O Tempo que Leva

5 Um Botão Para Florescer


Notas iniciais
AAH! Me desculpa a demora, o dia foi corrido! Quinto dia do desafio! Beautiful day – U2

–Hmmm..! – gemi ao me espreguiçar. Meu rádio relógio acordou como eu hoje: de bom humor.

The heart is a bloom

(O coração é uma flor em botão)

Shoots up through the stony ground

(Que floresce pelo chão pedregoso)

There's no room

(Não há nenhum quarto)

No space to rent in this town

(Sem lugar para alugar nessa cidade)

Levantei da cama, dançando apenas de camiseta e calcinha. Bono Vox pode ser meio velho, mas sabe fazer música. Fui animadamente para o banheiro, deixando o rádio tocar.

You're out of luck

(Você está sem sorte)

And the reason that you had to care

(E sem o motivo que tinha para se importar)

The traffic is stuck

(O trânsito está parado)

And you're not moving anywhere

(E você não está indo a lugar algum)

Escovei os dentes e me troquei. Comecei a arrumar o quarto, murmurando junto com a música.

You thought you'd found a friend

(Você pensou que tinha achado um amigo)

To take you out of this place

(Para te levar para longe daqui)

Someone you could lend a hand

(Alguém a quem poderia ajudar)

In return for grace

(Em troca de um favor)

Eu não sei que bicho me mordeu hoje. Acho que é porque estou de folga, não sei. “Talvez porque você vá receber visitas hoje?”, tentou Jusiete. Revirei os olhos. Pra algo que deveria ser minha consciência, ela é muito irritante.

Comecei a cantar animadamente com o refrão, chacoalhando o lençol acima da cabeça.

It's a beautiful day

(É um lindo dia)

Sky falls, you feel like

(O céu desaba, e você se sente como)

It's a beautiful day

(É um lindo dia)

Don't let it get away

(Não o deixe escapar)

Parei quando ouvi uma voz atrás de mim rindo. Virei assustada.

–Eileen! Sua ridícula, QUE SUSTO! – então ela começou a gargalhar, e eu acabei me juntando – Por que não me avisou que vinha? Aliás, como você entrou?

–O porteiro me conhece, e falei que você provavelmente estaria dormindo. Ele me deixou subir.

–Mas que espécie de porteiro deixa alguém subir no apartamento de uma pessoa adormecida? – perguntei incrédula, jogando o lençol na cama, me esquecendo da música. Eileen saiu da porta do quarto e veio me ajudar.

–Vim por dois motivos; primeiro porque temos que comprar umas coisas pra hoje à noite, e bem que poderíamos almoçar fora. – disse ela, agora jogando os travesseiros para mim – E porque você não me contou o que aconteceu ontem. Avalon também quer saber, e você não pode me deixar esperando esse tipo de informação, você me desculpa. – completou, arremessando o último travesseiro na minha cara.

Franzi o nariz para ela.

–Mas pelo jeito foi bom. – disse abaixando e levantando as sobrancelhas, com um sorriso sugestivo no rosto. Revirei os olhos, rindo.

–Não foi nada de mais, se quer saber. – respondi indo para a cozinha. Eileen me seguiu animadamente.

–Ah, mas eu quero saber, sim. – retrucou a outra, sentando-se em um dos bancos altos do balcão. Encarei-a com um sorriso azedo – Fala logo mulher! – dei de ombros.

–Ele é legal. – disse pensando – Acabamos conversando sobre muita coisa. – ela franziu as sobrancelhas – Sobre Phelipe. – expliquei, fazendo-a encarar-me incrédula.

–Como pôde falar sobre um ex na primeira vez em qu-

–Foi ele quem perguntou. – respondi, sorrindo pra impaciência dela, cortando a frase no meio. Expliquei o que aconteceu, pelo menos o que consegui lembrar.

Ela ficou quieta por alguns minutos pensando, enquanto eu colocava suco em dois copos.

–Ele... foi bem compreensivo. – disse por fim, e eu acenei concordando, com os cotovelos apoiados no balcão – Mas você não quer nada com ele?

“Ah, como posso dizer? Ele é atraente de um jeito meio estúpido.” Fiz um bico interrogativo, pensando. Ignorei Jusiete.

–É difícil explicar. Eu sei que ele é bonito, e realmente achei ele simpático, mas... – eu não consegui terminar. Eileen fez isso por mim.

–Mas não sabe como é a vida sem Phelipe, não é? – apoiei a cabeça em cima dos braços com a expressão derrotada no rosto – Você pode tentar, ele não é tudo o q-

–Não é bem isso. – expliquei levantando o rosto, apoiando o queixo – Não é como se não soubesse viver sem ele; fiz isso antes de conhecê-lo e estou fazendo agora. É só que... – suspirei – eu não tenho espaço pra outra coisa, entende? Eu só estou chateada, e não consigo sentir mais nada que ocupe muito espaço emocional.

Eileen afagou minha cabeça como que para me acalmar. Senti-me um cachorrinho. Sorri.

–Entendo sim. – disse com o rosto compreensivo – Mas e então, ele vem? – acenei que sim com a cabeça.

–Bom eu acho que sim. Acabei convidando. E seria feio dizer pra não aparecer, até porque Avalon não convidou só ele, como a banda inteira. – Eileen deu risada.

–Ela gostou do careca. – eu ri também, concordando.

Arrumei rapidamente a cozinha, pronta para sair.

–Posso deixar minha mochila aqui? – perguntou Eileen – Eu trouxe uma troca de roupa. – explicou.

–Claro, — disse pegando a bolsa – vou coloca-la no quarto.

Aproveitei e coloquei uma calça confortável e peguei minhas coisas para sair. Mandei uma mensagem para Valentina e Sansa avisando que viriam mais pessoas hoje à noite. Pegamos o metrô, como eu costumava fazer, e fomos conversando animadamente sobre o que poderia ser feito para comer.

–Eu prometi peixe para as meninas. – expliquei – Mas só isso não vai ser suficiente. Até porque alguém pode não comer.

–A gente poderia fazer pizza. – aconselhou Eileen. Dei risada. Se bem que, se alguém fosse reclamar que levasse a própria comida.

–Tudo bem, pode ser. Vou fazer batata-frita também. – Eileen concordou com a ideia. Vai ser a mesa mais diversa da história.

Chegamos lá e começamos a caçada pelos ingredientes. De sábado aquele lugar lotava, principalmente porque os produtos novos chegavam nesse dia. Separamos um carrinho dessa vez, enchendo-o. Batatas, ok... Farinha eu tenho em casa; agora o molho...

–Pegue uns tomates para mim! – pedi, enquanto eu colocava ovos e queijo no carrinho. Eileen voltou com o pedido, e um engradado de cerveja pilsen.

–Acho que a Avalon vai trazer preta. – disse. Eu acenei com a cabeça – Já pegou o frango? – eu fiz que não, então ela voltou a me deixar, para busca-lo.

–Bacon também! – gritei para as costas dela, que respondeu com um “joia”.

Peguei pimentão e duas garrafas de refrigerante. Eileen voltou trazendo o resto. Tinha os ingredientes para fazer os molhos de petisco, então finalizamos a compra por ali, ficando longos quarenta minutos na fila do caixa.

Decidimos voltar para casa e deixar as compras, e depois sair para comer alguma coisa por perto. Quando finalmente voltamos para o apartamento, já passava das quatro da tarde.

Comecei a preparar a massa da pizza enquanto Eileen arrumava a sala; colocou inúmeros descansa copos na mesa de centro, e uma pequena toalha para estender a comida e as bebidas.

Por volta das cinco e meia Valentina e Sansa chegaram, trazendo cream cheese, uma garrafa de whisky e sorvete.

–Vamos fazer milk-shake alcoólico! – disse Sansa animadamente.

Revirei os olhos. Coloquei a bebida e a sobremesa no freezer que já estava apertado.

Elas me ajudaram com o peixe; cortei em pequenas fatias e coloquei para marinar na geladeira enquanto as duas faziam os molhos com os ingredientes que ofereci. Já Eileen começou a cortar as batatas em tiras, lavando-as e deixando de molho na água com sal.

Quando deram seis horas fui tomar banho, e Eileen foi para o banheiro do corredor fazer o mesmo. Trocamo-nos e voltamos para a cozinha, onde Sansa e Valentina mexiam no rádio procurando por música. Abri todas as janelas da sala e a porta para o corredor do andar, preparando o ambiente para a fritura.

Sansa e Valentina me ajudaram a empanar parte do salmão, e a outra parte seria servida tipo sashimi, a pedido das duas. As sete fiz o recheio da pizza e a coloquei para assar, e logo começamos a fritar as batatas.

Avalon chegou logo em seguida, trazendo suco. Suspirei de coração partido; estava tomando a última cerveja preta que tinha. “Tem bebida suficiente para afogar as mágoas aqui, não precisa de mais.” Sinceramente, tomara que morra, Jusiete. Foda-se o whisky, eu quero minha cerveja!

Colocamos o salmão para fritar, e já era quase oito. O apartamento ficou momentaneamente com cheiro de pastelaria, mas as janelas abertas logo fizeram com que o odor sumisse. Eileen acendeu um dos meus incensos de girassol, só para ter certeza.

Colocamos a comida na mesa de centro, e eu liguei a música no rádio. O clima logo ficou animado quando as latas de cerveja vazias iam se acumulando em cima do balcão.

Oito e meia o interfone da portaria tocou, e parte de nós ali já estávamos... bem calibradinhas. Na verdade acho que só a Avalon ainda estava sóbria. Lamentei mais uma vez por causa da cerveja.

–Senhorita Mikaela, tem um grupo de rapazes querendo subir. – disse a voz do porteiro. Revirei os olhos. Vieram todos mesmo, gente – Um tal de Ian disse que você estava esperando... – consegui ouvir a desconfiança na voz do porteiro – são quatro rapazes. – adicionou com um pouco de receio.

Eu ri, um pouco mais empolgada do que exigia a situação.

–Pode mandar subir, Hélio. – e desliguei – Avalon! – chamei indo para a sala. Ela levantou a cabeça com uma cara interrogativa, com uma batata enfiada na boca – Veio a banda toda. – comuniquei, com um pouco mais de choque que o normal. Ela pareceu achar graça da minha expressão.

–Não fique tão preocupada, não é como se você nunca tivesse lidado com homens. – disse, rindo quando arremessei uma almofada do sofá nela.

–É muita gente. – reclamei. Foi a vez de Valentina falar:

–Deixar vir, gata. Quanto mais homem melhor. – disse fazendo uma cara que, supostamente, era pra ser sensual, mas que acabou fazendo Sansa e Eileen rirem.

Meu rolar de olhos foi interrompido por um bater na porta. Alguma coisa congelou dentro de mim. Avalon e Valentina já foram levantando para recebê-los, com expressões nos rostos que me fizeram temer deixa-las abrir a porta. Consegui chegar primeiro.

Quando abri, quatro rostos simpáticos e sorridentes esperavam na porta.

–Oi..! – disse dando uma risada nervosa – Entrem, entrem. – pedi.

Ian passou pela porta primeiro, seguido pelo carinha ruivo, o tal de Robb, e os outros dois integrantes da banda que eu nem fazia ideia do nome.

–Olá, garotas. – disse ele com o sorriso galante, colocando algo em cima da pia. Cerveja preta! Ah! Eu quase chorei de felicidade!

–Ah! Você trouxe! – eu limpei uma falsa lágrima do rosto, fazendo-o rir.

–Imaginei que a sua fosse acabar, mesmo. – disse alfinetando. Meu humor era incorruptível quando estava “alta”.

–Ah eu poderia te beijar agora! – ele arregalou os olhos, mas logo abriu um sorriso, prestes a falar algo. Mas antes continuei – Mas aí ficaria enjoada demais pra comer a comida que fiz.

Ele fechou o rosto momentaneamente, e os colegas dele riram gostosamente.

–Boa. – admitiu ele. Respirou fundo e virou para as meninas, que agora estavam todas na cozinha – Prazer, sou Ian. – disse se apresentando para as que ainda não conhecia – Estes são Robb, Mark e Sion. – disse apontando primeiro para o ruivo, e então para o cabeludo que ainda não conhecíamos, e então para o careca (que, diga-se de passagem, Avalon cumprimentou muito simpaticamente).

Eles deram uma saudação breve, e então o tal de Robb levantou uma garrafa acima da cabeça. Tequila.

–Espero que bebam. – disse com um sorriso simpático, me entregando a garrafa para que eu pusesse no freezer também, agora em superlotação.

–Ah, bebem. – comentou Ian, tirando uma risada geral. E uma cara azeda minha, claro.

“Deixa de ser carrancuda, ou ele pode acabar descobrindo que você não é tão interessante assim!”, ralhou a maldita voz, que agora eu não lembrava bem o nome que dei. Julieta? Josi... Jusiete! É, isso.

A conversa e as risadas foram ficando mais intensas e altas conforme o nível de álcool no pessoal subia. Avalon dera-se especialmente bem com Sion, que não estava bebendo também. Conversavam sentados no chão, comendo parte das batatas. Eileen, Sansa, Valentina, Robb e Mark (pelo amor de Deus, quanta gente!) discutiam animadamente sobre o que valia mais apena, whisky ou vodka, celta ou ka, morrer afogado ou queimado, etc. Eu observava a conversa rindo. Ian estava sentado ao meu lado, com uma garrafa de cerveja na mão. Eu também tinha uma, feliz e contente com o sabor da Malzbier e da pizza na boca. A música no rádio embalava a conversa.

–A comida está... muito boa. – comentou ele, enquanto eu enfiava um pedaço de pizza na boca. Virei para sorrir com os lábios fechados em agradecimento, fazendo-o rir – Sabia que era boa nisso, mas acho que não acreditei. – disse dando de ombros.

Olhei para ele com um olhar cético, e acabei dando um soco no seu ombro, fazendo-o rir.

–Bom, eu não posso falar muito da sua música, não é? – respondi. Ele deu um sorriso azedo para mim – O que você faz naquela empresa de instrumentos, afinal? – perguntei de repente, genuinamente curiosa.

Ele abriu um sorriso, pensando no assunto. Percebi que o rosto dele estava um pouco mais corado do que quando o vi da última vez, por causa do álcool. “Espero que não tenha vindo dirigindo.” Dessa vez tive que concordar com... com a vozinha!

–Eu fiz um curso de design de instrumentos quando entrei na empresa. Projeto instrumentos de corda, e testo a percussão. Faço mais violões e guitarras do que outros instrumentos, mas meu chefe gostou do último violino. – disse feliz. Encarei-o boquiaberta – O que foi? – quis saber.

–Isso é bem impressionante. – disse por fim, sendo honesta – Não esperava que você fosse... – a palavra me faltou por um momento.

–Responsável. – tentou ele, e eu tive que rir, concordando. Ele balançou a cabeça, com um sorriso encantador no rosto. Sim, encantador. Tive de virar para a mesa para não ficar encarando-o tempo demais.

You're on the road

(Você está na Estrada)

But you've got no destination

(Mas não tem nenhum destino)

You're in the mud

(Você está na lama)

In the maze of her imagination

(No labirinto da imaginação dela)

–Vamos fazer o milk-shake, pode ser Mika? – pediu Sansa finalmente. Já era perto da meia noite. Concordei, levantando. Ela fez menção de me seguir, mas então Ian levantou primeiro, e Sansa sorriu para mim com algo sugestivo no rosto.

Peguei o sorvete e o whisky no congelador, e os coloquei em cima da bancada. Eu pessoalmente preferia conhaque ou rum para fazer doces, mas whisky também serve. Peguei o liquidificador e comecei a arrumar as coisas.

–Quer ajuda? – ofereceu ele.

–Não. – respondi simpática – Gosto de fazer. – expliquei. Ele resolveu sentar e observar.

Coloquei o sorvete com um pouco leite na jarra, e derramei uma porção generosa da bebida. Derramei em alguns copos altos que tirei do armário em cima da pia. Peguei uma barra de chocolate na despensa, e ralei em cima.

Ian fez um som de aprovação com a boca, e eu ri. Coloquei canudos nos copos, e o pessoal veio pegar a sobremesa. Mark recusou educadamente, dizendo que estava dirigindo, e que era melhor parar ali. Voltaram logo em seguida para a sala, deixando-me ali com o rapaz na cozinha.

Ele pegou o copo destinado a Mark e tomou um gole generoso do milk-shake, de olhos arregalados. Eu ri. Estava rindo muito hoje.

–Ah! Que gostoso! – ele disse, estendendo para mim seu copo. Tomei um gole, saboreando o doce.

–Adoro doce! – comentei, pegando sorvete e colocando numa vasilha para que eu comesse de colher. Ele meteu o dedo na bola de sorvete, concordando. Comemos em um silêncio alegre por alguns momentos, até que ele falasse.

–O que pensa em fazer depois da faculdade? – perguntou-me, agora com uma colher própria, comendo sorvete do mesmo pote que eu. Ele já havia devorado o milk-shake.

Suspirei, refletindo sobre a pergunta.

–Quero adquirir experiência em outras culinárias, sabe? Viajar pelo mundo e experimentar tudo, aprender tudo. – falei. Ele ficou me observando tagarelar – Quero poder montar meu próprio restaurante, quem sabe em uma cidade maior, onde eu possa juntar o mundo todo dentro da minha cozinha. – expliquei, sonhadora – E você?

Ele abriu um sorriso maroto.

–Bom, eu já terminei a faculdade. – respondeu. Revirei os olhos, e então ele continuou. – Eu gosto muito da banda, e gostaria de continuar com isso, mas também quero continuar a desenhar instrumentos. Ter meu próprio negócio, e vender coisas únicas. – disse ele.

–E você pensa em sair daqui? – perguntei animada. O sorriso dele diminuiu, mas me respondeu mesmo assim.

–Não.

Eu o encarei confusa.

–Não que eu não tenha vontade, mas não posso. – disse, agora sem vestígios do sorriso. Parecia mais sério do que eu me lembrava de já ter visto.

–Por quê? – me vi perguntando. Não consegui segurar a curiosidade; ele tinha uma expressão grave no rosto.

–Tenho coisas demais que me prendem aqui. – explicou, sem dar mais informações. Aceitei a resposta sem reclamar.

You love this town

(Você ama essa cidade)

Even if that doesn't ring true

(Mesmo que não soe verdade)

You've been all over

(Você esteve em todo lugar)

And it's been all over you

(E ela esteve toda em você)

Não continuamos a conversar, pois as outras pessoas que estavam no apartamento invadiram a cozinha, com uma conversa alta.

–Mika, a tequila... – começou Sansa.

–No congelador. – respondi, sem deixa-la terminar. Ela foi dançando até a geladeira e pegou a bebida, e depois alguns copos no armário da parede.

–Acho melhor eu ir indo. – falou Ian, com o rosto sonolento – Não posso beber mais, de qualquer jeito. Eu o encarei por uns instantes.

–Tem certeza? – perguntei por fim. – Você está de moto, não está? – perguntei acusadoramente, e ele acenou que sim, com um olhar culpado – Isso não é muito inteligente! – ralhei, enquanto Valentina despejava tequila em alguns copos de dose. Eileen já estava com o rosto vermelho.

Ele pareceu ponderar por uns momentos, mas então deu de ombros. Avalon ouviu a discussão, e então o aconselhou a comer um pouco antes de sair, o que me pareceu uma boa ideia. Ele voltou para a sala com passos arrastados.

Sansa deu-me um copo com a bebida, e eu aceitei feliz. Eu gosto de tequila, veja bem, mas não é algo que eu beba sempre. Fico alterada muito facilmente quando tomo, e costumo fazer besteiras. Mas eu estava em casa, então não tinha problema, não é?

Jusiete permaneceu em silêncio, então considerei isso uma concordância.

Já passava das três quando o pessoal resolveu deixar o apartamento, todos juntos, e ninguém notou quando Ian fora embora. A bagunça ficou toda para eu limpar, mas eu faria isso amanhã, porque realmente não sou obrigada.

Fui para o quarto e troquei de roupa, ficando apenas com a roupa que costumava dormir: uma camiseta e uma calcinha. Estava prestes a me deitar quando percebi que deixei o rádio da sala ligado.

Fui para o cômodo com as luzes do apartamento já todas apagadas, e acendi apenas o abajur do lado do sofá para mexer no aparelho. Pensa, mas por favor, pensa, no susto que eu levei quando vi a desgraça do Ian dormindo no sofá, todo largado, com a boca levemente aberta.

Eu praguejei em silêncio, esquecendo do rádio por um momento. O que eu faço? Deixo-o dormir sentado? Mando-o para casa? Resolvi acordá-lo.

–Ian. – chamei baixinho. Ele não respondeu. Me inclinei para perto – Ian! – agora um pouco mais alto. Ele apenas murmurou alguma coisa, franzindo o cenho, mas não abriu os olhos. Soltei um rugido de impaciência – IAN! – chamei, agora em alto e bom som.

Ele abriu os olhos assustado, e ajeitou o corpo rapidamente.

–AI! – Coloquei a mão na testa quando ele bateu sua cabeça na minha. Ele pareceu perceber onde estava. Eu o encarava com uma carranca, ainda esfregando a cabeça – Você dormiu no sofá?! – disse meio indignada, mas mais por causa da dor do que pela presença dele ali.

“Ah, sabia.” Cala a boca Jusiete! Prefiro que ele durma no sofá a se estrepar da moto por dirigir fora de condições.

–Nossa! – ele esfregou os olhos, ajustando-os a baixa luminosidade – Desculpa, eu nem vi quando caí no sono... – então parou para me encarar. Eu o olhei, interrogativa – Belo traje. – disse com um sorriso sacana visível até no escuro.

Olhei para minhas pernas para entender. HAHAHAHAHA QUE LINDO, GRACIOSO E, COMO SEMPRE, KÁRMICO. Não consegui expressar minha raiva adequadamente; por algum motivo acabei corando. Obrigada Buda por estar escuro o suficiente para ele não notar. Eu acho.

Por algum motivo me lembrei do rádio, e me virei para ele para desliga-lo. Ian me conteve, e eu virei assustada. Onde é mesmo o interruptor da sala?!?!?!?!

–Não, deixa tocar. – disse ele, próximo demais de mim. Conseguia sentir o cheiro mentolado do xampu dele, logo acima da minha cabeça – Você tem um bom gosto musical. – avaliou ele, olhando para os CD’s em volta do rádio, e prestando atenção na música que tocava.

Por algum motivo eu não conseguia me mexer. Por algum motivo, uma corrente elétrica dançava no meu estômago e eu não fazia ideia de como parar a sensação.

“O motivo está bem do seu lado, e tem olhos cor-de-avelã.” Engoli em seco.

Ele pousou os CD’s de volta na estante baixa, e virou para me encarar. Céus, ele está perto demais.

Ele levantou uma das mãos e pegou uma mecha solta do meu cabelo, apoiando as costas da mão perto do meu pescoço. Ahn, como... como se respira, mesmo? Toda a noite me passou pela cabeça; as risadas, as conversas... Minha pulsação ficou alta nos meus ouvidos.

It's a beautiful day

(É um lindo dia)

Don't let it get away

(Não o deixe escaper)

It's a beautiful day

(É um lindo dia)

Ele colocou a mão na base do meu pescoço, soltando a mexa, e apoiando o dedão na linha da minha mandíbula. Eu acho que nunca estive tão consciente de alguém assim antes. Ele aproximou mais o rosto, e eu conseguia sentir o hálito dele na minha boca. Senti alguma coisa no meu peito acelerar.

Ele sorriu de um modo doce e triste ao mesmo tempo.

–Eu quero te beijar. – anunciou baixinho. Mordi o lábio inferior, num desespero elétrico. Não conseguia me mexer. Ele encostou o nariz dele no meu, fechando os olhos – Tem certeza de que não quer nada comigo? – perguntou baixinho, e então abriu os olhos.

–Não. – sussurrei baixinho.

Touch me

(Toque-me)

Take me to that other place

(Leve-me para aquele outro lugar)

Ele era quente. Seus lábios eram quentes, suas mãos, seu corpo, tudo. Só conseguia sentir ele ali, e a textura delicada da boca dele. Não conseguia... Não queria que me soltasse.

Teach me

(Ensine-me)

I know I'm not a hopeless case

(Eu sei que não sou um caso perdido)

Ah! Por algum motivo precisava dele mais perto, mais quente. Quanto mais dele eu tinha, mais eu queria. Agarrei-me ao pescoço dele, sentindo meu corpo todo em contato com o dele.

Ele se distanciou, só um pouco, só para recuperar o folego que eu também precisava, deixando uma sensação fria horrorosa na ausência dele. Beijou-me na testa, e desceu até a base do pescoço, depositando mais beijos por onde passava. Eu ardia onde ele me tocava.

Ele suspirou com o rosto escondido no meu pescoço, fazendo carinho com o nariz. Senti os dedos do meu pé se contorcerem.

–Eu quero viajar com você. – disse com a boca no meu pescoço, causando tremores pela minha coluna.

–Achei que muitas coisas te prendessem aqui. – consegui sussurrar, respirando com dificuldade. Senti-o sorrir no meu pescoço.

Voltou a levantar o rosto, e então depositou um beijo na maçã do meu rosto.

–Você se tornou uma dessas coisas. – e voltou a me beijar.

De algum modo, tudo o que eu queria, tudo o que planejei, não fazia diferença agora. Essas coisas flutuaram para longe, e eu só conseguia pensar em como a mão dele era firme na minha cintura, e em como eu queria que me segurasse mais forte.

See the world in green and blue

(Veja o mundo todo verde e azul)

See China right in front of you

(Veja a Cinha bem na sua frente)

See the canyons broken by cloud

(Veja os Canyons interrompidos pelas nuvens)

See the tuna fleets clearing the sea out

(Veja os cardumes de atum fugindo para o mar)

See the Bedouin fires at night

(Veja os fogos beduínos à noite)

See the oil fields at first light and

(Veja os capos de petróleo á primeira luz do dia)

See the bird with a leaf in her mouth

(Veja um passáro com uma folha no bico)

After the flood all the colors came out

(Após a enchente todas as cores aparecem)

De algum modo fomos parar no meu quarto. Quando senti a cama tocar minhas panturrilhas ele me levantou e colocou gentilmente nela, parando acima de mim para me olhar.

It was a beautiful day

(Era um lindo dia)

Don't let it get away

(Não o deixe escapar)

Beautiful day

(Dia lindo)

Eu respirava pesadamente, sem conseguir achar ar o suficiente, com os braços acima da cabeça. Estava assustada, mas eufórica. Ele tocou de leve meu rosto; suas pupilas estavam dilatadas, escondendo quase toda a cor dos seus olhos.

–Posso passar a noite aqui? – perguntou.

Acenei que sim com a cabeça. Ian me beijou.

Touch me

(Toque-me)

Take me to that other place

(Leve-me para aquele outro lugar)

Reach me

(Alcance-me)

I know I'm not a hopeless case

(Eu sei que não sou um caso perdido)

Não conseguia pensar em mais nada, não conseguia sentir mais nada. Só havia espaço para uma coisa naquele momento, e era o momento em si. Não preciso de mais nada.

What you don't have you don't need it now

(O que você não tem você não precisa agora)

What you don't know you can feel it somehow

(O que você não sabe não pode sentir de algum modo)

What you don't have you don't need it now

(O que você não tem você não precisa agora)

You don't need it now

(Você não precisa agora)

Was a beautiful day

(Foi um lindo dia)

Notas finais
Por hoje é isso! :3 Espero que tenha valido a espera, pessoas! Deixem um amor, um comentário, uma opinião ou erros de digitação. Abraços!