O Tempo que Leva
20 Era Preciso
Notas iniciais
–Ah!
Olhei em volta para o quarto escuro, meio desorientada. Percebi que estava sentada, e o lençol que me cobria caído em cima das pernas. Um sonho. Respirei fundo, tentando acalmar o coração. Eu não me lembro; o que eu estava sonhando?
Eu tive um sonho
Vou te contar
Eu me atirava do
Oitavo andar
E era preciso
Fechar os olhos
Pra não morrer e não me
Machucar
Ouvi um gemido leve, lembrando-me da presença de Ian ao meu lado. Olhei para o rosto tranquilo dele. Ele estava sorrindo. Senti um sorriso espalhar-se no meu rosto em resposta. Fazia tempo que não o via sorrindo ao dormir. Aos poucos, bem aos poucos, ele estava se recuperando.
Joguei-me de volta no travesseiro, fechando os olhos e respirando fundo. Pelo menos não me lembro do sonho ser ruim. Na verdade sentia alguma empolgação quando pensava nele. Urhg, odeio não lembrar o que sonho.
Dormi para acordar com um beijo rápido na minha testa. Ian estava de saída. Abri os olhos para o pouco de luz que entrava pelas cortinas, o rosto dele próximo ao meu.
–Preciso dar uma saída. – anunciou – Estou ficando sem roupas por estar praticamente morando aqui, e o meu chefe me chamou para uma reunião no horário do almoço, então acho que só vou conseguir te ver mais tarde. – Com mais tarde ele queria dizer depois do meu turno no restaurante.
Soltei um muxoxo de decepção, fazendo-o rir.
–Não precisa sentir tanta saudade. – brincou, agora depositando um beijo rápido na minha boca – Vou te buscar hoje, pode ser?
Acenei que sim, vendo-o sair pela porta do quarto, logo em seguida ouvindo a porta do corredor fechar. Espreguicei-me, sentando na cama. Preciso fazer uma cópia da chave para ele; estava usando a reserva e se um de nós perdesse a que tem ficaria impossível do outro entrar em casa.
Levantei e fui para o banheiro escovar os dentes. Encarei o espelho, pensativa.
Pensando bem, realmente ter que voltar para pegar roupas pode ser incômodo. Se ele tivesse um espaço maior para deixa-las aqui, seria mais prático. Pode começar a usar ambas as vagas do apartamento quando precisar do carro, assim não vai ter que busca-lo em casa. Tipo quando formos fazer comprar ou coisa do tipo. Falando nisso preciso comprar o xampu dele...
“Vocês ainda não casaram.” Ouvi Jusiete interrompendo minha linha de raciocínio. Lavei a boca e encarei o espelho novamente.
O que eu estava fazendo? Ah, nossa.
É o que devemos fazer
Não temos que ter medo
É o que devemos fazer
Balancei a cabeça para me livrar dos pensamentos. De algum modo isso me recordava o sonho que eu não conseguia me lembrar. Que confuso!
Fui para o quarto colocar uma roupa. Olhei para o relógio; dez e quinze. Resolvi comer alguma coisa e sair para andar de bicicleta. Peguei a magrela e desci para a rua, de shorts, camiseta cinza larga, tênis e óculos escuros. Atravessei a rua e fui até a ciclovia, subindo na bicicleta.
Pedalei sem compromisso, passeando pela avenida com não muito movimento agora. Dali a pouco ficaria impossível de passar de carro. Observei as lojas do outro lado do asfalto; a floricultura cuja dona era aquela senhorinha simpática do terceiro andar, uma lanchonete barata, uma agência de viagens famosa, uma farmácia superfrequentada pelos velhos do bairro...
Subi na praça, de repente sentindo que alguma lembrança da noite anterior me voltava. Era... Uma fuga? Não, não era bem isso. Eu pulava de um avião talvez?
Eu tive um sonho
Muitos soldados
Me procuravam dentro do
Meu prédio
E era preciso
Voar pelas escadas
Pra não deixar que eles
Chegassem perto
Bufei impacientemente, passeando pelas sombras das árvores da praça. Senti o vento no rosto por uns instantes, pensando apenas nisso. Ah, eu amo a sensação de liberdade que o vento me dá. Então com um estalo lembrei do que se tratava.
De uma viagem! Uma viagem! Mas por que uma viagem?
Do que será que eu estava fugindo?
Eu tive um sonho
Muitos soldados
Me procuravam dentro do
Meu prédio
E era preciso
Voar pelas escadas
Pra não deixar que eles
Chegassem perto
Balancei a cabeça para deixar esse assunto de lado. Continuei na bicicleta até dar onze e meia e sentir o estômago roncar. Voltei para o apartamento para atacar minha geladeira. Uma vez que Ian não voltaria para o almoço, resolvi comer o que tinha por ali mesmo.
A tarde foi tranquila, quase parada. Depois de comer arrumei a cozinha, o quaro e a sala. Entrei no embalo e acabei arrumando o resto do apartamento também, o que tomou parte do meu tempo, me distraindo. Recebi um telefonema da minha mãe para saber como eu estava, e como estava Ian, fazendo com que eu sorrisse. Os girassóis ainda estavam lindos em cima do balcão.
Rapidamente, passara das três horas, fazendo com que eu tivesse de correr para me aprontar e correr novamente para o metrô. Antes de entrar no vagão mandei uma mensagem para Ian, para saber como tinha ido a reunião dele.
Quando subi as escadas para a rua de baixo da rua do restaurante, senti o celular vibrar no bolso.
“Foi bem; é difícil dizer. Quando te encontrar te explico direito. Até logo – Ian.”
Franzi o rosto para a mensagem enigmática dele. Dei de ombros, caminhando até o restaurante.
O serviço não podia ter sido mais... agitado. Quando entrei pela porta e deixei minhas coisas nos armários, ouvi a voz de um francês esbaforido me chamando.
Quando cheguei até ele, Marion estava com a mão esquerda enfaixada, me encarando com um sorriso nervoso no rosto. Ele era canhoto.
É o que devemos fazer
Não temos que ter medo
É o que devemos fazer
Levou uns dez minutos para que me convencesse a assumir a cozinha, ele jurando que ficaria ao meu lado o tempo todo. Sim. Eu assumi a cozinha. Mas no fim das contas, foi a coisa mais emocionante que podia ter me acontecido.
Aprendi tanta coisa, fiz tantos pratos maravilhosos que não consegui deixar de sorrir bobamente quando sentei no banco dos fundos para esperar Ian chegar. Marion sentou-se ao meu lado, um sorriso orgulhoso esticando as bochechas gordas.
–Foi muito bem, Mikaela. – falou com a voz feliz, fazendo meu sorriso aumentar.
–Obrigada. – suspirei encantada – Foi incrível. Sério, incrível. Nunca aprendi tanta coisa assim, nem em dois anos de faculdade. – falei para ele, fazendo-o sorrir de volta.
–Você aprenderia muito mais fora daqui. – respondeu piscando um dos olhos marotamente – A faculdade é boa, mas o mundo tem mais para ensinar, sabe? – adicionou sabiamente.
–Eu sei... – concordei, a voz leve na garganta – Mas ainda não tenho como ir... E supondo que fosse, não tenho nem garantias de que vou conseguir um emprego num bom restaurante lá fora. – justifiquei, fazendo balançar a cabeça. Sorriu para mim, levantando-se para sair.
–Se esse for o único problema, fico feliz em fazer uma carta de recomendação. – e saiu dali.
Não... Casa, família, faculdade... Mas...
Senti alguma coisa estranha no peito. Como se de alguma maneira tivessem plantado uma coisa ali que fazia tempo que já havia morrido. Uma sementinha desgraçada, que pode fazer tudo melhorar ou piorar.
Esperança.
Ouvi a buzina do lado de fora me acordando dos devaneios. Peguei minhas coisas e saí para a parte dos fundos, um carro preto me esperando. Ele realmente precisava começar a usar as duas vagas.
Entrei e fechei a porta, depositando um beijo na bochecha dele. Ele me deu um sorriso estranho. Franzi o cenho.
–O que foi? –perguntei enquanto ele saía com o carro. Percebi que estava inquieto. Percebi também que, diferentemente do usual, usava uma camisa de botão, gravata, calça social e que havia um paletó no banco de trás – Como foi sua reunião? – perguntei finalmente curiosa.
Ele me olhou surpreso, como se eu tivesse dito algo inesperado.
–Por que está vestido como se levasse seu trabalho a sério? – perguntei, conseguindo arrancar uma risada rápida dele. Ele suspirou, ainda encarando a rua na frente dele.
–Resumindo bem, me ofereceram uma promoção. – falou. O rosto não era tão animado quanto eu esperava. Sorri para ele em expectativa. Ele tentou sorrir de volta.
–Mas por que essa cara de quem está com gases? – perguntei meio impaciente – Isso é bom, não é? – adicionei. Ele soltou um riso nervoso.
Ele parou para esperar o portão do estacionamento abrir, ficando em silêncio. Entrou e estacionou na vaga, desligando o carro.
Então virou para me encarar pela primeira vez desde que entrara naquele carro.
–Querem que eu vá para uma outra empresa. – explicou ele, os olhos agitados e sérios em mim. Prestei atenção pacientemente – É uma ótima oferta; querem que eu seja diretor de design. – fez uma pausa, finalmente o rosto franzindo numa careta de preocupação – Só que a empresa não é no Brasil.
Engoli em seco. O silêncio inundou o carro por uns minutos, os olhos dele se tornando cada vez mais confusos e preocupados. Não!
Isso é bom, isso é bom.
Merda! Senti a garganta apertar. Pigarreei antes de falar.
–Vamos subir?
Percebi que tentou ler minha expressão por alguns segundos, então acenou. Saímos do carro e entramos no elevador silenciosamente.
Entramos no apartamento igualmente em silêncio. Eu não estava brava ou nervosa. Nem magoada.
Só não sabia o que dizer.
“Não, não vai e desiste da sua grande chance porque provavelmente eu vou sofrer muito com isso?”
Não, isso soava absurdamente egoísta. Soava não; era egoísmo demais.
–Mikaela. – chamou ele, segurando meu braço de leve. Não percebi que tinha caminhado até o quarto. Olhei-o meio atônita – Diz alguma coisa.
O rosto dele era sério. Ai, como eu gostava do rosto dele. Dos olhos, do sorriso, da boca, dos cabelos macios...
Coloquei a mão no rosto dele gentilmente.
–Parabéns. – falei com um sorriso no rosto. Percebi que estava sendo sincera. Ele engoliu em seco.
Senti meus olhos começarem a arder, então me soltei gentilmente e segui para o quarto a fim de me trocar. Ouvi os passos dele me seguindo em silêncio.
Fiquei de costas para a porta, parada por uns segundos de olhos fechados. Uma semente que tinha sido plantada a muito tempo, muito, muito antes de qualquer outra quando o conheci, finalmente havia brotado.
A da dúvida.
Abri os olhos, respirando fundo. Comecei a colocar uma camiseta velha quando a voz dele me fez lembrar de que eu não estava sozinha.
–Quero que vá comigo.
Não deixe de cruzar
O seu olhar com o meu
Eu vou jogar meu corpo
Em cima do seu
Não deixe de cruzar
O seu olhar com o meu
Eu vou jogar meu corpo
Em cima do seu
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