O Tempo que Leva
12 Quando te Seguro
Notas iniciais
I feel good
(Eu me sinto bem)
I knew that I would, now
(Eu sei que me sentiria, agora)
I feel good
(Eu me sinto bem)
I knew that I would, now
(Eu sei que me sentiria, agora)
So good, so good
(Tão bem, tão bem)
I’ve got you
(Eu tenho você)
Eu dançava animadamente ao preparar o café da manhã. Não que precisasse, mas era um daqueles momentos em que você acorda bem, e é inevitável rebolar de calcinha pela casa.
“Isso aí é paixonite.” Ignorei de bom grado, continuando a dançar. Fiz um bolo de chocolate com beijinho que estava pedindo para ser devorado, e Ian ainda não levantara da cama. Fui dançando animadamente pelo corredor enquanto a música tocava no rádio da sala, parando na porta do quarto.
Ele dormia de bruços na minha cama, completamente relaxado. Tinha de comer antes de ir visitar a mãe dele, e aparentemente não acordaria nem se um elefante dançasse balé ao lado da cama.
Uma ideia me surgiu, fazendo-me abrir um sorriso sacana.
Dei um grito muito alto, fazendo com que ele se contraísse de susto, um segundo antes de pular na em cima dele.
–Mas que merd..? – mas não conseguiu terminar; foi interrompido por um grunhido de dor quando pousei delicadamente de bruços em cima das costas dele. Comecei a rir para a careta de dor que fazia, levemente arrependida.
–Bom dia! – falei entre risos, fazendo-o soltar um gemido de cansaço.
–Deus, quem é que acorda uma pessoa assim?! – perguntou indignado, jogando-me para o outro lado da cama. Fui tentar levantar, mas então ele jogou todo o peso do corpo dele transversalmente em cima da minha barriga. Foi minha vez de soltar um arquejo com o peso – Você também não é leve! – reclamou ele. Tive de rir.
–Tá bom... sai! Estou ficando sem ar! – implorei, quando ele se chacoalhou para tornar a posição ainda mais incômoda, rindo do meu sofrimento.
–Isso é para aprender a não me acordar como uma baleia mergulhando no oceano! – reclamou, chacoalhando-se mais uma vez antes de se levantar e ficar de joelhos ao meu lado na cama. Soltei um suspiro de alívio.
–Nossa, foi só uma brincadeira! – comentei passando a mão na testa, sentindo um pouco de suor. O tempo voltara a esquentar – Não sabia que era tão vingativo! – reclamei.
–Não faça coisas que exijam vingança. – respondeu com um sorriso vitorioso no rosto. Então parou para sentir o cheiro no ar – Bolo? – perguntou com um sorriso. Fiz uma cara de desprezo para ele.
–Não se merece. – falei, com um bico no rosto. Ele olhou para mim com olhos de cachorro pidão. Bufei revirando os olhos e cruzando os braços, fingindo revolta. Ele deu uma risada e depositou um beijo na minha bochecha. Contive um sorriso.
–Tem certeza? – perguntou, e eu ainda fazia força para não sorrir. Meu bom humor era inabalável hoje. Ele engatinhou até que pudesse me encarar, com o rosto acima do meu – Se eu te fizer rir, posso comer o bolo? – perguntou achando graça da minha expressão.
Dei de ombros.
–Quem sabe. – ele abriu um sorriso largo antes de começar a tentar. Não precisou de muito segundos; fez uma careta na qual ficava vesgo e tocava a ponta do nariz com a língua num sorriso absurdo.
Tive me controlar para não babar de tanto rir.
–Está bem! – disse depois de conseguir controlar o riso – Fiz para você mesmo. – ele sorriu em vitória antes de me puxar para me levantar da cama.
Fomos para a cozinha: eu ainda rindo da careta, e ele salivando com o cheiro de chocolate no ar. Sentamo-nos nas cadeiras altas de sempre, comendo o que eu tinha feito. Sempre gostei de cozinhar, mas nunca tive a oportunidade de cozinhar para alguém, de manhã, e que estivesse disposto a experimentar quase tudo. Deu um sorriso de orgulho quando o vi saborear o bolo.
Arrumamos a cozinha rapidamente, e Ian decidiu tomar um banho rápido. Chegou a me convidar para entrar, mas se demorasse mais um pouco, se atrasaria para o horário de visitas. Tinha deixado algumas roupas em casa para que pudesse se trocar quando passasse a noite, e ele fez questão de que eu fizesse a mesma coisa, a não ser que eu “Prefira ficar nua o tempo todo, o que não seria algo tão ruim assim.”. Revirei os olhos quando me disse isso, mas aceitei pela praticidade da coisa.
Saiu do apartamento perto das dez, depositando um beijo rápido na minha testa. Falou que não sabia se poderia almoçar, mas que queria que eu fosse ao Pub hoje, porque a banda tocaria. Falou até de ir jantar no restaurante antes de ir. Aceitei felizmente.
–Chame as meninas também! – falou do corredor. Concordei com um aceno de cabeça.
–Saio mais tarde hoje! – gritei para as costas dele, que gritou um “Pode deixar!” antes de entrar no elevador.
Voltei para o quarto, a fim de arrumá-lo. Abri as janelas e troquei os lençóis, tirando as roupas jogadas do chão. Ian gostava de dormir num breu total, principalmente porque dormia até tarde. Às vezes fechava as cortinas no meio da noite, quando eu já estava em um sono profundo. Não me incomodava; todo o resto nós fazíamos ou de luz acessa ou com a janela aberta para a noite.
Deitei na cama, mexendo no celular. Daqui a pouco iria para a natação, não tinha muito para fazer. Resolvi manda uma mensagem para Eileen e Avalon:
“Querem almoçar mais tarde? Saio da academia perto do meio dia. – Mika.”
Em alguns minutos recebi duas mensagens, ambas aceitando. Avalon e Eileen ficaram de combinar a hora em que iriam passar aqui.
O resto da manhã foi tranquilo, nadei, tomei um banho, voltei para casa. Decidi que faria frango assado e algo mais simples para comermos. Coloquei vinho em uma taça para bebericar um pouco, saboreando o gosto doce.
As garotas chegaram assim que a comida ficou pronta; comemos e conversamos alegremente. Ava finalmente começara a sair com Sion, o que já passava da hora. Ele tinha aquele ar meio assustador meio sensual que a garota gostava, e o piercing no septo só contribuía para isso. Mas ao contrário do que aparentava, era uma pessoa extremamente calma e engraçada, e quando sorria mostrava os dentes perfeitamente brancos que acabavam por entregar sua identidade de bom moço.
Já Eileen estava começando a me tirar do sério. Avalon concordara na hora quando disse que achava que Robb e Mark pareciam interessados nela. Ela fez acenou com a mão e fez um som parecido com pum com a boca, descartando a ideia. Revirei os olhos.
–Sério que não vê isso? – perguntei sem conseguir acreditar – Depois fala de mim.
Avalon concordou com uma expressão de quem dizia que aquilo era óbvio.
–Gente, não! – falou, agora pensando no assunto – Já parou para pensar como isso soa impossível? – perguntou. Foi minha vez de fazer barulho de pum com a boca. Ela revirou os olhos para mim.
–Deixa de ser besta, Eileen, eles estão mesmo interessados em você! – informou Ava, com uma indignação na voz – Sion me contou. – adicionou com uma expressão de “Ahan. Sério. Tô falando bem sério.”.
Eileen parou uns segundos para tentar entender.
–Não! – pestanejou por fim.
–Sim. – rebatemos eu e Ava. Eu arqueei as sobrancelhas como quem diz que ela está levando tempo demais para absorver a informação. Ela ficou boquiaberta.
–Será? – perguntou agora, com certa expectativa. Franzi os lábios para ela – Bom, mas mesmo que seja verdade, seria complicado demais. – protestou. Ava gemeu de irritação.
–Qual é! – reclamou – Diz logo qual deles você prefere e acaba com meu sofrimento! – mandou Avalon, apoiando a testa em uma das mãos. A curiosidade parecia estar corroendo-a por dentro. Dei uma risada.
–Não sei dizer. – justificou-se Eileen – Nunca parei para pensar nisso, na verdade. – eu já ia reclamar quando ela me interrompeu, sentindo a revolta no ar – O que quero dizer, é que é óbvio que ambos são muito bonitos e muito diferentes entre si; só que nunca achei que fosse... poder escolher entre um deles! – explicou frustrada.
Justo. Acenei com a cabeça, concordando.
–Mas não chegou a sentir interesse em nenhum? – perguntei. Ela deu de ombros, parando para pensar.
–Acho que Robb é muito simpático; sempre faz com que eu entre na conversa. – falou, coçando de leve a testa – Já Mark é muito quieto, apesar de ser sim simpático. Bem, quando ele resolve falar. – Avalon riu da observação.
–Pode pensar no assunto hoje à noite. – ofereci – Eles tocam no Pub, e Ian chamou para ir lá. Mandei uma mensagem para Valentina, mas sabe que ela não gosta da música deles. – dei de ombros.
Avalon aceitou na hora, dizendo que á havia marcado com Sion de qualquer jeito; Eileen hesitou por uns instantes, provavelmente pensando no provável desconforto que poderia vir a sentir. Encarei-a como que desafiando a dizer não. Ela bufou.
–Tudo bem! – cedeu enfim. Abri um sorriso cínico.
Terminamos de comer e arrumamos a cozinha, Ava e Eileen deixando o apartamento depois de meia hora. Não tinha muita coisa para fazer até dar a hora de ir trabalhar, então fiquei lendo no quarto. Arrumei-me perto das quatro e fui para o metrô as cinco, como fazia sempre (bom, pelo menos nos dias em que não cozinhava).
Cheguei ao restaurante e fiz o mesmo ritual de deixar as coisas no armário e colocar um avental. Quando estava prestes a entrar no salão, Gabriel veio falar comigo.
–Mikaela. – chamou, fazendo-me virar para encará-lo. Ele tinha um olhar parecido com compreensão no rosto. Franzi o cenho para ele – Não tive a oportunidade de falar com você sobre o que aconteceu na quarta-feira. – lembrou-me. Ah!
–Tinha me esquecido disso... – falei com um sorriso sem graça. Quando seu gerente vem cobrar alguma coisa de dias atrás, não pode ser boa notícia – O que tem para mim? – perguntei com um sorriso hesitante no rosto.
Ele inclinou a cabeça, como se falasse com uma criança meio lenta.
–Sabe que a cena que fez foi inaceitável, não sabe? – perguntou, e eu apenas concordei com a cabeça, sem coragem de falar. Se eu perder meu emprego por causa disso... – Sua sorte é que o Senhor Pierre não estava aqui no dia, e que Marion me explicou o que aconteceu. – encarei-o boquiaberta, fazendo-o sorrir.
–Ah... – e dei uma risada sem graça. Senti o rosto esquentar.
–Você trabalha aqui há alguns anos, e é uma funcionária exemplar. Mas deve prometer que não fará mais isso. Não posso acobertar você de novo, tudo bem? – falou mais baixo, agora com um ar confidente. Dei um sorriso de gratidão para ele, que ele retribuiu feliz – Agora ao trabalho. – exigiu.
Bati em continência e saí dali o mais rápido possível. Ah, Marion! E Gabriel também, quem eu menos esperava. Dei um sorriso para os guardanapos que eu dobrava. Ainda bem que o mundo não é um lugar completamente podre.
Senti que o resto da noite correria bem, numa empolgação que não largou meu pé desde o momento em que acordara naquela manhã. O motivo... Bom eu começava a duvidar de quem era.
I feel nice
(Eu me sinto bem)
Like sugar and spice
(Como açúcar e tempero)
I feel nice
(Eu me sinto bem)
Like sugar and spice
(Como açúcar e tempero)
So nice, so nice
(Tão bem, tão bem)
I got you
(Eu tenho você)
Ian chegou perto da meia noite, e vestia algo diferente do comum; estava de camisa e gravata, apesar de estar de cala jeans. Carregava a jaqueta na mão quando entrou no restaurante, parando na porta. Quando me viu, caminhou timidamente pelo salão praticamente vazio.
–Você pode jantar? – perguntou. Eu abri um sorriso largo, assentindo.
–E ainda sei onde podemos pegar o que há de melhor. – infiltrei-o na cozinha para que pudéssemos escolher o que comer; ele pegou uma macarrão com brócolis e salmão defumado que ofereci para ele, e eu fiquei com algo mais simples, brusquetas que eu mesma fiz. Obviamente, tive de dar algumas para ele.
Comemos numa mesa perto do balcão de cardápios, saindo perto da uma hora de lá. Antes de subir na moto, ainda perguntei:
–Mas você não ia tocar hoje? – perguntei. Ele fez que sim com a cabeça antes de explicar.
–É que tocou uma banda antes da gente; hoje é dia música no século passado. – disse ao passar a jaqueta pelos ombros. Acenei em concordância.
Chegamos faltando cinco minutos para uma hora, e Ian teve de correr para os fundos. Cacei a mesa onde estavam as meninas, e sentei-me ali. Eileen parecia evitar olhar para o palco; a banda subiria em breve e algo na expressão dela dizia que queria adiar ao máximo o encontro com qualquer um dos rapazes.
Um saxofone animado começou a tocar no fundo, chamando a atenção de todos; o Pub hoje estava cheio. Mark tocava habilmente o instrumento que não sabíamos que tocava até então; então Robb seguiu com a bateria e logo Sion entrou com uma guitarra ao invés de um baixo. Todos vestidos igualmente a Ian.
Este entrou pulando, começando a letra de I Feel Good, arrancando gritinhos da plateia. Precisei rir!
Nós na mesa começamos a acompanhar nas palmas das mãos, e antes da terceira estrofe começar, Ian desceu do palco caminhando em direção a mesa. “Não se atreva!” gesticulei para ele, mas ele só abriu mais o sorriso, cantando:
When I hold you in my arms
(Quando te seguro em meus braços)
I know that I can't do no wrong
(Eu sei que não posso fazer nada errado)
And when I hold you in my arms
(E quando eu te seguro nos meus braços)
My love won't do you no harm
(Meu amor não vai te fazer nenhum mal)
Enfiei o rosto nas mãos enquanto ele dava uma volta ao redor da nossa mesa e parava atrás de mim, cantando animadamente. Avalon gargalhava batendo palmas, incentivando com gritinhos. Eileen apenas ria da situação, sem saber o que fazer.
I feel nice
(Eu me sinto bem)
Like sugar and spice
(Como açúcar e tempero)
I feel nice
(Eu me sinto bem)
Like sugar and spice
(Como açúcar e tempero)
So nice, so nice
(Tão bem, tão bem)
I got you
(Eu tenho você)
Levantei o rosto, explodindo de vergonha.
–Vou te matar! – sussurrei. Então ele depositou um selinho rápido em mim, e tenho certeza que ouvi alguns murmúrios de decepção. Outras ainda tentaram pedir para que ele fizesse o mesmo com elas. Saiu meio caminhando meio andando de volta para o palco.
“Esqueçam, piranhas!”
Ficou de costas enquanto tocavam apenas a curta parte instrumental, até virar com um olhar suspostamente apaixonado (pra mim era mais libidinoso mesmo) e apontar para nossa mesa. Não aguentei e dei meu gritinho de fã, rindo. Aquilo pareceu empolga-lo.
When I hold you in my arms
(Quando te seguro em meus braços)
I know that I can't do no wrong
(Eu sei que não posso fazer nada errado)
And when I hold you in my arms
(E quando eu te seguro nos meus braços)
My love won't do you no harm
(Meu amor não vai te fazer nenhum mal)
Pude perceber o rosto de expectativa de Eileen ao meu lado enquanto assistia a tudo; Avalon não se conteve e soltou um “Gostoso!” para Sion, que deve ter ouvido, porque ele abriu um sorriso como quem acha graça de algo. Ela apontou e piscou para ele, só para que ele tivesse certeza. Continuaram animadamente até terminar, agora todo o público do par acompanhando:
I feel nice
(Eu me sinto bem)
Like sugar and spice
(Como açúcar e tempero)
I feel nice
(Eu me sinto bem)
Like sugar and spice
(Como açúcar e tempero)
So nice, so nice
(Tão bem, tão bem)
I got you
(Eu tenho você)
I feel good
(Eu me sinto bem)
I knew that I would, now
(Eu sei que me sentiria, agora)
I feel good
(Eu me sinto bem)
I knew that I would, now
(Eu sei que me sentiria, agora)
So good, so good
(Tão bem, tão bem)
‘Cause I’ve got you
(Porque eu tenho você)
So good, so good
(Tão bem, tão bem)
‘Cause I’ve got you
(Porque eu tenho você)
So good, so good
(Tão bem, tão bem)
‘Cause I’ve got you
(Porque eu tenho você)
Uma salva de palmas e assovios encheu o lugar, e os rapazes desceram do palco para uma pequenina pausa. Começamos a conversar animadamente na mesa, esperando a próxima música que começaria em breve. Só que fomos interrompidas por uma pequena visita inesperada: Robb.
Ele parou atrás de Eileen, que não percebeu sua presença até que ele a chamasse perto do ouvido, assustando-a. Ele deu uma risada, e ela ficou vermelha de súbito.
–Gostou da música? – perguntou com um sorriso simpático. Eu e Ava trocamos o que era a tentativa de um olhar discreto.
–S-Sim! – conseguiu responder com um sorriso tímido no rosto. Ava e eu escapulimos da mesa, dando a desculpa de ir falar com os outros rapazes da banda.
Eles conversaram pelo que parecera dois ou três minutos, até Robb despedir-se com um pequeno beijo na bochecha da menina. Eu e Ava levantamos os polegares, sorrindo bobamente. Pude ver de onde estava a garota revirar os olhos.
Quando virei para desejar boa sorte, vi que Mark observara a cena atentamente. Não consegui segurar um sorriso para ele. Ele me encarou confuso, até então perceber que eu notara sua atenção desviada da conversa em que estávamos para um outro lugar. Ele soltou um pigarro.
Dei de ombros para ele como quem diz “Poisé.”. Arqueei as sobrancelhas em expectativa. Ele retribuiu o dar de ombros, soltando um sorriso involuntário.
Sorri com a cumplicidade do ato. Ao que me parece, não poderia eu estar em melhor companhia. Se Sansa e Valentina estivessem ali, a festa seria completa. Mas não posso reclamar; estou bem.
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