O Tigre Negro

6 Portões de Ferro


Notas iniciais
Espero que gostem, pessoal! Esse capítulo está mais leve do que os outros :D

Acordei quando os raios de sol tocaram minhas pálpebras, tornando tudo cor de rosa por detrás delas. Me espreguicei, sentindo a confortável roupa da cama que me cobria e desejei poder dormir mais. Chequei o relógio. Eram oito horas da manhã. Resmunguei para mim mesma, reclamando por ter acordado tão cedo, sendo que eu ainda estava exausta. Me virei para a outra extremidade da cama e me deparei com a varanda do outro lado do quarto. Vi que lá fora, depois do vidro, o céu estava limpo e azul. O sol lançava generosos raios de luz para o interior do quarto, aquecendo-o. O tempo estava, sem dúvidas, convidativo.

Levantei da cama e fui até o banheiro, eu não desperdiçaria uma manhã inteira numa cama, mesmo que esta fosse incrivelmente confortável. Eu estava na Índia e teria que aproveitar pelo menos um pouquinho desta única oportunidade. O senhor Kadam nos dissera no dia anterior que hoje poderíamos tirar um dia de folga antes de iniciar as pesquisas para descobrir o que realmente acontecera com Kishan no dia em que ele perdera os sentidos e se transformara em tigre. Então eu tinha carta branca para aproveitar meu dia fazendo o que eu tivesse vontade.

Tomei um banho rápido e gelado, o que fez despertar o outro lado do meu cérebro. Olhei para o espelho e decidi que a ocasião pedia por uma maquiagem mais elaborada. Fucei meu estojo de maquiagens e pesquei um delineador e uma pequena paleta de sombras. Quando terminei, aprovei o resultado. Minhas pálpebras estavam devidamente esfumadas em uma cor terrosa e quente, completando o delineado rente aos meus cílios superiores, que realçavam meus olhos castanhos mel. Eu também havia feito um rabo de cavalo alto, a Índia tinha um clima bem quente e ficar de cabelo solto por lá é uma loucura. Então meus cabelos negros ficaram presos. Eu gostava da sensação de balanço que o penteado fazia.

Quando estava pronta, desci as escadas até à sala principal da casa. Ao chegar lá, me deparei com uma mesa de canto enorme e vi que uma folha estava apoiada cuidadosamente num vaso de flores. Percebi que a folha, era na verdade um bilhete escrito com uma linda caligrafia cursiva. Parecia um convite de casamento.

TIVÉMOS QUE DAR UMA SAÍDA DE ÚLTIMA HORA, LIZ. VOCÊ ESTAVA DORMINDO ENTÃO NÃO QUERÍAMOS TE ACORDAR. FIQUE À VONTADE NA CASA, SE SENTIR FOME, DEIXAMOS UM ALMOÇO PRONTO NO FORNO. NOS DESCULPE!

KELLS, REN E SR. KADAM.

Bom, então ninguém estava em casa e eu tinha um dia livre na Índia. O que eu faria? Todos que poderiam me ajudar agora haviam saído, só restara Kishan mas ele provavelmente havia saído também.

Tentei listar possíveis coisas para se fazer sozinha numa casa enorme e extremamente luxuosa.

– Ficar o dia inteiro na piscina da casa;

– Ler na biblioteca do Sr. Kadam;

– Fazer um dia de spa no meu quarto;

– Fazer um picnic na varanda.

Todas as opções eram boas mas nenhuma me deixara animada o suficiente. O que eu mais queria mesmo era sair da casa e dar uma espiadela lá fora e ver as pessoas, escutar o idioma que falavam, ver as roupas que vestiam e comer alguma comida típica que costumavam comer. Eu queria conhecer a Índia.

Me levantei subitamente e abri a porta da frente da casa, atravessando o jardim, cheguei até o portão de ferro que dava para a um pequeno trecho da rua. Procurei por sua trava, porém não encontrei-a. O sistema devia ser automático. Agarrei as barras de ferro do portão e empurrei as com toda a força que tinha, eu sabia que era inútil mas eu sentia que precisava sair.

– Vamos, abra logo. – Resmunguei.

Pressionei as barras de ferro até que perdi minhas forças, olhei para o portão o qual não havia se movido sequer um centímetro. Sentei no chão, tomada pelo cansaço, e apoiei minhas costas nas grades do portão.

– Tsc, Tsc, você é bem teimosa, não é? – Uma voz masculina disse ao meu lado.

Olhei para minha esquerda, na direção em que eu ouvira a voz e vi Kishan, com um sorriso contido de riso, apoiado no muro da casa.

– Eu não acredito! Quanto tempo está aí? – Vociferei.

– O suficiente para ter te visto tentar abrir esse portão automático com a força de suas mãos. – Provocou Kishan.

Suspirei, Kishan fazia minha paciência se esgotar em segundos.

– Como veio até aqui? Eu não te escutei.

– Tenho passos de gato. – Declarou Kishan, rindo.

– Não me diga.

Kishan andou em direção ao portão e se sentou ao meu lado, apoiando as costas nas grades do portão.

– Tudo bem, agora parando com gracinhas. Porque queria tanto sair daqui? – Perguntou Kishan.

– Eu só queria ir lá fora, sabe, conhecer a Índia. – Eu disse. – Pode parecer besteira, mas eu só... só quero sair.

Passei as mãos pelo gramado abaixo de mim.

– Bom – disse Kishan, se levantando. – E o que estamos esperando para sair?

Kishan afundou uma mão no bolso de sua calça e tirou de lá um pequeno molho de chaves. Dentre as chaves, um pequeno aparelho com alguns botões estava pendurado.

Kishan apontou o aparelho dramaticamente em direção ao portão.

Eu ri com o gesto teatral totalmente exagerado.

– Faria as honras, Milady? – Perguntou Kishan.

Em resposta, apertei o pequeno botão onde se lia ON no aparelho.

Assim que apertei o botão, o portão de ferro à nossa frente rangeu, arrastando suas grades para dentro dos muros da casa, abrindo uma enorme passagem.

Olhei para Kishan e sorri agradecida.

– Obrigada. – Agradeci.

– Por apenas ter aberto um portão? Não há de quê.

– Okay, então que tal apostar uma corrida? – Perguntei. – Quem chegar até aquela árvore primeiro ganha. – Apontei para uma árvore ali perto.

Kishan pareceu surpreso com a pergunta.

– Tudo bem e qual vai ser o prêmio?

– Humm – Pensei. – Que tal o ganhador escolher o passeio dessa tarde?

– É justo, bilauta*. (*gatinha)

– Então... um. – Comecei a contagem.

– Dois. – Dissemos em uníssono.

– Três e já!

Disparei para a frente com todas as minhas forças e logo percebi que Kishan não estava à minha frente, quando olhei para trás, vi que Kishan corria normalmente sem se esforçar. Kishan de repente agarrou minha cintura e me levantou até que fiquei pendurada em um de seus ombros.

– Trapaceiro! – Ralhei, tentando segurar o riso.

Kishan parou debaixo da árvore marcada como ponto de chegada e me colocou no chão.

– Estava com tanto medo assim de perder, tigre? – Provoquei

– Eu só queria ter certeza de que seria eu a pessoa que escolheria o passeio dessa tarde.

Kishan se aproximou, enquanto que dei um passo para trás involuntariamente, minhas costas encontraram o tronco da árvore.

Kishan estava perto demais, eu quase podia escutar seu coração bater. Eu já ouvia claramente sua respiração um pouco ofegante. Ele apoiou a mão no tronco acima do meu ombro e me observou. Encarei seus olhos dourados mesclados com bronze mas logo desviei o olhar para seu cabelo bagunçado. Tudo isso havia durado alguns poucos segundos.

Ele suspirou fundo e se afastou, parecendo frustrado.

– Porque faz isso, bilauta? – Murmurou.

Notas finais
Obrigada por acompanharem mais esse capítulo XO