O Torturador
3 Lembranças
Notas iniciais
“Eliot estava escondido atrás da parede escutando seus pais discutindo na cozinha. Ele havia chegado mais cedo do colégio e ouvira os berros do pai, então se escondera e espiava pelo buraco na parede de barro, já muito velha. Seu pai chamava sua mãe de vagabunda e safada. Ela se acanhava no canto, morrendo de medo. Aquela cena se repetia toda semana; seu pai passava dias fora, para depois voltar bêbado e atacar sua mãe, com socos e chutes, além das agressões verbais. Mas naquele dia ele ultrapassara todos os limites. Depois de bater várias vezes no rosto da mulher, ele a segurou, encostou-a na parede e a estuprou, enquanto ia dando mais tapas e socos em sua cara. A mulher só chorava, então ele a amarrou em cima da mesa, pegou uma faca, e com a mulher semiconsciente, começou a esfolar a pele de sua coxa.
Eliot olhava para a cena horrorizado, aquele monstro não podia ser seu pai. Ao mesmo tempo em que queria fazer alguma coisa para ajudar a mãe, ele estava paralisado, primeiro por medo, depois por um sentimento estranho que ele não podia descrever. Ele observava o pai esfolar as pernas da mãe e mutilar o órgão sexual dela, juntamente com dois de seus dedos da mão, colocando as partes mutiladas em potes com algum material para conservar. Nesse momento Eliot fez algum movimento que fez um barulho mais alto, pois seu pai olhou naquela direção e começou a correr e gritar atrás dele. Então, se virou e saiu correndo como louco até a casa do vizinho. O pai vinha correndo todo ensanguentado com a faca na mão...” Nesse momento uma voz feminina chamou o Dr. E lhe tirou de seu pesadelo. Ele estava de volta ao hospital.
– Doutor, a paciente que foi vítima de esfolamento acordou. Vim chamá-lo como o senhor havia pedido. Ela está com muitas dores, é para preparar alguma medicação especial?
– Primeiro deixe-me ver como ela está, depois disso vemos a questão da medicação.
Então ele foi até o quarto da moça. Talvez aquela fosse a melhor parte depois do ataque: o momento do reencontro, o momento em que ele poderia ver de forma clara o estrago que havia feito. Ele quase poderia controlar o tempo da moça no hospital, e também o quanto ela sofreria. Obviamente ele queria que ela sofresse o máximo possível, mas ele não poderia fazer algo muito na cara, pois ali haviam vários outros médicos que poderiam perceber se ele atrapalhasse o tratamento. “Esse é o lado ruim de uma cidade grande” , ele pensou.
Quando chegou no quarto e viu a cara de dor e sofrimento dela Eliot sorriu por dentro. Outra onda de prazer crescia dentro dele, então falou:
– Olá sou Doutor Eliot e vou cuidar do seu caso nesse período aqui no hospital. Posso dar uma olhada nos ferimentos?
A moça fez que sim com a cabeça, então, de forma lenta, ele foi tirando as ataduras e curativos do corpo dela. Lágrimas saiam de seu rosto, e ela gritava de dor. Dr. Eliot disfarçava sua felicidade.
– Nossa que coisa feia que fizeram com você, por acaso você se lembra quem fez isso e por que?
Com muita dificuldade ela respondeu:
– Não me recordo direito Doutor, me lembro que estava passando pela rua quando fui atacada e quando acordei já estava no hospital.
Aquilo deixava Eliot ainda mais feliz, pois ele tinha tomado todos os cuidados para evitar que fosse descoberto. Agora conseguira comprovar que não houvera nenhuma falha.
Reparando no sangue que corria pela carne da paciente, o coração dele palpitava. Porém ele precisava se controlar. Pegou seu celular e tirou algumas fotos, alegando que era para poder analisar a evolução do tratamento e também para mostrar aos demais médicos da equipe, para evitar ter de abrir os curativos mais que o necessário.
Depois de terminar o exame, receitou uma dose de medicamentos para aliviar a dor. Ele recomendou uma dose um pouco abaixo do que o normal pra casos parecidos, pois assim ela sofreria mais, então voltou a atender seus demais pacientes até que seu turno terminasse.
Assim que terminou seu turno, Eliot foi para casa e se dedicou em ajeitar seu porão. Ainda estava arrumando os detalhes de seu laboratório subterrâneo. Seu plano era fazer algo grande, além de isolar todo o som, caso precisasse deixar alguém em cativeiro. Contudo, por enquanto o lugar tinha apenas a velha cadeira de tortura e a mesa onde ele deixava suas ferramentas durante o trabalho. Na parede estavam pendurados seus prêmios; seu cachecol, alguns pedaços de pele e na estante os vidros de conserva onde estavam olhos, dedos, mãos, órgãos genitais e outros membros de corpos humanos. Sua coleção já estava grande, mas a cada dia ele sentia a necessidade de aumentá-la. Seu objetivo no futuro era inclusive ornamentar toda sua casa e móveis com pele humana, inclusive colocar alguns membros como mãos e pés como objetos decorativos. Entretanto ele teria que desenvolver um método para que o membro não apodrecesse nem perdesse cor.
Mas agora não era hora de pensar nisso. Em vez disso, ele pegou o pedaço de casaco já costurado e deu uma boa olhada. Então, pegou o restante da pele que ele havia tirado da moça, e cheirou por um longo período. Ele podia sentir o cheiro doce do perfume que ela usava juntamente com o cheiro de sangue, isso lhe dava muito prazer. Então ele sentou-se à mesa e começou a trabalhar nos detalhes de seu casaco. Ele já tinha feito as mangas e boa parte do corpo, mas ele ainda era muito fino, precisava de mais camadas. Isso significava que ele precisaria fazer mais vítimas. Porém agora não era hora de atacar outra pessoa pois fazia pouco tempo que havia executado um ataque. O próximo teria que ser do outro lado da cidade e de forma mais discreta, inclusive ele não poderia nem deixar o corpo próximo ao seu hospital, isso significava andar por toda a cidade com uma pessoa desmaiada e sangrando dentro de seu carro. Tudo deveria ser bem planejado.
Enquanto ele costurava as partes que faltavam, veio-lhe na cabeça a ideia de fazer uma mascara. Assim ele poderia atacar suas vítimas enquanto elas estavam acordadas, o que lhe deixava mais alegre, pois assim ele veria a pessoa sofrer, chorando e pedindo por clemência a cada ataque dele com a faca. Ele também planejava usar algo para poder modificar a voz, assim ele poderia fazer ameaças, sem ter o risco de ser identificado posteriormente. Tendo essa ideia na cabeça, ele pegou os restos de pele que tinha e começou a confeccionar uma máscara. Era muito detalhada, e fazendo com todo cuidado, ele viu que precisaria roubar um lábio, e talvez couro cabeludo, assim ele poderia fazer a máscara perfeita. Mas por enquanto a que ele tinha feito havia de servir.
Quando saiu do seu laboratório, Eliot viu que já era passado da meia-noite e ele tinha ficado horas lá embaixo, então passou pela cozinha pegou algo para comer e foi para seu quarto dormir.Durante a noite o pesadelo veio a sua cabeça novamente.
“Agora ele chegava até a casa do vizinho, que já vinha em sua direção ouvindo os gritos desesperados do garoto. Então viu o homem ensanguentado que vinha correndo atrás dele. O homem pegou o menino nos braços levando-o para dentro. Trancou a porta e ligou para a polícia, enquanto o pai de Eliot batia à porta e tentava quebrá-la. Ele gritava pedindo apenas que lhe entregassem o garoto. Eliot chorava de medo, não podia acreditar que aquele monstro era seu pai.
Sua mãe estava morta. Eliot sabia disso. Com 10 anos ele já tinha um bom entendimento sobre o corpo, pois além das aulas de ciências ele analisava os animais, e muitas vezes fazia dissecações. Sua mãe sempre brigava com ele, quando o encontrava mexendo nos animais, falava pra ele parar com aquilo e sempre parecia ter medo das ferramentas que o garoto segurava, como se tivesse algum trauma. Aquelas ferramentas eram de seu pai, ele deixava num armário, e não deixava ninguém pegar. Eliot sempre ia lá e as pegava no período em que seu pai ficava sem aparecer. Ele sempre reparou que sua mãe tinha grandes cicatrizes no corpo, parecia que a pele tinha sido arrancada ou queimada. Quando Eliot perguntava a mãe o que ela tinha feito, ela não respondia e começava a chorar. Agora, depois de tudo que havia acontecido, ele entendia pra que seu pai usava as ferramentas e por que sua mãe tinha tantas cicatrizes.
A mulher do vizinho abraçava Eliot, sempre pedindo para ele se acalmar e dizendo que tudo ia ficar bem, que logo a polícia chegaria levaria seu pai e ele poderia voltar para sua mãe. Enquanto isso, o vizinho tentava acalmar o pai de Eliot, pedindo para ele parar de tentar quebrar a porta e largar a faca,então eles poderiam conversar. Mas o homem estava louco, gritava mais alto, sempre dizendo que nada aconteceria com os vizinhos, ele só queria dar uma lição no filho, para ele parar de ser tão bisbilhoteiro.
Neste tempo a polícia levou o pai de Eliot e verificou a casa dele, infelizmente a mãe dele não havia resistido aos ferimentos e morreu.”
Eliot acordou suado, muito abatido também, pois ele amava muito sua mãe, e depois disso ele teve os piores anos de sua vida no orfanato. Do pai nunca mais teve notícias, acreditava que havia morrido na cadeia, ou pelo menos assim ele esperava.
Eliot começou com esses sonhos depois de ter fugido da última cidade, de ter se encontrado com o misterioso homem da cicatriz, mas ele ainda não conseguia identificar quem era aquele homem. Isso o assustava, pois ele sempre teve o controle sobre suas emoções e sentimentos e nunca tinha que se preocupar com seu passado, mas aquele homem fazia-o ter essas lembranças fortes, e fazia ele se preocupar muito com o passado.
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