O Toque (memórias De Um Servo Da Morte)
1 Introdução & Capítulo 1
O Toque
(Introdução)
As coisas sempre foram fáceis para mim, digo, tudo o que eu tocava rapidamente perdia o ar da graça, tudo o que eu tocava se desintegrava no tempo e era eternizado na memória daqueles que ainda não haviam sido tocados. Lágrimas, angústias, sentimentos, sonhos, objetivos, futuro, vida, coisas que definem um humano tolo, que mal enxerga o que está a dois palmos a sua frente, tudo acaba com apenas um toque. Estou nessa profissão há tempos. Sequer me lembro como eu era em minha humanidade e toda esta obsolescência chamada de vida. Assim que vim para esta parte da “vida” conheci o meu chefe. Era uma presença, grandiosa diante de mim, ao contrário do que se pensa ele não tinha uma foice, mas sim a mão com ossos expostos. Naquele momento ele me explicou o significado da vida, o significado da morte, o significado da eternidade. Se você está buscando estes significados nestas meras linhas, ó mero humano, largue isto, saia de casa, vá conhecer novas pessoas, degustar novos sabores- Quem sabe assim você não consegue ter algum entretenimento até que chegue o momento do meu toque.
Há muito tempo duas figuras divinas viviam tranqüilas em um plano espiritual e cansadas de ficar sempre de costas uma para a outra decidiram fazer um acordo. As irmãs Vida e Morte decidiram fazer um acordo. Enquanto a Vida criava objetos para deliciar-se e ocupar-se de todo o tédio daquele lugar vago, a irmã Morte não gostava de ver o divertimento da irmã e então fez uma proposta:
A Morte indagou: “- Vida, como estes seres tão pequenos podem proporcionar tamanha diversão¿ “
Vida com toda a calma que tinha respondeu: “As coisas simples devem ser admiradas, as coisas simples são belas, são tão pequenas, tão sensíveis... Eu apenas admiro isso... Essas coisas pequenas possuem uma coisa que nós, minha irmã, não temos...”
Morte, que sempre fora muito manipuladora decidiu fazer um acordo com a vida. Porque deixar aquelas criaturas dominarem e ocuparem todo aquele pequeno espaço de terra¿ A Morte decidiu fazer com que aquelas pequenas coisas, chamadas pessoas, quando tocadas por ela, simplesmente desaparecessem. Assim, a Vida teria mais espaço para seus novos brinquedos e a Morte poderia matar um pouco do seu tédio também às custas da Vida, que pouco à pouco se apaixonava por aqueles pequenos seres.
Com o tempo a Vida não gostava de perder seus seres únicos para a Morte, mas ela já não tinha o total controle da situação. Morte estava cada vez mais terrível, quando a Vida dava uma atenção especial para um dos seres, Morte apenas descia até a terra e a levava embora.
Alguns desses objetos tomados pela Morte foram transformados em um verdadeiro exército, assim nós –soldados da morte- descíamos até a terra e levávamos alguns objetos da Vida embora, tudo isso para aborrecê-la.
Estou à tanto tempo neste trabalhado que não me lembro das minhas memórias quando era um mero mortal. Ando por aí, tocando as pessoas e as vejo morrerem das mais variadas formas, mas eu nunca pensei que um dia iria cruzar com um ser mais forte que a Vida e a Morte, aquele ser que modificou o modo que eu via o mundo, aquele ser que simplesmente arrancava do meu interior as mais estranhas emoções e que me fizera cometer um grande erro.
(Capítulo 1)
Eu sempre gostei de andar por aí, tocando todos os seres que cruzaram o meu caminho. Algumas vezes alguns seres me chamavam a atenção. Uma vez eu cruzei o caminho de um ativista, antes de receber o meu toque decidi observá-lo. O nome dele era Carlos, ele saia pelo seu país, ajudava as mais variadas pessoas que necessitassem de apoio médico. Aquilo me irritava, os humanos aprenderam com os mais variados recursos a manipular o tempo a seu favor, criavam medicamentos, vacinas e os mais variados métodos para despistar nós os mensageiros da morte. Isto é culpa da Vida, que colocava no caminho desses seres as oportunidades para nos despistar por algum tempo. Tudo isso para que ela possa deliciar-se da presença de um ser por mais alguns segundos. Mas, quando chega a hora, nós simplesmente acabamos com tudo, e isto nem a vida pode controlar.
Voltando ao Carlos, depois de tanto ajudar os doentes (aliás, as doenças são uma versão em miniatura dos mensageiros da morte, eram cruéis e se autodestruíam junto com o corpo humano que dominavam) acabou contraindo uma doença. Lembro-me de vê-lo em uma cama, junto com os outros doentes, sua cara estava horrível, passava noites acordado sofrendo e julgando a Vida por ser tão cruel. Aproximei-me para escutar o que ele tanto sussurrava, estava cantando uma música dos “ The Beatles”. Achei aquilo ridículo, suas lágrimas escorriam pelo rosto, eu conseguia ver do que ele estava lembrando. Carlos estava pensando em sua família, estava pensando em seu esforço, em sua mulher e em tudo que acontecera de bom em sua vida. Mesmo agonizando esses seres por diversas vezes conseguiam ser positivos. Como eu desprezava isso. Subitamente Carlos se levantou, queria ver o lago que ficava em frente aquela cabana, feita de trapos, cheia de buracos, infesta pela dor e sofrimento, tudo estava escuro e Carlos sequer percebeu que esbarrou em mim. Chegou à beira do lago, sorriu e caiu. Logo uma multidão estava ao lado dele, um coro se formou, dizendo não. Com aquelas lágrimas poderíamos ter um lago. Dei as minhas costas, entrei na cabana e levei mais algumas almas perdidas comigo. Saí de lá sem olhar para trás. Será que sentiram a minha falta quando eu morri¿
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