O Toque do Vampiro
9 Capitulo 9
O motorista me deixou em casa, no meu apartamento. A casa de Victor ficava a mais ou menos 30 quilómetros da cidade. Não conseguia acreditar que finalmente estava em casa, o motorista abriu a porta, sai. Olhei para cima contemplando a beleza simplíssima do meu singelo apartamento e não consegui mais resistir, lágrimas rolaram no meu rosto, não tinha ideia de como sentia falta da minha casa, minha vida tranquila que nunca mais voltaria a ser a mesma graças ao Victor.
O motorista quis me ajudar a levar a mala para cima, mas eu recusei gentilmente sua ajuda, enxuguei as lágrimas e subi as escadas, ia ver Tanisha ― minha querida e melhor amiga indiana, além de ser uma óptima companheira, dividia meu apartamento com ela ― não estava com saco de vasculhar onde estava minhas chaves então optei por tocar a campainha, no primeiro toque Tanisha abriu a porta. Pude ver como as emoções passavam no seu rosto feito um rolo de filme ― surpresa, admiração, medo, raiva, compaixão e por último saudades ― num movimento rápido ela saltou e me abraçou carinhosamente e desesperadamente como se eu fosse o último fio de vida que restava e ela se segurava com medo de morrer.
“BAGUAN KELIÊ LEILA! Por onde voce andou?”
Não consegui esconder o destroço que minha alma estava perante aquele simples, mas significativo abraço, chorei nos braços de Tanisha, ela não falou nada e nem perguntou o porquê, limitou-se a me confortar. Era nessas horas que eu sentia saudades da minha mãe, por onde ela andava? Mas em compensação tinha uma amiga nota 10.
Já dentro de casa sentamo-nos no sofá, eu sabia que Tanisha merecia uma explicação pelo meu desaparecimento semanal, e eu precisava de uma boa amiga. Alguém que realmente pudesse confiar. Estava fatigada de mentiras. Precisava me abrir com alguém, mas alguém que eu confiasse, ninguém melhor que Tanisha. Decidi, iria contar toda verdade para ela.
Suspirei. Preparando minha alma para batalha que vinha a seguir, estava receosa da reacção de Tanisha, mas ela iria entender, afinal de contas ela era indiana e os indianos viviam suas vidas rodeados de deuses místicos. Além de que ela era minha melhor amiga.
“Tanisha, eu sei que te devo muitas explicações e darei. Por favor não me interrompa. Eu preciso que você oiça a história desde princípio para poder entender, e queria pedir para abrir sua mente e deixar minha história entrar. Por favor não se feche para mim.”
Como sempre Tanisha agiu com sabedoria, simplesmente abanou a cabeça fazendo-me continuar ela sabia que se abrisse a boca e começasse a exigir ou perguntar provavelmente eu desistiria de tudo. As vezes Tanisha era muito sábia para sua idade, devia ser uma coisa oriental. A sabedoria e paz de espírito nasciam com o povo asiático.
“A minha história não é comum Tanisha, ela é… um pouco fora dos padrões, mas não deixa de ser uma história de vida. Por favor não me julgue como louca porque o que eu vou dizer aqui pode soar estranho mais é a mais pura verdade.”
Parei alguns segundos para ver até agora qual era sua reacção, e nada! Ela estava bem. Calada. Mas seus olhos estavam interrogativos. O que a boca ocultava os olhos não escodiam, pelo menos ela me olhava com carinho e curiosidade. Tomara que continuasse assim.
Respirei fundo.
“Tanisha, eu não nasci numa família convencional. Meus pais, vamos dizer que eles são…ai meu deus. Isto está sendo mais difícil que eu imaginava. Também só existe um jeito de falar isto, tentei procurar palavras sábias, mas infelizmente minha base de dados estava esgotada. Tanisha meus pais não são exactamente normais, meu pai é lobisomem e minha mãe é uma curandeira.”
“Are baba Leila!”
Eu sabia que Tanisha ia ficar surpresa. Ela me olhou desnorteada sem saber o que fazer ou dizer, aposto que lutava com seu interior, Tentando decidir se eu estava louca ou ela estava delirando. Com certeza não esperava isto.
“Calma Tanisha! Eu sei que agora tudo parece loucura, mas não é. É a mais pura verdade. Deixe–me ultimar a história. Ela começou meio baralhada, mas vais entender. Posso?”
Se fosse possível, aquele seria o momento adequado para cruzar os dedos e esperar que tudo desse certo, mas eu não podia forçar a barra com Tanisha ela ia ter que decidir sozinha se ainda queria conhecer de verdade sua amiga ou romper o laço com a louca delirante.
“Tik ré Leila. Eu vou lhe dar oportunidade de se explicar. Pode falar.” Ela fez aquele gesto que só os indianos faziam com a cabeça, um tik, que significava sim.
“Eu nunca contei a ninguém o que vou te contar agora, espero sinceramente Tanisha que você guarde bem meu segredo. Estou depositando minha vida nas suas mãos. Só vou falar isto porque confio plenamente e incondicionalmente em você. Por favor não me interrompa até que eu tenha terminado. Bem, tudo começou com minha mãe, quando ela estava fazendo faculdade aqui, já te disse que ela vive em África, pois ela veio para cá fazer faculdade. Ela conheceu meu pai durante seu curso e foi amor a primeira vista. Começaram a desenvolver um relacionamento, mas logo as coisas complicaram, primeiro minha mãe era uma espécie de princesa africana na sua vila local que fica precisamente em Moçambique, Sofala. As culturas africanas são um pouco complexas melhor dizendo ocultas, ela era uma curandeira que carregava o espírito da sua família além de pertencer a um clã muito tradicional, os Dheweras.”
Parei um momento para ver como Tanisha assimulava a informação e até agora tudo bem, como diziam os indaianos׃ ainda estava parada feito uma coluna do tempo. Decide continuar.
“Segundo, já tinha um noivo designado para ela lá em Moçambique, enquanto meu pai era o filho primogénito de um líder de lobisomens, o clã Lucan. Mas mesmos assim eles conseguiam contornar as diferenças, o lobo e a bruxa. Mas quando o meu avô morreu, meu pai foi obrigado a liderar o clã e como alfa ele tinha que escolher uma esposa lobisomem também para garantir a linhagem pura do clã, mas neste tempo eu já descansava no ventre da minha mãe, eles tentaram ainda lutar pelo amor deles, mas foi em vão, o clã simplesmente não aceitava ter uma curandeira como esposa do alfa. Meu pai foi posto entre a espada e a parede, o amor ou o dever. Mas para decepção da minha mãe ele escolheu o dever e casou-se com uma loba, minha mãe ficou muito desiludida. O clã ficou sabendo do filho bastardo do alfa e arrancaram-me dos braços da minha mãe, ela implorou que não fizesse isto, mas eles não ouviram, minha mãe ficou muito revoltada e lançou uma maldição para meu pai, ela determinou que ele nunca mais geraria outro filho no mundo, só teria eu de consolo. Isto enfureceu meu pai, o amor tornou-se ódio, minha mãe não teve como lutar contra um clã inteiro de lobisomens e decidiu voltar para África me deixando aos cuidados do meu pai, assim esta sou eu Tanisha, Leila Dhewera Lucan. A mestiça, a metade bruxa metade loba. Dhewera é o sobrenome da família de minha mãe, eu não utilizou muito porque meu pai me proibiu de pronunciar este nome então me habituei a chamarem-me Leila Lucan, graças a deus minha mãe já havia me registado.”
Calei. Deixei Tanisha absorver a informação. Agora me encontrava numa corda bamba.
“Por Lord Ganescha Leila, verdadeiramente não sei o que dizer, eu estou tão pasma com esta história. Are baba da para sentir a verdade na sua voz, mas convenhamos que não é fácil de aceitar mesmo para mim, que sou indiana e acreditou na minha religião, mas isto é simplesmente assombroso demais para dizer a verdade. Leila acredita em mim, eu quero muito acreditar, mas você terá que me dar uma prova, não é desconfiança não, isto é mais para certificar que eu não estou delirando.”
Respirei fundo, mas foi de alivio pelo menos ela não estava fugindo de mim como o diabo foge da cruz. Existia esperança. O que eu ia fazer para provar a ela? Bem eu não poderia me transformar em lobisomem, isto nunca! Ainda não estava preparada para reviver minha besta.
Pensa Leila Lucan!
Uma lâmpada acendeu na minha mente. Perfeito. Bastava eu me cortar e ela ver como sarava depressa para comprovar a autenticidade das minhas palavras, sim isto. Eu iria lhe provar assim. Rapidamente levantei e corri para cozinha, abri o armário peguei numa faca e voltei para sala. Os olhos de Tanisha arregalaram quando ela entendeu o que eu pretendia fazer com a faca.
“Baguan keliê Leila! Não presisa ser tão radical, ulu. Eu acredito em você.Tchalô ― ” cortei-lhe antes de ela ultimar lhe esclarecendo o que eu pretendia fazer.
“Calma Tanisha, eu não vou me suicidar ou algo do género só quero te mostrar algo, a sua prova. Veja e não se assuste eu estarei bem, confie em mim,”
Calmamente repousei a afiadíssima faca sobre meu braço, bastou um leve roçar da faca em minha pele para começar a escorrer sangue, o corte foi superficial, mas suficiente para jorrar sangue, neste momento reparei para Tanisha que observava tudo mito intrigada, acho que ela ia dizer algo, mas logo fechou sua boca, olhei para meu braço e vi como o sangue coagulava, a ferida se fechava e deixava para trás uma leve mancha sobre pele. Isto certamente deveria ter-lhe sacudido o mundo. Até já podia ouvir os tipos de perguntas e incertezas que rodeavam a sua mente agora. De jeito nenhum um simples humano poderia se curar tão rápido. É Tanisha, você não está sozinha neste mundo.
“Agora você acredita em mim?”
Ela limitou-se a renspoder, “Atchá...”
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