O Trem da Meia Noite
1 Capítulo Único
Notas iniciais
I
De certo modo, é uma história até engraçada, Javier. Talvez você não acredite em nada do que eu vou contar, mas eu juro que foi o que aconteceu comigo.
Foi exatamente há um ano. Era quase meia noite e eu andava apressada para pegar o trem das 22h. É claro que eu estava atrasada... você me conhece, estou longe de ser pontual. Que posso dizer, não acredito muito no tempo... Enfim, eu estava completamente atrasada, atravessando aquelas ruas frias e escuras do centro rumo à estação. Para piorar, havia uma neblina delicada no ar e a noite estava muito silenciosa, como se todos estivessem dormindo há tempos.
Quando enfim cheguei à minha plataforma não havia nenhum sinal do trem, nem dos estranhos conhecidos que sempre embarcavam comigo naquele horário; só uma senhora escorada num canto a quem perguntei sobre o trem e que confirmou o fato já bastante evidente dele ter acabado de sair.
Agradeci cabisbaixa e aceitei meu castigo. Como sempre, nesses momentos me vem à cabeça aquele adágio chinês que diz maldosamente que se você já sai atrasado de casa não adianta correr. Ao menos eu iria avançar um pouco a leitura de um desses livros que sempre carrego por aí. Seriam duas horas de espera e a noite estava tão fria, a neblina parecia agora mais densa, mais fria também.
Pontualmente, o trem da meia noite chegou e entrei sem pressa, já que não havia quase ninguém ali. Resolvi, diferentemente do que sempre faço, andar um pouco e tentar encontrar um bom lugar, quieto e com uma luz boa, a salvo das tolas conversas entre desconhecidos do transporte público.
Fiz o gesto de contentamento de quem encontra o que procura, mas quando me aproximei o canto já estava ocupado, hesitei no meio do movimento e a estranha que se apossara do meu banco fez gesto de abrir espaço para eu me sentasse ao seu lado, fiquei sem jeito de dizer que não queria me sentar ao lado de ninguém e acedi meio contrariada.
Ela estava toda de preto, usando um moletom de capuz pesado, sem logo ou qualquer tipo de identificação, parecia que nem era coisa de indústria. Do seu resto eu não conseguia ver nada, fiquei obviamente curiosa, mas, por mais que eu tentasse olhá-la de modo discreto não dava para ver nada. Ainda que aquele canto do vagão estivesse claro, a neblina nos acompanhava ali também, aliás, já parecia mais densa e pesada que a da estação. A atmosfera estava meio angustiante e com todo aquele frio eu estava meio ofegante, com dificuldades de respirar.
Desisti de espiar a moça e cuidei de voltar ao meu livro. Já estava concentradíssima na leitura – de um desses livros da Agatha Christie que, você sabe, são o meu fraco – quando, do nada, fui chamada de volta à realidade. O braço da moça encostava levemente no meu e hesitei se deveria me afastar ou não e de repente estava imaginando os diálogos de uma história de amor... coisa bastante exagerada, eu sei... Mas na hora tudo me pareceu natural, como um diálogo que vai conduzindo a gente... e de repente...
Pouco a pouco fui me encostando contra ela sem conseguir resistir, sem conseguir articular palavra alguma; quando percebi, minha mão retirava-a delicadamente daquele capuz e procurava seu rosto... as luzes piscaram e quando voltaram, dois segundos depois, nos beijávamos.
Do nada, ela percebeu que estava sem o capuz, estremeceu e me afastou, cobrindo-se novamente. Será que era por minha causa ou ela tinha vergonha da sua aparência? Confesso, Javier, que eu havia ficado encantada: ela estava com os cabelos raspados rentes, começando a cobrir um estranho padrão de tatuagens dispostas em geografias estranhas, as tatuagens desciam-lhe pela nunca e pareciam continuar sabe-se lá até onde, era extremamente linda. Mas então ela se encolheu um pouco no seu canto e eu, me sentindo mal por tê-la beijado e talvez constrangido, me recolhi no meu banco também e fiquei apertando as mangas do casaco... você sabe o quanto eu sou ansiosa...
Sussurrei para ela, morta de vergonha que eu estava, que sentia muito pela cena toda e que iria deixá-la em paz. Ela não disse nada e eu estendi a mão para recolher o livro que caíra no chão minutos antes, pegar a mochila e levantar. Foi então que ela me segurou pelo braço. Ficamos ali em silêncio, sentadas, desconfortáveis. Eu imaginando qual era a dela, ela apertando meu braço com uma mão trêmula. Fiquei com um pouco de medo, afinal, eu não fazia ideia de quem ela era. Será que pertencia a alguma gangue? E se ela fosse uma criminosa? Uma fugitiva da polícia... e, pior, se ela fosse apenas uma viciada em flertar com desconhecidas em trens urbanos?
Mas, ela cheirava tão bem, que perfume seria aquele? Fiquei com vontade de perguntar, mas tive medo de parecer inoportuna. Fiquei ali que nem idiota, pensando em povos antigos tatuados, lendas e bosques longínquos. Talvez eu devesse maneirar nas leituras de fantasia...
Alguém veio vindo do fundo do vagão e ela enfiou-se mais para baixo do capuz. Pensei comigo, deve estar se escondendo da polícia. Todavia, ela tinha um cheiro muito bom... eu não conseguia pensar em muita coisa além daquele perfume... Não tinha como ela ser má pessoa, tinha os lábios tão quentes e quando nos beijamos, senti tudo girar... porra, não era um sonho... tinha mesmo acontecido e ela ainda estava ali, segurando o meu braço! Mas porque mesmo ela estava segurando o meu braço, em silêncio?
Eu só conseguia pensar que ela devia de ser uma boa pessoa, era a minha impressão geral, isso e uma vontade de não parar de olhar para ela nunca mais... que garota era aquela? Era tão linda e de um jeito tão único, quase exótico, ainda que exótico fosse só mais uma palavra canalha que a gente usava para falar daquilo que pegava a gente de jeito, pelos sentidos todos.
O trem desacelerou para mais uma parada, será que seria a dela? Meu coração acelerou... eu teria que me despedir dela... eu precisava de um número de celular, de qualquer coisa. Foi quando ela sussurrou ao meu ouvido: “Vou sonhar com você, Ana...”. Dei por mim só quando as portas se fecharam atrás dela... me joguei contra a porta em dois segundos, ela acenava discretamente da plataforma, parece que sorria, mas com olhos sérios.
Entrei em desespero dentro do trem, fiquei escorada naquela porta um tempo infinito curtindo a minha perda impotente. Ela sonharia comigo? Como diabos sabia o meu nome? Como a deixei ir sem conseguir dizer nada... como eu podia ser tão pateta...
II
Passei as semanas seguintes procurando-a no trem. Passei a pegar sempre o da meia noite, depois alternei horários, depois voltei a segui-los de novo e nada... Perguntei para os outros passageiros se eles conheciam uma moça de moletom preto com capuz e nada de notícias. Já não lia quando estava no trem ou na estação, ou nas escadas ou nas ruas, procurava-a por todo canto, procurava-a em cada rosto... Foi quando você, Javier, mandou aquela mensagem perguntando se eu havia sumido porque havia me apaixonado. Suas palavras caíram sobre mim com a força de uma revelação. Sim... eu havia me apaixonado e, pior, por uma completa estranha do trem da meia noite.
Passei a abordar todas as pessoas de capuz, procurando-a. Na metade do mês eu já estava completamente obsessiva. Então você me convidou para aquela festa, lembra? Eu me arrastei para lá com cara de poucos amigos e sem a menor vontade. Você reclamou do meu mau humor e eu desabei sobre o puff gigante sem intenção de me levantar. Fiquei lá ouvindo a música de olhos e fechados enquanto você ia atrás de bebidas. Foi quando ela se aproximou e sussurrou no meu ouvido: “Eu sonhei com você, Ana!” Quando me virei, de olhos abertos, vi apenas um homem grande com cara de guarda-costas seguindo os passos de alguém que saia pela porta...
— Será que ela tinha estado mesmo ali tão perto ou eu tinha imaginado? Fiquei pensando no segurança, será que ela seria da máfia ou alguma coisa assim? Com certeza era rica... Será por que diabos ela se escondia, fugia e me torturava com a sua ausência?
Meus dias se resumiam em revirar as poucas lembranças dela e agora essa cena de esconde e esconde... Por que ela estava fazendo isso... se ela sabia meu nome, porque não me encontrava, por que não se apresentava a mim? Não queria mais ficar ali, a música agora me irritava, mandei mensagem para você avisando que estava indo embora. Não esperei pela sua resposta, Javier, sai ainda procurando os vestígios dela lá do lado de fora.
Lembrei que o homem gigante falava com alguém ao celular, provavelmente a patroa, pois ele dizia o tempo todo “sim, senhora..” “sim senhora...”, talvez a delinquente tivesse fugido da mãe controladora... talvez duma madrasta mafiosa... minha imaginação corria solta. Afinal, não tinha muito que eu pudesse fazer além de suposições.
Na saída, perguntei ao segurança da festa quem era aquele homem grande, se era algum colega dele... quem sabe ele o conhecesse. Mas não deu em nada. Acumulei ao meu novo vício por trens noturnos o das festas, passei a ir a festas como aquela, julguei que compartilhávamos um gosto musical parecido, bandinhas de indie rock desconhecidas, e conclui que isso facilitaria a minha busca. E apesar de gostar daquelas músicas, às vezes não passava da porta, às vezes entrava apenas para procurá-la entre os frequentadores, mas não a encontrei uma vez sequer.
Uma tarde, saindo da faculdade, vi de longe o homem grande que eu suspeitava seu segurança, ele se dirigia para o estacionamento. Meu coração disparou... corri o mais que pude, mas quando cheguei ao estacionamento, lá em baixo, um carrão preto dirigido pelo grandalhão passou lentamente diante dos meus olhos... ela estava no banco de trás... Por um momento pensei que o carro fosse parar e que ela viria ao meu encontro, mas nada disso aconteceu. Fiquei cega de raiva e frustração... ela estava apenas brincando comigo? Talvez não passasse de uma babaca sádica... talvez estivesse ali por outro motivo e nem se lembrasse mais de mim...
Sorri que nem idiota, por puro desespero... e a única coisa que pensei era que eu devia ter anotado a placa daquele carro, ainda que eu soubesse que isso não adiantaria nada pois eu não saberia o que fazer com o número... todavia, se tivesse anotado, teria ao menos uma prova de que, em algum lugar, ela existia de fato, em alguma ruma ela passaria de carro e quem sabe eu pudesse reconhecer seu carro pela placa... se voltasse a passar por ela na rua... será que eu voltaria realmente voltaria a vê-la? Tive uma vontade patética de passar meus dias vigiando aquele estacionamento, conferindo todos os carros que passassem por mim nas ruas a procura dela...
Alguém buzinou atrás de mim, eu estava no meio do caminho... sai triste dali repassando na minha cabeça o que eu andava fazendo... tanta energia gasta por causa de um fantasma. Não tinha a menor graça, eu estava agindo como uma pessoa obsessiva e a troco de nada.
III
Quando cheguei em casa, havia uma carta para mim na portaria. O que era meio surreal, afinal, as únicas correspondências que a gente costuma receber nessa vida são contas. Seria ela? Senti que a calma amargurada que me tomara cedia rapidamente para uma nova dose de euforia... Era ela! Adivinhei pelo perfume do papel de carta onde ela dizia o seguinte:
“Ana, estou escrevendo estas linhas para me desculpar pelo meu comportamento. Você acha que estou brincando com você, mas isso não é verdade.
Mas eu estaria mentindo se negasse que tenho evitado encontrá-la. O caso é que estou enfrentando uma grave cadeia de circunstâncias que também poderia chamar de Fado, destino, drama familiar, enfim... O caso é que não posso ignorar a realidade do que devo enfrentar neste momento. Mas juro por todos os deuses, Ana, está sendo uma tortura desumana este sacrifício a que devo me entregar, porque estou completamente apaixonada por você...
Ainda assim, tenho que dizer, ainda que me parta o coração, você deve parar de me procurar. Eu não sirvo para você. Fique longe de mim, eu imploro.
J.”
Fiquei tonta... reli mil vezes as palavras para confirmar se ela havia mesmo se declarado para mim. Alternei os estados de ânimo antes de finalmente cair no sono, se gostava de mim, porque não podia ficar comigo? Ela era mesmo da máfia? Que rolo era aquele... será que eu devia acreditar naquilo? Não dizia nada com nada e dizia para eu me afastar? Como assim me afastar, eu nem era capaz de encontrá-la de qualquer forma... por que me mandar ficar longe se ela era quem ficava deixando rastros de sua presença em tudo? Por que usar apenas a inicial mesquinha de um nome? Por que ela num assinara com o seu nome? Que nome seria esse com J.? Talvez fosse mesmo melhor deixar passar essa história, esquecer e cuidar da minha vida.
Era começo das férias, depois de um longo, longo semestre. Programei-me para duas semanas de maratonas de séries, cinema e videogames. Nada a fazer na rua, eu estava fugindo daquele fantasma e disposta a esquecer daquele pseudodrama no qual quase entrei à toa. Depois de uma semana, acordei melancólica, a carta de J. ainda estava na gaveta do meu criado. Reli as suas palavras e me senti insensível, medrosa... ela disse que estava apaixonada! Como que ela teve coragem de dizer aquilo... ela nem me conhecia... seria mesmo verdade?
Resolvi sair um pouco de casa, tomar um pouco de sol. Quando voltei, passei pela caixa do correio e vi que havia outra carta... porra... desde quando estaria ali? Minhas mãos tremiam enquanto eu rasgava o papel para ler:
“Ana.
Eu não quero trazê-la para a loucura que estou vivendo, por isso mantenho esta distância de você. Ainda assim, me consola vê-la passar de longe no trem, ou entre as prateleiras de livros da biblioteca... onde você tem estado este tempo todo? Você me tirou a minha única alegria, vê-la passar perto de mim, de vez em quando.
Daqui a três dias, na lua minguante, viajo com minha mãe para Minas Gerais. Gostaria de vê-la mais uma vez e dizer adeus apropriadamente, olhando nos seus olhos...
J.”
A carta era datada de 3 dias atrás, ela estava partido hoje! Eu disse para mim mesma, caindo sobre a cama... ela estava partido e eu ali assistindo séries e chorando sozinha. Mas isso que dava uma pessoa usar cartas em pleno século XXI... Porra!
Como eu irei encontrá-la? Dois minutos depois eu entrava num taxi e pedia para ele me levar urgentemente para o endereço do remetente da carta. Se eu tivesse sorte, encontraria J. em sua casa. A cada esquina, a cada curva, eu ia imaginando como seria casa de J. Qual seria a sua história e sua questão de família... a ansiedade crescia... Quando o motorista parou diante do grande portão de ferro daquela mansão eram 18 horas. Pedi que ele esperasse e toquei o interfone. Ela havia partido... Porra... Mas, deixara um cartão para mim, caso eu aparecesse. A esperança voltava lentamente... Havia no cartão um número de celular... Finalmente! Eu sorri sozinha... quem sabe eu a encontrasse ainda...
IV
Quando voltei para o taxi havia escurecido completamente. Adicionei o número deixado por J. na mesma hora. Não consegui esperar chegar em casa, li as palavras do cartão mas não entendi nada, parecia um encantamento... sei lá... que garota estranha... Fiquei encarando o celular, sem saber o que mais podia fazer. Pensar que ela a qualquer momento poderia falar comigo em enchia o coração de esperanças e ansiedade. Não sei se você concorda, Javier, mas a paixão é meio que uma fome sem fim...
Em casa, cai num sonho pesado ainda com o aparelho na mão e sonhei que chegava a uma grande fazenda do interior onde J. estava hospedada com a mãe. Ela cantava ao piano e eu assistia escondida atrás duma cortina muito pesada, eu não conseguia me mover... de repente, o sonho mudava, eu estava no jardim olhando através da janela. J. usava vestido e tênis brancos, seus cabelos um pouco mais escuros, ainda bem curtos mas já escondendo as tatuagens da sua cabeça. Como ela estava ao piano, de costas para as janelas, eu podia enfim ver suas tatuagens da sua nuca e das suas costas.
Mas então, ela parava de cantar e se virava para mim e eu me assustava por ser descoberta ali, sorrateira e à espreita como um stalker. O sonho mudava de novo e eu agora estava no escuro, dentro daquele casarão, tateando a procura de J. De repente, ouvia a voz dela dizendo para segui-la... subíamos uma escada muito longa no meio da escuridão, um abrir e fechar de portas e estávamos na cama dela... O sonho mudava de novo, eu estava no meio do jardim e via sua sombra se aproximando, todos na casa dormiam, e nós falávamos sussurrando, de mãos dadas. Havia tanto por dizer e ainda assim eu sentia que não era preciso dizer nada... eu só precisava entender o motivo daquelas estranhas fugas...
Afinal, de que diabos J. fugia?
Outra mudança, agora estávamos numa mesa de café da manhã... J. me servia café e confessava que mal podia esperar para dormir mesmo comigo... Eu ficava encabulada e ela ria da minha cara... Então eu me lembrava de que aquilo era um sonho... Ela parecia ouvir meus pensamentos e dizia que não se importava de ver assim apenas em sonhos. Eu sorria... que diferença fazia se era sonho... parecia tudo tão real... Nova mudança... agora estávamos no jardim, no meio de um estranho labirinto de relva, e ela me dizia muito séria que o importante era eu estar ali...
Eu protestava – Não estava ali, estava no meu quarto, ela que não estava comigo, ela que havia ido embora sem mais nem menos...
Mas então eu via a tristeza nos olhos dela e me desculpava apressadamente. Ela dizia para que eu não me desculpasse, que não era preciso, que ela não tinha direito de se zangar comigo.
A única coisa que eu conseguia pensar diante daquela resposta ambígua era que ela receava me dispensar pessoalmente... Mas J. respondia antes mesmo que eu pudesse colocar isso em palavras – dizendo que eu de fato tinha muitos motivos para suspeitar dela... mas que não... ela não era membro de gangue, nem era de máfia nenhuma...
Então eu a olhava nos olhos e a via que ela estava chorando. Eu me levantava ia até ela, para abraçá-la... sua pele era tão macia que eu não queria me afastar dela, poderia abraçá-la para sempre. Aquilo era mesmo apenas um sonho dentro de um sonho? Era uma pena... eu não queria que acabasse...
— Perdão... eu lhe dizia ao ouvido.
Mas ela respondia dizendo que me amava, assim, de supetão... assim comigo ainda abrando-a... e eu ficava ali, parada, estreitando-a entre meus braços, sem saber o que fazer. Ela então ria muito... e depois votava a ficar séria... como se tivesse falado mais do que devia... E eu duvidava um pouco... aquilo era mesmo sonho? Eu sentia que estava muito consciente de mim mesma e dela também, era como ali se nos comunicássemos numa outra língua, mas íntima, mas profunda e na superfície apenas estivéssemos num jogo, num passatempo.
Ela interrompia então meus pensamentos e ensaiava uma explicação – Não estou fugindo de você por não gostar de você. Pelo contrário... estou fugindo porque te amo...
Eu protestava – Mas porque sofrer assim à toa? Isso não faz sentido... e J.? Por que você não me disse nem mesmo a porra do seu nome? – E antes que ela voltasse a falar eu dizia que a amava também e que não entendia porque ela estava fazendo aquilo...
Eram, segundo ela, as forças do destino. Ela dizia que não havia planejado nada daquilo para si mesma... e então ela dizia seu nome para mim:
— E meu nome é Josefina... eu não gosto muito, é meio antigo, mas mamãe diz que tenho que ter orgulho, pois este era o nome da minha tataravó... ela disse meio amargurada e eu senti uma grande tristeza naquelas palavras.
E então ela dizia que já que eu acreditava mesmo amá-la, ela iria me conta sua história, como prova de alerta, como sinal de perigo para que eu reconsiderasse o achava que sentia por ela, para que eu voltasse para a minha vida. Tive vontade de protestar, mas lágrimas rolavam dos olhos dela... parecia coisa séria... Sentamo-nos num banquinho qualquer do jardim para que eu pudesse ouvi-la.
Eu vou lhe contar... mas antes preciso ter certeza de que você compreende que há uma distinção entre amor e paixão... você disse que me ama, Ana, mas não sei se você faz ideia do que amor significa de fato...
— Você fala como se fosse a minha avó, J.! Não entendo como pode adotar este tom de maturidade arrogante comigo se claramente você é bem mais jovem que eu...
— Madura e arrogante? Bem mais jovem? Ela ria alto e eu de fato nervosa...
— Eu te amo, repeti surpresa com a força da minha própria convicção, devia ser coisas de sonho... era mesmo amor? Eu nem a conhecia... mas me sentia muito aliviada em dizer aquelas palavras, mas, porra... amor era uma coisa muito grave...
— Ok, mas e se eu fosse uma velha? ela interrompeu meus pensamentos, dizendo muito séria.
— Você é uma jovenzinha estranha isso sim!
— Você não tem como saber... mal me conhece...
De fato, eu mal a conhecia, mas sentia que minha vida estava ligada à dela de jeito definitivo demais, de um jeito profundo demais para que eu pudesse resistir.
— Me diga a sua idade e acabamos logo com essa besteira, Josefina... chamei-a pelo nome, pela primeira vez e a abracei.
Ela se desvencilhou do meu abraço, sua voz ficou meio soturna...
— Ana, me escute... vou falar sério agora... você pode escolher acordar agora e ter vagas recordações de mim e continuar a sua vida sem mais sobressaltos. Ou você pode escolher ficar aqui comigo mais um pouco e descobrir uma verdade que talvez lhe assuste...
— Não me peça para ir embora, muito menos para esquecê-la... por favor... Isso foi o que consegui dizer.
— Imaginei que você diria isto, mas você é muito jovem para entregar sua alma a uma causa tão perdida como eu, Ana...
— Se imaginou o que eu diria, porque me fez dizer então? Perguntei, já ficando irritada.
— Porque — ela disse elevando a voz exaltada — porque eu já vivi muitas vidas, Ana, e estou cansada de perder quem eu amo para o tempo... é por isso! Porque eu coleciono túmulos e memórias que não me deixam dormir quase nunca...
— E o que isso quer dizer... Josefina?
— Quer dizer que eu sou uma bruxa, Ana! Uma bruxa velha... viúva e cheia de lutos e eu estou cansada pra caralho de sempre ficar sozinha no final...
A sua voz soava profunda, cheia de amarguras, seus olhos perdiam-se não sei onde e do nada ela começou a solução numa crise de choro...
V
Ficamos abraçadas até o sol nascer, em silêncio... ela perdida em sofrimentos incompreensíveis para mim e eu tentando entender se ela falava sério ou era tudo efeito maluco do sonho. Quando o sol começou a brilhar, ela levantou a cabeça, era tão linda ali na minha frente expondo para mim sofrimentos dos quais nunca se queixava com ninguém, nem mesmo com sua mãe. A primeira coisa que ela disse, rompendo o silêncio em que caímos por um longo tempo foi se eu não queria reconsiderar e partir de volta para a minha vida... acordar e lembrar dela apenas como um sonho estranho, meio maluco...
— Não... agora eu quero saber tudo e depois olhar para você até eu me cansar de olhar para você e então eu vou começar a te beijar e só depois disso eu vou acordar ou voltar para casa, sei lá e então... só então eu vou ficar sozinha e pensar sobre isso tudo e vou pensar em você, olhando pela minha janela. Essa é a minha palavra final, Josefina. Mas ainda não entendi direito essa sua história...
— Você não existe, Ana... eu é quem devo estar sonhando...
— E você querendo que eu fiquei longe e engula isso tudo que eu sinto sozinha no meu quarto? Você quer que eu enlouqueça?
— Não... eu quero você me ame, mas o que eu quero é muito egoísta...
— Egoísta é fugir de mim...
— Não fugirei mais de você, Ana.
— E agora você vai me explicar essa história de bruxa, ok?
— Você quer mesmo saber?
— Não me esconda nada...
Javier, o momento da verdade para mim começaria naquele momento... tudo dependia dessa verdade que eu precisava saber e decidir se queria enfrentar para ter aquela moça para mim, sem que ela fugisse ou se espreitasse ao meu redor como uma sombra ou um sonho. E é claro que eu tinha receio de que aquela história toda de bruxa não passasse de um sonho envolto em neblina. Foi, pois, com o coração acelerado que eu me preparei para ouvi-la.
Ela segurou a minha mão e me contou de séculos e séculos de perseguição ao seu clã, de poderes malucos e de uma relação visceral com a natureza, da maldição que alguns carregavam, frutos de batalhas mais antigas que o tempo... que ela também carregava a sua própria maldição, o que lhe de tempos em tempos a amargurava profundamente. Disse-me que a fora amaldiçoada a nunca envelhecer e que já há muitos séculos era uma jovem condenada a ver todos a quem amasse envelhecerem e morrem sem que ela pudesse lhes acompanhar.
Disse que havia tentando de tudo e tudo falhara... sua mãe, cuja maldição era de outra ordem, mas que compartilhava com ela essa resistência ao tempo, tentava todos os recursos, todos os encantamentos, todos os segredos para tentar livrá-la daquela prisão e ainda assim nada nunca funcionara. E por isso, ela hesitava, pois se sentia condenada e sofria em antecipação a morte, o luto e a solidão que lhe ficariam no fim das contas... era uma velha e estava amargurada... isso não era algo que sentia-se incapaz de curar, era o pior efeito da sua maldição, essa amargura corroendo toda a sua existência... esse sentimento de estar fora da ordem e do tempo, de estar perdida e condenada a vagar fora da vida...
Ouvi tudo com absoluta atenção e quando ela se calou esperando que eu dissesse algo, eu a beijei.
— Então você me ama mesmo?!! Ela disse, numa voz que misturava emoções contraditórias, profundas...
E eu enfim acordei... o celular me despertava... tocava com a urgência de uma ligação... era ela!
Quando ouvi a sua voz não consegui dizer palavra alguma... ainda não me desvencilhara do sonho... acordar ali parecia uma extensão do momento anterior, parecia que ainda nos falávamos num sonho... Eu de cá da linha, não sentina necessidade de dizer nada, apenas ouvia enquanto ela me passava um endereço, sua voz era tão linda ao telefone... meio grave... Ah, o endereço... sim, era uma velha cidade centenária em Minas Gerais. Eu estava pensando como faria para chegar até quando ela interrompeu meus pensamento explicando que eu não deveria me preocupar... alguém me pegaria em casa em meia hora.
Uma fazenda tranquila em Minas Gerais, longe do barulho e perto de deus, como dizia a minha avó. Enquanto eu improvisava uma mala, pensava em viver com ela, plantar flores e criar animais... Eu não lembrava de me sentir tão feliz antes na vida... eu também não me lembrava de ter gostos tão bucólicos... sério? Plantar flores e criar bichos? O que estava acontecendo comigo? E caramba... Ela havia dito que me amava... e, pior, eu havia dito que a amava também... só em sonho mesmo para eu ter tanta coragem assim...
E aquele lance de bruxas? Aquilo me assustava um pouco... que será que aquilo queria dizer? Seria metáfora de alguma coisa? Será que ela estaria falando sério! Será que tinha problemas psicológicos? Eu ficava preocupada por alguns minutos, depois voltava a sorrir patetamente... que fazer, Javier, era mesmo amor.
O segurança grandalhão bateu na minha porta meia hora depois... ele me levou até o aeroporto e de lá embarcamos, ele e eu, num jatinho. Adormeci e, quando acordei, estávamos na última etapa da viagem, aterrissando em um aeroporto particular em uma fazenda de uma cidade realmente antiga... do aeroporto, mais 30 quilômetros numa estrada de terra antes de chegar até a fazenda mais distante de todas... a da mãe de Josefina. De fato, elas pareciam estar se escondendo não só de mim, afinal...
VI
No meio dos sacolejos e solavancos da estrada, o grandalhão me entregou um envelope. Era uma outra carta de Josefina:
“Não é por ter sonhado comigo que deixo de lhe dever algumas explicações, Ana.
Aqui vai um resumo menos onírico da minha vida... Nasci no século XV, sou de uma linhagem antiga de bruxas, como lhe disse no sonho, minha maldição é não envelhecer, o que parece uma dádiva, você poderia pensar. Todavia, esta maldição também tem seu lado amargo, bastante solitário, eu diria... ainda mais depois de tantos séculos! O meu único alento é ter mamãe a me acompanhar nessa solidão longa demais. Enquanto ela não conseguir quebrar a maldição, vamos vagar sozinhas pelo planeta, através dos tempos... condenadas a viver um luto acumulativo, uma solidão errática.
Semanas antes de nos encontrarmos no trem, mamãe havia enfrentado um dos seus mais ferrenhos inimigos, o velho Ulrich... Acredite, quem vive tanto tempo assim acumula muitos inimigos... o velho atraíra mamãe para uma armadilha enquanto ela procurava um fim para a minha maldição. Mamãe é muito poderosa, sabe... mas, ela tem um ponto fraco: eu... seus inimigos todos sabem disso. O velhor Ulrich mandou seus servos me sequestraram para me usar como um trunfo, ele queria que mamãe se entregasse, o que significaria que ela se deixaria matar pelo velho bruxo asqueroso. Os servos de Ulrich rasparam meus cabelos, me deixaram sem comer e longe do contato com a terra, o que me enfraquece mais que qualquer coisa... depois enviaram fotos de mim nesse estado deplorável para mamãe...
O que o velho não contava com este plano era que mamãe se enfureceria além do que ele esperava... ele não imaginava que ela continuava tão poderosa depois de tantos séculos... ele mesmo não era mais o mesmo de antigamente e supôs que os poderes dela também haviam decaído como os dele... mas mamãe sempre escondeu seus poderes como uma velha muito avara esconde montanhas de ouro... Ela e Charles conseguiram me libertar sem maiores complicações, mas não foi nada bonito, aliás foi muito traumático, muitos morreram, inclusive o velho Ulrich e eu ainda não consegui me recuperar desse episódio. Mamãe se culpa até hoje e desde aquele episódio ela tem restringido a minha liberdade, proibindo-me de sair de casa... tive que trancar a faculdade!
Foi lá que te conheci Ana... eu sei que você nunca me viu, mas eu costumava ficar te observando na biblioteca todas as tardes... seu jeito bobo de percorrer estantes aleatórias, escolher um livro pela capa e ficar horas lendo... como se não existisse mais nada... Um dia você me se sentou ao meu lado no anfiteatro... pensei em falar com você, mas não tive coragem, fiquei em silêncio apreciando a sua companhia... pensei em falar com você no dia seguinte, mas então fui sequestrada ao me dirigir para o metrô...
Depois de tudo aquilo, as coisas ficaram mais complicadas... mamãe me disse para não voltar à faculdade, eu já havia feito tantas mesmo... Foi então que eu passei a fugir de casa... quando te encontrei no trem, fugia de Charles (Charles era o segurança grandalhão...). Mamãe sempre fora rigorosa com a minha segurança, e apesar da minha idade e poderes, ela ainda me trata como se eu fosse criança... por isso, nos últimos tempos nós temos brigado muito. Não consigo mais viver todo tempo presa a ela e a nossa miséria... Quando fui atrás de você, naquela festa, mas Charles me encontrou. Depois a vi no estacionamento quando ela me permitiu voltar a faculdade para ao menos trancá-la...
Não queira saber sobre os castigos de minha mãe... ela sabe ser terrível às vezes... E eu fugia então com muito custo... e se saia para lhe procurar, encontrava Charles vigiando os seus passos como um cão de guarda e, desse modo, se eu me aproximasse de você, mamãe saberia que eu havia fugido novamente... e me castigaria.
Afinal, mamãe percebeu bem antes de mim que eu havia me apaixonado e temendo que eu me expusesse a mais algum perigo me arrastou para cá. Ana, estamos sendo seguidas por alguns velhos inimigos de mamãe, depois da morte do velho Ulrich, os ânimos se acirraram... De modo que, neste momento, ela precisa de minha ajuda para nos manter em segurança. Foi por isso que só me sobrou o recurso do sonho, Ana... aliás, me desculpe por isso, eu sei que pareceu algo meio maluco...
Mas eu não posso escolher entre mamãe e este amor, Ana... não posso fazer esse tipo de escolha... por isso pedi que viesse, contra todo bom senso... contra o desejo de mamãe... me perdoe se a coloco certamente em perigo, mas quando você me disse sim, quando você me disse quem me amava, mesmo sendo num sonho, tive medo de perder a cabeça e ir até aí te acordar pessoalmente daquele sonho... não consegui resistir a você Ana, eu sinto muito...
Porém, se você quiser voltar e não se envolver em toda essa maluquice, diga ao Charles e ele lhe levará para um lugar seguro e ficará cuidando de sua segurança... Se não disser nada a ele, eu a verei daqui a pouco.
Josefina.”
Quando terminei de ler aquelas linhas, percebi que chorava... que emoção era aquela como se a minha vida estivesse sendo decidida naquele instante? Eu realmente havia me apaixonado por uma bruxa? Ela era mais velha que eu... impossível... Em que loucura eu estava mergulhando eu não sabia direito, Javier...
VII
Mas as emoções daquela viagem estavam longe de acabar... a trapaceira havia me reservado outra surpresa, Javier.... quando chegamos na fazenda lá só estavam os caseiros... Havia outra maldita carta me esperando... e essa mania de cartas, porra! Por que não usar um celular como todo mundo, meu deus!
“Muito bem, você veio mesmo... todas as minhas certezas fraquejam agora, Ana... bruxa ou mulher, sua persistência torna-se irresistível para mim. Isto de fato deve ser amor, e para isso não há cura...
Ainda assim, imploro mais uma última vez que você pense com calma no que vou lhe dizer...
Acabo de partir para a Europa... sim... neste momento estou provavelmente embarcando... desculpa se parece que lhe enganei, mas as coisas se complicaram aqui. Mamãe precisa de minha ajuda para dar fim a esta situação de guerra com seus antigos desafetos, pois tudo isso tem se tornado perigoso para nós. Quem sabe um dia eu lhe contarei todos os detalhes. Por enquanto, resta a você saber que a amo verdadeiramente... E que o meu desejo maior é não tragá-la para os meus problemas estranhos de família... Agora, se não estiver muito zangada comigo, escute a minha proposta:
Eu sei que você está acabando a faculdade... e esse é mais um motivo para não fugir atrás de ninguém, sei também que você tem família e que neste momento eles podem estar preocupados com esta sua súbita viagem mal explicada para Minas Gerais. Por isso, coloco entre nós um cruel espaço de 7 meses e 24 dias, mais um Oceano inteiro... sinto muito por isto, Ana... mas desejo que não se precipites, baby! Desejo que antes de me dizer sim, você finalizes as suas próprias obrigações e coloque as coisas em ordem... sei que pareço um pouco fria, Ana, mas isso deve ser coisa da idade... eu disse que era muito velha, e de fato sou muito velha... e a idade me deu a certeza de que o amor não deve nos tirar dos trilhos, mas nos levar além deles...
Então... se você tiver forças para aceitar este meu amor difícil, eu lhe digo: venha! Se você aceitar, Charles lhe entregará um celular com o qual poderá enfim falar comigo e outro envelope contendo uma passagem para a Itália, para a data de daqui a 7 meses e 24 dias.
Adeus, ou até breve...
PS: No celular lhe deixei uma foto minha, peço que me mande uma sua... independentemente da sua resposta, lembre-se de mim com carinho.
PS: Se você vier, iremos aonde você quiser, aonde a vida nos levar e pelo tempo que for... eu temo, mas ao seu lado eu aceito o que vier.
Sua, Josefina...”
VIII
Do resto da história, Javier, você conhece os pontos principais. Passei os seis messes seguintes vivendo como um autômato... contava cada dia, cada hora teimosa. Passava horas falando com Josefina pelo celular e às vezes ela passava dias sem dar notícias, às vezes parecia cansada... dizia que estavam perto de uma resolução daquele conflito do qual eu apenas fazia uma vaga ideia... Ela às vezes dizia que quando eu a visse, talvez só encontrasse uma velhinha muito mirrada, muito antiga e com os olhos murchos... eu me preocupava, mas ela dizia que era brincadeira... mas não tinha graça... Para enfrentar esta amargura, ela me deixara outro encantamento dos sonhos... a distância não permitia que funcionasse sempre, mas vez ou outra nos encontrávamos de um jeito maluco, indescritível, além de qualquer palavra...
Quando enfim desembarquei na Itália, Charles me esperava no aeroporto.
Só uma coisa eu posso lhe dizer, Javier, todas as misérias, sobressaltos e incertezas morreram no momento em que voltei a ver aqueles olhos brilhantes de Josefina. A Itália, Javier, era linda... só não era mais linda que ela... Sua mãe nos esperava na França, a maldição não parecia ser mais um problema... parece que haveria por fim uma solução quando chegássemos à Paris. Por enquanto, estaríamos de férias de mundo inteiro e Nápoles seria o nosso refúgio do mundo. Casamos um ano depois, como você se lembra Javier... e desde então o mundo inteiro tem sido a nossa casa.
De um atraso casual numa noite fria, nasceu esse nosso amor maior que a vida, maior que o mundo, maior que as maldições. Ah, sim... a maldição... esqueci de lhe contar sobre o que se deu com a maldição... Javier, eu sei que você com certeza quer saber que destino que teve a maldição de Josefina... Quando passarmos pelo Brasil ela e eu lhe contaremos tudo... certas coisas é melhor que não sejam escritas. Um grande abraço de sua amiga que não lhe vê há tempos...
Ass.: Ana.
FIM...
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