O Tempo que nos Resta

3 Jogo de Conquistas e Gelo



​O corredor principal do colégio estava um caos absoluto de armários batendo e conversas cruzadas quando Elara e Sofia entraram. Elas caminhavam lado a lado, rindo da última piada de Sofia, quando a atmosfera ao redor pareceu mudar. O burburinho diminuiu um pouco nas proximidades e Sofia foi a primeira a tensionar os ombros.

​— Ahn, El... — Sofia murmurou, diminuindo o passo. — Acho que o alvo do meu soco de ontem está vindo na nossa direção. E ele trouxe reforço.

​Elara ergueu os olhos e o vislumbre do cabelo escuro perfeitamente alinhado e da jaqueta West Valley número 10 fez seu estômago dar um nó. James Lâfrer caminhava com sua habitual postura de dono do mundo, os cantos dos lábios curvados em um sorriso pretensioso. Logo atrás, Garret exibia um ar divertido, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans.

​Antes que as irmãs pudessem desviar o caminho, os dois rapazes fecharam a passagem em frente ao bloco de armários.

​— Olha só se não são as minhas duas agressoras favoritas — James começou, a voz intencionalmente mais grave, apoiando uma das mãos na estrutura de metal do armário bem acima da cabeça de Elara, encurralando-a com charme. Ele ignorou completamente a presença de Sofia e focou seus olhos intensos na loira. — Sabe, ontem à noite eu estava meio escuro, mas agora, vendo você sob essa luz... Eu diria que um esbarrão seu é quase um privilégio. Que tal a gente compensar o desastre de ontem com um jantar hoje à noite?

​Elara nem sequer piscou. Ela olhou para a mão dele apoiada no armário, depois subiu o olhar lentamente para o rosto dele, os olhos completamente frios e desprovidos de qualquer brilho de admiração. O tratamento contra a leucemia e a constante proximidade com a própria fragilidade a haviam ensinado a não perder tempo com superficialidades. Meninos egocêntricos como James não a intimidavam; eles apenas a entediavam.

​— Você está no meu caminho — Elara disse, a voz cortante e incrivelmente calma. — E a sua cantada é tão ruim quanto o seu senso de direção ontem à noite.

​James piscou, o sorriso congelando nos lábios. Ele não estava acostumado a receber um "não", muito menos um gelo daquele calibre na frente de metade do corredor.

​Enquanto isso, a poucos centímetros dali, a dinâmica era totalmente diferente. Garret havia dado um passo à frente, parando bem diante de Sofia. Ele não parecia nem um pouco intimidado pelo histórico violento da garota; pelo contrário, parecia fascinado.

​— Oi — Garret disse, abrindo um sorriso largo e genuíno, bem diferente do ar ensaiado de James. — Só queria dizer que o meu braço ainda está doendo de carregar esse mutante ontem, mas o meu respeito por você só cresceu. Sou o Garret.

​Sofia cruzou os braços, tentando manter a pose de durona, mas o canto de sua boca traiu um leve sorriso.

— Sofia. E é bom ele ter aprendido a lição.

​— Ah, ele não aprendeu, ele é meio lerdo para essas coisas — Garret riu, aproximando-se um pouco mais, o tom de voz mudando para algo mais suave e charmoso. — Mas eu aprendi. E sei reconhecer uma garota incrível quando vejo uma. O que você acha de me dar uma chance de provar que nem todo mundo que joga futebol americano é um ogro?

​Sofia arqueou uma sobrancelha, olhando de Garret para o fiasco que James estava passando logo ao lado.

— Você parece... ligeiramente menos insuportável que o seu amigo.

​— Eu sou um amor de pessoa, juro — Garret piscou, tirando o celular do bolso com agilidade e estendendo para ela. — Salva seu número aqui? Prometo só mandar piadas ruins.

​James, que ainda tentava processar a frieza de Elara, tentou uma última cartada, aproximando o rosto do dela.

— Qual é, loira. Ninguém diz não para mim. Você sabe quem eu sou, não sabe?

​— Sei — Elara respondeu, sustentando o olhar dele sem vacilar. — Você é o cara que está bloqueando o acesso aos meus livros de Literatura.

​TRRRRRRIIIIIIINGG!

​O sinal estridente do primeiro período ecoou pelo corredor, quebrando a tensão. Elara aproveitou o exato segundo de distração de James, agachou-se com agilidade por baixo do braço dele e ajeitou a mochila nos ombros.

​— Tenho aula agora. Com licença — ela disse, sem olhar para trás, começando a caminhar firmemente em direção à sala de aula.

​Sofia deu uma risada abafada da cara de tacho de James. Ela rapidamente digitou os números no celular de Garret, devolveu o aparelho para as mãos dele com um tapinha no peito e deu uma piscadela.

​— Me convence que você vale a pena, Lioncort — Sofia disse, girando nos calcanhares e correndo para alcançar a irmã. — Espera aí, El!

​James ficou paralisado por alguns segundos, encarando o corredor vazio por onde Elara tinha acabado de sumir. O corredor já estava esvaziando rapidamente.

​— Caraca, cara! — Garret explodiu, erguendo o celular como se tivesse ganhado um troféu no Super Bowl. — Ela me deu o número! A deusa do soco me deu o número dela! Chupa essa, Lâfrer!

​James soltou o ar pelo nariz em um bufo audível de pura frustração e irritação. Seu ego, que nunca havia sofrido um arranhão sequer em West Valley, estava sangrando. Ele passou a mão pelo cabelo, os olhos faiscando de uma determinação perigosa.

​— Fecha a boca, Garret — James sibilou, ajeitando a mochila com força. — Isso não terminou. Ninguém me trata daquele jeito.

​— Aceita a derrota, quarterback. A loira te deu o maior fora da história desse colégio.

​— Ela não me deu um fora, ela só está fazendo jogo duro — James retrucou, o maxilar trincado enquanto começava a andar em direção à sala de aula, mas com o pensamento fixo na frieza daqueles olhos loiros. — Eu vou ter aquela loira, Garret. Nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida.