O Tempo que Leva
23 Nada Como Você
Notas iniciais
Acordei sabendo que o dia de hoje seria longo.
Quando contei para todas, ao mesmo tempo, sem exceção, que eu estava deixando o país por tempo indeterminado, e que Ian já dera entrada nos vistos, arrependi-me de imediato. Foi a maior reclamação coletiva de quatro pessoas que já ouvi antes. Chegou um momento no qual tive de deixa-las todas na cozinha me xingando enquanto eu cuidava da mão inchada.
Depois de cerca de uma hora de muitos “NÃO ACREDITO NISSO.”, seguiram-se os “Parabéns!”, “Que bom que vai fazer o que tanto queria.” e os emocionados “Boa sorte.”. Até pediram lembranças. Foi então que Valentina exigiu uma comemoração (regada a álcool se ela pudesse escolher) apoiada pelas demais.
Resolveram tudo numa tarde, e ofereci o apartamento para fazerem o que bem entendessem. Precisava passar na casa dos meus pais de qualquer jeito, e Ian chegara quando eu estava quase deixando-as ali sozinhas.
–Boa sorte com elas. – desejei ao fechar a porta nas minhas costas.
Ficou decidido que hoje à noite, já que eu não mais trabalhava no restaurante, começaríamos a comemorar “com gosto”. Avalon convidara todos os rapazes, que já estavam sabendo da nossa partida, e que concordaram com a ideia imediatamente. Robb se ofereceu para trazer tequila, como sempre.
Ian e eu tomamos um tranquilo café da manhã e saímos para andar pela praça. Muito dificilmente seríamos incomodados; ele ficou sabendo da minha maravilhosa proeza do dia seguinte, e rindo irritadamente, cuidou da minha mão. Enfaixou-a, balançando a cabeça por vários minutos até que eu contivesse o movimento irritante.
–É só que... – ele bufou, então levantou os olhos da minha mão que terminara de enfaixar. Apertei os dedos testando a rigidez – Você é inacreditável. – franzi o cenho, confusa – Poderia ter corrido, ou ignorado, mas no fim... Bom ao menos deu um soco bem dado nele, porque isso aqui vai demorar a sarar. – e voltou a balançar a cabeça, com uma pontinha que identifiquei de ciúme e orgulho.
O dia estava quente e ensolarado, os raios de luz passando pelas folhas verdinhas das árvores da praça. Fechei os olhos, caminhando devagar.
O lugar me trazia lembranças. Uma só, apesar de terem acontecido algumas várias coisas ali ultimamente. Este costumava ser um lugar de paz, tranquilo, usada para me descarregar, mas as coisas estavam tão diferentes. Abri os olhos para ver o perfil tranquilo de Ian.
There are places I remember
All my life though some have changed
Some forever not for better
Some have gone and some remain
Eu usava aquela camisa de botão verde que afanara dele certa manhã, fechada até o busto, e que ele dizia ficar muito bem em mim, com um short jeans confortável e um par de chinelos. Ele também usava uma camisa xadrez; era encantador como aquele tipo de padrão ficava bem nele. Era uma camisa branca, que ao contrário de mim usava aberta e com as mangas arregaçadas até os cotovelos, com uma camiseta preta por baixo, acompanhado de uma bermuda bege. E aquele maldito sapatinho de idoso, absurdamente confortável, que ele insistia em manter no pé.
Segurei a mão dele, lembrando-me do primeiro dia em que conversamos de verdade.
Fora ali mesmo, naquela praça. Incrível como minha vida estava cheia de Ian no último mês. Lotada. Até a boca. E ao mesmo tempo, cheia de entusiasmo e emoções. Sensações e energia. Estar com ele era estar um pouquinho mais viva.
E ainda assim, consegui ter mais de tudo e todos que eu prezava. Ter mais da minha família, ter mais das minhas amigas, e inclusive fazer amigos. Amigos bons. Fiz lembranças nesse último mês que não fiz nos últimos cinco anos.
Mas as mais marcantes, as que aos poucos mexeram comigo, sempre tinham Ian.
All these places had their moments
With lovers and friends I still can recall
Some are dead and some are living
In my life I've loved them all
Apertei os dedos dele, parando de andar. Ele parou também, me observando. Sorri para ele.
–Não é louco demais? – perguntei, sentindo a voz tranquila na garganta.
–O quê? – ele quis saber, o cenho franzindo em curiosidade.
–Isso tudo. – falei dando de ombros – A gente. – expliquei. Ele abriu um sorriso leve, esperando que eu continuasse – Tão repentino, tão súbito; eu não era assim antes. – tentei explicar – Antes de você. – adicionei. O sorriso dele se alargou.
–O que quer dizer? – perguntou, agora virando de frente para mim, a mão livre subindo para o meu rosto. Senti meus olhos se estreitaram em afeição àquele rapaz tranquilo na minha frente.
–Quero dizer que... No fim das contas, não é assustador. É bom. – expliquei – É novo, é excitante. E eu me sinto bem. E eu me sinto eu mesma, depois de anos sem lembrar o que era isso.
Senti que me pequeno discurso havia causado algum efeito em Ian, porque ele sorria para o chão bobamente, como se tentasse acreditar em alguma coisa. Tentei olhá-lo nos olhos, mas ele soltou uma pequena risada antes de deixar que eu o encarasse direito.
–É engraçado porque... porque pra mim é assustador. – falou com o rosto sereno – Causa frio na barriga e arrepio na espinha. Fico ansioso se não te vejo, e fico louco só pensar que aquele loiro de merda colocou a mão em você. É tudo novo demais para mim. – explicou – Mas também é... insubstituível.
Soltei um suspiro, meio emocionada. Não sou o tipo de pessoa mole, mas Ian era bom com as palavras. Ia sentir falta de vê-lo tocar com a banda, mas sempre teria um pouco do talento dele contando que pudesse falar com ele, olhá-lo. Usava as palavras de maneira intensa e sem se sentir constrangido, quando para mim era difícil apenas encontra-las.
Voltamos a caminhar sem pressa. Aproveitamos a manhã e a hora do almoço. Ian tinha o dia de folga e no fim passamos a tarde no Lago Speil, um lugar que nunca tínhamos ido juntos ainda.
Como sempre, o lago estava quase vazio, sem pessoas para perturbar. Resolvemos que talvez entrar nus na água era uma boa ideia. Nunca tinha feito algo tão idiota assim, mas devo admitir que foi... Sensacional.
Ficamos ali, enrugando na água, no meio da semana, até o sol começar a cair e alaranjar o céu. Os olhos dele só ficavam mais bonitos nessa hora do dia. Precisei tocá-lo por um momento para ter certeza de que estava ali.
But of all these friends and lovers
There is no one compared with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new
Ele arqueou as sobrancelhas surpreso, mas logo fechou os olhos, apreciando o toque. Aproximei-me lentamente e envolvi o pescoço dele com os braços, sentindo-o fazer o mesmo na minha cintura embaixo da água.
–Obrigada. – sussurrei. Não sei dizer se ouviu, e se ouviu, se entendeu. Mas Ian apenas me segurou forte por vários minutos, que poderiam ter durado para sempre se meu celular na beira do lago não começasse a tocar.
Saímos do lago a contragosto, sem pressa de colocar roupas. Era uma ligação perdida de Eileen que acabei retornando. Comprar cerveja e pipoca; o resto já estava no meu apartamento.
Passamos no Mercado Central e logo chegamos ao apartamento. A minha sala estava superlotada. Superlotada. Dessa vez até Nicolas viera, o namorado de Sansa. Receberam-nos com “Bem vindos! Por que estão com os cabelos molhados? Tem batata na mesa de centro.”.
Era ótimo estar no meio deles, ali. Todos comendo, conversando. Avalon e Sion estavam de namoro firme, finalmente, e conversavam animadamente com Robb e Mark sobre alguma coisa que parecia muito interessante. Passaram boa parte da noite trocando olhares significativos.
Já Valentina e Eileen estavam se divertindo assistindo o casal engraçado que eram Sansa e Nicolas. Ele era quieto a primeira vista, mas quando se soltava para conversar, era o primeiro disposto a fazer o ambiente agradável e curtir o momento. Doidinho como Sansa.
Fiquei sentada a maior parte do tempo apenas rindo e comendo, as costas apoiadas na lateral do corpo de Ian.
Eu vou sentir tanta falta deles. Tanta... Mas não conseguia ficar completamente triste. Quando começamos a brindar, e cada um fez um brinde, obviamente que meus olhos começaram a vazar emoções. Descontroladamente.
Mas eu estava feliz, muito feliz. Porque eu estava partindo para fazer algo que eu realmente queria, e finalmente tinha (eu sei que isso vai soar absurdamente clichê) alguém com quem eu me sentisse bem ao meu lado. Adoraria levar todos eles comigo, cada um deles porque cada um deles era um pedaço significativo da minha vida. Mas eu sabia que, se fosse para levar apenas uma pessoa, Ian me ajudaria a aguentar o tempo longe das outras.
Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life I'll love you more
Porque ele era assim; essa cura.
Ele tinha essa mania de me fazer bem, de me fazer crescer. E eu infelizmente aprendi a me amar com isso, e ele só aumentava essa sensação mais, e mais, e mais, e mais... Ah!
A noite terminou tarde, mas não muito. Os últimos a irem foram Avalon, Sion, Eileen, Mark e Robb. O ruivo novamente bebera demais da conta, e acabara caindo no sono, fazendo com que Mark tivesse de coloca-lo deitado no sofá por alguns minutos enquanto arrumávamos o lugar.
Eileen fazia companhia a ele, e ninguém mais se atreveu a entrar no lugar. Tive de sorrir quando vi Mark e Eileen juntos.
Sim, juntos, juntinhos. E Robb desmaiado no sofá. Sion balançou a cabeça em descrença.
–Robb é muito descuidado. – comentou, uma das poucas vezes em que fava sua opinião sobre a vida alheia – Eileen realmente prefere o lado responsável de Mark ao lado festeiro inconsequente de Robb.
–Com certeza. – confirmou Avalon, aos sussurros. Estávamos na cozinha, tentando disfarçar que não estávamos vendo a cena – Robb é um cara legal, mas acho que ela e Mark vão se dar muito bem.
Acenei com a cabeça, guardando o copo que eu tinha na mão.
–Eileen se derrete toda por esse jeito doce dele. E Mark é mesmo muito bonito. – adicionei perplexa. Logo em seguida senti um cutucão nas costas.
–Não acredito que estejam fofocando sobre a vida alheia. – repreendeu Ian, observando a sala. Reprimiu uma risada – Sabia! – soltou sem se conter, ao ver o que estava acontecendo.
Quando Eileen e Mark se separaram, ele de costas para a cozinha, ela finalmente percebeu que assistíamos a cena. Sion e Ian disfarçaram, mas eu e Avalon fizemos sinais positivos com o dedão, dando sorrisos maliciosos.
A cor do rosto dela subiu três ou quatro tons de vermelho. Mark percebeu e virou para ver o motivo. Aí sim disfarçamos, mas não antes de ver Mark ficar igualmente encabulado.
Quando todos já haviam deixado o apartamento, e restávamos apenas eu e Ian jogados na cama, soltei um suspiro. Era um suspiro feliz, apesar de tudo. Apesar não, por causa de tudo.
Essas pessoas eram sensacionais.
Então virei-me para olhar o rosto de um Ian que começava a cair no sono.
Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life I'll love you more
Sim, eu os amo.
–Mas nada como você. – me ouvi sussurrar pouco antes de cair no sono.
In my life I'll love you more
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