O Titã Obscuro
3 O presente
Os médicos já haviam levado o recém-nascido, Rodrigo (cujo nome pertencia ao pai de Cris), quando a moça descansava em sua cama. Assistia a um telejornal que estava passando na pequena televisão que tinha no quarto. “Hoje, dia onze de fevereiro” — dizia a repórter — “ Está sendo registrado o maior temporal visto nos últimos dez anos. Muitas cidades litorâneas sofreram grandes perdas, causadas por enormes ondas vindas do mar....”
“O que aquilo poderia dizer?“, perguntava-se Cris. Quando ouvia a palavra “mar”, Cris já não conseguia pensar em outra coisa se não Poseidon. Afinal, não era deus de todos os mares, o pai da criança que acabara de nascer? Por que então ele teria feito isso? Essas e muitas outras perguntas assombraram os pensamentos de Cristiane, que longe estava do repouso que o médico receitou-a.
...
Poseidon encontrava-se aflito. Sempre soubera que manter a calma e o equilíbrio eram fundamentais para alguém como ele. Porém no estado em que estava, e sob todas as circustâncias, simplesmente evasou de si uma fúria maior até que si próprio.
Aconteceu que, algumas horas após o envio de sua carta a Cris, Ares, deus da guerra, fora o visitar. O deus era grande, e portava um corpo forte e musculoso. Usava uma jaqueta de couro, óculos escuros e cabelos raspados. Porém, ao se aproximar, podia ver em seus olhos chamas que ardiam em órbitas escuras e vazias.
A princípio, a visita parecia apenas algo inesperado e espontâneo da parte de Ares. Porém, Poseidon logo reparou que o deus estava ali apenas para provocá-lo, afinal, não participava de uma briga há uns meses, e não podia perder a oportunidade.
Ao ouvir Ares falar com tamanha ousadia dele, e de como era ridículo a forma com que se apegava aos mortais, Poseidon não se segurou e, pensando em todo aquele estresse pelo qual passava, desferiu um golpe para cima de Ares, que facilmente desviou com certo tom de divertimento em seus olhos de fogo.
Logo, o que começou com uma simples visita, tornou-se uma briga entre dois dos maiores deuses gregos. Poseidon lançava avalanches ao redor de Ares, e o mesmo desviava-se, e tornava a contra-atacar. Ao perceber que já havia causado o clima que queria, Ares foi-se embora, deixando Poseidon sozinho em seu campo de batalha. Ao perceber os enormes estragos que havia feito nos litorais e em todo o continente, Poseidon caiu em si, porém, já era tarde demais....
Ares, retirando-se dos terrenos de Poseidon, soltou um leve sorriso, que escorria do canto de seus lábios. “Strike um feito..”, brincou Ares consigo mesmo, “ Agora, é só esperar!”
Sob os estilosos óculos escuros nas chamas que ardiam dentro de suas órbitas, podia-se notar, naquele momento, um pequeno tom de dúvida, como se Ares não tivesse muita certeza do porquê fizera aquilo..
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Fora do quarto em que Cris estava, o vento ruía, e levava consigo pequenas gotículas de chuva, que, ao se chocarem com o vidro, produziam em Cris enorme sono. Quando seus olhos já estavam oscilando entre abre-fecha, a porta se abriu, deixando entrar uma enfermeira, que, ao deixar sobre o criado-mudo uma caixa pequena e azul, retirou-se do quarto, sem nada dizer.
Cris, que fora despertada por sua curiosidade, avançou sobre à caixa, e, mesmo antes de abri-la, ou de ler o pequeno bilhete com letras curvas e caprichadas, já soubera quem era o remetente:
“Cris,
Meu tempo é curto, pois logo partirei para a casa de meu irmão, Zeus, para explicar a situação que agora hei de descrevê-la a ti....
Há ainda alguns dias atrás, Ares, o deus da guerra, viera ao meu palácio, para tirar-me um desaforo. Como andava meio impaciente, não pude conter-me, e logo avancei sobre ele.
O resultado, você já deve ter visto..
Com esses desastres que eu causei, houvera muitas mortes, não só humanas, mas de diversas criaturas, marinhas e não-marinhas.
Como consequência, o submundo, governado por Hades, meu outro irmão, lotou-se de almas perdidas, transformando as coisas lá embaixo num caos.
Meu irmão Hades então ficou furioso, e ao se dar conta que nesse mesmo dia, meu filho houvera nascido, pensou ter sido ele o culpado, e agora, amaldiçoou a pobre criança, que de nada sabe.
Nesta caixa, você irá encontrar um filhote de tartaruga. Criei-o para protegê-lo de qualquer inimigo que de nosso filho tentar se aproximar. Nele, há uma magia antiga, dificilmente capaz de ser danificada. Chame-o de Nemo.
Cuide muito bem de nosso filho Cris,
Com muito amor,
Poseidon.”
Ao abrir a pequena caixa, Cris avistou no canto, encolhida pelo frio, uma pequena tartaruga, que, ao perceber a diferença de luminosidade, ergueu seu pequeno pescoço, e olhou apenas com um dos olhos para a moça, enquanto o outro continuava fechado, como se apenas um dos olhos houvesse acordado. “Nemo” sussurrou a moça, como se aquela pequena criaturinha pudesse lhe entender..
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