Nós dois ouvimos ruídos vindos do andar de cima. O único acesso até lá, era uma escada enferrujada bem a nossa frente. Subi por ela e Tay veio logo atrás de mim. A parte de cima era tão escura e suja quanto a de baixo. Não havia saída, a não ser por outra escada para baixo, onde podia ver-se de cima. Descemos com cuidado. Aquela parte, onde paramos apos andar um pouco, tinha menos entulhos e parecia ter sido o escritório do depósito antes de fechar. Um eco, cujo o timbre de voz me fez tremer, surgiu atrás de nós.

– Annabeth. — Me virei imediatamente para trás.

Uma onda de desespero me atravessou. Mérlia descia a escada com toda a sua graciosa vulgaridade, ela trajava roupas de um preto clássica que valorizavam as suas robustas curvas. Outros 6 capangas a acompanhavam e bem atrás deles, estava Justin. Meu coração saltitou ao vê-lo. Ele parecia estar bem. Eu tive que me conter para não correr e abraça-lo.

– Solte-o Mérlia! — as palavras escaparam da minha boca. — Estou aqui. Deixe-o ir.

– Ele parece preso? — Um tom de ironia estava bastante presente em seu tom, chegou a me lembrar Lúcia. — Justin está aqui por que quer. — completou.

– O que? — eu ri sem achar graça alguma. — Do que merda você está falando?

– Que estou aqui por vontade própria. — se pronunciou Justin, saindo finalmente de trás da pomposa mulher.

– Ainda não estou entendendo. — respondi confusa.

A gargalhada de Mérlia soou pelos quatro cantos do lugar. Justin também sorriu e disse: — Não ligue Mérlia, ela sempre foi meio lenta. — fez uma pausa. — Deixe-me tentar explicar de um maneira mais fácil pra você, pequena Beth. Eu faço parte dos caras maus. — seu tom de voz era quase tão nojento quanto o de Mérlia. — Eu sou da Ordem.

Completamente chocada e me sentindo enjoada, tudo que consegui dizer foi: — Você o que?

– Estava infiltrado. Fui contratado para acabar com você. E quase consegui, mas Mérlia insistia que só podia tirar a sua vida quando seu poder finamente se revela-se. Foi quando o acidente aconteceu. Fiquei três anos preso ao seu caso. No dia que te encontrei eu estava partindo, nós haviamos concordado que você morreria uma hora ou outra abandonada naquele hospital, só que você sobreviveu. Rastreei você pelo número de telefone que me deu e sabe de cada passa que você dava. — Conclui que a chamada que recebera outro dia. havia de ter sido Justin.

Tudo parecia uma distopia dos meus melhores sonhos. Eu estava sentindo uma grande vontade de chorar, mas também sentia raiva. Muita raiva. Minhas pálpebras ficaram úmidas. Engoli o choro ruidosamente. Não choraria na frente dele. Não na frente daquele impostor traíra e medíocre.

– Esse tempo todo — fiz uma pausa curta. — você foi só mais uma mentira da minha vida. Como -como você pode?

– Facilmente. — sibilou.

Aquele não era o Justin que eu conhecia. Minha vida era comum, porém agora eu só podia enxerga-la como uma farsa imunda. Eu o amava e comecei a sentir ódio até desse sentimento. Estava cansada e destruída. Transformei tudo que eu sentia em um ódio avassalador dentro de mim. Só havia raiva e rancor. Parei de raciocinar direito e deixei que todo aquele ódio querendo explodir no meu peito dominasse-me tão profundamente que fechei os punhos, até minhas próprias unhas cortarem-me superficialmente a mão.

– Estou cansada de mentiras. — minha voz que antes havia ficado fraca, tomou um grau ameaçador.

– Também estou cansada. Vamos acabar logo com isso. — ela virou-se para os capangas. — Amarre-os depressa.

Quando um dos idiotas tentou obedece-la, vindo em minha direção com uma corda na mão, levitei o cara pelo ar, o chocando contra uma parede. Aquilo pareceu a todos, inclusive a mim. Justin sussurrou no ouvido de Mérlia. Pude ler seus lábios, que diziam: Cuidado, ela está poderosa demais.

Estava tão concentrada neles dois, que nem vi o esforço que Taylor estava fazendo para lutar com outros capangas. Imediatamente, acertei um chute nas costas de um e ele cuidou dos outros. Tay ainda se recusava a usar os seus poderes. Ele é orgulhoso e mesmo que estivesse em perigo, estava decidido.

Naqueles segundos decisivos, uma ideia louca passou pela minha mente. Tay não queria usar seus poderes, mas será que eu poderia usa-los? Enfurecida, segurei sua mão com força buscando qualquer conexão que fosse bem ali. Estava difícil me concentrar, principalmente com ele resmungando coisas.

– O que você está fazendo Annabeth? — quis ele saber.

– Me vingando. — sibilei.

– O que?

– Cale a boca Taylor, me empreste seu poder!!!

Eu não sabia bem o que eu pretendia, mas pus toda a minha concentração nas desprezíveis pessoas da Ordem. E vi que estava funcionando quando Justin, Mérlia e mais alguns dos capangas não abatidos, começaram a flutuar. Olhei diretamente para ela. Eu quis faze-la sofrer. Seja lá o que fosse acontecer, queria que acontecesse com ela primeiro.

– Eu quero seu corpo gelado. — falei entre os dentes cerrados. — Quero que não corra mais uma gota do sangue podre dela no corpo. — eu estava falando, como se minhas palavras pudessem se materializar. — Eu a quero morta!

– O que você está fazendo Anna? — Tay tentou escorregar sua mão da minha, em vão, pois apertei-a com mais força. — Você não pode mata-la!

– Sim, eu posso Taylor. — não parei de fitar Mérlia nem por um minuto, o desespero no olhar dela me deu uma impulsiva gratificação. — Mata-la, como ela matou meu pai. — completei.

Lembrar-me disso me encheu mais ainda de raiva. Eu queria que ela implorasse por sua vida. Meu pai teria implorado? Os pensamentos sobre ele, me fizeram mais cega diante do poder que estava em minhas mãos. Então, como havia ficado antes na casa da vovó, fiquei sem controle.

– Pare Annabeth! — suplicou Tay, em um grito desesperado.

Eu o ignorei. Na verdade, estava ignorando todos eles. Estava tão concentrada em Mérlia que mal ouvia as batidas do meu próprio coração. Só conseguia pensar em como eu queria que ela estivesse morta. No mesmo instante, Mérlia começou a sufocar e se contorcer dolorosamente no ar.

Ela era a única coisa que eu podia ver, e que eu queria ver. Pós suas mãos na garganta. Ouvi-la buscando ar de um jeito descontrolado e ver seu olhar de medo alimentou minha raiva. Completamente cega, eu assistia aquilo como se fosse um espetáculo grandioso, que por meses esperei acontecer.

– Annabeth! Annabeth! — Tay tentou se colocar na minha frente.

– Não se tente me impedir Taylor. — até a minha voz não parecia mais familiar.

– Anna, me ouça, eu sei que você está furiosa. Sinto isso em cada osso do meu corpo. Mas você não precisa sujar suas mãos com essa mulher. — eu continuava assistindo Mérlia a se engasgar. — Penny está á caminho daqui junto a Speed e vai cuidar de tudo. Só que você tem que solta-la agora.

– Você não entender Taylor! Nunca vai entender! — gritei. — Eu tenho que me vingar. Eu tenho que me vingar. Eu tenho que me vingar.

– NÃO! Porque você não é assim! — berrou. — A Annabeth que eu conheço não mataria ninguém por vingança, por pura luxuria. Eu sei que essa Anna ainda está ai.

Finalmente as palavras de Taylor me atravessaram. Respirei fundo. Estava tão confusa que mal lembrara como havia parado ali. Voltei á tona e naquele momento decidi que não precisava fazer aquilo. No que eu havia me tornado por tão pouco? Larguei a mão de Tay com cuidado.

Os miseráveis despencaram no chão. Mérlia ainda procurava ar, mas começou a retomar a sua cor. Eu fraquejei e também despenquei. Porém antes de alcançar o chão, me senti tomada por uma grande energia. Foi quando os braços fortes dele me envolveram. Não era Taylor. E nem precisei pensar muito para saber que Bryan estava ali.

– Bryan. — murmurei.

– Porque você é tão teimosa? — ele me abraçou aliviado e sussurrou em meu ouvido. — Nunca mais me diga para ir embora.

– Me desculpe. — o apertei em meus braços. — Eu sinto muito.

– Não, não! Seus levadinhos. É melhor ficarem bem parados ai, estou avisando. — disse Lúcia fechando a porta e impedindo que eles passassem.

– Nunca fiquei tão feliz por ouvir a voz dela. — comentei com Bryan.

– Não vou perder de novo!!! — gritou Mérlia. — Não desta vez. — dei um passou para trás ao ve-la puxar uma arma da cintura, Bryan me apertou mais forte. Então ela olhou direto para mim. — Você já atrapalhou demais a minha vida, Annabeth Simon.

Lúcia com toda a sua impaciência, usou a influência que tinha sobre o elemento terra e rachou o chão velho, de onde arrancou uma bola de terra e atirou nas mãos de Mérlia, a fazendo perder o controle e despencar novamente no chão. E disse:

– Já perdeu vadia! — toda a sua ironia foi posta nesta frase.

Todos estavam tão concentrados na situação, que ninguém além de mim notou quando Justin puxou sua arma. Pensei que ele fosse atirar em mim, mas não era em mim que ele estava mirando, era em Taylor que estava distraído. Em questão de segundos houve o disparo. Não pensei em nada. Só um seco "Não" saiu de minha boca. O abracei com força e senti a pequena bala perfura-me a pele.

– Annabeth? — ele me segurou confuso.

Fitei seus olhos negros, como da primeira vez. Eu tentei manter-me de pé, mas havia algo de imobilizador naquela bala que se espalhou em um segundo por todo o meu corpo. Meus membros não obedeciam mais meus comandos e por isso fui de encontro ao chão, despencando sobre meus próprios joelhos e depois caindo para a direita. Mas antes de cair, pude ver os rosto de Justin. Ele estava boquiaberto, como se aquela não fosse sua intenção.

– Anna! — Tay se ajoelhou e pós as mãos no ferimento, de onde tirou a fina bala em formata de cilindro. Ele observou a bala e sua mão ensaguentada, então olhou para Bryan que estava paralisado. — Dardos de veneno. — ele a apertou em seu punho fechado e então se levantou.

Bryan se jogou ao meu lado e me manteve em seus braços. Eu estava completamente tonta e com muito frio. Ouvi o dardo de veneno, que antes estava na mão de Taylor, quicar algumas vezes no chão. Ele havia a deixado cair. Os olhos apreensivos de Bryan estavam sobre mim.

– Estou congelando. — murmurei.

– Fique comigo! Anna, por favor, fique comigo! — suplicou. — Não sei que rumo vou tomar sem você.

– Parabéns Justin, você conseguiu me fazer usar meus poderes. — a voz de Taylor soou atrás de mim e foi acompanhada de um estrondo que não consegui identificar o quê. De qualquer modo estava dificil me manter acordada.