A estufa ainda é a mesma que habita as lembranças de Avery e ela sorri ao ver sua avó sentada em um banco usando chapéu branco no topo de sua cabeça que se mistura com seus cabelos trançados. Aproxima-se, vendo a idosa concentrada nos movimentos de seus longos e sensíveis dedos.

— Acordou cedo, Avery — Valerie destaca com um sorriso alegre antes de retomar a atenção ao que estava fazendo. — Quando disse ontem que teria de acordar com o sol, não estava realmente falando sério. — coloca a margarida que está em sua mão junto com as outras. — Vai ao hospital hoje?

Cogita negar, mas assente.

— Mas vou ajudar na floricultura. — garante puxando uma cadeira para perto da avó. — Pode me contar mais sobre as flores? — pede.

Tem uma parte interior que quer o contato imediato com a sua infância, escutar sua avó dizer todas as característica que uma flor carrega e como isso representa na vida dos compradores. Quando mais nova, enquanto escutava, sempre imaginara que sua avó era uma feiticeira boa que buscava espalhar a felicidade e procurava fazê-lo através das flores, como aconteceu no dia anterior.

Sua avó permanece com os olhos em seu trabalho esbanjando concentração.

— Eu gosto de pensar que as flores têm um teorema. — ela diz com animação contida. — Cada uma tem a sua representação e uma ocasião para ser usada. As pessoas só se importam com as famosas rosas, mas garanto que tem outras flores que podem expressar a emoção melhor do que elas. — estende um girassol com o longo caule na sua direção. — Não tem um melhor jeito de dizer que admira a vitalidade e o entusiasmo da pessoa do que dando um belo girassol.

Avery segura o caule e novamente é tomada pela sensação de felicidade, porém tem algo a mais do que não tem na gérbera. É como um sopro de ar fresco em seu rosto que enche seu peito de oxigênio que ela anseia respirar. Vida. Ela deveria estar assustada, mas não consegue. Existe uma beleza naquela flor que é hipnotizante e novamente um sorriso surge inconscientemente.

— Muito tempo que não ganho flores. — Avery murmura para si mesma atraindo o olhar inquisitivo de sua avó. Sente seu rosto se esquentar assim que Valerie ergue uma sobrancelha com um pedido silencioso de explicação. — Não me vejo em um relacionamento, vó. Não vou dizer que não tentei — pausa respirando fundo. — Parece que todas as vezes em que tento dar um passo para frente, dou cinco para trás.

Valerie põe uma mão por cima da de sua neta.

— Você não deveria usar seus pais como uma base para o relacionamento. — ela diz com sinceridade. — Seu avô e eu fomos muito felizes. Sabe qual foi a primeira flor que ele me deu?

Avery ergue uma sobrancelha.

— Aposto que não foi uma rosa.

Valerie ri.

— Um lírio. — responde — E disse: “Todos dão rosas para representar o desejo e o amor que sentem, mas um lírio diz que você é ideal e superior a todas as demais.” — Avery coloca a mão na boca, surpresa pelas palavras do avô. — Sim, seu avô já foi um romântico incurável.

A neta sabe que seus avôs se conheceram na época da guerra e que isso deixou seu avô com um muro indestrutível. Contando a desilusão amorosa que sua única filha teve ao ser abandonada grávida, Avery não o culpa por ter morrido sem demonstrar ser o homem por quem Valerie se apaixonou. Sua avó indica as funções que devem ser feitas com delicadeza nas flores, cuidando delas com suavidade.

Horas parecem se passar quando ambas se levantam para tirar a terra de suas roupas e vão para a caminhonete estacionada na porta de sua casa. Valerie cumprimenta seus poucos vizinhos e Avery lembra-se vagamente deles. No caminho para a floricultura, elas passam pelo hospital Mercy e Avery fica nervosa. Ela não quer se desesperar novamente e estava ansiosa para ter notícias boas. Toca sua testa, recordando-se que tem que limpar o machucado para não infeccionar. Umedece o lábio inferior com a língua, sentindo-o rachado no exato local que seu machucado está.

A floricultura Hyden fica no centro de Ivytown, um pouco distante da casa de Valerie, o que proporciona um momento leve entre as parentes enquanto ouvem músicas antigas no rádio obsoleto. Avery cantarola apenas movendo os lábios, em contra partida, Valerie canta desafinada sem desviar do caminho. Passam pelos poucos comércios que tornam Ivytown habitável e Avery percebe que não toca no celular tem bastante tempo. Na verdade, nem o traz.

— Acho que você pode ficar ao meu lado para aprender algumas coisas. — Valerie diz arrumando a caixa registradora. — Assim vai estar preparada quando herdar.

Avery sente-se tonta. Não é para a floricultura ser dela.

— Sei que não tem problema em lidar com o público. — Valerie continua sem perceber o silêncio repentino sua neta ao arrumar o troco.

— Vou pegar as flores.

— Não precisa, querida. — dá uma leve risada. — José fará isso. — fecha a registradora e fita enigmática. — Recorda-se dele, não é? Vocês dois não se desgrudavam quando eram mais novos. Acho que Alina tinha ciúmes. Não que precisasse.

Avery bufa com o assunto constrangedor.

— Éramos crianças, vó.

— Não são mais. — abaixa o tom de voz. — Ele está bem bonito. Oh, bom dia, José.

Um homem no auge de seus vinte e cinco anos adentra o estabelecimento carregando o caixote com as flores recolhidas na estufa. Ele pousa os olhos escuros em Avery e dá um meio sorriso de reconhecimento. Avery está assustada com o desenvolvimento de José, por mais que fizesse sete anos que não se viam. Sua pele dourada destaca sua origem latina e brilha com o suor de carregar as caixas, deixando os bíceps em destaque com as mangas da camisa branca enrolada.

José é como todos naquela cidade. Humilde e intrigante que se contenta com o mínimo que lhe é oferecido. Por isso não deram certo no passado e não tentariam novamente. José repousa o caixote no chão e se aproxima ainda sorrindo para abraçar Avery que retribui com nervosismo. Assim que seus olhos se cruzam, ela percebe a pena na expressão dele. Preparava-se para a chuva de piedade que viria em seguida.

— Sinto muito por Alina. — lamenta. — É realmente uma pena. Sei como vocês são próximas... — deixa a frase em aberto. Avery apenas assente. — Mas minha família está rezando para que ela se recupere.

— Obrigada. — diz suave.

— José pode levar a caixa para os fundos. — Valerie diz tirando os dois do momento constrangedor — Avery está na hora de aprender a mexer na registradora. Aposto que lá na cidade grande você nem relou o dedo em uma dessas.

Valerie tem razão, só que isso não significava que Avery tenha dificuldade de aprender. Em poucos minutos sua avó se sente confiante em deixá-la sozinha com a loja aberta para verificar se José está colocando as flores em seu devido lugar.

Nas primeiras horas ninguém abre a porta e Avery se questiona se esse é o movimento agitado que sua avó tanto frisou no dia anterior. Ela respira fundo, aspirando aos diversos aromas que tomam conta do ambiente e percebe a aura do lugar. É como uma versão mais contida do que sentiu na estufa, em que todas as suas emoções estão em um equilíbrio descontrolado. O colorido a deixa distraída por minutos até que o sino da loja toca.

Um homem entra falando no celular apressado e levemente irritado, praticamente cuspindo as palavras. Assume uma postura reta diante do cliente, rodeando as flores em uma busca exasperada. Raivoso, desliga o celular e dirige sua agressividade na direção de Avery batendo o cartão de crédito no balcão com força.

— Me dê qualquer coisa bonita. — ele ordena.

Avery estreita os olhos, não se conformando com a ordem, ainda assim a cumprindo e pega uma dúzia de narcíseos. Antes que tenha a chance de arrumar o buquê, sua avó toma as flores de sua mão e as recoloca no lugar anterior. Sem dar um segundo olhar na direção do cliente, apanha um vaso com orquídeas e a coloca no balcão.

O efeito que causa no homem é visível e imediato. Sua expressão se suaviza e ele respira fundo tocando com suavidade em uma das pétalas. Suspira pegando o celular e rediscando. Avery observa surpresa o quanto ele ri e massageia cada elogio.

— Desculpe. — ele pede pegando o cartão da mão de Valerie e o enfiando no bolso. Pega o vaso em seguida. — Não deveria ter descontado os meus problemas em você. — pausa e balança a cabeça. — Você é linda.

Saí da loja carregando o vaso e o último som antes de fechar a porta é a de sua risada.

Avery encara sua avó embasbacada.

— O que aconteceu aqui?

— Eu dei as flores certas. — Valerie dá de ombros e ajeita os narcíseos que pôs de qualquer jeito anteriormente. — Nunca entregue flores com frustração, Avery. Colha com amor e distribua com afeto. A flor errada pode desencadear a mensagem errada e a certa — pisca para a neta. — o comportamento certo.

E a mais nova percebe isso se repetindo diversas vezes durante seu expediente. No terceiro cliente sua avó deixa que lide sozinha e recebe um sinal de positivo ao entregar as margaridas. Não vê José e ao questionar sua avó, ela diz que o mandou buscar mais flores na estufa. Franze a testa com o pensamento da liberdade que ele desenvolveu. Por que Alina nunca citou isso? Quando o pensamento recaí nela, Avery salta da cadeira e junta todos os seus objetos para poder ir ao hospital.

— José te leva — sua avó a tranquiliza quando nota que deixou o carro em casa. — Quero que leve isso para Alina. Creio que vá fazer bem a ela. — Valerie entra um vaso com uma astromélia. Avery hesita por quase nunca ter tido contato com essa flor e pouco a ver na loja. — Elas fortalecem os vínculos entre duas pessoas — esclarece. — Assim Alina vai saber que está ao seu lado.

Respira fundo com os olhos marejados e pega o vaso entrando na caminhonete ao lado de José. O estranhamento é pesado nos primeiros minutos e Avery se concentra na flor que está repousada em seu colo.

— E o que tem feito da vida? — ele puxa assunto.

— Sou secretária do dono de uma construtora. — responde e fica em silêncio. Percebe que é questão de educação devolver a pergunta. — E você? Casou?

José ri.

— Não acha que sou muito novo? — ele diz e o rosto de Avery se esquenta. — Pelo menos foi o que você disse quando propus que nos casássemos quando acabasse a escola.

— José...

Ele levanta uma mão interrompendo-a.

— Não precisa se justificar, Avery. Sempre soube que você não ficaria muito na cidade depois que sua mãe morreu. Parecia que cada lugar que íamos você entrava em um estado de melancolia. E parece que dessa vez não vai ser diferente. — sua voz adquiri um tom autoritário. — Só acho que deveria visitar mais sua avó, como Alina te visitava.

— Eu sei...

É interrompida novamente.

— Não, Avery, você não sabe. — ele está visivelmente irritado. — Você soube que sua avó passou mal nesses últimos três meses pelo menos uma vez por semana? Tiveram que fazer inúmeras nebulizações, acharam até que estava desidratada. Valerie vive para a floricultura, mas apenas para a floricultura.

Avery fica surpresa com as confissões de José e permanece em silêncio até chegar ao hospital. Nem dá tempo de agradecer antes que ele acelere e suma. Ela encara a entrada do hospital e se recorda do olhar do médico em sua direção no dia anterior. Ele não a conhece por conta da internação de sua mãe ou de Alina, e sim pelas insistentes entradas de Valerie ao pronto socorro.

Uma enfermeira é encarregada de guiá-la até o quarto de Alina e dá um sorriso educado antes de se afastar e deixar ambas sozinhas. Avery repousa o vaso na mesa ao lado da cama e se senta no sofá tocando no cabelo longo e escuro de Alina. Por mais que fossem irmãs gêmeas, o modo como seu rosto está desfigurado pelo acidente a torna irreconhecível. Avery queria lembrar do que havia acontecido além dos gritos e se frustra quando se vê diante de uma barreira construída por seu medo.

— A vovó mandou algumas flores para você. — murmura pegando uma das astromélia e coloca na palma da mão de Alina. — Queria que estivesse acordada — lamenta.

Desde o acidente Alina entrou em um coma induzido para tentar conter os danos em seu cérebro. Ver a irmã sem sua alegria usual é doloroso e Avery fecha os dedos dela com os seus, mantendo a astromélia no meio. Arfa por não estar preparada com o que essa ação desencadeia.

Ela lembra.