O Tempo que Leva
16 Um Dia ou Dois
Notas iniciais
Despedi-me dele com um abraço rápido.
Estávamos almoçando quando o hospital ligou. Conversávamos nada de importante; sobre o que faríamos daqui alguns anos, se pudéssemos fazer o que quiséssemos. Sobre nossas cores favoritas, e comidas também. Que habilidades especiais teríamos se pudéssemos escolher qualquer uma, e o que faríamos com ela.
Mas o hospital ligou. Não era uma notícia muito boa.
– Vai ficar tudo bem. – prometi, sem ter certeza. Não podia ter, mas não acreditava que algo aconteceria à Regina. Ela era forte demais – Sua mãe vai ficar bem.
Ian suspirou de leve, preocupado. A pequena ruga entre as sobrancelhas estava agora um pouco maior do que antes. Ele deu um sorriso cansado.
–Se não me ligar quando precisar de mim, eu terei que ir atrás de você. – prometi, fazendo seu sorriso aumentar um pouco. Ele segurou meu rosto com as duas mãos – Eu volto caminhando, estamos perto de casa.
–Tudo bem. – respondeu ele, percebendo que eu não deixaria que fosse diferente. Depositou um beijo na minha testa e subiu na moto, virando para me encarar – Toma cuidado. – pediu.
We're Talking away
(Estamos conversando à toa)
I don't know what
(Eu não sei o que)
I'm to say I'll say it anyway
(Eu direi que qualquer maneira)
Today's another day to find you
(Hoje é outro dia para te encontrar)
Shying away
(Afastando-se)
I'll be coming for your love, OK?
(Eu voltarei por seu amor, ok?)
–Mande um abraço à Regina por mim. – respondi com um sorriso no rosto. Assim que ele arrancou meu sorriso caiu.
Soltei um suspiro cansado; o dia hoje vai ser difícil.
Comecei a caminhar para casa, pensando sobre o assunto. Era difícil estipular algo no caso de Regina. Ela ficou mal quando a conheci, mas há poucos dias atrás conversamos e demos risadas tranquilamente. Ela parecia tão bem.
É tão esquisito como uma situação pode mudar de uma hora para outra.
Take on me
(Aceite-me)
Take me on
(Vá por mim)
I'll be gone
(Eu vou terei ido)
In a day or two
(Em um dia ou dois)
Não acordei naquela manhã sendo pessimista. Acordei pensando no que faríamos mais tarde, depois do trabalho. Acordei pensando em ligar para Eileen para saber como andavam as coisas com os rapazes, e para Valentina para saber se ela havia falado com aquele tal de Caesar.
Acordei pensando no que fazer daqui pra frente, mas a gente pode nem ter a chance de fazer isso. O bom era saber que por incerto que fosse o tempo, pessoas que sabiam como eu era estavam ali, e não iriam a lugar nenhum. Mesmo sem saber quanto tempo tinha entre o “daqui” e o “pra frente”.
Cheguei ao prédio meio cansada após a caminhada filosófica. Não pelo exercício físico, mas pelo mental, mesmo. Quem diria que um telefonema poderia tirar toda sua força de vontade assim, num piscar de olhos?
Eu entrei no apartamento me sentindo inútil. Queria estar com ele. Queria vê-lo, queria poder dar apoio. Por que eu tinha de ter um emprego? Ah é, eu tenho contas para pagar. Manter a vida.
Ugh! Que raiva, como eu queria que Regina melhorasse! Como eu queria que ela não fosse a única família que ele tem, que a vida fosse um pouquinho mais justa. Joguei a bolsa em cima da mesa da cozinha, frustrada.
Caminhei até o quarto e entrei direto no banheiro, jogando a roupa no chão. Ele tirou um dia de folga para passarmos a tarde juntos, e infelizmente não deu. Não, eu sei que soa como egoísmo, mas eu realmente me importo com Regina. Queria que pudéssemos os três passar a tarde em algum lugar tranquilo.
Que ela me mostrasse fotos dele quando criança, e que me contasse seus medos. Queria poder aumentar a família dele, poder deixa-o cercado de gente todos os dias.
Deve ter sido solitário, e difícil. Os dois construíram uma boa vida juntos, e uma relação muito forte, mas agora tudo o que ele tem é ela, e se ela se for...
Deixei a água quente escorrer pelo meu corpo, me tranquilizando.
É inútil ficar remoendo isso.
Terminei o banho e me troquei, deitando na cama. Peguei o celular e mandei uma mensagem para ele, pedindo que me avisasse caso tivesse notícias.
Fiquei ali, encarando o teto, e adormeci sem perceber. Acordei algumas horas depois, perto das quatro, com uma mensagem dele vibrando no aparelho.
“Ela está estável, mas não acorda desde ontem. A respiração está um pouco fraca; estão pensando em colocar os aparelhos respiratórios. – Ian.”
Soltei um suspiro, entre o pesar e o alívio. Bom, ao menos ela estava estável. Respondi um agradecimento, e que falasse com o médico se aquela era a decisão mais segura.
So needless to say
(Tão desnecessário dizer)
I'm odds and ends
(Eu sou insignificante)
But that's me stumbling away
(Mas este sou eu tropeçando para longe)
Slowly learning that life is OK
(Lentamente aprendendo que a vida é ok)
Say after me
(Repita depois de mim)
It's no better to be safe than sorry
(Não é melhor estar seguro do que arrependido)
Não que eu fosse a pessoa mais experiente no assunto, mas uma irmã e um cunhado médicos me davam certo conhecimento no assunto. Às vezes o paciente não volta de uma intubação; ele precisa estar mal para precisar do procedimento, mas forte o suficiente para poder a voltar a respirar sozinho.
Regina, por favor, melhora.
Comecei a trocar-me para o serviço, distraída com outras coisas na cabeça. Saí de casa para o metrô, com o celular agarrado à mão. Ian não respondera, mas não sabia o que poderia estar fazendo.
Não sei nem se quer que eu esteja com ele, mas não consigo evitar odiar deixa-lo lá. É como quando você sabe que tem algo que alguém precisa, mas ela recusa por educação, e você não faz questão de oferecer mais uma vez, ou ceder?
Ian queria ser forte. Mas não precisava ser forte sozinho.
Take on me
(Aceite-me)
Take me on
(Vá por mim)
I'll be gone
(Eu vou terei ido)
In a day or two
(Em um dia ou dois)
Mas se quisesse um espaço para sofrer, eu podia dá-lo isso também.
Cheguei ao restaurante como se hoje, pela primeira vez, não quisesse estar ali. Marion percebeu.
–O que aconteceu, Mikaela? – perguntou, sentando-se ao meu lado no banco perto dos armários dos fundos. Olhei-o sem realmente enxerga-lo.
–Preocupações. – expliquei, balançando a cabeça – Sinto como se tivesse de estar em outro lugar agora. – expliquei, sentindo uma tensão na minha voz. Já faziam duas horas e nada de notícias.
Marion concordou com a cabeça, como um velho ancião se recordando de uma lembrança.
–Todos temos nossos dias de chien*. – falou com a voz leve, fazendo-me encará-lo.
–E foi tão de repente. – expliquei, ouvindo a incredulidade na minha voz. Soltei um suspiro longo – E a expectativa é pior ainda.
–Tente se distrair, Mikaela. O tempo vai levar a mesma velocidade se sempre para passar. Melhor ocupa-lo com algo. – explicou, dando um tapinha nas minhas costas e saindo dali.
Ele estava certo. Tenho de trabalhar, de qualquer jeito.
De algum modo consegui não surtar até o fim na noite; servi mesas furiosamente, e quando vi já era hora de ir embora. Caminhei rapidamente até o metrô e voltei para o apartamento, exausta física e mentalmente.
Precisava comer, e com certeza beber algo. Peguei umas batatas-fritas e uma garrafa de cerveja e sentei no sofá da sala, sem nem acender a luz. Comi, cansada do jeito que estava, enfiando tudo na boca de qualquer jeito, jogada no sofá.
Devo ter adormecido por alguns minutos, talvez horas. Senti meu telefone vibrar. Uma mensagem de Ian. Olhei a hora; quase duas da manhã.
“Mika, você está aí?”
Por algum motivo senti medo. Liguei para ele, e este atendeu a chamada no primeiro toque.
–Ian? – perguntei, a voz meio rouca por causa do sono. Pigarreei antes de continuar – Estou aqui. – falei debilmente, sem saber o que dizer.
Ouvi apenas silêncio por alguns segundos.
Senti minha pulsação acelerar, a respiração vindo dificilmente.
–Eu estou indo para aí! – falei, já pegando as coisas para sair de casa.
–Mikaela, já é tarde... – falou com a voz rouca – É perigoso sair agora.
–Eu estou indo! – falei com mais força. Malditos sapatos! Entrem logo no pé!
Oh the things that you say
(Oh, as coisas que você diz)
Is it live or
(É apenas viver ou)
Just to play my worries away
(Apenas espantar minhas preocupações)
You're all the things I've got to remember
(Você é tudo que eu tenho de me lembrar)
You're shying away
(Você está se afastando)
I'll be coming for you anyway
(Eu vou voltar por você de qualquer jeito)
– Ela ainda está dormindo. – explicou, agora com a voz branda.
“Mas não vai acordar, não é?” Quis perguntar, mas não consegui. Apenas tranquei a porta do apartamento e desci para a rua, caminhando rapidamente até o Hospital.
A rua vazia podia parecer assustadora qualquer outro dia, mas não hoje. Acho que comecei a correr em algum momento; cheguei em uns dez, doze minutos, ao Hospital Central, ofegante e toda descabelada.
–O quarto número... – comecei ofegante, mas então parei ao ouvir chamarem.
–Mikaela. – virei para o corredor, dando as costas para a atendente ensonada e espantada na recepção – Não acredito que veio. – disse, então me abraçou.
–Deixa de ser imbecil. – murmurei contra ele – Sua mãe, como está? – perguntei. Senti que ele me apertou mais um pouco. Minha garganta apertou.
–Vamos subir. – pediu ele, e assim fizemos.
A porta do quarto dela estava aberta, um trânsito leve de médicos e enfermeiros entravam e saíam dali, hora para reavaliá-la, hora para dar algum fármaco. Sentamos nas cadeiras ao lado da cama, exaustos.
Ela parecia tão tranquila! Como podia? Estava intubada, o peito subindo e descendo lentamente. Os aparelhos soltavam aqueles bipes regulares, e a luz da lua entrava pela janela. Ian parecia agonizar em silêncio ao meu lado.
Segurei sua mão, com força. Ele apertou de volta.
Estou aqui. Aqui. Não precisa sofrer sozinho.
Take on me
(Aceite-me)
Take me on
(Vá por mim)
Ele respirou fundo, acalmando-se.
E então os bipes intercalados tornaram-se um único bipe contínuo. Fechei os olhos instintivamente. A mão dele ficou mais forte na minha.
Em algum lugar ouvi passos, vozes, e então não estava mais ao lado da cama hospitalar, e sim na porta, as duas mãos dadas a Ian, os dentes trincados quase quebrando na minha boca. Prendi a respiração.
Por quanto tempo fiquei assim? Quanto tempo Ian ficou congelado na minha frente?
Eu realmente não sabia dizer. O tempo já não fazia diferença nenhuma, não agora que alguém de jaleco tentava explicar o que acontecera.
Ela não resistira, falou. Algo como metástase, efeito dos remédios, pouco tempo de vida.
Logo estávamos nos dois ali, parados onde tinham nos colocado, sem se mexer. Ian soluçou silenciosamente, apoiando a cabeça no meu ombro. Abracei-o protetoramente.
Senti as lágrimas virem, mas elas não escorriam. A garganta ficou apertada, a respiração quase não acontecia, mas não conseguia chorar. Fiquei encarando a parede, sentindo o corpo dele tremer de leve contra o meu.
...
Então a umidade veio, e precisamos sentar, ali mesmo no chão. Não podia soltá-lo, não conseguia, e não queria. Tinha medo que ele quebrasse se fizesse. Talvez eu quebrasse também.
Não sei, quanto tempo ficamos assim.
Sei que no final, apertei meu rosto molhado contra ele, sentindo os tremores do seu corpo diminuírem. Aos poucos conseguimos voltar a respirar, voltar a se mexer.
Ele levantou o rosto, e senti um pedaço do meu peito estilhaçar ao olhá-lo. Se pudesse tirar um pedacinho do que sentia dele e guardar em mim, só pra diminuir o que sentia, faria. Nem que fosse um pouco. Daria qualquer coisa para que ele não tivesse aquele olhar no rosto. Qualquer coisa.
Ele me encarou, passando a mão de leve no meu rosto. Tirei as mechas do cabelo dele que começavam a grudar no rosto, algumas compridas demais grudando nas bochechas úmidas dele. Ele suspirou, engolindo em seco. Ajudamo-nos a nos levantar.
Paramos ao lado da cama. A luz entrava e batia diretamente no rosto dela. Ele passou a mão no rosto dela, então depositou um beijo na testa, deixando uma última lágrima cair.
Ela tinha um sorriso tão frágil no rosto. Como se se despedisse.
I'll be gone
(Eu vou terei ido)
In a day or two
(Em um dia ou dois)
*Cão em francês.
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