O Tigre Negro
20 Encontro Mortal
Notas iniciais
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Meus dedos trêmulos tocaram a pele de meu rosto com receio.
Identifiquei meu nariz e tateei meus olhos, boca... que não pareciam ser meus. Olhei para meu reflexo na água. Meu rosto era diferente, minha pele escurecera, meus olhos pareciam recortados de uma revista, minha boca parecia ter sido submetida à uma cirurgia plástica. Eu teria de aceitar que aquela era minha aparência verdadeira. Era como eu havia nascido. – Então eu sou assim... – Sussurrei para meu reflexo no lago-espelho. – Eu me pareço com a minha mãe. Sorri com a lembrança de minha mãe, assim como lágrimas arderam nos meus olhos. Eu me sentei na grama verde num baque, tão cansada psicologicamente quanto o fazia fisicamente. Minha vida havia mudado tão drasticamente em menos de um mês que eu já achava que mais nada me pegaria de surpresa, mas não era verdade. Todas as situações me pegaram de surpresa, tentaram me derrubar... Suspirei fundo e decidi analisar meu corpo, onde a pele era visível. Toquei em várias cicatrizes antigas nas minhas pernas, braços e no pescoço. E aquela sensação nauseante retornara, imagens açoitaram minha mente.– Manik, essas cicatrizes...– Eu sei – ele disse como se eu não precisasse explicar, ele sabia o quanto era doloroso. Manik tocou meu ombro de leve em forma de consolo, seus dedos estavam ainda gelados pela água do lago.– São horríveis – murmurei, tocando uma das cicatrizes do meu pescoço que começava perto da pele da minha nuca e se estendia através de minha pele até terminar em minha jugular. –, o pior foi como foram marcadas na minha pele.– Esquece isso por enquanto, tudo bem? Não se torture com essas memórias, vamos voltar para a trilha. – Ele tentou dar um sorriso de encorajamento, sem sucesso. – Correr ajuda a refletir.– Vamos, antes que o cheiro ruim dos lobos de Lokesh se dissipe... – Tentei soar confiante em vão. Olhei para trás uma última vez antes de dar adeus ao lago-espelho, que havia revelado meu verdadeiro eu: Padma, filha de Lokesh e Alia, uma camponesa pobre e sonhadora. Virei meu rosto para a trilha, observei minhas cicatrizes ásperas que pareciam ter sidos plantadas como erva daninha que se alastra na parede de uma casa mal cuidada. E tudo aquilo só parecia ser um lembrete constante marcado na minha pele como uma tatuagem, porém ao contrário de trazer lembranças boas, traziam uma dor e medo latente de meu passado que não deixaria minha mente em paz. Bastava apenas olhar minha pele e lá estaria o terrível lembrete, como se o próprio Lokesh estivesse a minha frente numa ameaça constante. Quando o dia se tornou noite, nós finalmente havíamos chegado ao fim da trilha. À nossa volta, a floresta continuava densa e escura, mas o fedor de lobos havia se dissipado. Talvez o rastro tenha sido levado pelo vento ou pela chuva, pensei. Nesee meio tempo, Manik desceu através das copas de árvores, se transformando em homem antes que seus pés tocassem a terra. Isso sempre me impressionava. Se eu fosse um diretor de cinema usaria truques de edição e fazer meus heróis parecerem-se com Manik, seria um sucesso. Manik se inclinou sobre o trecho de terra e correu a ponta de seus dedos por sua extensão. E então os limpou em suas calças marrom mogno.– A trilha acaba aqui – anunciara ele. Eu detestava me transformar várias vezes ao dia e então permaneci como raposa, ocasionalmente tentando rastrear algo com meu super faro animal.– Vamos andar um pouco mais à frente, talvez tenhamos demorado muito e o rastro se desfez.– dissera ele. Andamos lado a lado seguindo em frente, minhas orelhas se agitavam a cada pequeno ruído que se manifestava através da densa mata da floresta. E foi então que ouvi passos. Não os de Manik, que se postava ao meu lado, passos leves e quase inaudíveis como se apenas acariciassem a terra por onde os pés passavam. Parei de súbito. Manik também o fez. Minhas orelhas se agitaram, esforçando-se para que o baixíssimo ruído não se perdesse de vez para o silêncio atormentável da mata. Pedi para que eu me transformasse em humana novamente. Senti meus músculos se alongaram e meu focinho ser enxugado e revestido por pele humana. A sensação era sempre esquisita, não importasse quantas vezes eu me transformasse.– Tem alguém – sussurrei no ouvido de Manik – Os passos são quase inaudíveis, como se a pessoa flutuasse ao invés de andar. Manik assentiu para manter silencio e se inclinou para estudar as aberturas entre as folhas do arbusto à nossa frente. Também o fiz, tentando espiar. Quando meus olhos se encaixaram em uma das brechas do arbusto, uma luz se manifestou. Fechei meus olhos instantaneamente para voltarem à escuridão acostumada. No começo pensara ser raios de sol. Mas faltava muito para o amanhecer. Abri meus olhos piscando algumas vezes e me concentrei ao redor da área clareada. Percebi que na verdade a luz não era muito forte, ao invés disso era pálida e apenas iluminava ao seu redor, nas extremidades da floresta, em uma meia lua. Uma construção relativamente grande se dispunha imponente em comparação com outras ao seu redor. Como um prédio provisório ela se estendia com pedaços de metal, como barras e placas duras. Como se fosse feita para proteger algo importante em seu interior.
Ao redor, casinhas de sapê se dispunham espalhadas por todos os lados, não parecendo seguir uma ordem. O contraste entre a modernidade do alto forte de metal e as casinhas de sapê fariam qualquer um desconfiar. Notei que, ao longo do encoste das montanhas no fundo, outras casinhas se dispunham enfileiradas, essas sim dispostas em uma sequência. Todas as casinhas juntas davam a impressão de que serviam de base de proteção para o forte principal. Olhei para Manik e vi que seu cenho também estava franzido para aquela paisagem estranha. E então ouvimos passos novamente. Meus nervos congelaram na hora. Os passos se aproximavam cada vez mais e eu não via ninguém no meu campo de visão. Mesmo estando escondida atrás de folhas eu me sentia totalmente vulnerável como se eu estivesse dançando com luzes de neon na frente do forte de ferro. Minhas mãos suaram quando o vi. Um homem de pele quase vermelha de tão bronzeada caminhava por ali. Ele possuía tatuagens tribais espalhadas pelo corpo e uma carranca que parecia fincada por aquelas rugas de seu rosto. Seus pés descalços tocavam a terra de maneira inaudível, apesar de ser um homem grande e musculoso. Ele levava em uma de suas mãos uma longa lança e balançava-a ocasionalmente para se certificar de que a sua afiada ponta negra estivesse mesmo grudada ao cabo. E foi quando notei que na sombra de uma das duas torres do forte de ferro, estavam dois guardas, parecidos com o aquele que acabáramos de avistar. Eles também portavam lanças em suas mãos, além de carrancas em seus rostos duros.– Eles parecem uma tribo, não acha? – Manik sussurrou de repente, me assustando. Espiei as casinhas de sapê espalhadas pela região.– E aquilo são suas moradias, como ocas. – observei. Manik engoliu em seco.– O pior é esse forte, parece tão... moderno.– Pensei a mesma coisa –concordei. – O estranho é ver como os índios parecem emprenhados em mantê-lo seguro. Você acha que...– Lokesh? – Manik completou. – É do seu feitio fazer algo assim.– Mas... não faz sentido. – reclamei diante da confusão no meu cérebro, que se recusava a entender a lógica daquilo. Manik suspirou fundo.– Você só entenderia o sentido disso tudo se fosse uma tirana assassina. Afinal, quem é que vai entender a cabeça desse cara? Ele é louco. Encarei os índios com suas lanças de pontas mortais e desejei que eu não fosse a filha daquele louco tirano. Lokesh era inteligente, persuasivo e muito ruim. Às vezes eu pensava se sua herdeira, eu, teria ganhado alguma de sua característica... malvada. E eu torcia todas as noites para que eu continuasse do bem e nada me fizesse passar para o lado negro da força de Lokesh. “Sou do bem, sou do bem, sou do bem...” Meu mantra soava opressivo na minha cabeça.– Vamos. – Manik disse, me tirando de meu transe.– Onde? – perguntei nervosa.– Para o forte, é claro. – Ele falou calmamente como se dissesse que estávamos prestes a entrar num Mc donalds para comprar batatas fritas e milk shake de morango. – Está maluco? Viu aquelas lanças afiadas ali? Manik sorriu, se divertindo um pouco com meu desespero.– Não tem graça! – protestei.– Só porque você não está vendo do meu ponto de vista. – Cala a boca, Manik. – Não tem problema entrarmos pelo portão da frente. Lokesh nos convocou, certo? – Manik abriu as palmas da mão com num gesto de apresentação. – Então que receba seus ilustres convidados. Eu ainda achava que aquilo era uma péssima ideia. Mas Manik por outro lado, não. E como eu não tinha nenhuma outra ideia, Manik vencera. Andávamos em direção ao forte de ferro. Eu tentava amenizar meu nervosismo, agarrando a barra de minha blusa cor de laranja. Manik olhou em minha direção repreendendo-me. Soltei a barra da blusa relutantemente. “Finja estar calma, afinal você manda nos índios por ser a filha do chefe” Manik me dissera antes. Quando os olhos atravessaram a extremidade da floresta e a luz nos iluminou por completo. As lanças se projetaram em nossa direção perigosamente. Engoli em seco.– Eu sou filha de Lokesh, fui convocada pelo mestre de vocês. Por favor me levem até ele. – ordenei com minha melhor imitação de voz de uma pessoa segura de si. Os índios se entreolharam e franziram o cenho, sem entender. Apesar disso, as pontas de suas lanças ainda se voltavam para nós. “ Quem é ela?” Um deles cochichava. “ E quem é ele?” O outro respondeu. Notei que eles não falavam inglês, falavam uma língua própria e que eu de alguma manira estava entendendo. Me voltei para Manik que parecia não entender o que os índios falavam. Limpei minha garganta, chamando a atenção dos indígenas.– Meu nome é Padma, filha de Lokesh. Me levem até ele. – Ordenei, dessa vez na língua indígena que eles falavam. Fiz uma nota mental para que depois eu investigasse melhor em qual vida passada fora uma indígena. Os índios arregalaram os olhos sob a nova informação e abaixaram as armas imediatamente. Um deles até fez uma reverência atrapalhada e derrubou sua lança perto de meus pés. Olhei com cara feia para ele, que se aproximou e recolheu a lança com mãos trêmulas. Isso até poderia parecer a atitude rude, mas hey, eu estava entrando no papel de primogênita do chefe malvado. Assim, um dos índios pediu para que o acompanhássemos, lançando logo em seguida, um olhar de desaprovação na direção do guarda que quase acertara meu pé com a lança. Seguimos em frente, entrando pela porta da frente do forte. Na verdade, aquilo não poderia ser classificada como porta já que tinha uns quatro metros de altura e era toda revestida de metal reforçado por toda a sua extensão. O índio nos guiou para dentro rapidamente, logo, andávamos dentro da construção mal iluminada. Notei que os pés do indígena também não faziam ruído algum em contato com o chão metálico. Observei o corredor à minha volta, procurando por pistas sobre Ren e seu paradeiro, talvez ele estivesse em algum lugar perto dali ou à alguns corredores de distância. Mas tudo parecia basicamente cinza, tudo era feito de metal. E enquanto avançávamos, várias portas surgiam no corredor sem janelas. A maioria delas se encontravam fechadas, mas nas raras exceções em que estavam abertas, nada podia se ver em seu interior escuro. E nada continuava a ser revelado. Reforçando nossa impotência. De vez em quando guardas passavam pelo corredor e nos encaravam de cenho franzido. Tive a impressão de que não recebiam muitas visitas ali. E então percorremos os corredores que nosso guia nos conduzia, até que chegamos num espaço amplo, diferente das outras portas e corredores. O lugar era enorme. Nós o adentramos e vimos caixas imensas e escuras espalhadas por todo o lado. As caixas empilhadas eram tão grandes que poderíamos escalá-las e nos escondermos por detrás delas. O teto também era alto, assemelhando-se a um teto de uma garagem de aviões. E então avançamos e eu vi a enorme mesa abarrotada de papéis, aparelhos eletrônicos desconhecidos, tesouras, canetas e tudo o que se encontra num escritório. O guarda que nos guiou fez um rápido aceno de cabeça, como se não decidisse se era melhor fazer uma reverencia ou ir embora logo de uma vez. E então eu e Manik ficamos lá, sozinhos. Aquele lugar dava arrepios em minha pele. Apesar de fazer calor e meu suor estar grudado em minha nuca, calafrios atravessavam meu corpo como se fossem fantasmas de gelo. Qualquer um me chamaria de louca se eu dissesse que aquele deposito fosse um lugar assustador, mas não era o lugar em si que me assustava, mas sim a aura que ele detinha consigo, eu sentia o mal emanando daquele lugar e minha pele formigava com a sensação ruim de desconforto. Manik estendeu o braço e segurou minha mão trêmula com força, quase como se estivesse lendo a minha mente. O ato me fez me acalmar um pouco. Eu admitia: Estava assustada. Como nunca estivera antes. Eu simplesmente temia que Lokesh poderia surgir de repente de trás daquela imensa mesa de trabalho com uma serra elétrica em mãos e bem... você sabe o resto da história. O problema era que eu teria de encará-lo de alguma forma, com ou sem serra elétrica. Apertei a mão de Manik como se fosse um brinquedinho para cachorro e fiquei feliz por ele estar ao meu lado naquele momento. Sabe-se lá o que eu teria feito se eu estivesse sozinha naquele lugar arrepiante. Uma parte de mim me lembrou que sim, eu deveria ser corajosa, sem me dar ao luxo de temer ou fraquejar. Mas toda essa sensação era diferente e nova, incontrolável... vestia meus tendões de Aquiles como medalhas de ouro.
Eu reencontraria meu pai. Aquele que me fizera sofrer, que era um tirano; e eu teria de agir como se nada disso tivesse acontecido. Ignorar o fato de que matou pessoas inocentes, torturou-as e as trancafiou. Eu teria de fingir que tudo estava bem, que mágoas, ressentimentos ou raiva simplesmente se dissiparam através dos anos e que agora eu só queria Yesubai de volta dos mortos. Mas fingindo ou não, eu não esqueceria do que Lokesh já havia feito conosco e isso me torturaria por um bom tempo. E agora eu começava a entender porque eu desejava tanto perder minhas memórias no passado. Porque doía. Doía guarda-las no peito, vê-las arder em uma lenta tortura.– E então... – A voz soou grave e fria, vinda das sombras no fundo do enorme cômodo. – Meus convidados finalmente chegaram. O rosto apareceu sob a luz. Um sorriso cruel e calculista pendia dos lábios de Lokesh.
Notas finais
O que acharam? Comentem críticas, elogios, sugestões... a casa Tigre Negro é de vocês!
https://br.pinterest.com/willabellenyah/ ahhh e vejam o dream cast pra fic, okay? Me digam o que acham
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