Notas iniciais
Obrigada a todos que estão acompanhando a história! Enjoy XO

Ao acordar de manhã cedo, senti uma brisa gelada entrando pela janela do meu quarto. A cortina branca de renda que cobria a janela, inchava e voltava repetidamente conforme a brisa chegava. Tornando o clima frio, mas aconchegante.

Chequei meu celular e na tela do aparelho indicava que eram oito horas. Logo abaixo, havia uma mensagem de Kelsey.

Kells: Bom dia Liz!! Vamos fazer nosso projeto de latim hoje? Vem aqui em casa, daí você já passa o resto do dia aqui quando terminarmos tudo haha vou preparar panquecas para o café da manhã btw

Kells aparentava estar de muito bom humor. Deve ter sido Ren, desde que ele viera da Índia ela era só sorrisos.

Liz: Claro! Vou passar aí já já, até daqui a pouco, bjs.

Pulei da cama, sentindo o carpete macio e quente abaixo de meus pés e fui direto para banheiro, depois, substituí meu pijama rosa por uma calça jeans e um suéter roxo cor de uva, fiz uma trança lateral no cabelo e passei um pouco de maquiagem.

Ao sair de casa, fiz carinho na cabeça de Nico, meu gato preguiçoso e deixei uma mensagem para meus pais em cima da mesa de jantar, avisando que sairia e passaria o dia na casa de Kells.

Estava frio, muito frio. Ao sair do carro, corri e toquei a campainha da casa de Kells, ansiando entrar em algum lugar quentinho novamente. A porta da frente se abriu e por um momento pensei ter errado de casa. A pessoa que a abrira não era Kelsey. Não mesmo.

Kishan sorria, enquanto segurava a porta aberta, se divertindo com a minha cara confusa. Ele era o tipo de cara que iluminava qualquer local com a sua presença, então o susto foi em dobro.

Eu queria falar alguma coisa mas só gaguejei, o que piorou tudo. Era estranho pois ontem mesmo dançamos e conversamos no baile e agora ele estava lá, na minha frente. Era uma situação nova e totalmente diferente. Eu não sabia como agir.

Kishan riu.

– Entra logo Liz, você vai acabar congelando aí fora. –Disse ele.

Kishan me puxou de leve pelo braço, me levando para dentro de casa.

– Onde está Kells? – Perguntei.

– Bom dia pra você também, querida. – Provocou Kishan. – Qual o problema? Não gostou de me ver?

– Não é isso, eu só não... esperava te ver. – Resmunguei.

– Bom, ontem, me ver não pareceu ser um empecilho em sua vida, nem conversar comigo, dançar comigo ou pisar nos meus pés... – Provocou.

Rolei os olhos enquanto Kishan se jogava no enorme sofá da sala.

– Nem pra você, não é? – Repliquei. – Aliás, pareceu adorar minha companhia.

Kishan sorriu sarcástico.

– Eu nunca disse que não gostei. – Kishan sussurrou, analisando minha reação.

Desviei o olhar, sentindo algo quente subir pelo meu corpo até se instalarem em minhas bochechas. Fingi observar um quadro na parede, que por sinal era um Monet. E parecia ser original, mas claro que Kishan não teria dinheiro para comprar uma obra de Monet legítima.

– Kishan... para de fazer isso. – Pedi.

– Fazer o que?

– Você sabe... dar uma de sedutor.

Ele levantou uma das sobrancelhas e sorriu brevemente.

– É inevitável. — Respondeu.

~*~

Kishan me guiou até uma porta, perto da cozinha, que aparentava ser algum quartinho de limpeza velho. Eu começara a estranhar, afinal de contas, eu queria ir para a casa de Kelsey e não para um depósito velho.

Abri a boca para protestar, mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Kishan girou a maçaneta da porta e a empurrou, revelando uma cozinha pequena, porém linda, decorada com motivos cor verde-limão. Era a cara de Kelsey.

Kelsey! Agora era óbvio! Ali era a casa de Kells! E a porta misteriosa era uma porta de ligação entre as casas, afinal. Eu tinha tocado a campainha da casa vizinha e não da casa de Kelsey.

Parabéns Liz!

Observei que em cima da mesa da cozinha estavam dispostos vários pratos com pilhas de panquecas recém-feitas e percebi que dois pratos em especial tinham panquecas excepcionalmente maiores. Meu estômago roncou.

– Ei, Kells! – Chamou Kishan – Sua amiga está aqui!

Kelsey desceu a baixo assim que ouviu a voz de Kishan. Logo atrás dela vinha Ren.

Ambos me deram abraços e então nos sentamos, os quatro, para comer as panquecas, as quais pareciam deliciosas e quentinhas.

~*~

Me impressionei com a rapidez com que Ren e Kishan comeram a enorme pilha de panquecas deles, repetindo ainda mais uma rodada. Enquanto comíamos o café da manhã, falávamos também um pouco sobre o baile.

– Eu ainda acho estranho como funcionam os bailes aqui na América – Declarou Ren. – Na Índia não usamos esse tal de smoking.

– Nós usamos roupas mais leves para podermos dançar – Acrescentou Kishan. – O que eu prefiro, sem sombra de dúvidas.

Kells e eu nos entreolhamos.

– Qual o problema com smokings? – Kells perguntou.

Kishan coçou o queixo, pensativo.

– Acho que parecemos pinguins quando usamos smoking. – Disse Kishan.

– É – Concordou Ren, com a boca cheia de panqueca.

Kells e eu rimos.

Os irmãos nunca iriam parecer pinguins ao usarem smoking pois estariam muito ocupados parecendo galãs de filmes. Eu e Kelsey sabíamos muito bem disso, mas nunca admitiríamos isso na frente deles. Então apenas disfarçamos com risadas.

Quando Kishan se levantou para buscar mais uma pratada de panqueca reserva no fogão. Kells perguntou:

– Então Liz, como foi com Jake ontem?

Eu tinha me esquecido totalmente sobre isso. Sobre Jake, sobre a volta de sua ex...

Suspirei fundo.

– Meio que não deu certo. – Eu disse, franzindo os lábios. – Ele me largou no meio do baile, a ex namorada dele voltou e antes do baile começar eu já estava me enchendo dele e de todo aquele narcisismo inútil.

Kelsey fez careta ao ouvir “narcisismo inútil”.

– Liz, Jake não é o cara certo pra você, ele não te merece. E não estou te falando isso porque você é minha melhor amiga, mas porque é a pura verdade. – Kells sorriu solidária.

– Obrigada Kells. – Agradeci. – Você sempre diz as palavras certas.

– Não se preocupe com Liz, Kells. – Intrometeu-se Kishan. – Nós nos conhecemos ontem a noite no baile, seu coração não deve mais estar despedaçado depois de termos dançado juntos.

Achei tudo aquilo meio forçado, ainda mais porque dançamos apenas uma vez e Kishan não costumava falar daquele jeito exagerado. Mas quem sou eu para dizer alguma coisa, havia o conhecido ontem a noite, afinal de contas.

Kells franziu a testa.

– Vocês se conheceram no baile? – Perguntou Kells, perplexa. – É muita coincidência!

Kishan pareceu decepcionado com a resposta de Kelsey, de alguma forma.

Quanto a Ren, ele resolvera encarar Kishan de forma séria. Era até um pouco assustador.

Olhei para Kells, mas ela simplesmente ignorou a silenciosa briga de olhares entre os irmãos, como se já estivesse acostumada com a situação.

– Achei que tinha saído do baile depois que conversou com a gente. – Ren disse.

– Não, não saí. – Grunhiu Kishan. – Conversei com Liz e dançamos.

Kishan passou a encarar Kelsey o qual parecia estar esperando alguma reação em especial por parte da garota.

Kells pulou da banqueta em que estava sentada, ignorando Ren e Kishan totalmente.

– Vamos começar o projeto, Liz? – Perguntou ela.

Pisquei, era difícil ignorar o clima de briga entre Ren e Kishan. Eu queria sair de lá o mais rápido possível, então desci da banqueta e segui Kells até a sala.

~*~

Ficamos até às quatro horas da tarde reunindo materiais e consultando livros de latim, até que terminamos o projeto. Estávamos orgulhosas do nosso trabalho, escolhemos um tema interessante e o conteúdo estava muito bom. Trabalhávamos muito bem juntas.

Durante todo esse tempo não vimos nenhum sinal de Kishan ou Ren.

~*~

Às sete horas, me despedi de Kelsey.

Quando saí da casa de Kells, estava frio e o vento cortava o ar, gélido e impiedoso. Quando cheguei até ao meu carro, tateei meus bolsos com pressa, a procura de minhas chaves, foi então que me lembrei: as deixara em cima da bancada da cozinha de Kelsey. O vento, que vinha da direção contrária a que eu estava indo, me atingia com rajadas fortes, me dificultando fazer fazer o caminho de volta para a casa de Kells. Assim que cheguei na entrada, agarrei a maçaneta e girei-a, abrindo a porta.

E então foi que vi.

Kishan estava de joelhos no piso da cozinha com Ren, que gritava para Kishan sair pois algo "iria acontecer logo", havia certa urgência em sua voz. Kishan, porém, não saiu do lugar, parecia desorientado e atordoado. Eu queria ajudá-lo, correr até ele, mas meus pés pareciam ter sidos chumbados ao chão. Ren viu que eu estava ali, sua feição endureceu e ele olhou para Kishan, impotente. Kishan emitiu um ruído de dor e gritava, ele tremeu violentamente até que desabou no chão.

Senti algo quente escorrer pelas minhas bochechas. Eram lágrimas.

Minha visão borrou conforme mais lágrimas brotavam dos meus olhos. Olhei para Kishan desacordado no chão, mas ele não estava ali. Ao invés disso, uma figura negra e borrada o substituíra. Era irreconhecível.

Limpei os olhos e minha visão se estabilizou instantaneamente.

Reconheci Ren, de joelhos no piso da cozinha. Ele estava inclinado sobre o corpo negro.

Olhei para a figura desacordada no chão e não pude acreditar nos meus olhos.

Era um tigre.

– Acorda, meu irmão. — Implorava Ren.

Notas finais
Altas emoções estão por vir! Obrigada por acompanhar mais esse capítulo e comentem o que vocês acharam!