Notas iniciais
Olá! Primeiro gostaria de dizer que: Não, eu não postei o capítulo do dia 18. Foi uma decisão consciente, problemas com a música mesmo. E em segundo lugar: Mals pelo atraso desse capítulo! Eu não coloquei parte da letra durante o capítulo, como sempre faço, porque dessa vez fica melhor só ouvindo mesmo ao longo da leitura. Um abraço para você! Tuesday's Gone – Metallica

Ontem a não foi o que se pode chamar de “um dia fácil”. Mas não foi ruim também.

O que houve não foi o que se pode chamar de funeral, pelo menos não de maneira ortodoxa. O pessoal veio aos poucos ontem para o apartamento (avisei por mensagem, depois do almoço tarde, que Ian estaria ali), trazendo jogos, pizza, cerveja, refrigerante, e doces para passarem a tarde juntos. Em alguns momentos até saí de casa para comprar comida, fazer alguma coisa, enquanto eles ficavam lá. Não foi como se passassem o dia falando do que aconteceu, simplesmente estavam ali para fazê-lo companhia, e não imagino algo que tenha sido melhor.

De noite, quando estava todo o pessoal junto, fomos ao crematório. Não posso dizer que foi fácil, mas, de algum modo, saber que ela não ficaria presa em uma caixa de madeira deu um alívio a Ian. Ele jogou as cinzas no jardim da casa, e voltamos para o apartamento.

Hoje de manhã havia girassóis em um vaso na porta do corredor. Meus pais souberam logo depois da morte dela o que aconteceu, quando tivemos de avisar as pessoas. No vaso, um cartão com o nome de Ian estava apoiado nas flores. Coloquei no balcão da cozinha, deixando para que visse quando acordasse.

Fui tomar um banho. Passei por ele deitado na cama, o rosto relaxado. Dei um sorriso. Entrei no chuveiro, pensativa.

Sempre soube como funcionava a morte. Sempre soube também o medo que as pessoas têm de morrer. Não que eu seja a pessoa mais corajosa do mundo; uma barata voadora consegue me fazer gritar escandalosamente, mas não tenho medo da morte. Tenho raiva dela. Tenho raiva de como ela é definitiva, e ao mesmo tempo incerta.

Esta é a única certeza de pode ter na vida e ainda assim nunca estará verdadeiramente pronto para ela. Mas não é e nem nunca foi minha morte que me incomoda. As dos outros, por outro lado, sim. Mas mais que isso, mais que a morte em si, é o sofrimento de quem fica.

Eu não tenho medo de morrer; tenho medo do que aconteceu depois disso, com quem fica. Quem vai não tem que lidar com a morte, no fim das contas.

“Um pouco de filosofia demais, talvez.” Acho que sim.

Desliguei o chuveiro, me enxugando. Sem o barulho da água para cobrir o som, ouvi que Ian estava acordado, e que andava pelo quarto. Enrolei-me na toalha e abri a porta do banheiro.

Ele recolhia as roupas do chão, jogando-as num cesto embaixo do braço, distraidamente. Virou para me olhar quando ouvir a porta abrir.

–Bom dia. – sorri para ele. Ele sorriu de volta, apenas de bermuda. Terminou de pegar as roupas e passou por mim no banheiro, pegando o que eu deixara ali.

Eu observava penteando o cabelo, sentada na cama. Quando passou por mim com o cesto quase cheio, dei risada. Ele me encarou confuso.

–Isso tem que ser T.O.C., não dá pra ser outra coisa. – falei, fazendo-o dar um sorrisinho amarelo. Mas na verdade eu estava feliz por ele estar ocupando a cabeça – Vai ficar aqui hoje? – perguntei.

Ele acenou que sim, vindo em minha direção.

–O que..! – então puxou a toalha que eu estava usando, jogando-a no cesto também. Cobri instintivamente o corpo, toda arrepiada – Você sabia que está frio?! – perguntei, fazendo-o rir.

–Olha, eu vou lavar a roupa, tenho que juntar tudo. – explicou-se dando as costas para mim, parando na porta para me encarar. Senti o rosto esquentar, mas ignorei.

–Eu poderia tê-la colocado na máquina! – falei, e ele riu, saindo pelo corredor. Infantilmente mostrei a língua para as costas dele.

Terminei de me arrumar e fui para cozinha, fazer algo para comer. Pude ouvir Ian mexendo na máquina na pequena lavanderia. Comecei a fazer algo com mais sustância para comer, acordamos tarde e já era quase hora do almoço. Ian passa pela cozinha em direção a sala, parando para ver o vaso. Ele dá um pequeno sorriso, guardando o cartão no bolso. Espio a sala e vejo que começou a arrumar o sofá e a estante onde os jogos estão.

Estava começando a refogar os legumes quando Ian, agora aspirando o tapete da sala, grita por cima do barulho:

–Mika, tudo bem se mais um vier para almoçar hoje? – franzi o cenho.

–Claro que sim; mas quem é? – perguntei, adicionando um pouco mais ingredientes à frigideira larga. Peguei o molho shoyu e comecei a temperar.

–É o Mark. – olhei para a frigideira e dei risada. Ele desligou o aparelho e veio para a cozinha – O quê? – perguntou, vendo minha cara.

–Bom, espero que Mark não ligue para comida japonesa. – falei, fazendo Ian rir. Coloquei a massa do yakisoba com os vegetais, quase finalizando a receita.

–Que coincidência. – comentou ele, voltando para a sala. Deixei a frigideira no fogo baixo enquanto terminava a carne de porco que acompanharia a comida.

–Ele disse por que viria almoçar? – perguntei, respirando fundo para o cheiro gostoso da comida. Desliguei o fogo de tudo e dei a volta no balcão, encostando-me para observar a sala.

Ian estava sentado na frente da televisão, passando um pano no console do videogame.

–Mark não costuma explicar muito as coisas. – respondeu dando de ombros – Mas acho que seja para fazer companhia. – explicou. Dei um sorriso contido.

Fui até ele, ajudando-o com os CD’s.

–Ele é mesmo muito legal. – falei. Ian sorriu de leve, concordando – Acha que está preocupado com você? – perguntei, passando-o as capinhas para que organizasse na estante.

–Ele é quase como um irmão; acho que não consegue não ficar. – e deu de ombros. Sorri para ele. Ele sorriu de volta.

Ficamos assim por alguns minutos, até o interfone tocar. Levantei e mandei deixar subir enquanto Ian colocava as coisas na mesinha de centro da sala. Abri a porta do corredor, vendo o rapaz cabeludo sair do elevador. Estava com o típico rabo de cavalo dele, algumas mechas escapando na parte da frente.

–Entra aí. – chamei deixando-o passar. Ele deu um sorriso simpático e entrou, tirando os sapatos na porta – Ian está ali na sala, eu já vou. – falei voltando para a cozinha. Peguei cerveja na geladeira e fui para onde os dois estavam.

Mark sentara na lateral da mesa, e Ian apoiou as costas no sofá. Fui para o lado oposto dele, para poder deixar a conversa fluir. Mark encarou a mesa com um sorriso confuso no rosto.

–Juro que já estava fazendo antes de você ligar. – expliquei, as mão levantadas em sinal de inocência. Ele riu – Vamos sirvam-se.

O começo da refeição foi no mínimo... silencioso. Comemos tranquilamente, até que chegamos a um ponto em que o barulho dos talheres japoneses estava me matando, e tive de fazer alguma coisa. Algum assunto qualquer para quebrar o silêncio, sei lá!

–Então, Mark, como andam as coisas com Eileen? – perguntei animadamente. Por algum motivo ele engasgou com o yakisoba, e Ian reprimiu uma risada, tapando a boca com a mão. Dei-me um tapa na testa mental. “Ótima tentativa.”

Estendi um guardanapo para ele. Ele aceitou, meio vermelho. Não sabia dizer se era por causa do ataque ou da pergunta. Ele pigarreou.

–Como assim? – perguntou, tentando se recompor, mas tudo o que conseguiu foi encarar o prato em suas mãos timidamente. Olhei para Ian e vi que ele achava graça. “Continue.” Gesticulou. Sorri.

–Bom... – comecei desajeitadamente, fazendo-o me encarar com uma sobrancelha arqueada. Dei de ombros – Sei lá. – desisti por fim, fazendo-o sorrir, achando graça.

Ele respirou fundo, pousando o prato em cima da mesa, pegando a garrafa de cerveja. Tomou um gole pensativamente. Eu e Ian já havíamos bebido duas cada um, mas ele ainda estava na primeira, na metade talvez. Tentei mais uma vez.

–Sabia que Eileen não acredita que esteja interessado nela? – falei de uma vez. Os olhos dele surpresos me encararam. Sorri como quem diz: “É verdade.”.

–Robb está interessado nela. – falou simplesmente, o rosto enigmático. Pousei o prato, encarando Ian. Ele deu de ombros, ainda apenas assistindo.

–Assim como você. – falei. Ele franziu o cenho, incomodado. Não o conhecia tão bem a ponto de presumir coisas sobre ele, mas era visível que “presumir coisas sobre ele” o incomodava.

Ian suspirou, finalmente pousando o próprio prato.

–Sabe que ela está certa. – falou ele, abrindo uma nova cerveja e dando um gole. Ofereceu a garrafa para mim e aceitei um gole também. Mark revirou os olhos, apoiando o rosto na mão que estava apoiada na perna – Digo, por que não está fazendo nada a respeito, Mark? Eileen é uma garota legal. – falou ele, aceitando de volta a garrafa. Sorri para o que disse.

–E você também é. – adicionei – Robb também é, mas não acho que deva simplesmente “deixa-la” para ele. – falei, fazendo-o me encarar um pouco mais seriamente – Ela é capaz de decidir sozinha.

Mark soltou um suspiro, cansado. Olhou ambos nós dois, parando para pensar um pouco.

–Eu sei. – respondeu por fim, a voz grave – Mas Robb... — mas foi interrompido por Ian.

–Também sabe se cuidar sozinho. – ele sorriu para o amigo. Percebi o quão próximo aqueles rapazes todos eram – Deveria se preocupar com o que quer, uma vez ou outra.

Mark sorriu de leve.

Levantei e fui para a cozinha pegar o sorvete que havia comprado mais cedo. Ouvi os dois arrumando a sala, e logo em seguida trouxeram os pratos para cozinha. Mark se ofereceu para cuidar da louça, soltando o cabelo só para prendê-lo novamente, agora num coque meio frouxo.

Percebi como ele era bonito; ele tinha o cabelo grosso, comprido até depois dos ombros, mas não ficava ruim nele. Tinha os olhos levemente puxados, mas não muito, o que dava um charme interessante para o rosto claro dele. A pele dos braços igualmente clara (hoje exposta por camiseta preta comum ao invés da típica manga comprida) mostrava os músculos definidos. Ele era forte! Como não tinha visto isso? Não era como Sion, mas era um pouco mais forte que Ian, o que não o impedia de ser gracioso de alguma forma. Acho que devia ser esse ar misterioso dele. Ele provavelmente...

–Se ficar olhando para ele por tanto tempo, – ouvi com um sobressalto Ian ao pé do meu ouvido, despertando-me – posso acabar com ciúmes de verdade. – virei para encará-lo, e ele tinha um olhar sugestivo no rosto. Dei uma risada maldosa para ele, arqueando as sobrancelhas. Ele estreitou os olhos.

Puxei-o para o outro lado do balcão, trazendo-o para perto. Percebi que ele fazia manha. Fiz um biquinho de arrependimento, e ele avançou para mim, rapidamente mordendo minha boca. Revirei os olhos.

–É que só acabei de notar que Mark é realmente bonito. – cochichei para ele, fazendo-o arquear as sobrancelhas. Os olhos dele dançavam sob as sobrancelhas. Passei a mão no rosto dele – Sabe o que quero dizer. – falei com a foz suave. Ele deu um sorriso suave – Eu realmente gosto de Robb, mas de alguma maneira...

–Mark e Eileen parecem funcionar melhor juntos. – completou ele baixinho também. Ouvi a torneira ser desligada, e então vi que Mark estava apoiado na pia, nos observando. Não parecia ter escutado a conversa.

–Vamos comer o sorvete então? – ofereci, me libertando de Ian e pegando as vasilhas no armário da parede. Sentamos em volta do balcão, como sempre eu do lado de dentro e qualquer outra pessoa no mundo do lado de fora.

Comemos em silêncio por alguns minutos, até eu decidir deixá-los em paz um pouco. Anunciei que iria para o quarto ler, e que Mark ficasse a vontade o tempo que quisesse. Ian saiu da cozinha por um momento.

–É bom que esteja aqui. – falei para Mark – Bom, sabe; vocês fazem tão bem para ele. – falei indicando não somente ele na minha frente. Sorriu para mim.

–Você é uma pessoa legal, Mikaela. – falou o oriental, pouco antes de Ian voltar do banheiro – Fico contente por Ian. – sorri, genuinamente tocada.

–Espero que não ache que eu seja intrometida. – falei franzindo o cenho por um instante, lembrando-me do que disse na sala – Mas sabe, você também é uma pessoa legal. Eu não diria o que disse se não achasse que... que merecesse Eileen. – respondi por fim, levantando meu queixo. Ele riu de leve, sem jeito. Pude notar um leve rubor nas bochechas dele.

Fiquei no quarto boa parte da tarde, e sinceramente, dormi noventa e oito por cento do tempo em que estive lá. Quando acordei, pouco depois das quatro, comecei a me arrumar para trabalhar. Cinco e meia apareci na sala, onde os dois estavam sentados conversando distraidamente. Pude ver que haviam jogado videogame pelos CD’s espalhados, e havia papel de balas por toda a mesa de centro.

Eles viraram para olhar na minha direção, e não consegui reprimir um bocejo. Ian riu, seguido por um sorriso de Mark. Este estava com o cabelo solto agora, a cabeça encostada no sofá.

Pareciam dois adolescentes sem compromisso com nada. Mas de algum modo, pude sentir que a conversa era um pouco mais séria do que o ambiente sugeria.

–Está bem, quem vai me levar hoje? – perguntei com um sorriso sacana no rosto. – Perdi hora e preciso de um cavaleiro. – anunciei.

–Vamos, eu te levo. – falou Mark, o rosto tranquilo – Aproveito e tiro Ian de casa. – sorri, concordando com a ideia. Ian revirou os olhos.

–Não preciso de nada disso. – anunciou como uma criança teimosa.

–Bom, mas eu vou com Mark. – falei – Por que não faz companhia? – Mark riu com a cara de contragosto do outro.

Ambos deixaram-me na porta do restaurante, Ian com uma sobrancelha arqueada para mim. Depositei um beijo rápido nele.

–Mark, se quiser chamar os rapazes para ir para o apartamento, fica a vontade. Ian anda muito dona de casa ultimamente. – falei, fazendo-o rir. Ian revirou os olhos – Pode raptá-lo se quiser, também. – adicionei, Ian finalmente abrindo um sorriso.

–Obrigado. – murmurou. Saíram dali e só fui vê-los à meia noite, quando voltei para casa.

Falei que voltaria de metrô essa noite, e assim fiz. Cheguei ao apartamento e dei de cara com a coisa mais... fofa que podia encontrar. Sério. Os dois jogados no sofá, cada um com a cabeça apoiada em um braço do móvel, ambos com uma perna pra fora do estofado.

Devia estar tão desconfortável. Parei um segundo para admirar. Sorri sem querer. Peguei uma colcha confortável e voltei para a sala, cobrindo-os.

–Boa noite. – sussurrei para os dois, que mais pareciam dois moleques depois de um dia de aventura.

Encostei a persiana da sala, diminuindo a luz do luar que entrava ali antes de ir para o quarto.

Naquela noite acabei dormindo com o pijama completo; desconfortável, mas satisfeita.

Notas finais
Aee :3 Um capítulo tranquilo, de recuperação. Espero que tenham gostado. Deixem o amor por aí! Abraços!