O Templo Esmeralda
5 Capítulo 5
A serpente e o sacerdote que estava em um lugar especial, acima dos demais, começaram a falar um com o outro no idioma dos cânticos. Sua voz, como o chiado de mil serpentes, causava arrepios em Diana.
Depois de um certo tempo falando no estranho idioma, a mulher serpente parou e todos os sacerdotes proferiram uma frase curta no estranho idioma que, pela entonação, parecia uma saudação honrosa. Em seguida, a criatura falou, mas desta vez no idioma típico daquelas terras. Embora estivesse falando no idioma conhecido, sua voz não mudara.
− Sumo-sacerdote Balchor, sua lealdade muito me agrada. Espero o mesmo dos sacrifícios que irá me oferecer hoje.
− Ó, poderosa Ouja, sou grato por seus elogios. Os sacrifícios desse ano foram colhidos e tratados com muito esmero, para que sua bênção seja sobre nós e que nos conceda seus divinos conhecimentos – respondeu o sumo-sacerdote.
− Então, comecemos logo − disse a deusa Ouja, cruzando os
braços.
Porém, algo atrapalhou os planos da divindade. Um grito chamou a atenção de todos, inclusive dela. Um dos sacerdotes caíra no grande buraco, rumo ao infinito.
Onde o sacerdote estava anteriormente havia outro, vestido como eles, mas em sua mão havia uma cimitarra, que pingava restos de sangue.
Por um momento todos ficaram atônitos, até mesmo Ouja, até que a deusa emitiu um chiado seguido por um grito de fúria.
− Peguem-no! Matem o herege! − gritou Balchor.
Os sacerdotes, então, avançaram em Eduardo, que já estava preparado. Os adoradores da deusa serpente puxaram punhais de dentro dos mantos, mas a longa cimitarra do guerreiro os acertava antes que eles se aproximassem o suficiente para apresentar algum risco.
O guerreiro percebeu que a deusa, embora claramente irritada, permanecera no mesmo lugar, e isso o inquietava, mas resolveu se concentrar. Depois de cortar gargantas e braços, depois de ferir gravemente vários sacerdotes, Eduardo percebeu que eles se amontoavam muito rápido. Eram mais sacerdotes do que ele podia dar conta naquele lugar apertado. Vendo um espaço entre os sacerdotes, ele pulou para um lado mais vazio, cortando mais gargantas no processo.
− Senhora, vossa divindade, por favor me perdoe. Isso não era para acontecer. Não sei como esse herege entrou no templo – disse Belchor, humilhando-se perante Ouja.
− Basta de desculpas, Belchor. Você permitiu que meu
ritual fosse atrapalhado e deve pagar com sua própria vida – Ouja
avançou em Belchor, agarrando-o com as duas mãos e começou a se enrolar nele. A cada volta, ouvia-se o som de ossos se partindo e gritos desesperados de dor e depois, quando só a cabeça do sacerdote estava exposta — seus olhos estavam esbugalhados, quase saltando da cara — a serpente abriu sua boca, seu maxilar se dilatando até estar várias vezes maior que o normal, e começou a engolir o sacerdote, forçando-o para dentro aos poucos.
Todos ao redor, inclusive Eduardo, ficaram petrificados ao testemunhar tal coisa. Assustados, os sacerdotes começaram a correr para todos os lados, mas a deusa, emitindo um grito de fúria,
começou a atacar a todos, agarrando-os um por um e partindo-lhes as colunas.
Quando pôs os olhos em Eduardo, a deusa chiou novamente, e disse:
− Você! Você é o culpado de tudo isso!
− Perdão por ter estragado seu dia, mas estava prestando
um favor para alguém, se é que isso serve como desculpa – respondeu o guerreiro fazendo uma mesura. Ele já tinha parado de lutar contra os sacerdotes, que estavam mais preocupados em se salvar, e tentava sair do caminho deles quando a deusa o abordou.
− Agora, você vai pagar! – a deusa gritou, avançando em Eduardo.
. . .
Diana havia ido sorrateiramente até as celas onde estavam as moças a serem usadas como sacrifício. Quando chegou lá, os outros sacerdotes já haviam saído, para combater com Eduardo, deixando o lugar desprotegido.
Quando a viram, as garotas começaram a se aproximar da grade, mas seus olhares eram vazios, como se elas estivessem sendo controladas. Diana presumiu que deveria ser alguma droga dada pelos sacerdotes. A garota procurava a irmã quando ouviu o grito da deusa. Naquele momento, todas as moças da cela acordaram do transe e, ao verem o que acontecia, começaram a gritar.
− Raquel! – gritava Diana – Raquel, você está aí? Ela, então, ouviu um grito vindo do fundo da cela.
− Diana! Diana, aqui! − Raquel acenava para ela, atrás de todas as outras.
A chave da cela estava pendurada na parede ao lado da cela e Diana a pegou. Ela abriu a cela, todas as garotas começaram a correr para fora, gritando apavoradas.
Quando Raquel saiu, as duas irmãs se abraçaram.
− Diana! Eu estou tão feliz de te ver novamente! − disse
Raquel, aos soluços.
− E eu iria te deixar aqui, depois do que nós passamos? Não vamos reconstruir nossas vidas? Agora, vamos. Temos que sair logo daqui.
E as duas começaram a caminhar lentamente. Raquel não estava conseguindo andar direito e Diana teve que ajudá -la.
. . .
Com um impulso, Ouja avançou em Eduardo. O guerreiro teve que se jogar para o lado instantes antes, e mal teve tempo de se recuperar, pois a criatura pegara pedaços da parede que ela destruíra ao se chocar e os lançara contra ele com força sobrenatural.
Se esquivando das pedras, Eduardo resolveu investir. Quando chegou perto da criatura, teve que se abaixar para se livrar das garras o caçavam. Ele arremeteu um golpe com a cimitarra em Ouja. A arma retiniu com o impacto, mas não causou sequer um arranhão.
Pasmo com aquilo, ele se descuidou por um instante e Ouja lhe acertara com as garras, cortando sua roupa e a pele do tórax. Por pouco o golpe não foi mortal. A dor dominou que dominou Eduardo era imensa, mas ainda piorou quando a serpente o agarrou e o lançou contra a parede.
Com o impacto, o guerreiro começou a cuspir sangue e tossir. A dor dominou todo o seu corpo, mas não podia desistir. Não podia deixar que tudo acabasse ali.
Novamente de pé, ele se esquivou por um triz quando a criatura investiu. Desta vez, teve que usar a cimitarra para aparar o golpe, se jogando para o lado depois, mas caindo no nível inferior da rampa.
Ele sentia que sua consciência se esvaía aos poucos, conforme a dor no corpo aumentava. O ferimento no peito ardia e sangrava.
Quando Ouja se preparou para uma nova investida, algo chamou sua atenção. Ela riu.
− O que temos aqui? − ela chiou. Diana e Raquel já estavam
próximas da saída quando foram notadas pela criatura. As duas, além de andarem devagar, tiveram que se esconder quando a deusa começou a atacar os sacerdotes.
Ao perceberem que Ouja as havia notado, as duas tentaram correr, mas não tiveram tempo. Quando Ouja avançou nelas, Raquel empurrou Diana pela saída. A moça caiu de joelhos e, quando se virou, viu que a deusa havia agarrado Raquel pelos braços.
− Diana! − gritou Raquel, enquanto era erguida pela criatura.
Diana, desesperada, tentou segurar a irmã, mas foi em vão.
− Ah, mas eu não vou me dar ao luxo de perder todas as minhas virgens. Tenho que apreciar pelo menos uma... – Ouja, então arregalou os olhos − Mas o que é isso? Não... não é possível. Eu pensei que vocês não existissem mais! Mas existem, ah se existem! Não tem como eu estar enganada. Você é um deles, não é? Você é descendente dos magos geminianos! Hu, hu, hu... que honra a minha, de ter em mãos um deles... mas o que eu faço agora? A
destruo para que não haja chances de “Eles” voltarem ou me porto como uma boa serva e tento libertar meus mestres? Que dúvida terrível!
Naquele momento, Eduardo já havia se recuperado um pouco e saltou sobre Ouja de espada em punho, levantada para dar um golpe vertical. Quando ele se aproximou dela, levou um tapa da criatura, no tórax, que o lançou longe. Sua cimitarra se soltara de sua mão e caíra no fundo da torre.
O guerreiro foi lançado para perto de onde estava Diana, chorando pela irmã. Ela correu para socorrer Eduardo, que estava consciente, mas esgotado.
Depois de ajudá-lo a se encostar na parede, ela perguntou:
− O que vai acontecer agora? O medo a dominara.
− Eu não sei. Minha espada de nada adiantou contra essa
coisa...
Houve, então, um estalo na mente de Diana.
− A espada! − ela disse − A cimitarra da outra sala! Deve ser uma arma contra essa deusa!
Eduardo a olhou, pasmo por ela ter lembrado disso naquele momento. Mas ela estava certa.
− Diana, você tem que ir buscar aquela espada − Eduardo
disse.
− Mas... − a moça ia replicar, mas foi interrompida pelo guerreiro
− Vai buscar a espada ou vamos todos morrer aqui! É para isso que você se esforçou tanto?
Diana olhou para o guerreiro. Ele estava arriscando sua própria vida e se ferira gravemente somente para ajudá-la. Sua irmã novamente se sacrificara para mantê-la a salvo e ela estava novamente chorando como uma menininha.
Estava na hora de ela parar de agir como uma menininha e começar a lutar pelo que queria.
Ela acenou com a cabeça para Eduardo e passou pela porta, descendo as escadas.
. . .
Diana descia tão rápido que quase não sentia os degraus. Chegou até a entrada da sala alguns instantes depois, arfando. A estranha sensação que aquele cômodo lhe trazia voltara.
Ela abriu a porta e lá estava a espada negra, como antes. Os olhos do dragão pareciam vivos.
Se aproximou devagar, sua mente aos poucos sendo dominada por aquela aura maligna emanada pela arma.
Quando pegou no cabo da cimitarra, a sensação era que estava sendo tragada pela arma. Tudo ao seu redor estava perdendo o foco. Ela ficou tonta, quase caiu.
Mas ao lembrar de Raquel nas mãos daquela criatura, ela pôde recuperar o controle novamente. Fazendo um esforço enorme, ela conseguiu retirar a espada do altar.
Sua visão continuava turva, cada batida do seu coração ecoava em seus ouvidos, ela teve que se apoiar nas paredes, mas seguiu de volta para as escadas. Cada passo que dava fazia seu corpo todo sacolejar. Chegou até a vomitar.
− Não posso... deixar Raquel... agora... − ela dizia para si mesma, enquanto se arrastava para cima.
Ao se aproximar da saída, a luz esverdeada começou a cegá-la. Quando passou pelo portal, pôde ver Eduardo ainda encostado na parede. Então ela ouviu um grito. Ouja.
Olhou para cima e viu a deusa, parada perto da abóboda. A deusa gargalhou e disse:
− Não posso acreditar que alguém conseguiu retirar a Espada do Rei Demônio da pedra. Deve ser meu dia de sorte. Uma gemniana e a Espada do Rei Demônio de uma só vez...
Ouja, então, começou a descer rapidamente, deslizando pelas paredes.
− A espada! − disse Eduardo, se levantando. Seu corpo parecia que ia se partir − Me passa a espada!
Ele pulou para frente de Diana, que lhe passou a arma instantes antes de Ouja avançar neles. Diana, então, perdeu os sentidos.
Quando Eduardo pegou a espada, instantaneamente seu corpo parou de doer. E ele sentiu como se a arma o chamasse para lutar. Seu corpo se encheu de energia e estava pronto para lutar.
Ouja desceu as garras sobre as costas de Eduardo, que girou no seu próprio eixo, executando um corte diagonal com a espada, para cima. O golpe não só parou o ataque da deusa como também penetrou sua proteção de escamas e causou um corte profundo no braço. Sangue verde gotejou da ferida e a deusa urrou. Dessa vez um misto de dor, fúria e medo.
Olhando para a criatura e depois para a espada, Eduardo sorriu e disse:
− Isso está começando a ficar interessante.
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