra de olhos cinzentos mostrou a língua e se virou novamente para frente.
— Vamos ao festim da última colheita do verão. — Iris Redfort falou sentada na garupa do cavalo de Sor Albar. — É uma festa muito grande e todos do Vale participam.
— Parece uma grande perca de tempo.
— Há é? — Iris sorriu —, que seja então; não tínhamos muitas coisas para fazer no castelo. — Ela apertou a cintura de Albar com os braços.
— Hooo! Vai com calma aí atrás. — O jovem cavaleiro sorriu.
Albar cochichou alguma coisa inaudível nos ouvidos de Redfort.
— Vamos ver se encontramos um famoso guerreiro nesse festim. — Sansa falava de Harrold Hardyng que era protegido da família Waynwood.
— Vejo uma torre ali — Arya apontou com o dedo em riste.
— É o castelo dos Waynwood. — Explicou Albar Royce. — Não é lá grande coisa, mas a vila é bem grande.
Naquele trecho, o grupo teve que sair da floresta e seguir pela estrada até os portões de madeira que guardavam a Vila de Ferrobles. Arya observou que ao redor da torre se estendia por um vasto planalto a vila de casas pequenas feitas de pedra cinzenta com telhados de sapé ou de madeira, e aqui e ali havia algumas construções maiores que deveriam ser armazéns, estabelecimentos comerciais, celeiros e mercados.
Os portões estavam abertos e muita gente passava por ali os guardas se moviam em cima de um estreito passadiço que servia como ligação entre as duas pequenas torres que flanqueavam os portões. Naquele pedaço do muro não havia pedras, uma barreira erguida com grossos troncos de árvores fazia a vez de muralha, os Waynwood deixaram a parte norte da vila menos fortificada porque era do Norte que vinha a ajuda do Ninho da Águia. Já ao sul, a muralha era de pedra encimada com seteiras de madeira. E dentro destes muros estava a fortaleza Waynwood, construída toda de pedra cinzenta com duas torres arredondadas a do canto sul uns cinco metros mais alta com um telhado abobadado em forma de domo com várias janelas estreitas, um estábulo, uma ferraria, quatro celeiros e um pátio quadrado. O salão da fortaleza era muito amplo.
As ruas de Ferrobles estavam em polvorosa, muitas pessoas estavam gritando pelo meio da rua enquanto comiam e bebiam. Que venha o inverno! Gritavam, e em seguida gritavam novamente: Que o verão o engula! Sansa Stark quis dar uma volta por toda vila, antes de parar em qualquer lugar. Ela percebeu que Ferrobles era uma vila só no nome, por que havia ali um vasto comercio com mercados, bancas de banqueiros, tavernas e muitos outros pequenos mercadores que expunham suas mercadorias em barracas de madeira e tecidos.
— Vamos se acomodar e aos cavalos, Estranho está irritado com esses vermes. — Disse Clegane com a sua roca e metálica voz.
Albar olhou para cima e viu uma placa de taverna:
— Ali! — Ele apontou, há quatro estabelecimentos de distância a cabeça de um falcão entalhado em madeira e segurado por duas correntes, dizia a baixo: Taverna Falcão Herdeiro.
— Que nome de pederasta é esse? — zombou Sandor — que seja, se servir galinha frita e cerveja está bom para mim.
Amarraram os cavalos ao lado da taverna junto de muitos outros.
— Ei vocês, senhoras e senhores? — se aproximou um garoto com o rosto sujo de lama, comida e mais alguma coisa que Sandor não conseguiu identificar.
— O que quer?
— Querem que eu leve os cavalos para os estábulos da taverna?
— Sim, claro — respondeu Royce.
O Garoto estendeu a mão em forma de concha.
— Cuidado com o garanhão ali. — Albar apontou para Estranho e deu três estrelas de cobre ao menino camponês. — Bom garoto.
— Pelos Sete Infernos, aqui tudo é pederastia ou dinheiro. — Clegane olhou para o garoto que estava descalço na neve. — Cuidado com o meu cavalo, ou eu te empalo e bebo teu sangue. — Jogou uma moeda de prata para o garoto e piscou o olho por debaixo das cicatrizes.
Quando se aproximaram da porta da taverna, o barulho de música e conversa misturados ao bater de copos e pratos tomou conta dos seus ouvidos. Mya Stone foi até o balcão e começou a conversar com um homem gordo careca que tinha um bigode amarelado e comprido, ela apontou duas vezes para o grupo e em seguida fez um sinal com a mão para que eles fossem até onde ela estava apontando. Mya apontava para uma mesa no canto esquerdo do salão perto de uma plataforma que servia para a apresentação de pantomimas e bardos. O Salão estava lotado, muita gente falando ao mesmo tempo, pessoas em suas mesas ou em pé no balcão, algumas ficavam perto dos braseiros aquecendo as mãos ou as botas molhadas da longa caminhada. O salão era amplo com paredes e chão de pedra com grandes vigas de madeira sustentando o seu teto, estava bem aquecido por uma lareira central e vários braseiros espalhados pelos cantos.
— Mya quem é aquele ali no canto? — Sansa percebeu que do lado oposto de onde estava a mesa do seu grupo uma figura enigmática olhava diretamente para ela.
— Eu não sei, vamos perguntar ao estalajadeiro.
Sandor Clegane fez um sinal com a mão erguida, ouviu se um grito e em seguida uma mulher loira de cabelos encaracolados veio com seis quartilhos de cerveja preta entre os braços.
— Psiu... — sibilou Mya para a mulher que usava um vestido azul com um avental de couro marrom. — Quem é aquele ali no canto, com a capa negra e o cachimbo?
Ela se aproximou de Mya como se não quisesse ser vista falando, Lady Sansa também se achegou para ouvi-la.
— É um patrulheiro — ela olhou por sobre os ombros. — Ele é perigoso e vaga pelos lugares ermos, ninguém sabe seu nome. — Ela arregalou os olhos para Sansa —, mas aqui nós o chamamos de Passolargo.
Sansa sentiu o coração palpitar quando percebeu que os olhos do homem estavam vidrados nos seus.
— Tudo bem Passarinho? — Sandor percebeu o temor da ruiva. — Senhora?
Sansa Stark respirou fundo.
— Sim, estou bem. — Ela sorriu nervosamente.
— Não há o que temer eu estou aqui. — Sor Albar se recostou na cadeira com os braços cruzados atrás da cabeça.
O Cão de Caça soltou um urro e cerveja escorreu enquanto gargalhava, Iris e Don o acompanharam aos risos.
— Ao nosso herói! — Mya levantou seu quartilho para brindar.
— Albar! — Todos gritaram em uníssono.
Mais alguns minutos se passaram e a estalajadeira de cabelos loiros e rosto redondo retornou com uma grande porção de queijo pão e presunto. Sandor, Albar e Don estavam competindo com Arya no jogo da adaga, eles estendiam a mão e passavam a ponta da adaga entre os dedos aumentando a velocidade a cada estocada ou parando o jogo quando alguém ficava com medo ou se feria. Donlowey já havia se cortado três vezes e Albar Royce espetou o dedo mindinho de sua mão esquerda, no final só restaram Sandor e Arya.
— Por que não dificultamos um pouco isso? — propôs Myrcalla com um sorriso tímido.
Sandor e Arya se entreolharam.
— Eu não fugirei ao desafio.
— Nem eu! — Retrucou bebendo um longo gole de sua cerveja.
— Então vamos lá. — Myrcalla se levantou com uma tira de tecido negro nas mãos. Ela pegou o punhal de Sandor e cortou o pano em duas tiras.
— O que vão fazer? — Mya levou as mãos à cabeça. — Isso é loucura, vocês são loucos?
— Eu quero ver isso —, Iris fez a sua característica expressão de cobra com a ponta da língua entre os lábios rosados.
— Eu aposto dois cobres no homem. — Protestou Don Humphrey.
— Aceito —, respondeu Sansa. — Aposto na minha irmãzinha.
Um grupo de pessoas que estava em um braseiro próximo começou a se aproximar apontando os dedos e querendo fazer apostas. Logo a mesa de Sansa e seus amigos foi cercada por vários homens e mulheres gritando e incentivando o jogo da adaga com olhos vendados.
— Ainda dá tempo de você desistir garota-loba?
Arya Stark olhou para o rosto queimando de Clegane com um sorriso torto nos lábios finos.
— Acho que você está com medo Cão... é por isso que você já perdeu.
Todos em volta da mesa começaram a urrar em uníssono:
Hum! Hum! Hum!
— Vamos logo com isso, primeiro as senhoras. — Disse Clegane.
— Que seja — retrucou.
Myrcalla vedou-lhe os olhos, e se fez silêncio na sala.
Arya começou a passar a ponta do punhal entre os vãos de seus dedos da mão direita cada vez mais aumentando a velocidade. Todos ao redor contavam as estocadas, no princípio em baixa voz, mas o êxtase foi tomando conta da turba e começaram a contar mais e mais alto a cada vez que a ponta da adaga batia na madeira da mesa: Quarenta e oito, quarenta e nove, cinquenta, cinquenta e um.
A contagem foi interrompida quando a garota gemeu.
— Ela se cortou! — Alguém exclamou.
Houve um pouco de sangue sobre a mesa, mas a ferida era superficial.
— Agora é sua vez valentão! — Arya mostrou a mão ferida para Clegane. — Terá que fazer mais de cinquenta e um furos na madeira. — Ela lambeu o dedo ferido.
Enquanto todos estavam com as atenções voltadas para Sandor e Arya, Sansa e Mya observavam Passolargo que fumava seu cachimbo no outro canto da sala.
— Vamos começar! — Esbravejou o Cão de Caça. — Maldita garota sortuda, e ainda fica me instigando... essa língua ficaria melhor... — Sandor sorriu cinicamente.
— Com a sua permissão —, Myrcalla vendou Sandor.
A plateia começou a contar, Sandor começou a aumentar a velocidade bem antes dos trinta furos e Arya percebeu a habilidade dele em passar a adaga muito próxima da pele de seus dedos sem sofrer um corte. As pessoas em volta soltavam urros e bebiam seus vinhos ou cervejas alguns gargalhavam até vomitarem. Uma grande algazarra tomou conta do ambiente quando Sandor fez o furo de número cinquenta e dois e deixou na mesa a adaga fincada entre os dedos.
Clegane tirou a venda e encarou a garota Stark com um sorriso torto, Ele fez sinal com as mãos para que todos fizessem silêncio.
— Agora eu quero o meu prêmio — o Cão tinha um olhar galanteador.
— Que prêmio? Foi feito aposta, não combinamos nada — Arya deu de ombros. Pelos deuses antigos o que este homem está pensando agora?
— É Sandor, como assim? — questionou Mya Stone.
— Todos concordam que eu mereço um favor da donzela? — Clegane se levantou da cadeira balançando os braços e olhando para todos em sua volta.
Todos responderam:
— Sim!
Arya Stark ficou de rosto rubro, Sansa e Iris cochichavam uma com a outra, Albar e o ajudante de ferreiro riam tanto que não conseguiam falar só fazer gestos com as mãos.
— Eu quero um beijo — Sandor ficou olhando fixamente para Arya.
— O quê? — disse indignada com aquela declaração. — Me ignorou vários dias no castelo e agora quer um... — o pensamento trouxe uma memória da estrada de altitude quando Sandor a salvou do precipício. Ela ficou parada de braços cruzados olhando para o chão.
De repente sentiu uma mão forte segurando seu braço.
— Vem cá — Clegane sussurrou com aquela voz rouca-metálica.
Ela resistiu colocando o punho fechado no abdômen de Clegane, mas estranhamente não fez força para afastá-lo e ele a beijou. Arya sentiu a respiração aumentar e os pelos da barba de Sandor rasparam com violência seus lábios, a língua dos dois se encontraram, ela o empurrou.
— Já chega disso — saiu correndo para o banheiro da taverna enquanto todos davam gargalhadas e teciam seus comentários sobre os acontecimentos.
— Mya vá atrás da minha irmã, — Sansa olhou para Passolargo que acompanhou com os olhos a saída de Arya. — Leve Donlowey com você.
— Sim Alayne, se tivermos problemas eu volto para buscar ajuda. — Mya Stone puxou Don pelo colarinho e juntos foram procurar Arya.
Myrcalla os acompanhou.
Todos estavam voltando para suas mesas e um grupo de bardos estava afinando seus instrumentos de corda e de peles em cima da plataforma para fazerem sua apresentação da noite. Era tradição em Ferrobles o festim da colheita começar a meia-noite, os antigos acreditavam que se eles festejassem até o dia raiar o sol voltaria e derrotaria o inverno. Então o povo da vila começava a festejar desde cedo nas ruas, casas e tavernas.
Atenção! Atenção! O estalajadeiro pediu de cima da plataforma.
— Senhoras e Senhores, com vocês os melhores bardos de todo o Westeros — tambores começaram a rufar. — Os Metallicos!
Um homem loiro usando gibão de couro cozido todo negro e com um bracelete no braço direito veio a frente do grupo e começou a dedilhar o instrumento de cordas.
— Soube que temos aqui um campeão do jogo da adaga! — Ele apontou um dedo para Sandor. — Quer ter a honra de pedir uma música Sor?
Clegane bebeu um longo gole de seu quartilho e falou:
— Os imperdoáveis!
Os Bardos fizeram um círculo e conversaram entre si, em seguida tomaram seus instrumentos e começaram a tocar a canção.
Sangue novo se junta a está terra
E rapidamente ele é subjugado
Atravessando constante e dolorosa desgraça
O jovem garoto aprende suas regras
Com o tempo a criança é enganada
Este rapaz subjugado fez errado
Desprovido de todos os seus pensamentos
O jovem homem aguenta e aguenta, ele sabe
Um juramento para si mesmo
Que nunca a partir deste dia
Eles vão tirar o seu desejo
O que eu senti
O que eu soube
Nunca apareceram no que eu mostrei
Nunca ser
Nunca ver
Não ver o que poderia ter sido
O que eu senti
O que eu soube
Nunca apareceram no que eu mostrei
Nunca livre
Nunca eu mesmo
Então eu os nomeio imperdoáveis
Eles dedicaram suas vidas
A tomar tudo deles
Ele tenta satisfazer a todos
Este homem amargo ele se torna
Por toda a sua vida o mesmo
Ele lutou constantemente
Esta luta ele não pode vencer
Um homem cansado eles veem, não importa mais
O velho homem então se prepara
Para morrer cheio de arrependimentos
Este velho homem aqui sou eu
O que eu senti
O que eu soube
Nunca apareceram no que eu mostrei
Nunca ser
Nunca ver
Não ver o que poderia ter sido
O que eu senti
O que eu soube
Nunca apareceram no que eu mostrei
Nunca livre
Nunca eu mesmo
Então eu os nomeio imperdoáveis
O que eu senti
O que eu soube
Nunca apareceram no que eu mostrei
Nunca ser
Nunca ver
Não ver o que poderia ter sido
O que eu senti
O que eu soube
Nunca apareceram no que eu mostrei
Nunca livre
Nunca eu mesmo
Então eu os nomeio imperdoáveis
Nunca livre
Nunca eu mesmo
Então eu os nomeio imperdoáveis
Vocês me rotularam
Eu rotularei vocês
Então eu os nomeio imperdoáveis
Nunca livre
Nunca eu mesmo
Então eu os nomeio imperdoáveis
Vocês me rotularam
Eu rotularei vocês
Então eu os nomeio imperdoáveis
A canção findou-se e ouviram-se assobios, palmas e gritos de; Bravo! Por todo o salão. Os bardos já começaram a tocar outra música em seguida sem dar muito tempo para as pessoas aplaudirem.
— Diga-me... você já fez alguma coisa que acha ser imperdoável? — Sandor olhava para dentro do quartilho de cerveja que estava meio vazio.
— Acredito que todos na vida ou já fizeram ou irão fazer algo e serão julgados imperdoáveis —, Sansa respondeu dando uma rápida olhada no rosto meio-queimado de Clegane. — De que se arrepende tanto? — ela tamborilou os dedos com ansiedade na mesa.
Eu não deveria ter começado a tagarelar. O Cão de Caça se empertigou na cadeira.
— Fiz muitas coisas das quais não tenho nenhum orgulho.
A ruiva fitou-o com os olhos semicerrados enquanto movia o quartilho de cerveja em círculos.
— O que passou, hoje não importa mais... — manteve os olhos fixos nos dele.
— Parece ótimo para mim — bebericou a cerveja.
— Eu ainda estou aqui pessoal... — Sor Royce abanou os braços —, ao menos me incluam na conversa.
O ambiente pareceu se amenizar.
— Deveríamos ir atrás de sua irmã —, Clegane olhou em direção a porta dos fundos do estabelecimento por onde Arya, Mya, o ferreiro e Myrcalla haviam saindo.
— Ela volta... — Sansa olhou para Albar e ofereceu o seu quartilho de cerveja. — Ela sempre volta.
Longe da agitação da Taverna Falcão Herdeiro, Arya havia ido a parte leste da Vila de Ferrobles onde estavam construindo um pavilhão de justa, muita madeira empilhada e algumas arquibancadas estavam erguidas e a barreira de madeira no meio da pista que fazia divisória entre os cavaleiros que ali pelejariam. Enquanto caminhava olhando para o tamanho daquela obra não se deu conta por onde andava e esbarou em algo.
— Ei... vai com calma mocinha... — os olhos do homem a encararam. — Está perdida?
— Já pode me soltar — Arya forçou o braço do homem que lhe apertava a cintura e ele cedeu. — Não estou não, sei muito bem onde estou.
— É exatamente o que parece — sorriu com covinhas no rosto. — Qual o seu nome, donzela? — O homem arrumou uma mecha de cabelo ruivo que caiu sobre os olhos.
— Suzan Stone — fitou-o com desconfiança e cruzou os braços. — Ele está usando armadura e tem um brasão no gibão, será um cavaleiro? — É cavaleiro Sor Waynwood? — mentiu Arya, para saber quem era aquele homem.
— Bem... sou sim — saiu das sombras que lhe encobriam parcialmente o rosto ainda arrumando o cabelo cortado curtíssimo nas laterais da cabeça deixando um tufo no meio. — Mas sou um Hardynd, Harrold Hardynd — fez uma reverência educada. — Mas pode me chamar de Harry, já vi que não é daqui.
Calma como águas paradas.
— Eu não saio muito do Ninho da Águia. Estou acompanhando Sor Albar e outro cavaleiro no festim. — Sorriu nervosamente. — É melhor não contar sobre o Cão. — Meus amigos já estão vindo me encontrar aqui.
— É mesmo? Parece-me que está sozinha aqui.
Arya Stark colocou a mão sobre o cabo de Agulha que estava oculta em sua capa. Ele não passa de uns dezoito, dezenove anos. Eu dou conta disso!
— Eu conheço Albar. — Harry se virou quando ouviu gritos.
Eram Mya Stone, Myrcalla e Donlowey, que vinham correndo por um beco que sai da rua e passava entre duas casas para acabar na campina.
— Suzan! Suzan!
— Ora, ora se não é Mya Stone — Harry se virou para cumprimentá-la.
— Harry, como vai? Vejo que achou minha amiga. — Mya deu com o cotovelo na costela de Don e de Myrcalla. Ambos acenaram com as mãos para o jovem cavaleiro.
— Viemos para as festividades Harry, você está de saída ou de chegada?
— Estou chagando de Harrenhal. — Passou a mão sobre o brasão que tinha no peito com as insígnias do campo de diamantes brancos e vermelhos dos Hardynd, logo a baixo a roda negra e quebrada da Casa Waynwood e no lado esquerdo o falcão branco sobre o campo azul dos Arryn.
— Vamos Suzan, sua irmã está preocupada. — Mya segurou-a pela mão.
— E quem seria a irmã dela? — Harrold posou as duas mãos no cinto da espada.
— Não é ninguém... — a Garota das Mulas disfarçou a verdade o máximo que pôde.
— Temos que ir Harry, desculpe. — Mya saiu andando depressa.
Os outros a seguiram, Humphrey olhou para trás várias vezes pelo caminho para se certificar de que não estavam sendo seguidos por Sor Harrold até a taverna.
— Até que enfim voltaram — Albar estava com as bochechas coradas.
Sandor limitou-se a soltar um silvo pelo lábio meio-queimado.
Sansa pegou Arya pelo braço e a conduziu para a cadeira ao lado de onde estava sentada.
— Cuidado irmã... — ela olhou para ambos os lados como se procurasse alguém. — Muito depende de nós, somos as últimas... você sabe que não há mais ninguém.
Arya olhou a irmã com incredulidade, como ela está diferente da Sansa que só se importava com lindas canções, cavaleiros, e modos educados.
— Não é verdade, Jon ...
Sansa fez sinal para Arya se calar.
— O que estão conversando? — Mya voltava do balcão com uma bandeja e uma galinha frita rodeadas por maçãs.
— Nada demais... — Sansa cruzou olhares com todos na mesa.
— Adoro essa música. — Iris olhou para Albar — Não vai me propor uma dança?
— Eu?
O jovem cavaleiro de cabelos negros e curtos levantou-se e retirou a capa das costas, estendeu a mão para a garota loira-arruivada e a levou para o meio do salão. Os bardos tocavam uma balada romântica, muitos dos transeuntes já estavam bêbados e se escoravam nas vigas, nas paredes, janelas ou se jogavam pelo chão. Dois servos da taverna carregavam um homem que mais parecia um morto. O casal Albar e Iris Redfort dançava animadamente sem se importar com quem os rodeava.
— Diga-nos onde esteve — Sandor comia uma coxa de galinha.
— Fui até um pavilhão de justa, estão construindo a leste daqui na campina. — Arya passou os dedos nos cabelos castanhos.
— E o que mais viu? — Sansa se lembrou do que Mya havia falado sobre os carregadores trazerem madeira, cordas e comida para Ferrobles a mando de Mindinho. — Maldito cafetão, o casamento já estava arranjado mesmo antes de ter me avisado da proposta. — Enquanto pensava passava o dedo nos lábios.
— Acho que haverá um torneio...
De repente ouviu-se um barulho e uns quatro homens estraram pela porta, os bardos pararam de cantar enquanto um homem com roupas de arauto pedia silêncio.
— Pessoal, silêncio! Silêncio! — Fechou um pouco o gibão e arrumou o cabelo cor de palha. — Minhas senhoras, meus senhores — fez uma pequena reverência —, aqui esta noite, um herói se apresenta após ter enfrentado perigos e fantasmas no sombrio Harrenhal, O Matador de Lannister, O Belo Cavaleiro, O Falcão Herdeiro! Haaarry Hardyng, senhoras e senhores!
Gritos ecoaram pelo salão, Sansa se virou para ver o tal cavaleiro. Era um jovem usando um gibão vermelho com um brasão dividido em três partes, botas altas de couro cozido, com um manto azul. O rapaz não parecia ser mais velho do que ela, com uma cabeleira ruiva bem aparada olhos pequenos e covinhas nas bochechas. Harrold estava sorrindo e cumprimentava todos a sua volta, as mulheres gritavam e os homens vaziam um círculo em volta de seu herói.
— Pelos Sete Desgraçados... — Cão de Caça bebeu um longo gole da amarga cerveja do Vale.
— Você já o enfrentou na justa? — Sor Albar parecia animado.
— Não, mas é certo que venceria esse franguinho metido a falcão.
Sansa observou o jovem cavaleiro que de forma galante fazia gracejos e soltava sorrisos para todas as mulheres que cruzavam seu caminho, Mya me advertiu que ele era leviano. A ruiva de Winterfell não se sentiu atraída por Harry O Herdeiro, ela estava adorando o fato de observá-lo sem que Harrold soubesse.
— Sandor — Sansa tinha um olhar sórdido —, e o seu prêmio?
Clegane ficou sem resposta.
— Vou cantar para você hoje à noite.
Sandor se engasgou com alguma coisa, um pedaço de frango frito talvez. Arya deu-lhe um soco no ombro.
— Alayne... não é seguro fazer isso — Mya a segurou pelo braço.
— Essa é uma boa oportunidade de conhecer meu futuro... — levantou-se.
— Eu não acredito que ele está aqui — Iris veio correndo do salão e Albar estava logo atrás dela.
— Quê que há? Estamos festejando aqui; vamos para a praça da vila o festim vai começar já passa das dez. — Donlowey fez uma careta.
Pessoas começaram a se agitar perto da mesa, em poucos minutos o salão ficou mais vazio. As pessoas já estavam indo em direção a grande fogueira erguida na praça central de Ferrobles.
Sansa começou a andar em direção a plataforma onde os bardos já estavam se preparando para tocar a última música antes de seguirem para o festim.
— Ei vocês aí em cima — Ela fez sinal com a mão para um dos integrantes da banda se aproximasse dela.
— Pois não, linda senhora — disse o homem loiro de cabelos cacheados com uma longa barba no queixo.
— Eu quero cantar uma música para alguém especial, pode me ajudar? — ela mordeu o lábio inferior. — Os homens adoram isso.
O músico chegou mais perto dela.
— E seria para mim essa canção? Acredito que não, mas... — ele esfregou o polegar no indicador.
Lady Sansa lhe estendeu a mão e ele a puxou para cima da plataforma nisso, ela havia deixado um dragão de ouro na palma da mão do bardo que se virou de costas para a plateia e mordeu a moeda. Ele se afastou para conversar com os outros homens da banda, em seguida retornou:
— Qual a canção você deseja cantar?
Sansa pensou um pouco enquanto alisava as madeixas ruivas que lhe caiam pelo ombro.
— Conhece a Balada de Rhaena?
— Conhecemos sim, mas terá que tocar o instrumento de cordas. — O homem alto e loiro apontou para o instrumento. — Sabe tocar?
A ruiva de Winterfell pegou o instrumento e colocou no colo, era grande com um braço de madeira com sete cordas de metal bem esticadas, na outra extremidade sobre suas pernas ficava uma caixa de madeira oca em formato de oito com um buraco no meio. Boas lembranças, pensou com um sorriso no rosto olhando para o instrumento. Na minha casa, com meus irmãos que tanto amo...
— Ei... e aí vamos cantar ou não? — O bardo sacudiu a vasta cabeleira loira e abriu os braços.
Sansa acenou positivamente com a cabeça.
Enquanto combinavam os tons da música e seus acordes, do outro lado do bar Harry O Herdeiro conversava dando gargalhadas e derramando cerveja por todo lado. As tochas, archotes, lanternas e braseiros estavam quase se apagando e deixava a taverna com uma meia-luz. Alguns casais estavam nos sofás se acariciando ou chegando as vias de fato, o ar frio da noite entrava por algumas janelas que estavam abertas fazendo um clima perfeito dentro da taverna.
— Atenção! — Exclamou o bardo com uma forte voz grave. — A senhorita... — olhou para trás em busca de uma resposta.
— Alayne Stone. — Respondeu Sansa com um sussurro.
— A senhorita Alayne Stone oferece a Balada de Rhaena... — se virou novamente para Sansa.
— Meu irmão, o campeão do jogo da adaga... — ela apontou para Clegane.
— A Balada de Rhaena para seu irmão o nosso campeão do jogo da adaga. — Concluiu o bardo e tomou posição com seu instrumento de sopro.
Sandor ergueu seu quartilho no ar com um sorriso galanteador.
Iris Redfort estava sentada no colo de Sor Royce, os dois trocavam caricias. Don e Myrcalla estavam comendo um empadão de pombo e Mya estava indo para perto do grupo de Harrold.
Harrold conheceu Mya assim que ela apareceu sobre a luz das lanternas que iluminavam o balcão da taverna.
— Mya, o que está acontecendo aqui? — Ele a segurou pelo braço com força. — Por que não me contou? — ele olhou para Sansa.
— Calma Harry, ela que pediu o segredo — se soltou. — Espere ela terminar de cantar e falaremos com ela. — Arrumou os cabelos negros como carvão com uma jogada de cabeça.
— Quem é esse irmão dela? — colocou as mãos na cintura e começou a bater a sola da bota no chão com força.
— Se acalma Harrold — Mya Stone deu de ombros. — Não entendo o que está acontecendo aqui, talvez Sansa não queira que as pessoas saibam sobre o Cão de Caça já que ele é um criminoso procurado como ela também é. — Pegou o quartilho do homem e tomou um trago.
Sentada sobre um banco com o instrumento apoiado na sua perna direita, Lady Sansa começou a dedilhar as cordas e tirar alguns sons fazendo notas musicais ganharem o salão oval da taverna. Alguns casais começaram a se levantar dos seus cantos escuros e vir para o meio da pista dançando lentamente. Da mesa em que estava sentado, Clegane olhava fixamente para a ruiva que com um belo sorriso começou a cantar.
Tudo que eu sei
É que nada é o que parece ser
Mas quanto mais eu cresço
Menos eu sei
E eu tenho vivido tantas vidas
Porém não sou velha
E quanto mais eu vejo, menos eu cresço...
Ela está cantando para mim? Sim, como eu fantasiei esse momento... Sandor colocou as mãos em concha na frente do rosto. Em Porto Real ela era fingida e só falava por cortesia...
...então eu vejo você aí
Querendo mais de mim
E tudo o que eu posso fazer é tentar
Então eu vejo você aí
Querendo mais de mim
E tudo o que eu posso fazer é tentar
Tentar...
Sandor estava absorto em tudo que saía da boca de Sansa, seus movimentos com as mãos tocando as cordas do instrumento com delicadeza, seu lindo cabelo ruivo pendendo de seus ombros. Sua doce voz é como um sonho para mim, tudo o que fiz para alcançá-la... Ele não prestava atenção a sua volta, nada mais importava para Sandor Clegane a não ser ouvir a doce melodia que Sansa entoava naquela plataforma sobre a luz das lanternas como se fosse uma deusa.
Eu queria não ter visto
toda a realidade
E todas as pessoas reais
Realmente não são nada reais
Quanto mais eu aprendo, mais eu o amo...
Ao lado do Cão de Caça a garota-loba com cabelos castanhos e olhos acinzentados começava a ficar com a visão embaçada, ela não sabia o que era e usou as mangas do vestido para secar os olhos. O coração acelerava como no dia que ela perdeu seu pai. Porque estou sentindo como se perdesse algo? Arya mordeu a própria mão, talvez em uma frágil tentativa de voltar a realidade. Mas é essa a minha realidade...
Quanto mais eu choro, mais eu chorarei
Dando adeus ao estilo de vida
Que eu pensei ter desenhado para mim...
... viver à sombra dela. O pensamento fez seu corpo estremecer, e ele? Pena que sejam esses meus dias...
Sansa sorriu docilmente, enquanto jogava a longa cabeleira para traz com um movimento gracioso.
Então eu vejo você aí
Querendo mais de mim...
E tudo o que eu posso fazer é tentar
Então eu vejo você aí
Eu sou tudo o que eu sempre serei
Mas tudo o que eu posso fazer é tentar
Oh oh
Eu tento, tento, tento...
Extasiado Sandor Clegane relaxou no seu acento e observou como todos os casais estavam embebidos na doce melodia. Os deuses são cruéis... ela e perfeita e eu a desejo mais do que viver.
Ele ainda a deseja, não está pensando em nós... Arya tentou encarrar Clegane, ela buscou o olhar dele. Nós nunca... seremos. Ela o tocou no ombro com um leve toque, mas ele se quer se virou.
Sansa intensificou o ritmo.
Todos os momentos que já passaram
Nós vamos tentar voltar atrás e fazê-los durar
Todas as coisas que nós esperamos um do outro
Nós nunca seremos...
Clegane sentiu alguma coisa sobre seu ombro. Não quero perder nada desta declaração... sem mover a cabeça ele olhou com o canto dos olhos e viu que Arya estava a seu lado. Tudo que passamos juntos, você e eu. Ele percebeu que era ela que o tocava. Por que a dúvida?
Deveríamos ter ficado naquela caverna. Eu ainda estou aqui... Arya encostou a fronte no braço de Sandor.
Nós nunca seremos e isto é maravilhoso
Isto é a vida
Isto é você, isso sou eu
Nós somos, nós somos. Livres no nosso amor.
Os olhos se encontraram, mas Clegane manteve-se rígido ele pensava em seu juramento a Sansa e em sua incapacidade de protegê-la dele mesmo. Eu sou o que mais representa perigo para elas. Arya não entendeu que não há o que tentar, não neste mundo...
Nós somos livres no nosso amor
Nós somos livres no nosso amor
Tentar...
Enquanto ela existir neste mundo, nós nunca seremos livres para fazer o que desejarmos. Arya Stark desviou os olhos marejados e escondeu o rosto corado em seus cabelos revoltos.
— Bravo! Bravo!
Sor Albar, Iris e Donlowey começaram exclamar juntos e bateram palmas e assobiaram.
Myrcalla ficou com olhos fixos em Arya, ela sabia que alguma coisa estava errada com a irmã mais nova de sua Senhora.
Todos na taverna começaram a aplaudir e Sansa fez algumas reverências para saldar algumas pessoas, o bardo a ajudou a descer da plataforma o salão estava cheio de pessoas de pé aplaudindo. Sansa já estava andando de volta para a mesa quando uma mão forte a segurou.
— Senhora Alayne Stone?
Sansa se virou para olhá-lo, era Harrold Hardyng.
— Precisamos conversar mocinha — se virou para voltar ao balcão levando Sansa pelo braço.
— Me larga! — Disse exasperada.
De repente ouviu passos pesados atrás de si, e percebeu que algumas pessoas caíram, um vulto negro passou pela frente de Harry e o derrubou. Os homens que acompanhavam o Jovem Falcão protestaram e fizeram um círculo, chutando algumas mesas e cadeiras para longe.
— Quem é você cavaleiro?
— Não sou cavaleiro — Clegane retrucou com sua voz metálica enquanto derrubava mais um desavisado que tentou atacá-lo pelas costas.
— Parem imediatamente! — Sansa estava nervosa.
— Ela é minha prometida Sor — Harry deu um passo à frente para encarrar seu oponente.
Clegane sorriu, ele era bem mais alto que O Falcão Herdeiro.
— Eu conversarei com o senhor, mas terá que se comportar — Apontou com o dedo em riste para o jovem de cabelos arruivados.
Harrold ofereceu o braço para que Sansa o pegasse todos em volta ainda estavam tensos.
— Vamos juntos ao festim, minha senhora.
— É claro — Sansa pegou o braço de Harry. Procurou por Mya Stone e a viu aos risos com um dos homens que acompanhavam o Jovem Falcão.
Saíram para fora da taverna, a rua estava apinhada de gente alegre sorrindo e dançando, bebendo vinho doce comendo batatas assadas. A neve estava branca sobre seus pés, mas caía fraca do céu, no fim daquela rua chamada de Rua do Centro; havia uma fogueira enorme acessa no meio da praça da Vila de Ferrobles. Era onde todos se reuniam para comemorar a última colheita, uma festa ancestral que remontava aos Primeiros Homens que povoaram o Vale antes da invasão dos Ândalos. Havia fitas de tecido amarelas pendendo das casas como grandes raios de sol e em cada canto uma fogueira ou um braseiro faziam com que o vento que soprava fosse quente e aconchegante. Sansa se admirou com os saltimbancos e os malabaristas que faziam suas pantomimas, um grande grupo de músicos tocava animadamente e tudo era vivo e alegre apesar de o inverno ter chegado.
— Você é mais bonita do que eu imaginei —, Harrold pegou uma rosa em um jardim e deu a Sansa.
— Fico feliz que eu o tenha agradado. — Ela falou o que ele gostaria de ouvir. — Meu pai não me falou muito sobre o senhor. — Se sentou em um banco de madeira que estava forrado com uma grossa pele de ovelha.
— Eu sou do sangue nobre dessas três grandes Casas que estão aqui. — Apontou para o brasão em seu gibão verde oliva. — E sou muito valente em batalha — sorriu e levantou o queixo para ter uma imagem altiva.
— É mesmo... e em quantas batalhas já esteve Sor? — Sansa apertou os olhos o que lhe atribuiu uma aparência feroz.
O jovem ruivo olhou para os lados balançando a cabeça contrariado.
— Você doí que é uma beleza... — ele percebeu a expressão de tédio na face da garota que não parava de chacoalhar a ponta de seu pé. — Nunca estive em uma batalha, apenas em torneios senhora. — Serrou os dentes com força.
Em um canto próximo Clegane tentava ser discreto para que ninguém o reconhecesse, Sor Albar estava vomitando atrás de uma pequena cerca que segurava alguns porcos, Myrcalla e Arya conversavam alguma coisa muito animadas e Iris estava jogando argolas no pino. Donlowey ficou perto do Cão de Caça, ele estava tenso com a presença de Harry e seu bando.
— Você é um nobre cavaleiro, por que se casaria com uma... — pensou na palavra bastarda.
— Não precisa falar está palavra Alayne — Hardyng interrompeu. — O seu pai possui uma elevada posição, será uma honra para mim.
— A honra é minha Sor. — Sansa percebeu que Harry era mais um jogador no tabuleiro de Petyr. — De poder carregar seus bastardos.
Harrold a olhou com olhos vermelhos de fúria, em seguida ele olhou para Mya Stone como se ela fosse culpada disso, Mya deu de ombros.
— Por que não deixamos os boatos de lado e dançamos para nos distrair?
Sansa se levantou puxando irritadamente seu vestido azul marinho, caminhou até Donlowey e o puxou pelo braço. O Jovem Falcão a seguiu.
— O que está fazendo? — o nervosismo aflorou em sua voz.
— Dançando — Sansa começou a dançar com Don Humphrey.
A dança seguia um ritmo comum as festas da plebe, Sansa rodopiava e gargalhava, ela queria causar dor e ciúmes a Harry O Herdeiro. Ela não gostou de sua pompa, ele havia sido apenas um escudeiro, mas se apresentava como um nobre e esnobe cavaleiro, tinha sardas no rosto e ainda era muito jovem, sua boca era fina e em alguns aspectos quando ele ficava parado com os braços atrás das costas se tornava muito parecido com o falecido Rei Joffrey.
Depois de dançar com Don, Sansa dançou com Sor Albar, e mais alguns dos homens que vieram com Hardyng de Harrenhal. Ela queria que o herdeiro de Jon Arryn soubesse que não poderia domá-la como fazia com as mães de seus bastardos. E a mensagem foi entendida por Harry que resolveu se retirar contrariado. A noite parecia não ter fim e a diversão também não, as garotas se lançaram a dança sobre a luz do fogo que ardia em altas chamas na fogueira. Elas circulavam o fogo e riam à toa, até Arya depois de muita insistência de Myrcalla de Asshai dançou e bebeu vinho quente para espantar o frio.
Após várias horas observando sua Senhora, Cão de Caça foi até o meio da roda de dança que estava formada em volta da grande fogueira. Sansa não havia se dado conta de sua presença e esbarrou direto no peito largo do homem, os dois ficaram se olhando por um tempo e a Lady de pele clara, mas corada pelo calor das chamas e pelo vinho doce que ela tomava em um longo corno, pegou na mão do cavaleiro e o puxou.
— Vai dançar comigo também Cão?
Clegane olhou em volta para ver se alguém havia ouvido Sansa chamá-lo de Cão, em seguida ele arrumou o capuz sobre a cabeça para melhor esconder o rosto meio-queimado que tanto o denunciava.
— Se me der a honra senhora — Fez uma reverência com uma mão nas costas e outra estendida.
Ela passou os braços em volta do pescoço dele e começaram a rodopiar lentamente. Sansa sorria embriagada de vinho, mas para Sandor aquela dança era especial. A musa de suas fantasias estava bem ali nos seus braços, ele a apertou contra o peito e sentiu seu calor, não encontrou resistência nenhuma; aninhou o rosto perto da orelha da Stark e sentiu seu cheiro cálido. Será que é possível? O Cão começou a sonhar que Lady Sansa Stark poderia enxergá-lo como o homem que ele queria ser. Eu não sou um nobre, não possuo nada para dar-lhe em troca de seus encantos. A percepção da realidade fez Clegane ficar rígido e ele se afastou um pouco do corpo de Sansa.
— Acho que... é hora de voltarmos para casa.
Sansa o soltou e rodopiou sozinha perto do fogo, Sandor ameaçou segurá-la, mas não o fez.
— Cuidado com o fogo Passarinho, você pode se queimar.
Ela sorriu e jogou os cabelos ruivos em um movimento frenético.
— Eu sou o fogo que consome os homens — apontou um dedo para seu Escudo Juramentado. — Todos vocês querem algo de mim...
— Por que você não vem comigo agora? — Arya apareceu do meio da multidão e puxou sua irmã mais velha pelo braço, Sansa a abraçou passando seu braço pelos ombros de Arya que a segurou pela cintura.
Mya apareceu por detrás para apoiá-la.
— Venha irmãzinha — pegou o queixo da irmã casula. — Um beijo... — Sansa tocou os lábios de Arya com olhos abertos para olhar Clegane que estava parado como uma torre negra com os braços largados ao lado do corpo e a camisa de ráfia negra aberta até o peito.
— Ei... — Arya afastou a cabeça da irmã com delicadeza. — Você está muito animadinha.
— Pessoal venham ver os fogos de artificio. — Iris Redfort segurou ambas pela mão. Ela reparou que Clegane era o único que não estava sorrindo.
O glorioso Sor Albar apareceu andando com dificuldade e balbuciando palavras que ninguém conseguia entender enquanto se apoiava no ombro da Bastarda das Mulas. Sansa e companhia foram para um lugar mais alto acima da praça da vila, subiram uma escadaria e pararam em uma plataforma que dividia a longa subida em duas. Ficaram ali observando o homem que iria incendiar os fogos de artifício. Era um sujeito alto com uma longa toga cinza como usava o Grande Meistre Pycelle, mas as semelhanças acabavam aí, por que o homem parecia muito idoso com um cabelo branco que escapava por baixo de um chapéu também cinza e pontudo e sua barba branca ia até o seu cinto. Apesar de sua aparente idade o homem sorria e se movia como um jovem da idade das garotas muito diferente do velho e decrépito Pycelle.
— Aquele é o meistre dos Waynwood? — Arya perguntou com a sua voz curiosa de garota.
— Ele não é daqui — Mya tomou um gole de vinho quente.
— Ele não é meistre — Myrcalla respondeu com um ar de superioridade. — Vê o cajado que ele carrega? — Ela apontou para a vara que o velho homem usava na mão esquerda.
Todos começaram a prestar atenção na garota de cabelos escuros e olhos amendoados.
— Ele é um mago.
Arya fez cara de quem não acreditou no que havia acabado de ouvir.
— Ele chegou aqui no porto de Ancora Velha. Com um navio feito de madeira branca vindo de uma terra muito, muito distante chamada Númenor. — Coçou o nariz.
— Magos não existem Myrca, anda tomando muito vinho quente. — Arya sorriu com a própria piada.
— A não? Observem como ele vai acender os fogos. — Retrucou A Garota das Mulas com os profundos olhos azuis arregalados.
Arya Stark percebeu que o mago não segurava tocha nem archote ou possuía qualquer tipo de fonte de fogo nas mãos.
O homem fez uma concha com a mão envolta da ponta deu seu cajado e soprou, uma luz branca muito forte começou a irradiar da vara, Arya ficou boquiaberta com aquilo, Sansa se debruçou sobre o parapeito de pedra para poder enxergar melhor.
— Não é fogo aquilo — disse Clegane.
— Não é mesmo, fogo branco onde já si viu —, Albar parecia incapaz de ficar de pé sem bambolear.
— Fantástico — Iris pareceu animada.
— Isso parece perigo pessoal vamos sair d... — Antes que Donlowey terminasse a frase ou clarão cortou a noite escura com um grande assobio e se transformou em várias borboletas coloridas no céu com um grande estrondo.
Don olhou de sobre o parapeito para ver o mago em ação. Ele estava acendendo os fogos com a ponta de seu cajado de onde emanava uma chama branca que não consumia a vara.
— Pelos Sete Cretinos! — Clegane colocou uma mão à frente do corpo como se quisesse bloquear um ataque. — Mais um lunático em Westeros que brinca com fogo-vivo.
— Fogo-vivo não é verde?
— Fogo é fogo, vai acabar te fodendo menina bruxa. — Cão de Caça se afastou do parapeito.
Os fogos não paravam de estourar no ar iluminando toda Ferrobles. Alguns desenhavam grandes círculos multicoloridos no céu outros tomavam forma de animais, era um espetáculo e tanto. As pessoas na grande praça estavam todas com os rostos voltados para cima.
O mago parecia se divertir com os ruídos que a multidão emitia a cada estouro, ele sorria animadamente enquanto acendia um pavio aqui e ali. O show de cores, barulhos e fogos durou um bom tempo, depois o grupo procurou uma outra taverna para se aquecer e comer e beber um pouco mais.
O dia veio raiando frio e sem cor, um céu acinzentado e uma neve fraca decoravam a paisagem das casas de pedra e madeira de Ferrobles, Sansa e companhia haviam passado a noite em um sofá em uma taverna que ninguém se lembrava de como haviam chegado lá. Eles voltaram até a Taverna Falcão Herdeiro para buscar os cavalos no estábulo da mesma e seguir viagem de volta para o Ninho da Águia.
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