O Tigre Negro
8 Padma
Notas iniciais
Esse cap foi um dos mais legais de escrever e imaginá-lo foi um desafio mas agora ele está aí e eu espero que gostem XO
O local brilhava como se mil vagalumes tivessem se instalado entre as pequenas cavidades da parede rochosa. Pedras coloridas se intercalavam. Reconheci safiras, ametistas, cristais e rubis. Mas haviam muitas outras das quais eu não saberia nomear. Elas estavam espalhadas por toda a extensão da caverna, menos no chão abaixo de nós.
Me virei para Kishan, maravilhada pela beleza da caverna.– É uma mina de pedras preciosas! Kishan riu.– É sim. Observei que as luzes que Kishan ligara, eram na verdade canhões de luz fixadas no chão em algumas extremidades da caverna, posicionadas estrategicamente para que refletissem em algumas das pedras, tornando tudo mais iluminado num lindo efeito de luz.– É lindo! – passei a ponta dos dedos em uma pedra vermelha ao meu lado e senti sua face fria sob minha pele – Porque este seria o seu lugar, Kishan?– Este na verdade não é o meu lugar, era da minha mãe. Antes de ela falecer, sonhara com essa caverna. Um ser de luz aparecera em seu sonho e dissera que esta caverna poderia lhe proporcionar respostas para seus problemas. Mamãe vinha aqui para meditar, normalmente. Depois de uma pausa, Kishan continuou:– Eu costumava vir aqui depois que minha mãe faleceu, este lugar me lembra ela. Desde então, é o meu lugar preferido no mundo.– E onde ela meditava? Kishan apontou o dedo, indicando o centro da caverna.– Bem ali.– Podemos?... – perguntei.– Claro. Sentamo-nos no meio da caverna, o chão de pedra era gélido e duro. Quando nos acomodamos, eu disse:– Kishan.– Sim?– Eu sei quem é a garota que você acha que Ren roubou para ele, ou seja, por quem você nutre sentimentos. Kishan inspirou fundo.– É triste não é? Eu me interessar por garotas que estão fora do meu alcance, Yesubai...– Kelsey... – interrompi, completando – aquele dia depois do baile, estava tentando enciumá-la, não é? Kishan riu.– Sim, só que agora estou confuso. Antes eu tinha certeza de que queria ficar com ela, queria tirá-la de Ren. Mas as situações que nos aconteceram recentemente me fizeram repensar se eu só estava querendo algo que Ren tinha e que eu poderia “roubar” para mim. Talvez o meu ego tenha falado mais alto.– É, talvez.– Mas estou aqui para obter as respostas das perguntas que me atormentam. Quando Kishan parou de falar, aproveitei a deixa.– Kishan? Quem é Yesubai? Ele se mexeu, desconfortável.– Ela era a noiva de Ren, uma noiva prometida para um casamento arranjado. Os dois se casariam logo que Ren voltasse de uma viagem diplomática, nesse meio tempo, Yesubai se instalara no nosso palácio à espera de Ren. Na primeira vez em que a vi, quis saber o seu nome, quem era aquela moça. Na hora, eu não sabia que era a noiva de Ren, mas logo que descobri, uma raiva se instalara no meu peito. Ren tinha tudo e inclusive se casaria com a moça com a qual eu me apaixonara. Eu tentei falar com meu pai sobre isso, tentei arranjar outra noiva para Ren mas todo o esforço foi em vão. Kishan tomou fôlego, continuando:– Kells deve ter te contado sobre Lokesh, não? Estremeci ao ouvir o nome de Lokesh.– Sim.– Ele soube que eu estava apaixonado por sua filha e me usou para...– Kishan – interrompi – se não quiser, não precisa continuar. Eu sei que ainda sofre por isso e você não precisa se torturar com lembranças ruins. Kishan suspirou como se estivesse derrotado interiormente.– Eu só quero consertar tudo.– Bom, está tentando pelo menos. Estamos aqui nessa caverna que tem as respostas para nossos problemas. O que acha que devemos fazer para recebermos as respostas? Kishan, que desenhava círculos invisíveis com o dedo indicador no chão, refletiu por um momento.– Acho que deveríamos entrar em um estado de relaxamento da nossa consciência.– Humm, como um estado alfa? – perguntei, me lembrando de ter lido sobre isso em um livro de yoga.– Sim, exatamente. Minha mãe me dissera uma vez que quando você está relaxado, sua consciência interna expande, temos que fazer com que a ansiedade deixe de existir dentro de nós e só então experimentaremos a sensação de paz...– A qual fará com que obtemos as nossas respostas – completei – É genial. Seria como deixar a caverna nos dizer as respostas enquanto “escutamos” tudo atentamente, ou seja, entrar em estado alfa. Kishan sorriu diante da minha empolgação em querer encontrar as respostas.– Minha mãe praticava o Vipassana, que significa ver as coisas como elas realmente são, é uma das mais antigas técnicas de meditação da Índia – informou. Ele virou, a partir da posição que estava sentado, em um meio círculo. Voltando-se para mim.– Faça assim – instruiu ele, entrelaçando as pernas e pousando as mãos sobre os joelhos. Me virei para Kishan até que ficamos frente a frente. Segui suas instruções.– Agora, feche os olhos e deixe tudo fluir, você está segura aqui comigo, Padma*. (*flor de lótus)Fechei os olhos e tentei calar os pensamentos que surgiam na minha mente.
Respirei fundo e deixei tudo fluir, assim como Kishan me dissera para fazer. Foi então quando tudo escureceu e se silenciou. Tive a visão de uma garota de compridos cabelos negros andava em minha direção, no início, eu confundira seus cabelos com asas negras, com asas de corvo. A garota vestia um sari indiano na cor dourada, pequenos sinos e pingentes dourados pendiam de sua cintura e tilintavam conforme ela andava. Quando finalmente chegou até mim, vi que seus olhos eram da cor de ametistas. Perguntei se ela era alguma fada ou ninfa. A garota dos olhos violetas riu baixinho e disse que não, que era apenas uma garota e que se eu aceitasse, seria minha amiga. Quando assenti em resposta, a garota me pediu para fechar os olhos. Fechei- os, hesitante. Quando ela disse que eu poderia abrir os olhos novamente, estávamos em um lugar totalmente diferente.– O que está vendo? – perguntou a garota. Olhei à minha volta, analisando a área.– Uma cachoeira, bem ali – apontei na direção da cachoeira.– E quais são suas perguntas? – Eu... eu quero saber porque Kishan se transformou em tigre naquela noite, sendo que ainda tinha duas horas disponíveis como homem e se possível, gostaria de saber se eu e Kishan temos uma ligação real ou se estou apenas a imaginando. A garota de cabelos negros sorriu docemente.– Você terá que mergulhar no lago da cachoeira que está vendo. Franzi a testa.– Você não está vendo a cachoeira? Ou as árvores aqui em volta? A garota balançou a cabeça em negação.– Essa aqui é sua consciência, então não tenho permissão de ver. Eu estou apenas lhe dando uma ajuda.– Tudo bem, então tenho que mergulhar?– Sim, não tenha medo. O problema era que eu tinha medo e queria gritar “Eu não sei nadar!!!” pois realmente não sabia nadar, no entanto, eu queria as respostas mais do que tudo agora e enfrentaria tudo para obtê-las. Caminhei até a borda do lago. A cachoeira chiava e lançava uma enorme quantidade de água no lago, fazendo com que sua superfície oscilasse, inclusive algumas flores de lótus rosas que flutuavam sob a água. Pisei numa grande pedra coberta parcialmente por um espesso lodo verde. Inspirei fundo, tomei impulso e pulei no lago. No início eu afundara na água como uma pedra que é puxada para o fundo de um lago. Logo, impulsionei meu corpo para cima desesperada com a ideia de ficar sem ar nos pulmões. Meu corpo, porém, não saíra do lugar, eu batia os braços e as pernas mas nada acontecia. Quando perdi as esperanças de respirar novamente, não senti meu pulmão queimar por ar, percebi então que eu não precisava respirar ali. Era como se eu tivesse guelras invisíveis. E foi então quando o vi. O tigre negro estava à minha frente, deitado e ferido. Sangue escorria de suas feridas. Estendi a mão, tentando tocá-lo mas a imagem do tigre oscilou como se fosse apenas um reflexo na água. Virei para trás, para evitar ver Kishan sofrer porém outra imagem aparecera na água. Uma garota de cabelos negros e olhos violetas corria na minha direção, lágrimas brotavam de seu rosto e escorriam por suas bochechas. Sua feição era de desespero e medo. A garota estava chegando cada vez mais perto de mim, quando ela passou, virei o rosto, esperando que batesse de encontro comigo. No entanto, sua imagem passou por mim, me atravessando, indo até onde Kishan estava deitado. Ela abraçou Kishan e gritou como se as dores das feridas do tigre a afetassem.– Eu vou estar com você de novo Kishan – sussurrou a garota -, não importa como e nem quando. O tigre arquejou de dor. Uma figura negra e não identificável aparecera e lançara algo em direção da garota. Inconscientemente, me impulsionei para frente para impedir a figura negra de machucar a garota. A imagem oscilou. Quando se estabilizou, a garota dos cabelos negros estava morta ao lado do tigre negro ferido enquanto a figura negra se afastava cada vez mais. Tentei gritar mas minha voz não saía. A horrível imagem de Kishan e a garota ainda estavam ali. Fechei os olhos para evitar vê-los daquela forma. No momento em que abri meus olhos, não estava mais na água, mas tudo estava preto.– Liz! Lizzie! – Alguém chamava. Segui a voz. Depois de alguns segundos, minha visão se estabilizara. Kishan estava à minha frente e segurava meus ombros com força, sua expressão parecia ser de preocupação.– Oi – Murmurei, ainda tonta. Kishan soltou a respiração.– Você está bem? – perguntou.– Sim, só estava um pouco tonta. E... Kishan, você está planejando deslocar meus ombros? Kishan os soltou meus ombros instantaneamente.– Me desculpe, eu estava preocupado e você não acordava. Eu te machuquei? Eu ri.– Relaxa tigre, não machucou não. Obrigada por se preocupar. Ele sorriu.– Como foi a sua meditação? – perguntei – conseguiu as respostas?– Sim – disse ele, sorrindo de orelha a orelha – foram, no mínimo, reveladoras.
Notas finais
Comentem o que acharam!
PS: As coisas vão ficar, no mínimo, muito interessantes haha
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