​A chuva que havia começado pela manhã continuava a cair lá fora, batendo ritmicamente contra a vidraça do quarto e criando uma atmosfera acolhedora. Elara estava deitada de lado na cama, com o edredom puxado até a cintura, observando as gotas d'água escorrerem pelo vidro. Ela usava um lenço macio de algodão cinza na cabeça e parecia exausta, mas havia uma paz sutil em seu semblante.

​James havia sido praticamente arrastado para casa por Lucian horas antes. O pai de Elara insistira que o quarterback precisava tomar um banho decente, trocar de roupa e ver o mundo fora daquele quarto pelo menos por uma tarde.

​A porta do quarto se abriu devagar, sem fazer barulho. Sofia enfiou a cabeça para dentro, vestindo um moletom três vezes maior que o seu tamanho e meias grossas. Ao ver que a irmã estava acordada, ela sorriu de leve e entrou, fechando a porta atrás de si.

​— Posso entrar, Styles número um? — Sofia perguntou, a voz mansa.

​— Sempre, projeto de mãe — Elara brincou, estendendo o braço e afastando um pouco o cobertor para dar espaço.

​Sofia subiu na cama com cuidado e deitou-se de lado, de frente para a irmã, afundando a cabeça no mesmo travesseiro. Por alguns minutos, as duas ficaram apenas se olhando, ouvindo o som da chuva. Havia tanta coisa implícita naquele silêncio, tanto amor e tanta gratidão.

​— Como você está se sentindo? — Sofia estendeu a mão e ajeitou a bordinha do lenço da irmã. — O estômago está calmo?

​— Está sim. O susto passou — Elara deu um suspiro longo, os olhos azuis brilhando na penumbra. — Eu ainda não consegui digerir tudo o que aconteceu na sala hoje, Sofi. Eu olho para você... e ainda não consigo acreditar no que você fez por mim.

​Sofia deu um sorriso terno, os olhos marejados.

— Eu faria tudo de novo, El. Sem piscar.

​— Eu sei que faria. Mas o que mais me impressiona... é o Garret — Elara confessou, a voz carregada de uma admiração profunda. — Sofia, ele tem dezoito anos. Ele é o astro do time, o cara que tinha o futuro mais fácil e planejado do colégio. Ele podia ter entrado em pânico. Podia ter dito que era loucura sua, podia ter fugido. Mas ele ficou. A forma como ele enfrentou o papai hoje na sala... meu Deus, ele foi de uma coragem que eu nunca vi em nenhum garoto da idade dele.

​Sofia deixou uma lágrima de alívio escorrer pelo canto do olho, sorrindo com orgulho.

— Ele foi incrível, não foi? No dia em que eu contei a ideia para ele, aqui nesse quarto, eu achei que ele ia achar que eu tinha perdido o juízo por causa do estresse. Mas ele só me abraçou. Ele me olhou com uma seriedade, El, que me fez ver que ele não é só um menino com quem eu estava ficando no colégio. Ele é o homem da minha vida.

​— Ele segurou a barra do papai como um guerreiro — Elara riu baixinho, lembrando da cena. — O papai parecia que ia quebrar ele ao meio, e o Garret não deu um passo para trás. Ficou bem na frente de você.

​— Ele me protege de tudo, El — Sofia suspirou, tocando a própria barriga ainda perfeitamente lisa sob o moletom. — Ele me disse que, se esse bebezinho for a sua cura, vai ser a maior conquista da vida dele. Mais do que qualquer campeonato de futebol. Ele tem um coração gigante, Elara. Eu tenho tanta sorte.

​Elara estendeu a mão e cobriu a de Sofia sobre a barriga dela.

— Nós duas temos sorte, Sofi. O Garret é raro. Cuida bem dele.

​— Pode deixar, loira. Eu vou — Sofia piscou, puxando o edredom para cobrir as duas por inteiro.

​Do outro lado da cidade, na imensa e silenciosa mansão dos Lâfrer, o clima era consideravelmente mais tenso.

​James havia acabado de sair do chuveiro. Ele vestia uma calça de moletom preta e secava o cabelo escuro com uma toalha, caminhando direto para a sala de jogos. Garret estava lá, sentado na borda do sofá de couro, encarando uma garrafa de água intocada em cima da mesa de centro. Ele parecia exausto, com os ombros caídos, mas seu maxilar estava trancado em pura determinação.

​James jogou a toalha em cima de uma cadeira e caminhou até o frigobar, pegando outra água. Ele sentou-se na poltrona em frente ao amigo, observando-o em silêncio por alguns instantes.

​— Você está bem, cara? — James quebrou o silêncio, o tom de voz sério, despido de qualquer deboche.

​Garret soltou o ar pelo nariz, um riso curto e sem humor, levantando os olhos para o melhor amigo.

— Para ser sincero? Meu corpo parece que foi atropelado por um caminhão. A ficha está caindo agora, Lâfrer. Eu vou ser pai. Nós temos dezoito anos e eu vou ter um filho.

​James assentiu, bebendo um gole da água.

— É uma responsabilidade do caralho, Lioncort. Eu quase tive um infarto quando a Sofia falou na sala. Mas... eu vi o jeito que você bateu o pé na frente do Sr. Styles. Cara, você foi gigante hoje. Eu não sei se teria tido metade da sua postura se estivesse no seu lugar.

​Garret inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Sua expressão mudou para algo profundamente maduro, o olhar fixo em James.

​— Eu não tive escolha, James. Na verdade, eu tive, e escolhi ficar. Quando a Sofia me procurou chorando, destruída porque não era compatível para salvar a Elara, eu vi o tamanho da dor daquela garota. Ela estava disposta a tudo pela irmã. E eu percebi que amar a Sofia significava carregar o fardo junto com ela. Eu não podia deixar ela sozinha nessa loucura.

​James deixou o sorriso de canto surgir, cheio de orgulho do irmão que a vida lhe dera.

— Você não é só o meu melhor amigo, Lioncort. Você é o cara mais honrado que eu conheço. Seus pais nem sabem o que estão perdendo viajando por aí enquanto o filho deles se tornou esse homem.

​— Valeu, cara — Garret deu um sorriso fraco, parecendo tirar um peso das costas. — Mas e você? Como está segurando a onda com a Elara? A quimioterapia está judiando dela.

​James suspirou, o semblante obscurecendo ao lembrar da fragilidade da namorada.

— É duro, Garret. Tem noites em que ela passa horas passando mal, e tudo o que eu posso fazer é segurar o cabelo dela e dizer que estou ali. Ver a garota que você ama sofrer e não poder dar um soco na doença para fazê-la sumir... é a pior sensação do mundo. Mas eu não vou arredar o pé. Aquele quarto é o meu lugar agora.

​Garret levantou-se, caminhando até James e estendendo a mão. James levantou-se também e os dois se puxaram para um abraço forte, batendo nas costas um do outro — o clássico aperto de lealdade deles, mas que agora carregava o peso de uma nova vida e de uma luta pela sobrevivência.

​— Esse bebê vai salvar ela, James. Eu tenho fé — Garret disse, afastando-se com um olhar firme. — Nós vamos passar por isso juntos. Os quatro.

​— Juntos, cara — James garantiu, o olhar determinado de volta. — Agora anda, vai tomar um banho que você está com cara de quem enfrentou a linha de defesa inteira de West Valley sozinho.

​Garret riu, jogando a garrafa de água para cima e pegando no ar antes de caminhar em direção ao corredor, deixando James sozinho na sala, olhando para a chuva e pensando que, apesar de toda a tempestade, eles finalmente tinham um plano para vencer o relógio.