O Tempo que Leva
4 Antes de Dizer Adeus
Notas iniciais
Acordei de um sono sem sonhos, encarando o teto. Encarei o rádio relógio: oito horas da manhã, credo. Por que ele tocou cedo hoje mesmo?
Ah!, me lembrei...
Juro que se um dia tiver a coragem, dou um soco na Avalon. E na Eileen também. Ainda as amo, mas tenho sérias dúvidas quanto a saúde mental delas e ao amor pela vida que têm.
“Tudo bem, não tem por que fazer drama.” Disse uma vozinha na minha cabeça, em algum lugar. Tá bem, tá legal. Mas não é drama.
“Ah, é sim.” De onde vinha essa vozinha irritante? Será que é isso que chamam de consciência? Enfim, não é drama. Não gosto quando me tratam como uma criança que precisa de auxílio para superar as coisas. Eu estou bem. Não sei por que elas insistiram para que eu saísse com esse rapaz. Eileen pode tê-lo achado bonito, e Avalon disse que ele é muito simpático, mas eu não vejo nada de mais.
“Ah, mas você também o acha simpático. E bonitinho.” Essa voz não pode ser minha consciência, sério. E bonitinho é feio arrumado.
“Mas acha bonitinho.” Tá legal, decidi que essa voz não é minha consciência. Em seu estado saudável não ficaria pensando essas coisas. Chacoalhei a cabeça, afastando os pensamentos.
Respirei fundo e fui para o banheiro, me lavar. Onde iria comer hoje? Por que ele queria me encontrar no parque da avenida? Não sei bem o que vestir para isso.
“Não precisa impressioná-lo.” Eu não quero impressioná-lo! Haja paciência! Ele é um playboyzinho com uma banda, obviamente sem objetivo nenhum.
“Isso até que é meio fofo.” Pronto, decidi! Vou te chamar de Josiete, porque minha consciência não seria tão ridícula assim.
Desliguei o chuveiro e fui para a pia, escovar os dentes. Olhei para meu reflexo no espelho; já tinha tirado o resquício de maquiagem do dia anterior, o que fez com que me sentisse eu mesma. Olhei para meu cabelo. Já estava precisando cortar novamente.
Apenas de roupas de baixo, arrumei o quarto e separei algo confortável para vestir. O dia estava quente, e fazia sol lá fora. Shorts e uma regata larga estavam ok, eu acho. Colocaria meu tênis favorito e pronto.
Fui para cozinha, ainda não totalmente vestida. Peguei a jarra de suco na geladeira, coloquei um pão para tostar e cortei um pedaço de melancia. Fui para a sala colocar uma música no rádio, escolhendo de um dos pendrives em cima dele, e voltei para a cozinha.
Comi alegremente ouvindo música. Lavei a pequena louça e arrumei a bancada onde comi, deixando a música tocar. Fui para o quarto pegar um livro para ler; voltei para a sala e abaixei o som da música, abri as janelas deixando o vento do sétimo andar entrar. Antes de começar a leitura coloquei algumas roupas na máquina para bater, deixando as horas passarem.
Lá pras onze e vinte fechei o livro, e me dirigi à pequena lavandeira para estender as roupas. Quando terminei deliguei o rádio e voltei para o quarto a fim de me aprontar. Não estava muito animada com a ideia de por roupas. Estava tão quente hoje que só a ideia de me vestir me fazia suar.
“Talvez essa seja você protelando.” Respirei fundo. Tinha me esquecido da Josiete por algumas horas. Favor voltar à inexistência. Obrigada. E por que eu protelaria???
Balancei a cabeça, decidindo ignorar a conversa mental que se formava ali. Vesti as roupas confortáveis que estavam em cima da cama, e resolvi deixar o cabelo preso num coque frouxo. Ele não estava muito bom, e estava calor de qualquer jeito.
Peguei meus óculos de sol, fechei as janelas e peguei minha bolsa, colocando o livro que lia dentro dela. Coloquei o tênis de desci para a rua. Eu devia mesmo começar a usar protetor.
Virei na direção oposta à da academia, seguindo em direção à praça que ficava perto de casa. Chequei o celular: dez para o meio-dia. Era cedo até, então sentei em um dos bancos em baixo da sombra, e voltei a ler.
Não percebi quando ele chegou. Só parei para nota-lo quando se sentou ao meu lado, fazendo com que eu pulasse assustada. Esticou os braços nas costas do banco, espreguiçando-se confortavelmente. Revirei os olhos, parando minha leitura.
–Bom dia. – disse simpaticamente, com olhos de sono. Dei um sorriso azedo involuntariamente, o que o fez rir – Onde quer almoçar? – perguntou imediatamente, coçando um olho.
Suspirei, marcando a página e fechando o livro.
–Você parece que acabou de acordar. – disse sem responder. Ele usava uma camiseta branca por baixo de uma camisa xadrez verde amassada e uma bermuda larga. Deu de ombros.
–Não costumo acordar muito cedo. – revirei os olhos. Desocupado. Levantei os óculos escuros para enxergar melhor. “Você quer dizer enxerga-lo melhor.” Suspirei irritadiça. Ele não pareceu notar.
Na verdade, parecia estar quase dormindo, com os olhos meio fechados por causa do sol que entrava por espaços na copa da árvore acima de nós. Ele tinha olheiras em baixo dos olhos.
–Bom, onde você prefere? – disse por fim, parecendo despertá-lo. Ele virou para me encarar ensonado – Parece que você não comeu ainda, e que não dormiu muito essa noite. Pode escolher.
Ele pareceu me analisar por alguns segundos, então sorriu, levantando-se.
–Se importa se comermos algo rápido? Gosto muito de lanche natural. – revirei os olhos. Ele é muito... juvenil.
–Na verdade não me importo. – respondi – Mas a loja mais próxima fica a alguns quilômetros, se você estiver disposto a pegar o metrô. – expliquei.
Ele abriu um sorriso torto pra mim, finalmente adquirindo aquela aparência pretensiosa que mostrara das últimas vezes.
–Você não tem problemas com motos, tem?
Quando chegamos à vaga onde ele havia estacionado, encarei o veículo, boquiaberta por uns instantes. Era daquelas de alta potência, com design de velocidade, as quais você monta e não senta para dirigir. Soltei um suspiro baixo, impressionada.
Ele pareceu gostar da reação.
–Você gosta de motos? – perguntou oferecendo um capacete extra. Eu tive que rir. Ele podia ser juvenil, mas motos eram o meio mais fácil de voar sem ter que sair do chão. Sim, adoro motocicletas – Já andou numa? – acrescentou.
Eu revirei os olhos. Sua moto é sim legalzinha, mas não se empolga, não, querido.
–Na verdade já sim. Meu pai tinha quando mais novo. Mas a dele era um modelo mais antigo. Mais simples, na verdade. – respondi, pondo o capacete. Tive que soltar o cabelo para coloca-lo, e quando fui prender as presilhas, ele foi mais rápido e fez isso por mim.
–Não queremos que caia, não é mesmo? – e deu toquinho no meu queixo. Pai amado, por que tanta proximidade? “Mas não é tão ruim, é?” Balancei a cabeça vigorosamente antes de subir na moto.
Passei a bolsa à tira colo, de modo que ficasse segura com a velocidade, procurei um apoio para as mãos. De algum modo senti que ele sorria. Aquela era uma moto de montar. Respirei fundo, não sabendo exatamente o motivo do meu incômodo.
–Vai ficar pensando para sempre? – perguntou ele sem virar para trás, achando graça. Franzi os lábios. Você é muito espertinho.
–Ian, não é? – perguntei para ter certeza.
–Sim, por quê? – perguntou confuso.
–Tente não ser tão ridiculamente óbvio. – pedi. Ele riu.
–Tente não gostar demais. – respondeu, ligando a moto.
Engoli o orgulho. Coloquei as mãos em cada lado do cós da bermuda dele, de leve. Senti o cheiro do xampu dele antes que ele arrancasse com a moto. Firmei mais a pegada com o solavanco, e inclinei o corpo sobre o dele, mas não cheguei a passar os braços como o cretino estava esperando que eu fizesse. Eu estava acostuma da com velocidade, para a decepção dele.
Mas para a minha surpresa, a viajem fora muito divertida. Fazia anos que eu não andava de moto, e nunca em nenhuma tão rápida assim. O vento, a velocidade... Era muito bom! Uma liberdade ótima, que há anos eu não sentia. Phelipe me ocorreu brevemente.
Paramos em uma loja perto do Mercado da Cidade. O pequeno restaurante, daqueles tipo fast-food seminatural, era atraente por fora. Desci facilmente da moto, soltando o capacete, imaginando a desgraça que estaria meu cabelo. Ele me encarou enquanto eu o prendia.
–O quê? – perguntei quando abaixei os braços, passando a bolsa em um ombro só. Ele sorriu, dando de ombros.
–Não achei que fosse gostar mesmo. – admitiu. Não entendi. Franzi o cenho – Tenho quase certeza que ouvi você rir enquanto vínhamos. – explicou ele. Ah!
Foi minha vez de dar de ombros.
–Eu gosto de velocidade.
Ele sorriu para mim, com uma expressão que eu não entendi. Tinha alguma coisa no sorriso dele que... Quando percebi estava encarando-o. Balancei a cabeça.
–Vamos? – perguntei, virando-me para a entrada. Ele me seguiu.
Pedimos lanches; na verdade eu pedi algo simples, e ele pediu algo absurdamente gigante. E longe de ser lanche natural. Sentamos em uma mesa nos fundos, comendo em silêncio por alguns minutos.
Ele havia devorado metade do lanche gigantesco quando resolveu falar.
–O que faz da vida? – perguntou, enfiando uma batata na boca. Franzi os lábios.
–Por que o interesse? – perguntei sem responder. Ele sorriu de modo inocente.
–A proposta disso tudo é a gente se conhecer. – disse com o rosto inocente. – Só tente não se apaixonar. – revirei os olhos. Por que não? Vamos tentar essa coisa, como é mesmo o nome? Ah sim... Socializar.
–Trabalho e estudo. – respondi por fim — Faço Gastronomia. Estou no último ano, mas atualmente estou de férias. O que você faz da vida? – quis saber. Ele deu de ombros.
–Terminei a faculdade há um ano, — Nossa, ele estudou! – fiz música. – Ah, deixa para lá. – Agora trabalho quase todos os dias de tarde numa empresa de instrumentos, e toco com a banda quase todas as noites. – disse com o rosto cansado. Ah!, por isso a cara de sono. “Não devia tê-lo julgado.” Quieta Jusiete! – Onde você trabalha?
Abri um sorriso de leve, lembrando-me da “promoção” do dia anterior.
–Num restaurante no bairro Mitralto. – ele arqueou as sobrancelhas. Mitralto era um conhecido bairro nobre – Sou garçonete na maior parte dos dias, mas agora vou começar a cozinhar de segunda à quarta. O Chef me tomou como aprendiz. – disse sem conseguir evitar um sorriso autêntico de orgulho.
Ele abriu um sorriso torto.
–Isso explica a fantasia de lésbica. – Ugh! Revirei os olhos – Por que bebe tanto? – perguntou ele, agora roubando minhas batatas. Franzi o cenho.
–Eu não bebo tanto assim. Bebo a quantidade normal que uma pessoa bebe. – respondi na defensiva. Ele deu risada, balançando a cabeça.
–A maior parte das pessoas que bebem a mesma quantidade que você ou são carecas ou têm mais de cinquenta anos. – retrucou, fazendo com que eu risse.
–Você é que é fraquinho demais. – respondi.
–Ei, eu não sou uma pessoa amargurada que precisa beber para afogar as mágoas. – disse ele, sorrindo de maneira ácida. Fechei a cara involuntariamente.
–Você não sabe nem metade. – murmurei, apoiando o queixo em uma das mãos, encarando a janela. Ele pareceu impressionado com a resposta.
–Decepção amorosa, então? – preguntou adivinhando, imitando minha pose, se aproximando. Bufei.
–Quem é você? Hitch, o conselheiro amoroso*? – perguntei com sarcasmo, tirando uma risada dele – Quantos anos você tem? – perguntei, tentando sair do assunto.
–Tenho vinte e três. E você? – perguntou também, com um interesse maior que o necessário.
–Não consegue adivinhar? – virei para ele, agora sorrindo cinicamente. Quase ninguém adivinhava. Ele pareceu ponderar por alguns instantes.
–Minha idade? – perguntou por fim. Eu sorri. Balancei a cabeça negativamente. Ele arqueou as sobrancelhas – Vinte e cinco? – tentou de novo. Agora tive que rir.
–Eu faço vinte e um esse ano. – disse, observando a reação dele. Esse mês, mas ocultei essa informação. Pensei em Phelipe de novo. Ele arqueou as sobrancelhas, me olhando de baixo a cima.
–Não sei se está bem desenvolvida, ou se é essa sua carranca que te deixa mais velha. – disse com uma expressão meio preocupada no rosto. Revirei os olhos – Como pode ter uma decepção amorosa com apenas vinte anos, de qualquer jeito? – perguntou por fim. Com a sobrancelha franzida.
Suspirei de leve.
–Se importa se voltarmos para a praça? – perguntei, adiando a próxima conversa com ele. Ele abriu um sorriso torto.
–Mas já quer por as mãos em mim de novo? – perguntou, colocando uma de suas mãos no peito, encenado uma expressão de choque. Não me segurei e dei um soco no braço dele, o que o fez gargalhar.
–Não seja babaca, estava finalmente começando... – mas então parei. Começando o quê, Mikaela? Ele arqueou uma sobrancelha, aparentemente se perguntando a mesma coisa – a mudar de opinião sobre você. – completei. Isso, opinião, é. “Boa mentira!”. Engoli em seco, forçando um sorriso.
A viajem de volta fora igualmente agradável, só que ao mesmo tempo diferente. Eu tinha outras coisas na cabeça.
Quando paramos perto do mesmo lugar de antes, ele desceu da moto, e eu o segui. Quando passei a perna por cima da garupa, calculei errado, e acabei por tropeçar na guia alta da calçada, trombando com alguma coisa firme.
Ainda bem que eu estava de capacete, porque involuntariamente, e de maneira totalmente incriminadora, meu rosto ficou vermelho. Ian aparava meu corpo com os braços, passando um deles logo abaixo da minha linha do busto, e outro dando apoio a minha mão esquerda. Ajudou-me a levantar, enquanto eu murmurava desculpas constrangidas para ele.
Tirei o capacete e o entreguei, fazendo menção de prender o cabelo mais uma vez. Ele segurou meu pulso no meio do caminho. Eu o encarei, espantada. Ele pareceu notar o que fez e então me soltou.
–É que seu cabelo fica bem assim. – explicou, dando de ombros.
–Tá. – foi o que consegui dizer, ainda encarando ele.
Fomos para um dos bancos, agora que o sol batia em outra posição.
–Vai me explicar o que aconteceu? – perguntou ele, quando eu não falei nada. Dei de ombros. É difícil explicar – Não precisa se não quiser, embora eu realmente queira saber. – disse com um sorriso simpático.
Sorri de volta. É só que dói lembrar. Phelipe me apareceu de novo. Jusiete se remoía em minha cabeça.
I know there's something in the wake of your smile.
(Eu sei que tem algo por trás do seu sorriso)
I get a notion from the look in your eyes, yeah.
(Eu posso perceber pelo seu olhar, yeah)
You've built a love but that love falls apart.
(Você construiu um amor, mas ele desmoronou)
Your little piece of heaven turns to dark
(Seu pequeno pedaço de paraíso torna-se escuro)
–Phelipe nunca me deixava andar de moto. – disse repentinamente. Era uma das coisas que me deixava chateada. Era minha atividade favorita com meu pai – Ele ficava com medo que eu me machucasse. – dei de ombros.
Ele franziu o cenho, pensando por alguns segundos.
–Como se conheceram? – quis saber. Não era um interrogatório, pude perceber. Ele só queria que eu... falasse. Respirei fundo. Falei tudo o que tinha para falar.
–Nos conhecemos no ensino médio, — comecei – e começamos a namorar depois de um ano. Ele era um ano mais velho, e bem... – “...” – meio conservador, do jeito dele. Nada absurdo, sabe? Enfim, quando comecei a faculdade ficamos noivos. – Ian arqueou as sobrancelhas. Eu dei um sorriso sem graça. – Eu sei, eu era bem nova. Mas a gente sempre se gostou, e não tínhamos nenhum atrito, nem problemas. Isso até o ano passado. – minha garganta apertou, e precisei pigarrear para continuar – E numa ironia do cosmos, ele resolve terminar. No ano em que marcaríamos a data. – disse dando um sorriso fraco. Não consegui olha-lo para ver sua reação.
Sua voz veio mais séria do que eu esperava.
–Por que finge que está tudo bem? — perguntou, fazendo com que eu virasse para encará-lo. Ele parecia intrigado – Digo; é óbvio que está magoada, mas faz uma força enorme para parecer bem. Por quê? – “Porque ele foi o único que conheci.” Pisquei algumas vezes, afastando o pensamento.
–Por que não tenho certeza do que sinto nesse momento. – disse franzindo o cenho. Fui mais sincera do que esperava ser com um cara que eu nem conhecia. Ele pareceu me avaliar por um instante.
Apoiou o braço esquerdo nas costas do banco e pegou uma mecha do meu cabelo, começando a brincar com ela entre os dedos.
–Sabe por que ele quis terminar? – disse mais baixo, agora olhando para o que tinha nas mãos. Dei uma risada fraca, levemente irritada.
–Ele disse que sou muito indiferente. – então ele olhou para o meu rosto. Eu sorria de modo amargo com a lembrança.
–Você é muito carrancuda, sabia? Pra uma garota tão nova. – bufei nervosa.
–Você volta a ser irritante tão rapidamente, não é? – disse puxando meu cabelo da mão dele – E que mania é essa com meu cabelo?
–Você é que é muito sensível a mim. – disse com deboche, se aproximando. Olhei para ele com olhos frios – Você é mesmo uma pessoa difícil, não é mesmo? – disse ele, finalmente parecendo impaciente.
–Não, são as outras que são muito rasinhas. – respondi com desdém. Ele levantou do banco, bufando irritado. “Para por aí...” ouvi em minha cabeça. Pra mim ou para ele?
–Por que você é assim?? – perguntou gesticulando em minha direção – As pessoas só merecem seu respeito se você julga que sim? – ele estava realmente irritado, andando de um lado por outro – Elas só valem a pena a partir do que você julga delas?
Como é que é? Foi minha vez de levantar, deixando minhas coisas no banco.
–Você fez questão de ser inconveniente desde o momento em que te vi! Você é a pessoa mais irritante que já vi na vida! – falei nervosa, com as mãos na frente do corpo como se esmagasse a cabeça dele no ar.
–Como pode saber? Nem se deu ao trabalho de me conhecer! – respondeu quase gritando, parando para me encarar de perto. Fiquei muda com a reação dele. “Ele tem razão, sabe.” Engoli em seco, e respirei fundo.
–Eu não quero te conhecer. Não desse jeito. – respondi por fim. Eu não sei bem o que ele entendeu, mas virou as costas e começou a andar em direção ao lugar onde estava estacionada a moto. “Explica para ele!” Não! Ele é obtuso demais para entender!
“Você é que não se fez entender!”. Soltei um rugido impaciente. Fiquei encarando por uns segundos ele andar com passos largos.
Listen to your heart when he's calling for you.
(Ouça seu coração, quando ele chama por você)
Listen to your heart there's nothing else you can do.
(Ouça seu coração, quando não há mais nada que possa fazer)
I don't know where you're going
(Eu não sei aonde você está indo)
And I don't know why,
(E não sei por quê,)
But listen to your heart before you tell him goodbye
(Mas ouça seu coração antes de dizê-lo adeus)
Sometimes you wonder if this fight is worthwhile.
(Às vezes você pensa se essa briga vale a pena)
The precious moments are all lost in the tide, yeah.
(Os momentos preciosos estão todos perdidos na mare, yeah)
They're swept away and nothing is what it seems,
(Foram varridos para longe, e nada é o que parece,)
The feeling of belonging to your dreams
(A sensação de pertencer aos seus sonhos)
Revirei os olhos, e fui atrás dele, pegando a bolsa em cima do banco. Jusiete, queria que você calasse a boca por uns instantes, por favor.
–Ei! – gritei, ele ignorou – EI! – chamei mais alto. Ele apertou o passo. – MAS QUE MERDA, IAN! ESPERA UM POUCO! – ele finalmente pareceu ouvir, parando de costas. Eu não sabia bem o que dizer.
–O que foi? – perguntou sem se virar. Todo resquício de humor que ele tinha sumiu de sua voz. Eu levei mais alguns segundos em silêncio. Ele fez menção de voltar a andar.
–Eu sinto muito! – disse por fim. “Bom começo.” Ele suspirou balançando a cabeça – Você não entende. – murmurei por fim.
Ele se virou para mim, com o rosto mais suave do que eu esperava.
–Por que não tenta explicar? – falou. Seus olhos cor de avelã pareciam enormes ali onde a sombra e a luz se agitavam com o vento. “Explica para ele.”
Listen to your heart when he's calling for you.
(Ouça seu coração, quando ele chama por você)
Listen to your heart there's nothing else you can do.
(Ouça seu coração, não há mais nada que possa fazer)
I don't know where you're going
(Eu não sei para onde você está indo)
And I don't know why,
(E não sei por quê)
But listen to your heart before you tell him goodbye
(Mas ouça seu coração antes de dizê-lo adeus)
And there are voices that want to be heard.
(E existem vozes que querem serem ouvidas)
So much to mention but you can't find the words.
(Tanto para dizer, mas você não consegue achar as palavras)
The scent of magic, the beauty that's been
(O perfume da magia, a beleza que teve)
When love was wilder than the wind.
(Quando o amor era mais selvagem que o vento)
Tudo bem.
–Eu não estou pronta para isso. – disse tentando explicar – Quando disse que não queria te conhecer desse jeito, me referia a como eu estou. Agora. – respirei fundo – Não é pessoal, eu só... – ele terminou por mim.
–É péssima em lidar com seus sentimentos. – disse me encarando, agora com a expressão séria. Revirei os olhos, mas suspirei como que concordando. Ele sorriu de leve, caminhando em minha direção. Parou na minha frente.
–Tudo bem, você não é obrigada a fazer nada que não queira. Não precisa gostar de mim se não quiser. – disse com um sorriso leve – Apesar de ser muito difícil. – acrescentou, fazendo-me revirar os olhos, mas sorrir em resposta – Você só precisa se soltar um pouco. E sou um cara legal. – disse dando de ombros, fingindo humildade.
Tive que rir.
–Tudo bem, eu acho melhor eu ir. – ele disse. Segurou-me pelos braços e abaixou para depositar um beijo no meu rosto, sorrindo simpaticamente – Acho que a gente se vê por aí.
Acenou e começou a andar em direção à moto.
“Chame-o para jantar amanhã. Ele já foi convidado mesmo.” Balancei a cabeça. Não.
“É uma boa maneira de agradecer por ter sido compreensivo, e se desculpar por ter sido uma megera.” Respirei fundo.
Listen to your heart when he's calling for you.
(Ouça seu coração, quando ele chama por você)
Listen to your heart there's nothing else you can do.
(Ouça seu coração, não há mais nada que possa fazer)
I don't know where you're going
(Eu não sei aonde você está indo)
And I don't know why,
(E não sei por quê,)
But listen to your heart before
(Mas ouça seu coração antes…)
Tá , tá bem! Fui até onde ele montava na moto.
Listen to your heart when he's calling for you.
(Ouça seu coração, quando ele chama por você)
Listen to your heart there's nothing else you can do.
(Ouça seu coração, não há mais nada que possa fazer)
I don't know where you're going
(Eu não sei aonde você está indo)
And I don't know why,
(E não sei por quê,)
Listen to your heart before you tell him goodbye
(Ouça seu coração antes de dizê-lo adeus)
–Ian! – chamei, fazendo com que virasse para mim – Avenida cinco, número setenta e oito, sétimo andar. Às oito. – Ele abriu um sorriso torto, e acelerou a moto, fazendo-a rugir antes de sair.
Respirei fundo. Espero não me arrepender.
*Menção ao filme, onde Will Smith faz um personagem que é conselheiro amoroso.
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