O Tigre e o Dragão
1 Capítulo 1 - O Tigre e o Dragão
Notas iniciais
Se fosse uma piada diria que aquilo não tinha a menor graça, o menor motivo para um riso. Diria que a falta de criatividade era imensa e o humor negro era fraco e medíocre. Mas não era. E se lhe falassem que era uma maldição, uma praga, uma trama de vodoo, talvez acreditasse. Aquele tipo de crença vaga e nebulosa, que se encara como um sonho que logo vai passar, dando luz a uma realidade mais agradável. Mas não era nem piada, nem maldição. Era apenas uma realidade inexplicável, que datava de recantos longínquos e borrados em sua mente. Em um passado onde sua consciência era inconsciente, tipicamente da mente de uma criança em seus primeiros anos de vida. Não sabia ao certo de onde começara, porque começara... Mas sabia que existia. Ali, dentro de seu peito. Ou talvez dentro de sua cabeça, já que era em seus pensamentos que perdia o controle de suas emoções e de suas fantasias.
Era de sua massa cinzenta que emergiam todas aquelas cenas, projeções de desejos que talvez nunca aconteceriam. E era dali que também surgiam os planos mais mirabolantes para mantê-lo ali, naquela teia de provocações e brigas sem sentido. Para que pelo menos um lugar em seu coração ela possuísse. Talvez jamais pudesse contar, ou talvez ao menos quisesse isso. Odiando-a, ele se mantinha perto. Se contasse a verdade correria o risco da rejeição, do afastamento dele. E isso não seria algo que poderia mascarar com pensamentos fantasiosos e cenas hospedadas em uma imaginação criativa.
– Vamos, Lois. Vamos.
O reflexo do espelho lhe mostrou um sorriso torto, nervoso e mal colocado, como se a mão que o pregara em sua face tremesse de nervoso. Passou os dedos calejados pelos cabelos curtos, bagunçando-os em uma tentativa de promover uma naturalidade charmosa.
Dando de costas para a superfície refletora, saiu do quarto, controlando os passos na tentativa de empregar um ar despojado e natural a seus passos. Era sempre assim. Tentando fazer com que ele a visse, mas ao mesmo tempo não visse. Que notasse algo, mas ao mesmo tempo não visse motivo algum para tratá-la de maneira diferente, talvez mais calorosa. E era essa esquizofrenia de desejos e ações que torturavam sua cabeça todas as vezes que precisava se aproximar de seu vício.
Porque os dois eram feitos da mesma matéria. Sim, em algum ponto da genética descendiam da mesma carne e do mesmo sangue. Então não seria sua sina ficarem juntos? E ao mesmo tempo onde desejava demonstrar sua profunda obsessão infantil, Heloise também percebia ser mais seguro e garantido manter aquele teatro de repulsão, onde os dois se colocavam como polos idênticos de imãs que se repeliam. Talvez odiá-lo (ou manter a aparência disso) fosse o mais garantido para tê-lo por perto. Ela teria a atenção de William, ainda que ocupasse um posto agridoce em seu coração. Mas talvez... Só talvez, não importasse. Era sua sina, sua genética.
Primos. Eram primos!
Sua mãe não aceitaria, sua tia entraria em desespero. Tratariam os dois como um incesto maculando o seio da família. Os passeios que envolviam os dois lados da família seriam evitados, o nome de um seria tabu na casa do outro, apenas o toque de suas mãos seria visto como um pecado repulsivo. Mas talvez a tragédia fosse apenas fruto de sua cabeça fantasiosa. Talvez gostassem. Seus pais eram melhores amigos, que atravessaram o mundo juntos, casaram com duas irmãs e mantinham uma longa amizade. Talvez a paixonite de Heloise seria comemorada pelos dois, como uma continuação de uma ligação positiva, ainda que em uma forma além de uma simples amizade.
Desceu as escadas com a cabeça longe e encarou o umbral da porta da cozinha longamente, escutando a voz alegre da avó e o tom empolgado dele. Sorriu de canto, discretamente, para que nenhum dos vários parentes pudesse vê-la esboçando um sorriso para ele. Estalou os dedos, inspirou o ar inflando a barriga, soltando o ar quente pela boca. Passando a mão displicentemente pelo cabelo, adentrou a cozinha.
A avó sorriu, recebendo-a com uma reprimenda devido ao horário. Acordar perto do almoço! Como essa juventude conseguia desperdiçar a vida presa a um mundo eletrônico, confundindo horários e compromissos tão básicos e elementares como almoçar?
Heloise caminhou até a avó, depositando um beijo na testa enrugada da pequena senhora. Ergueu os olhos repuxados (tipicamente orientais) e encarou o primo, com um sorrisinho de canto. A mão dele que segurava uma espátula dentro de um pote — a massa deveria ser de panqueca — parou o movimento rítmico e ordenado no sentido anti-horário, encarando apreensivo a garota. Como um animal esperando pelo bote. Ela sorriu de canto, apertando levemente os olhos já repuxados. Observou ele franzir levemente o cenho, para depois revirar os olhos e suspirar discretamente.
Era quase um ritual. Como aqueles que os machos coloridos do mundo animal faziam para atrair a fêmea. Mas entre eles não havia apenas uma inversão de gêneros em relação a quem provocava o ritual e quem era o alvo da conquista. Aquele era uma prática para firmar as bases de uma inimizade, para reforçar o atrito entre os dois. E ela precisava tanto disso como a própria necessidade de perpetuação da espécia nos rituais de conquistas dos animais.
– Bom dia, micróbio. — E sua voz soou levemente debochada, observando ele abrigar uma expressão de desdém no rosto, voltando a atenção para a massa uniforme, homogênea e levemente amarela.
Na cabeça de Heloise, aquele era apenas o primeiro ato de seu teatrinho diário.
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