O Tempo que Leva

7 O Que se Entrega


Notas iniciais
Apenas não me odeiem :B Desculpa pelo atraso, mas aí vai o sétimo dia do desafio! River Flows in You – Yiruma

Foi o despertador do celular dele que acordou a gente de manhã. Ouvi-o gemendo de sono, com a cabeça em cima de mim. Abri os olhos. Não fazia tanto sol hoje; a estação de chuvas finalmente tinha chegado.

Quase não consigo chegar ao restaurante ontem, por causa de, bem... distrações. Marion passou algumas instruções para hoje; entraria e sairia uma hora mais cedo, três vezes por semana. Servi as mesas numa mistura de ânimos que até o gerente percebeu.

Tive de trocar duas bebidas por falta de atenção, além de mais de um cliente ter de repetir o pedido para que eu lembrasse e conseguisse anotar. Nunca estive tão aérea.

E a melhor parte foi quando eu estava para sair para ir para o metrô e encontrar uma moto preta veloz esperando por mim no final do meu turno. Abri um sorriso para a lembrança.

Ian passara a noite em casa, de novo. Fazia o que, uma semana que o conhecia? Não sei, eu sei que em algum lugar eu ainda tenho um receio, um... um cagaço enorme do que pode acontecer; sinto a sombra disso rondando os momentos bons. O que aconteceria daqui uma semana? Daqui quinze dias? Um mês? Eu não fazia ideia.

Mas de algum modo, eu me sinto um pouco menos só, um pouco mais feliz. Posso me permitir esse pouquinho de felicidade, não posso?

Estava assustada, irremediavelmente comprometida e absolutamente atraída por essa dúvida. E isso em si me dava mais medo ainda.

Estávamos exaustos do dia anterior, que no fim acabamos por chegar do restaurante e cairmos na cama. Ainda tentamos manter uma conversa, mas quando Ian pediu que eu lesse algumas músicas que tinha escrito em voz alta, acabamos caindo no sono.

E ali estávamos; oito horas da manhã, com o celular dele despertando. Acabei dormindo com as páginas na mão e Ian nas minhas pernas. Os travesseiros nas minhas costas não impediram que ela ficasse dolorida com a posição rígida da noite anterior, mas não reclamei.

Vi que o celular entrou em soneca, e que ele ainda dormia em cima de mim. Sorri, achando graça.

Ele parecia um menino quando dormia assim, com a boca entreaberta e o rosto completamente relaxado. Percebi que mesmo com o ar descontraído, Ian sempre carregava uma pequenina ruga de preocupação no rosto quando estava acordado, que não aparecia ali agora.

Toquei de leve a testa dele com a ponta dos dedos. Ele respirava tranquilamente. Observei-o dormir por mais um minuto, antes de lembrar que o celular dele tocaria novamente. Provavelmente precisava acordar.

–Ian... – chamei baixinho, mexendo nos cabelos que caiam na testa dele. Ele parecia tão inocente, assim. Senti alguma coisa esquentar no peito. Ignorei – Iaaaan! – chamei mais uma vez, agora fazendo-o franzir o cenho e virar todo o corpo para o meu lado, a modo de ficar mais confortável. Ajeitou a cabeça no corpo com um pouco mais de força que uma pessoa adormecida faria.

Segurei uma risada silenciosa, estreitando os olhos. Apertei a ponta do nariz dele de leve, e comecei a balançar, chamando com a voz risonha:

–Ian, acorda, peste. – então o vi segurar um sorriso, ainda de olhos fechados – Sabe, posso acabar te maltratando se você não acordar. – ameacei, então soltei seu nariz.

Ele abriu um olho para me encarar, agora sorrindo abertamente.

–Eu posso gostar. – disse, fazendo com que eu gargalhasse. Ele soltou um bocejo.

–Seu celular despertou. – disse, e logo em seguida ele voltou a tocar. O sorriso se desmanchou do rosto, para uma expressão meio cansada – Tem que trabalhar? – perguntei, com um sorriso meio de dó, meio de pena.

–Mais ou menos. Não, na verdade não. – corrigiu-se, levantando, finalmente liberando meu corpo. Sentou na cama e parou para me encarar – Gosto muito da roupa que usa para dormir, sabia? – disse com um sorriso com segundas intenções, mas doce.

–Muito obrigada. Você deveria experimentar. – respondi, fazendo-o sorrir ainda mais – Dormir com menos roupa, sabe? – então ele riu, vindo em minha direção.

Contive sua investida, colocando a mão no rosto dele. Senti um bufar na minha palma. O celular ainda despertava.

–Você tem alguma coisa para fazer. – então levantei, deixando-o desapontado na cama. Mas logo ele levantou, indo para o meu banheiro escovar os dentes. Fiz a mesma coisa.

Ficamos alguns minutos apenas encarando o espelho, enquanto cada um pensava nas suas coisas. Ele tinha o rosto meio distraído, como se pensasse em algo cansativo ou sério.

Já eu imaginava como seria hoje no restaurante. Como seria tudo daqui pra frente. Será que gostariam da minha comida? O que exatamente eu fazia agora? Por que estou acordando com uma pessoa que mal conheço na minha cama, mas já considero “pakas”?

*Jusiete revirando os olhos* Tive medo da incerteza. Não deixei mostrar.

Bochechei um pouco de água e limpei a boca, deixando o banheiro. Comecei a me trocar no quarto, ignorando a porta do banheiro aberta, e um Ian observando atentamente enquanto limpava a boca numa toalha de rosto.

Algumas coisas mudam. Aos poucos, com o tempo. Mas mudam.

Coloquei algo confortável; um vestido solto de alças que gostava muito. Minha mãe me dera quando comecei a faculdade, dizendo que precisava começar a parecer mais “feminina”. Prendi o cabelo num coque frouxo, tentando mantê-lo sob controle.

Fui para cozinha, e ouvi Ian andando pelo quarto. Comecei a mexer na comida.

–Tem tempo para comer alguma coisa? – perguntei alto, para que pudesse me ouvir.

–Acho que sim! – respondeu, aparecendo pelo corredor já vestido. Virei para perguntar-lhe o que iria querer comer, então vi que ele me olhava com um sorriso empolgado, como uma criança no natal.

–O que foi? – perguntei, sorrindo por causa da expressão no rosto dele.

Ele chacoalhou a mão direita, mostrando-me um monte de papéis rasgados. Ah!... Corei.

–Por que os guardou? – perguntou colocando os bilhetes no balcão, caminhando até mim no fogão. Ele sorria docemente.

–Porque gostei deles. – respondi simplesmente. Pareceu gostar da resposta. Ele deu um beijo na minha testa e abriu a geladeira para pegar suco. Dei um sorriso tímido para o fogão – Vou fazer tapioca, você gosta? – perguntei, oferecendo.

Ele se sentou no balcão, agora servindo suco de laranja em dois copos. Deu de ombros.

–Eu nunca comi. – disse. Eu olhei para ele, esperando de fosse uma piada, mas não era. Então meu queixo caiu de leve.

–Sério? – perguntei. Ele fez que sim com a cabeça – Então sorte a sua que vai começar com a melhor do mundo. – disse metida, virando para o fogão. Ele soltou uma risada.

Comecei a preparar várias, sabendo que ele gostaria. Ninguém nunca não gostou de tapioca, ainda mais a minha. Fiz duas salgadas, com o que sobrara do cream cheese que as meninas trouxeram noutro dia e com peito de peru; uma para cada um.

Ele comeu, então olhou para mim, esperando. Dei uma risada.

–Sabia. – falei.

As outras várias eu fiz com leite condensado com coco ralado, doce de leite, e doce de leito com pedacinhos de chocolate. O bom era que era rápido e fácil de fazer. Fiquei observando-o comer.

–Não sabia que existia uma coisa que funcionasse tão bem tanto quanto doce como salgado! – disse com um sorriso largo, colocando o último pedaço na boca. Deu o último gole no suco, então colocou a mão na barriga – Se eu perder isso, — disse levantando a camiseta e apontando o que era um abdome definido – a culpa vai ser toda sua. – dei uma risada escandalosa, sem conseguir segurar.

Ian realmente era bonito. E bem humorado. E gentil, e divertido, e bom de cama... Alguma coisa tinha de estar errada ali, não pode ser.

Ele tinha o corpo definido, apesar de não ser o cara tipo musculoso; o que o deixava gracioso de uma maneira... Enfim; tudo nele parecia funcionar bem. Como se fossem feitas para estarem juntas numa mesma pessoa, sem parecer um absurdo.

Estar com ele era, ao mesmo tempo, empolgante e tranquilo. Não é como se fosse fácil, mas conhece-lo tornava-se cada vez mais... essencial.

Ele se levantou na cadeira alta repentinamente, dando-me um beijo leve na boca que eu não estava esperando. Eu ri.

–Obrigado. – disse, ainda inclinado para frente.

–Não há de quê. – respondi, com o rosto meio vermelho.

Não sei se vou me acostumar com maneira súbita dele de fazer as coisas.

Ele então se levantou, indo para o corredor onde deixara seus sapatos e o resto das coisas. Estava de calça, uma camiseta branca, e passou uma jaqueta grande de moto pelos ombros; começava a chover lá fora. Ele agora tinha um ar menos descontraído, olhando para o celular. Franzi o cenho – Tome cuidado com a chuva. – pedi.

Ele virou para mim, com um sorriso torto.

–Não vai se livrar de mim assim tão facilmente. – respondeu, fazendo-me revirar os olhos – Não vou correr. – explicou – Sua casa é mais próxima de onde preciso ir do que a minha. – e sentou para calçar as botas.

–Bom, que bom. – respondi, sem entender o que dizia. Na verdade não fazia ideia para onde estava indo, mas não fiz questão de perguntar. Ele tinha suas próprias coisas para resolver – Entro e saio mais cedo hoje. – avisei-o, e ele acenou com a cabeça em concordância.

–Tudo bem. Você vai sair depois? – perguntou. Pensei sobre isso.

–Acho que sim, não vi as meninas desde sábado. Por quê? – quis saber.

–Não; só que tocamos no pub hoje. – explicou – O dono gostou do movimento. – adicionou com um sorriso – Quer que eu te busque no restaurante?

–Não, tudo bem. – eu disse – Acho que Avalon vai querer me buscar. – expliquei. Ele franziu o cenho sem entender, mas concordou, abrindo a porta. Então parou e virou para me encarar.

–Até mais tarde. – então segurou meu rosto com as duas mãos, de modo gentil. Não consegui segurar um suspiro. E o sapinho que pulava no meu estômago.

Ele tinha olhos tão bonitos, e adornados com cílios compridos que me davam inveja. Quando encostou os lábios nos meus senti o cheiro de chocolate que acabara de comer. Só que ao invés de me beijar, mordeu minha boca de leve, o que me fez soltar um gemido surpreso e constrangedor.

Ele riu ainda na minha boca. Dei um tapa no braço dele, tentando me soltar, então ele me segurou pela cintura.

–É tão divertido fazer isso com você. – explicou, então, de modo bem infantil, mostrei a língua para ele, fazendo-o gargalhar. Eu devia estar vermelha como um TOMATE. Um tomate bem, bem constrangido.

–Essas coisas que você diz; que você faz! – e dei mais alguns tapas no braço dele, que agora me apertava mais perto – Não tem o direito de mexer assim comigo! – reclamei. Ele riu.

–Não é minha culpa se você é sensível á mim. – explicou com um sorriso TARADO no rosto. Dei outro tapa no braço dele.

–SAI LOGO QUE VOCÊ JÁ ESTÁ ATRASADO! – gritei tentando me soltar aos tapas, fazendo-o gargalhar descontroladamente – E PARA DE RIR, SEU PERVERTIDO! – então ele calou meu escândalo com um beijo.

Ai que injusto. Eu vim com manual de instruções, só pode. Ele meio que me embalou enquanto me beijava sorrindo. Passou a mão esquerda pelo contorno todo da minha espinha até me segurar pela nuca, puxando os cabelos dali.

Aaahh.... Senti que começava a ficar mole nos braços dele.

Cedo demais, ele se afastou, depositando um selinho antes que estivesse longe demais.

–Até mais tarde. – repetiu, me soltando. Eu devia estar cômica, porque ele segurou um risinho. Então saiu pelo corredor sem esperar pela minha despedida.

Eu ainda encarava a parede onde ficavam os ganchos de casaco quando percebi que já podia voltar a respirar. Encostei a porta do corredor, voltando para cozinha para limpá-la.

Tentei ajeitar os pensamentos. Jusiete, você é minha consciência, E NÃO DEVE FUGIR DE MIM QUANDO PRECISO QUE ALGUÉM FIQUE E TOME CONTA QUANDO EU MESMA NÃO CONSIGO! SUA PUTINHA.

Resolvi arrumar a casa toda para passar o tempo. Coloquei uma música no rádio, e comecei arrumando e limpando a sala. Fiz isso pelo apartamento todo; o quarto, depois a cozinha, e então os banheiros.

Parei apenas quando meu celular tocou. O Número de Avalon aparecia no visor. Suspirei, lembrando que tinha uma coisa ou outra para conta-las.

–Ava, oi! – disse animada, sentando no sofá da sala.

–Oi, coração! – cumprimentou animadamente – Está livre agora no almoço? – perguntou, então olhei para o relógio do rádio; onze e meia – Quero conversar!

–Estou sim, garota. Vamos almoçar. A Eileen está aí? – falei, sentindo a empolgação dela pelo celular.

–Está sim! – uma pausa – Ela quer saber onde vamos comer. – adicionou.

–Pode ser fora? – perguntei – Não comecei a mexer com comida ainda, e já está meio tarde.

Ouvi um barulho de conversa longe do fone, então Avalon voltou a falar:

–Vamos naquele restaurante italiano perto do Hospital Central, pode ser? – perguntou. Concordei. Depois voltou a falar – Passo aí em cinco minutos. – e desligou.

Levantei preguiçosamente e fui até o quarto trocar de roupa; troquei o vestido por uma camiseta branca qualquer e uma calça jeans saruel que irritava Eileen, pondo os mesmos tênis de sempre. Peguei o óculos e a bolsa antes de sair e trancar o apartamento, e desci para esperar na frente do prédio.

Avalon chegou buzinando, alegremente, enquanto Eileen agitava os braços para fora do carro, me saudando num cumprimento mais parecido com dança de boneco de posto. Dei risada.

Entrei e fomos para o restaurante, que era a cinco minutos de casa, mesmo em horário de movimento. E sentamos numa mesinha redonda pedindo bebidas e um prato de lasanha para dividirmos.

Foi Avalon quem começou falando:

–Você não contou coisas. – disse com os olhos estreitos, deixando Eileen surpresa e fazendo com que eu revirasse os olhos.

–Não tive oportunidade de contar. – me defendi. Até perceber que não havia como ela saber sem que eu tivesse contado. Bem, a não ser... – Você está falando com Sion! – acusei, e ela deu uma risada divertida. Eileen continuava surpresa.

–Alguém pode, por favor, me explicar o que é que está acontecendo??? – pediu, ficando nervosa com o suspense. Respirei fundo.

–Transei com Ian. – disse encarando o copo de suco. Eileen fez uma cara de incredulidade, e me deu um tapa no braço.

–E COMO VOCÊ NÃO ME CONTA ISSO? SUA DESNATURADA, ACHEI QUE FÔSSEMOS AMIG-

–E a Avalon – interrompi estreitando os olhos – anda amiguinha de Sion pelo visto. Sua ridícula, como pôde dizer que não estou contando coisas?!

–Não tive oportunidade. – disse rindo da minha cara – Mas não aconteceu nada tão interessante assim, para que tivesse de contar.

–Explica tudo. – exigiu Eileen.

E tive de contar, aos mínimos detalhes, enquanto comíamos lasanha, os últimos dois dias. Eileen terminou com a mão no peito, levemente emocionada.

–E agora? – quis saber – Estão juntos? – ela tinha um olhar de expectativa romântico no rosto. Eu dei risada.

–Eu não sei! – e ri de novo. Eu não sabia mesmo – Mas não tenho pressa de saber. – acrescentei.

–Então eu passo no restaurante mais cedo hoje? – perguntou Avalon, confirmando a hipótese de querer me levar.

–Sim, sim. – disse com um sorriso cansado.

Terminamos de comer animadamente, e Avalon explicou como se aproximara de Sion e como sabia que tinha acontecido alguma coisa.

–Quando descemos, vi que a moto dele ainda estava lá. – deu um sorriso sacana, fazendo com que eu revirasse os olhos, levemente corada.

Saímos do restaurante para a calçada atravessando a rua até onde o carro dela estava estacionado. Parei para olhar para os lados, então reconheci a moto de Ian parada no estacionamento do Hospital.

–O quê..? – pensei em ligar para ele para saber se estava tudo bem, mas então lembrei do que me falara mais cedo sobre ter de vir a um lugar perto de casa.

Resolvi esperar até vê-lo de noite.

O resto da tarde foi tranquilo, assim como a noite, a não ser por um derramamento de molho aqui ou ali na primeira vez de cozinha. Foi emocionante, mas de um jeito bom.

E Marion adorou o que provou! Todos os pratos que fizemos juntos ficaram perfeitos, e até recebi um elogio!

Avalon e Eileen chegaram as onze em ponto, quando a cozinha no restaurante fechava, e nos levou pra o pub.

Chegamos mais cedo que de costume; estava bem vazio também, e, em plena segunda-feira, quem iria beber? A banda tacava desde as oito, e agora se encontravam numa pausa para comer e beber.

Fui até Ian quando o encontrei.

–Olá. – disse pras costas da camisa xadrez dele. Ele virou para mim surpreso, mas sorriu.

–Olá. – disse com um sorriso feliz – Como foi no restaurante hoje? – quis saber.

–Foi bem! Marion foi um amor, e a comida ficou ótima. Deveria ir lá qualquer dia. – sugeri. Ele abriu um sorriso leve. Não consegui esperar mais para começar o assunto – Está tudo bem com você? – perguntei.

Ele franziu o cenho.

–Está sim. – e deu uma risada, sem entender – Por quê? – mordi o lábio indecisa.

–Bom, é que fui almoçar com as meninas num restaurante perto de casa, — comecei – e vi sua moto parada no estacionamento do hospital. – o sorriso dele se desfez – Aconteceu alguma coisa? – perguntei, agora com um pouco mais de urgência na voz.

Ele balançou a cabeça distraidamente.

–Estou bem. – respondeu apenas, tentando sorrir. Encarei o rosto dele preocupada, então ele soltou um suspiro – É difícil de explicar, Mikaela.

Não pedi que explicasse, mas também não fiquei feliz com a resposta. Dei de ombros.

Ele suspirou.

–Fui visitar uma pessoa. – começou, segurando-me os braços – Por isso o relógio despertou hoje de manhã, por causa do horário de visitas.

Engoli em seco, sem saber o que responder.

–E ela está bem? Essa pessoa? – perguntei. Ele abriu um sorriso triste. Fez que não com a cabeça. Senti algo pesado no peito. Queria saber quem era.

Depositou um beijo na minha testa e me abraçou, antes de falar:

–Minha mãe está morrendo.

Senti meu corpo gelar, mesmo com ele ali. Engoli em seco, sentindo a voz fraca.

–Como assim? Tem certeza? – fiz a pergunta infantil, então ele deu uma risada fraca, e me olhou nos olhos, acenando que sim com a cabeça.

–É a única família que tenho. – explicou – E não consigo deixar de ir vê-la, mesmo que saiba que isso só alimenta falsas esperanças. Estou preso aqui pelo tempo em que ela precisar de mim. – completou.

Finalmente consegui entender o que ele quis dizer quando falou de querer sair daqui e não poder. Apertei as costas da jaqueta dele fortemente, enterrando o rosto no seu ombro.

–Quero conhece-la. – pedi sem pensar, sem olhá-lo nos olhos. Senti que ele soltou um arquejo de surpresa. Não consegui ver sua reação, não consegui.

Então ele levantou meu rosto com uma das mãos, e pude ver que tinha um sorriso triste e sinceramente feliz ao mesmo tempo.

–Ela iria adorar te conhecer. – respondeu. Consegui sorrir para ele. Então senti ele me segurar com mais força, como se tivesse medo que eu sumisse dali.

–O que foi? – eu quis saber. Ele estava com um olhar distante enquanto afagava meu cabelo.

–Fico feliz de ter te conhecido. – explicou – Mas tenho medo de que suma, que um dia sofra se não estiver aqui; que um dia sofra por ter me deixado permitir isso. Sentir isso. – completou, olhando-me intensamente nos olhos.

Algo dentro de mim se remexeu convulsivamente, tentando escapar.

–Mas mesmo assim estamos aqui. – disse incrédula. Como podia ele falar tal coisa, e ainda sim, não demonstrar medo nenhum?

–Sim. Porque por mais que sinta medo, preciso desse laço que estou criando com você, mesmo que não saiba o que vá acontecer depois. – respondeu – Preciso. E é bom.

–Não tem medo de... se entregar e depois sofrer? – perguntei incrédula. Aquilo pra mim era inviável.

–Não se os momentos tiverem valido a pena, Mikaela. – então deu um beijo na minha testa. Fechei os olhos para absorver tudo.

“Não se os momentos tiverem valido a pena.”

Eu não sei se um dia conseguiria ser tão... corajosa.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Um beijo e mil pedidos de perdões pela dificuldade de postar no dia! Realmente só consegui terminar o capítulo agora! : Um grande abraço!