O Teorema das Flores
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ao parar em frente à escadaria da casa que cresceu durante a infância, Avery larga as malas e suspira, observando a rusticidade da madeira da varanda e a pintura envelhecida e descascada das paredes. Sua vontade é de ir embora, voltar para a cidade e encarar os amigos que evita desde o fatídico dia, porém sabe que não pode. Por ela, não poderia.
Fica mais alguns minutos parada, olhando as flores plantadas na frente e ao redor da casa, tendo algumas crescendo por cima da cerca quebrada, invadindo o quintal do vizinho. Por mais que a casa tenha pontos negativos, ainda é a mais bonita da rua, quando comparada as outras. Avery se abaixa e pega as malas, tendo consciência que não tem muito tempo para a nostalgia que aquela casa traz. A chave da porta da frente está embaixo do tapete, como suspeita. Velhos hábitos não morrem ainda mais vindos de sua avó, Valerie.
— Vó? — Avery grita, recebendo apenas o silêncio em resposta. O piso range embaixo de seus pés e ela caminha até a sala. — Não acredito que ela me deixou sozinha logo hoje. — reclama sentando-se no sofá e vê um bilhete na mesa de centro. Inclina-se na direção do bilhete e o pega.
Querida Avery,
Tive que ir para a floricultura. Como o dia dos namorados está próximo, o movimento aumentou e não posso abandonar a loja. Deixei o almoço pronto, caso esteja com fome. Sei que tem assuntos importantes para resolver, por isso presumi que não iria se incomodar. Qualquer coisa, a loja continua no mesmo endereço.
Beijos.
Avery suspira, colocando o bilhete no lugar anterior e se espreguiça no sofá, escutando todos os seus ossos estalando. Resolve então, que deveria se instalar em seu antigo quarto, em que já passou vários verões durante sua infância. Enquanto sobe as escadas, seus olhos percebem e recordam de cada minúsculo detalhe, como um filme passando em sua cabeça.
Despreza o quanto sua mente é traidora. Tem tantas coisas que gostaria de lembrar. Para na porta de seu antigo quarto e passa o dedo pelo nome talhado na madeira, suspirando. Quer que o tempo volte para os dias em só corria pelos cômodos, sem se preocupar com o futuro ou como pagar as contas no fim do mês.
Mais lembranças são despertadas ao abrir a porta e ver que sua avó preservou até o mínimo detalhe do quarto. Desde as paredes azuladas até as mobílias, com as madeiras rústicas e desgastadas. Sorriu podendo enxergar perfeitamente cada passo que foi dado ao redor do ambiente.
— Avery!
— Alina!
Pisca com força, querendo escapar das memórias que lhe trazem dor e joga a mala na cama, dirigindo-se ao banheiro querendo lavar o rosto e despertar para assumir suas funções. Olha o celular vendo poucas mensagens do trabalho e sente um alívio por sua amiga, Olívia, estar tomando conta de sua função como secretária em uma construtora. Pelo menos alguma coisa em sua vida está certa.
Encara seu reflexo, jogando um pouco de água em seu rosto. Tem um corte em seu lábio inferior acompanhado por um curativo improvisado no alto de sua testa, além das escoriações por seu braço esquerdo. Seus olhos cor de avelã se abaixam tomados pela dor que cada uma dessas marcas carregam. Dor aquela que ela quer lembrar, mas sua mente teima em esquecer. Ela tem tempo para lidar com seus demônios, mas antes tem assuntos inadiáveis para resolver.
******
— Pode assinar aqui, por favor, senhorita Hyden — a recepcionista pede passando a prancheta com os formulários. — Um médico logo irá aparecer para te acompanhar.
Avery assente e devolve a prancheta indo se sentar na cadeira de espera. Lembra-se exatamente a última vez em que esteve na sala de espera do hospital Mercy. O câncer de sua mãe tinha se agravado e ela praticamente morou por ali. Ainda é uma época dura para ser recordada e Avery temeu por retornar. Reconhece o rosto de alguns médicos que transitam e acena ignorando a expressão penosa deles.
Move as mãos por seu rosto e deseja pela quinta vez que sua mãe estivesse ali para domar seu choque de realidade. Não espera ficar muito tempo na cidade em que viveu os anos mais dolorosamente ocultos de sua vida — onde, enquanto sua mãe passava por inúmeras sessões de quimioterapia, ela brincava correndo pela casa de sua avó, sempre evitando a estufa.
A estufa é o sustento da família Hyden por gerações e é uma decepção que Avery não queira seguir os passos na floricultura. Porém ela já tem o seu futuro, com um salário fixo e preocupações que consegue lidar. Pensa em sua avó e cogita ligar para a casa dela, no entanto desiste quando vê o médico vindo em sua direção.
— Avery Hyden? — pergunta e a jovem assente. — Sou o doutor Cavanaugh — se apresenta e franze o cenho em seguida. Avery toca sua testa em um reflexo, sabendo para onde a atenção do médico está dirigida. — Queira me acompanhar.
Avery se levanta e conforme segue pelos corredores, o doutor faz questão de colocá-la a par de tudo o que está acontecendo e o que estão fazendo para reverter os danos. Ela quer rir, pensando que é o jeito deles de garantir que o seu dinheiro está sendo bem gasto. Não que espere algo diferente. É o motivo principal para fazê-la retornar a passiva Ivytown: o desenvolvimento espantoso de seu hospital, que não se repete no restante da cidade. Mas, acima disso, ela precisa de apoio. E a avó é a única parente viva que pode dar isso.
— Você se recorda do acidente? — doutor Cavanaugh questiona, recobrando a atenção de Avery, que nega. Dá um sorriso empático. — Isso é normal depois do trauma. — assegura parando em frente à uma porta e segurando na maçaneta. — Tenho que alertá-la dos danos. Ainda temos alguns exames para fazer e...
— Doutor... — pede em um sussurro.
Por mais que lute para manter a calma diante das pessoas, Avery está prestes a desabar. Era sua culpa e ela só ganha arranhões? A vida não pode ser mais injusta. Cavanaugh suspira, vendo a penitência nos olhos de Avery e abre a porta. O som do choro dela enche os corredores.
*****
— Avery? É você?
Limpa o rastro de lágrimas em seu rosto antes que sua avó entre em seu campo de visão. Surpreende com o quanto a idosa mantém a juventude em seus olhos avelãs. Os cabelos embranquecidos estão presos em um coque alto e ela se apressa em abraçar a neta. Avery sente conforto por estar perto de alguém conhecido e que poderia partilhar a sua dor.
— Querida... — Valerie sussurra e toca os cabelos escuros da neta. — Vai ficar tudo bem — garante, por mais que Avery saiba que ela não possa dar essa certeza. Dá um sorriso tímido. — Já disseram que está muito parecida com sua mãe? Que Deus a tenha.
Avery não escuta aquela comparação com freqüência, ainda assim assente apenas para o deleite de sua avó. Nunca conheceu o pai para comparar, então seu lado materno da família é a única base para seus genes. E é o mínimo que ela merece depois de receber a neta que não a visitava fazia anos. O gosto pela descoberta e a necessidade de desbravar o mundo separa Avery de seus laços familiares, o que a faz lamentar. Parece que tudo está escapando por entre seus dedos.
— Vó, não sei o que fazer — desabafa sendo guiada por Valerie até o sofá. — A culpa é toda minha e não sei o que fazer. Paguei o melhor hospital da região e cheguei a fazer uma visita, mas parece que esse é o meu limite. E não quero que seja.
Valerie olha a neta com compaixão, prestando a atenção em cada palavra que é proferida e seu coração se aperta por compará-la com a garota que descia as escadas correndo, por mais que gritassem que era perigoso. Avery segura as lágrimas e Valerie suspira saudosa do velho hábito da neta de nunca demonstrar a dor na frente de pessoas conhecidas.
— Você precisa manter sua cabeça ocupada. — Valerie diz inclinando-se na direção de um vaso de planta e acaricia a pétala alaranjada de uma gérbera. — Amanhã pode me ajudar na estufa e na floricultura. Sei que não é o trabalho dos seus sonhos, mas pode te ajudar a se distrair. — Estende a flor na direção da neta e dá um pequeno sorriso. — Seu presente de boas vindas.
Avery passa o dedo pela pétala e dá um sorriso, gostando da beleza laranja da flor. Ergue os olhos na direção da avó e agradece mentalmente por tê-la ao seu lado, feliz por ter apoio familiar. Decide colaborar com Valerie no dia seguinte, não apenas para aquietar seus pensamentos, mas para trazer recordações boas que sobrepusessem as atuais.
— Fiz alguns biscoitos — Valerie anuncia. — Não sabia se tinha comido algo no hospital.
Avery larga a flor na mesa de centro, seguindo a avó cozinha a dentro. Recorda das vezes que sentou no balcão, lambendo a colher com chocolate sem nenhuma indicação que iria dividir. Isso gerava muitas broncas de sua mãe.
— Sinto falta dela. — murmura.
Valerie repousa uma mão no ombro da neta.
— Todas nós sentimos, querida.
— Eu queria me lembrar, vó. — reclama afastando-se do toque da mais velha, indo para o outro lado da bancada. — Mas tudo o que vem na minha cabeça daquela noite são os gritos. E essas marcas — gesticula ao redor dos hematomas. — São apenas uma garantia de que nada teria acontecido se eu tivesse...
— Você não precisa cuidar de mim!
— Eu não cuidaria se você não entrasse em um coma alcoólico todas as vezes em que saí. Deveria crescer, Avery. Não somos mais adolescentes.
— Alina!
— Ainda tenho pesadelos — continua passando a mão pelo rosto e sente as teimosas lágrimas descendo por sua bochecha. Odeia-se quando soluça diante da avó. — Nunca vou me perdoar se ela...
Com maestria sua avó alcança outro vaso da mesma flor que estava na sala e estende em sua direção. Confusa, Avery a segura, recuperando a visão atual do que está ocorrendo ao seu redor. Sua avó está ali e não precisa sofrer por antecipação. Alina precisa que Avery mantenha o foco. Ela olha para a flor, gratificada com a sensação que ela a trás e franze o cenho para a avó que está tirando os biscoitos da bandeja.
Como se lesse os pensamentos da neta, começa a divagar.
— As flores são incríveis, sabia? Mas se cuidadas com amor. — ela estende o prato na direção da neta com os olhos brilhantes. — E é isso que você tem que fazer. Cuidar de tudo o que tem com amor. Sofra quando for a hora certa para sofrer, mas não pare a sua vida por conta da dor. Você está fazendo o bastante por Alina e sinto o quanto está tomando de você.
Avery nem percebe que está apertando a flor com mais força que o desejado e lamenta ao ver as pétalas despedaçadas na palma de sua mão. Quer que a beleza dure mais um tempo, mas não ousa dizer isso a sua avó. Ela sabe quais seriam as palavras de Valerie diante do desejo da neta.
Tudo tem a sua hora. Inclusive a morte.
É o que recita todas as vezes que algo importante é perdido, mas não quer usar o mantra nessa situação. Ainda não está na hora. Avery se esforça em recuperar a compostura perto de sua avó e se esforça ao conversar sobre assuntos da atualidade, como a situação da pequena Ivytown. Valerie diz com lamento o nome dos conhecidos que partiram e se alegra ao contar sobre o andamento da floricultura.
— O movimento é um pouco devagar ao longo do ano, mas o dia dos namorados compensa.
Avery sabe que a floricultura é mais uma paixão do que um real negócio para Valerie, porém não diminuí a admiração por mantê-la funcionando por todos esses anos. Em sua infância, sua avó a deixava ajudar no cultivo e na colheita das flores e Avery realmente adorava participar daquelas atividades.
Com a garantia de sua avó que a acordaria quando o sol nascer, Avery recolhe sua gérbera na sala e sobe para o quarto de sua infância pronta para encarar as vozes desconexas que invadem seus pesadelos.
Porém, para seu contentamento, elas não veem.
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