O Tamanho Perfeito
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Lune, você é uma escritora INCRÍVEL que mesmo em secretinho eu admiro bastante. Está sendo uma honra escrever essa história pra você, e apesar dos erros de iniciante, eu coloquei muito amor e carinho e espero que você goste! Se o destino me reservar de continuar escrevendo, espero poder te presentear mais vezes com seus ships maravilhosos.
Fran, você é minha santa padroeira! Obrigada por ser meu Aquário (apesar de ser geminiana XD) que sempre me incentiva a novas experiências.
Escritores, vocês são pessoas que merecem todo o amor do mundo pela paciência e dedicação de cada um. ♥
O relógio da cozinha marcava 2 horas da manhã com seu ritmado tic tac, e a casa se encontrava silenciosa e escura como assim deveria ser em uma típica madrugada. Com exceção da luz que escorria por debaixo da porta de um quarto do 1° andar.
Gêmeos sabia que aquela não era a melhor hora — na verdade, ele não poderia ter escolhido hora pior — mas ele passou a semana inteira procurando um momento em que pudesse experimentar sua nova aquisição, porém não teve muito tempo sozinho em casa, e ele podia jurar que se tivesse que esperar por mais um dia, ele iria explodir em forma de confetezinhos de ansiedade.
Ele terminou de abotoar o crop top listrado de cores pastéis e deu aquela e sem perceber mantinha a respiração presa como sempre fazia antes de girar sobre os calcanhares e encarar o espelho. Toda aquela inquietação podia parecer algo bobo já que claramente Gêmeos havia visto e provado todas as roupas na loja antes de comprá-las, mas a expectativa de se ver usando aquelas peças lindas dentro da sua própria casa era algo mágico que fazia as mãos do bicolor formigarem e um tipo de cosquinha em seu estômago. E não era pra menos.
— Jesus Cristo, eu tô um arraso. – Cochichava para ninguém além de si mesmo ao se ver no espelho. Tentava analisar todos os ângulos, virando de costas e fazendo poses. Aquela blusinha combinaria com tanta coisa! Seu shorts jeans preto de cintura alta, ou então aquela saia branca plissada. Na onde ele havia guardado ela afinal de contas?
— Gêmeos?
DROGA! Ele estava tão distraído que não prestou atenção quando o ronco baixo que vinha do outro quarto tinha parado. Em um impulso de pânico e caos total, Gêmeos começou a se despir como se estivesse em uma competição de quem conseguia fazer o strip-tease mais rápido, mas não como se ele tivesse alguma chance de ganhar, já que gastou alguns segundos generosos tentando realizar a façanha de desenroscar da cabeça uma camisa ainda abotoada. “Enrolado, desesperado e seminu” era isso que constaria no seu atestado de óbito se fosse pego daquele jeito. Mas ele só precisava ficar em silêncio. Sim, talvez se não respondesse nada, sua avó voltaria a dormir e-
— Gê, por que a luz está acesa?
A PORRA DA LUZ! Era como se a cabeça de Gêmeos fosse uma caixa sendo chacoalhada ao mesmo tempo que vários alarmes e sirenes estavam disparando. Ele sabia que se não pensasse em algo para dizer AGORA MESMO, ela iria se levantar e checar o que estava acontecendo.
— EU... Eu fui ao banheiro, vó. Já tô voltando pra cama agora.
— Ah... – Não parecia que a senhora iria terminar a frase por ai-... E você tá mesmo acordado, filho?
—Hm, sim?
—Bom, bom... E... Usou o banheiro direitinho?
—Sim, v... Que? Claro que sim, vó! Como assim? — Gêmeos parou no meio do quarto enquanto segurava a pilha de roupas que pretendia jogar no guarda roupa. Ele tinha mesmo escutado direito?
—Ah você sabe, só pra se certificar que não foi que nem daquela vez...
—Que vez?
—Quando você era menor, você lembra...
— Não vó, eu acho que eu não lembro — Gêmeos sabia que estava estupidamente abusando da sorte continuando aquela conversa ao invés de encerra-la, mas que groselha aquela bendita senhora estava falando?
—Foi naquele dia em que eu escutei uns barulhos no andar de baixo e pensei que era a geladeira estalando de novo, mas parecia mais alguém tropeçando nos degraus da escada. Então quando fui ver se você tava bem e não te vi na cama, desci e achei você sonâmbulo na lavanderia. Você tinha aberto a tampa da secadora e eu consegui te parar antes de você abaixar as calças e-
-AH CERTO VÓ EU ACHO QUE JÁ LEMBREI, JÁ LEMBREI! – apesar de que na verdade não lembrava daquele ocorrido justamente por estar sonâmbulo, já havia escutado aquela história vergonhosa e agora lembrava que deveria ter esquecido de propósito — Mas isso faz tempo, eu era criança vó...
—Você sempre vai ser minha criança, Gêzinho — um bocejo veio do outro quarto — agora vai dormir, meu bem.
— Boa noite, vó.
Gêmeos rapidamente terminou de arrumar o seu quarto e apagou a luz antes de finalmente ir para cama. Fazia um tempo que não passava por um susto daquele, e apenas imaginar a catástrofe que seria se ele fosse pego... Não, não, não! Ele sabia que se seguisse por aquela linha de pensamentos iria acabar mal, e agora ele precisava dormir. E pensar que apesar de tudo tinha cumprido a missão e provado sua roupa o fazia se sentir um pouco melhor. Apesar de todo o esforço, planejamento e sutileza que Gêmeos precisava ter nessas horas, sem dúvida eram os únicos momentos que o garoto se sentia bem consigo mesmo e esquecia do resto do mundo, esquecendo até mesmo que aquele ato em si poderia ser um problema para ele. O garoto girou o corpo para o outro lado e agora pensava na peça que acabará de vestir, ele tinha adorado o crop colorido e como caia em seu corpo, mas permanecia a sensação que faltava alguma coisa para completar aquele look, mesmo não fazendo ideia do que era. Mas tudo bem, aquilo não seria um problema por muito tempo. Gêmeos sabia reconhecer que tinha um senso de moda incrível, pena que não coragem suficiente pra permitir que outra pessoa o visse e confirmasse isso.
Então o garoto de cabelo bicolor apertou sua almofada um pouco mais forte contra o peito e se deixou ser guiado pelos pensamentos até que seus olhos se rendessem.
***
Era hora do intervalo, e lá estavam Virgem e Gêmeos cumprindo pontualmente o ritual que envolvia pegar seus lanches e procurar um lugar estratégico na arquibancada da quadra, com uma visão privilegiada de um certo veterano que gostava de estudar por ali.
— E até quando mesmo você pretende continuar stalkeando ele sem conseguir ultrapassar 10 metros de distância?
— Eu não tô stalkeando! Veja isso mais como... Admirar uma escultura em um museu. Uma escultura linda, alta, com um cabelo sedoso, habilidosa com calculadoras e... Caramba, aquelas olheiras estão mais profundas? Aqui está bom, vamos sentar.
— Ainda tem certeza que não é um stalker? Mas enfim, aqui não é um museu, estamos no ensino médio e logo a gente se forma, ele ainda antes da gente, o coitado deve estar virando as noites pra se preparar para os vestibulares. – Virgem dizia enquanto desembrulhava seu sanduíche integral – Eu sei que sempre to falando isso, mas acho que você deveria conversar com ele.
— Pffffh, e conversar pra quê, Vi? – Deixou escapar uma risadinha sarcástica enquanto olhava para as próprias mãos – Se Capricórnio for realmente um cara tão inteligente quanto dizem, o que vai querer com alguém como eu?
— Você é você, isso já é mais do que o suficiente.
“Não Virgem, nesse momento eu sou qualquer coisa, menos eu mesmo.” Era isso que Gêmeos queria ter respondido, mas apesar de sentir um nó na garganta ao ter que segurar as palavras, aquilo era mais fácil do que ter que se explicar. Não era como se não confiasse em Virgem, ele era seu melhor amigo e realmente o amava e sabia que também era amado através de todo o cuidado e paciência que Virgem demonstrava até mesmo em suas broncas em tons maternos. E apesar de sempre estar tentando retribuir esse sentimento, às vezes Gêmeos simplesmente não conseguia evitar se sentir um fardo, e achava que se despejasse aquele segredo em cima do amigo seria abusar dos limites da sua amizade. Além disso, não entendia como Virgem podia dizer aquilo de forma tão simples. Ele realmente acreditava que se Gêmeos fosse ele mesmo aquilo seria a solução de tudo? Na verdade, “ser ele mesmo” era justamente o início de todos os problemas. Talvez se ele fosse mais como o amigo... Virgem era lindo e qualquer um podia ver isso mesmo através daquele uniforme escolar, ele possuía traços delicados no rosto quase sempre sério e também um cabelo longo invejado por muitos meninos e meninas, mas que ele sempre mantinha preso em um rabo de cavalo no ambiente escolar. Porém o que realmente impressionava o bicolor era o fato de aparecer que Virgem não ligava para esses detalhes e muito menos para os comentários que recebia. Quando começaram a conversar e Gêmeos perguntou se ele não se incomodava com o que comentavam sobre ele, Virgem apenas deu de ombros e respondeu “Eu sei quem eu sou e não preciso ouvir isso de outras pessoas.”
— Caramba, só imaginar em conversar com ele te deixa em parafuso desse jeito? – Quando Gêmeos voltou para a realidade, encontrou Virgem inclinado em sua direção analisando bem o seu rosto, como aqueles cães farejadores. Eles já estavam a uma distância tão curta assim antes? – Gê, você tá bem?
— Ah Vi, por favor. Isso é só drama! – disse enquanto deslizava com o bumbum alguns centímetros para o lado – Qual a graça de ser adolescente se eu não puder ser dramático ás vezes?
— Não, não é isso. É que... Sei lá, você é do tipo que sempre tá falando tudo o que pensa, e ultimamente você só tá pensando e não tá falando – o moreno voltou o corpo para o seu lugar, mas sem desfazer o contato visual – Tem... Alguma coisa te preocupando?
— Tem. – Gêmeos então virou a garrafa com seu suco, tomando-o em vários goles. Virgem apenas observava a cena com cara de passagem, e quando ele abriu a boca para o que parecia tentar falar algo, Gêmeos levantou um dedo indicando que ainda não tinha terminado. Cada gole ali era um tempo precioso que estava ganhando para pensar em algo. A garrafa estava vazia, ele a fechou, secou a boca com as costas das mãos e então virou de volta para o amigo. – O trabalho pra feira.
— AI MEU DEUS, É CLARO! Eu também estava pensando nisso há alguns dias e anotei algumas ideias do que a gente pode fazer – Virgem começou a apalpar os bolsos da calça, tirando de um deles um bloquinho de anotações e começou a folheá-lo para mostrar alguma coisa para o outro. Gêmeos soltou o ar aliviado, por sorte tinha escolhido um bom assunto para tirar a atenção de cima dele, e pelo o que parecia Virgem era quem estava realmente preocupado com a feira de artes, ou como estaria em qualquer outro trabalho que já fizeram. Eles precisavam apresentar um trabalho interdisciplinar em uma feira de exposição no final do mês, e todo mundo parecia um pouco ansioso para aquilo, e o fato de que seria um evento aberto ao público e um dia livre de uniformes eram os principais motivos. Antes que Gêmeos pudesse se aproximar o suficiente para olhar no bloco o que o amigo estava apontando para ele, mãos afastaram os dois empurrando suas testas, enquanto um par de pernas passava entre eles pulando para o próximo degrau da arquibancada.
— COM LICENÇA, OPA DESCULPA, OLHA O PEZINHO AI MEU QUERIDO, VALEU!
— Mas... Que porra foi essa?! – Virgem estava com o rosto vermelho e os olhos arregalados enquanto Gêmeos parecia ter esquecido como fechar a boca. Os dois não faziam ideia do que tinha acabado de acontecer, a única coisa que conseguiram notar era que o caos que passou por eles usava a saia azul marinho do uniforme feminino, um cabelo castanho na altura dos ombros e um fone de ouvido que por algum milagre negava seguir a lei da gravidade e cair do ser humano que agora já desaparecia de vista em direção a sabe-se lá onde.
— Aquele animal poderia ter machucado a gente daquele jeito! É tão difícil seguir a droga das regras da escola e não ficar correndo por aí? A coordenação precisa ficar sabendo disso e... – Virgem agora era uma metralhadora de reclamações e xingamentos, e apesar de concordar com ele Gêmeos achava graça pois era difícil ver o moreno perdendo a linha daquele jeito, mas sabia que se risse só deixaria ele ainda mais puto. Mas ao virar-se para o amigo e tentar acalmá-lo, congelou. Seu olhar acidentalmente havia desviado e se encontrado diretamente com o do caprino, que ajeitava seus óculos enquanto encarava os dois com uma expressão um tanto confusa , toda aquela cena devia ter chamado sua atenção. O barulho do sinal indicando o fim do intervalo quebrou aquela conexão.
— V-Virgem... Vamos entrar. – Agarrando o braço do amigo que ainda tagarelava e não tinha notado a situação, o arrastou consigo em direção as salas de aula.
***
Gêmeos acenava do banco de pedra da pracinha para o amigo que descia a avenida, e com a outra mão segurava seu sorvete. Gostavam de fazer aquilo no final das aulas em dias quentes como aquele, e usando a desculpa de sempre ser o último a terminar de tomar o sorvete, dizia para que Virgem fosse embora na frente, porém a verdade era que apenas não queria ser visto pelo amigo fazendo uma rota diferente do da sua própria casa. Agora que o moreno havia desaparecido completamente do seu campo de visão, Gêmeos devorou a ponta da sua casquinha e saltitando mais feliz que um cervo em um campo de flores, foi em direção ao seu destino secreto. Parou em frente a um singelo estabelecimento cor lilás com um toldo listrado com as cores rosa claro e creme decorado em suas bordas com rendinhas e pequenos laços. Porém a fachada pequena e sem vitrines enganava em comparação com o tamanho e diversidade de roupas que havia dentro da loja. Ainda na porta, Gêmeos parecia procurar por alguém antes de abrir um sorriso e finalmente adentrar o local.
— Oi Vanessa!
— Oh! Como vai, Gê? — a jovem mulher que pendurava algumas camisetas em uma arara se virou ao ouvir a voz do bicolor. Vanessa era uma mulher alta, de quadris largos e sua pele em um tom canela avermelhada juntamente com o longo cabelo liso e escuro poderiam sugerir alguns traços indígenas. Além disso, ela também era um anjo em forma de atendente aos olhos de Gêmeos, sempre sendo muito simpática e paciente consigo desde o início, quando o garoto insistia que estava apenas "dando uma olhadinha" ou procurando um presente para uma suposta prima, até que aos poucos a jovem mulher sutilmente foi incentivando Gêmeos a dar um passo a frente além de olhar. "Aparentemente você e sua prima tem o mesmo tamanho, certo? Que tal você experimentar algumas peças que gostou pra ter uma idéia se caberia nela, hm?" Gêmeos lembra como o seu coração travou os batimentos quando ouviu aquilo, mas quando olhou para o rosto da mulher ela ainda mantinha o mesmo sorriso meigo e o olhar carregado de empatia. Nenhum traço de julgamento. Ela já sabia, mas respeitava o tempo e espaço de Gêmeos. Desde então os dois criaram uma amizade e Vanessa se tornou oficialmente sua cúmplice de crime, separando as melhores peças de roupa do tamanho de Gêmeos assim que chegavam à loja e repassando para ele em cada visita. Sim, o tráfico no mundo da moda era real.
— E ai, quais são os bebês que você tem pra me mostrar hoje? — Gêmeos perguntou empolgado, mas não esperava ver o costumeiro sorriso da mulher ser substituído por uma expressão aflita.
— Nessa...? O que- antes de perceber já tinha sido puxado pra trás do setor de vestidos lolitas.
— Gê, preciso te contar uma coisa.
— Tá bom, mas por que a gente tá sussurrando agachados atrás de toda essa... Renda e....saiote? — falou enquanto empurrava todo aquele tecido exagerado pra outro lado.
— É pra Márcia não vê a gente.
— A MÁRCIA? AI MEU DEUS O QUE AQUELA MEGERA TEM A VER COM-
— Shiiiiiiu — Vanessa indicou silêncio com o indicador e abriu uma brecha entre os vestidos para checar se não haviam chamado atenção do alvo da conversa que se encontrava no telefone atrás do balcão. — Ela agora tá pegando suas roupas antes de mim.
— O quê? Mas por quê??? — Gêmeos sussurrava, mas gesticulava com a mesma indignação que teria se estivesse gritando — Eu sempre achei que ela não ia com a minha cara, mas qual o motivo dela fazer isso??
— Eu não sei! Mas eu suspeito... Que agora ela também está reservando para outra pessoa.
— Outra pessoa??? — Gêmeos estava revoltadíssimo. Não por egoísmo, mas sabia que qualquer pessoa do sexo feminino poderia muito bem entrar na loja e procurar pelas próprias roupas despreocupadamente, enquanto ele só tinha aquele esquema com Vanessa, e agora estava recebendo a notícia que a atendente-bruxa havia juntado forças com alguém e colocando todo o plano deles em risco. Como se seus pensamentos estivessem sendo lidos, ouviu a risada diabólica da senhora e enfiou o rosto entre os vestidos para encará-la e lá estava ela ainda tagarelando ao telefone. Márcia era uma senhora com características marcantes, mas nem seu cabelo loiro channel sidecut, suas unhas e cílios postiços extravagantes, ou suas tatuagens eram tão marcantes quanto sua personalidade. Márcia era a pessoa mais azeda que Gêmeos teve o desprazer de conhecer, e agora se perguntava que alma viva alucinada foi capaz de ganhar favores dela.
— ... E eu acho que a pessoa ainda está aqui
— O que você disse, Vanessa? — Aquela frase fez com que o bicolor voltasse totalmente a atenção para sua amiga.
— Alguns minutos antes de você chegar, eu vi uma garota com o mesmo uniforme que você usa chegando aqui e conversando bem animadamente com a Márcia, eu acho que eu nunca tinha visto a Márcia sorrir de um modo não sarcástico antes, aquilo foi... Estranho — Vanessa estremeceu aparentemente lembrando da cena.
— Você disse que ela usava o uniforme da minha escola? — Gêmeos pensou que seria melhor soubesse com qual tipo de garota ele teria que lidar.
— Sim! Talvez você conheça!
— É, talvez, mas pra isso você precisa me dar mais informações.
— Hmmm, eu não sei, Gê, eu estava arrumando as peças...
— Vamos lá, Nessa! Força essa caixola! Nada mais te chamou atenção nela?
— Desculpa, eu realmente... AH! Espera, espera! — disse apertando de leve o braço do garoto — Ela usava um fone esquisito, era transparente mas parecia que tinha algo se mexendo dentro? Era água aquilo? Eu não sei, Gê, só sei que nunca vi aquilo antes.
Gêmeos ficou calado por alguns segundos processando aquela informação. Vanessa podia nunca ter visto, mas tinha a sensação que ele já. Mas onde?
— Ah não. A atropeladora.
— A quem?
— Você disse que acha que ela ainda pode estar aqui?
— Sim, vi ela levando um monte de roupas pro provador, acho que não deve ter terminado de provar tudo ainda. Mas você sabe quem ela é?
— Provando as minhas roupas...
—Gê, calma, não adianta ficar bravo nessa hor... Ei, ei ei!!! PRA ONDE VOCÊ TA INDO? VOLTA AQUI, RAPAZ!
Vanessa sabia que não estava mais sendo ouvida, pois quando se deu conta viu que o garoto já se encontrava marchando em direção as cabines de provadores.
Gêmeos não sabia o que estava fazendo e muito menos o que estava sentindo. Estava apavorado, não só por estar correndo o risco de ter a única coisa que o fazia feliz tirada de si, mas também por agora ter que lutar por isso. Mas a única explicação para suas pernas estarem se mexendo era a raiva, pela primeira vez algum outro sentimento estava sendo maior que seu medo, e a única coisa que tinha certeza é que ele tinha agir nesse exato momento.
Mas para sua surpresa, apenas encontrou cabines vazias. Se a garota tivesse ido embora, o que ele faria? Aquilo diminuiu o pico de adrenalina do seu corpo, e talvez por isso agora foi capaz de notar que apesar de estar vazia e aberta como todas as outras, uma das cabines estava com várias roupas espalhadas pelo chão. Se aproximando, via que além das roupas havia também uma mochila com estampa de gatinhos espaciais soltando laser pelos olhos jogada no canto próxima ao espelho, mas foi o conjunto que estava em cima do pufe que chamou a atenção de Gêmeos. Precisou entrar no provador para analisar de perto o que estava vendo, e ao pegar a saia e a camiseta nas mãos pode confirmar que realmente se tratava do uniforme da sua escola. Mas se o uniforme ainda estava lá, aonde estava a dita cuja da menina…?
— Ai, graças à Shiva você veio pra cá, Márcia! Eu já tava cogitando atravessar a loja com o vestido aberto pra pedir uma ajuda aqui com esse zíper…
A pessoa que encarava Gêmeos da porta do provador batia com as descrições, mas com certeza não era quem ele esperava.
— VOCÊ! V-Você não é uma garota…!!!
— E nem fodendo que você é a Márcia. Mas que porra é ess...- o rapaz a sua frente desceu o olhar do seu rosto e estagnou para o que Gêmeos tinha em mãos, fazendo o bicolor também olhar o que segurava.
— Puta merda – o garoto largou as roupas tão rápido como se suas mãos estivessem queimando. — Escuta, eu-
— mmmMMMMMÁÁÁÁÁÁ- Gêmeos instintivamente puxou o garoto para dentro da cabine o colocando contra o espelho, e agilmente fechando a porta com uma mão enquanto a outra tampava a sirene em forma de boca do mais alto.
— P-Por favor, eu só quero conversar com você! — Viu o olhar de pânico no olhar do outro e pensava como resolveria aquela situação – Eu… Eu vou soltar você, tudo bem? Só promete não gritar? — O moreno acenava a cabeça agitadamente – Okay, então lá vai…
— SOCORRmphfff – As mãos de Gêmeos voaram novamente para a boca do rapaz.
— Você prometeu não gritar AI AI AI AI AI! VOCÊ… VOCÊ MORDEU MINHA MÃO?!?
— Não se negocia com pedófilos, idiota.
— Mas a gente não deve ter a mesma idade?! — Gêmeos estava agachado segurando a mão em que agora tinha as marcas de dentes daquele garoto quando viu que o mesmo estava para abrir a porta – Espera, por favor! Eu só preciso que você me escute!
— E por que eu deveria? — O garoto o encarava com indignação, e Gêmeos sabia que dada as circunstancias realmente não havia motivos para o outro lhe ouvir, mas ele não podia deixar aquilo daquele jeito sem nem mesmo tentar se explicar.
— 1 minuto. Eu só te peço 1 minuto pra me deixar falar. — Disse sério encarando o outro nos olhos. Alguns segundos de tensão silenciosa se instalou no pequeno cubículo antes do mais alto finalmente afrouxar a mão ao redor da maçaneta e soltar um suspiro.
— 30 segundos é o tempo que eu levo pra arrumar minhas coisas, e esse é o tempo que você tem. — O bicolor respirou fundo, não podia desperdiçar aquela oportunidade, mas não fazia ideia do que falar.
— Essas roupas – disse indicando com o olhar as roupas espalhadas pelo chão e penduradas nos cabides – são minhas…
— Suas? — O moreno examinou Gêmeos de cima a baixo – E por que eu não tô te vendo vestido nelas? — O garoto no chão engoliu em seco. – E não tem como ser suas, uma atendente já tinha reservado essas para mim.
— M- Mas minha amiga separava as roupas com o meu tamanho antes de você chegar! — Gêmeos estava nervoso por ter que se expôr desse jeito, mas se era preciso, ele faria.
— Hm – O mais alto parecia processar aquilo enquanto guardava suas coisas na mochila – Então você já é cliente daqui faz um tempo? — o outro garoto acenou a cabeça confirmando. — Certo, certo. Você poderia me ajudar com esse zíper? Eu já vou usando o vestido, obrigado. Mas me diz uma coisa, se nós moramos na mesma cidade pequena, frequentamos as mesmas lojas, e estudamos no mesmo colégio, por que eu nunca te vi usando essas roupas?
— Eu… Não uso. — disse num sussurro quando terminou de subir o zíper do vestido preto do rapaz que estava de costas para si.
— Perdão? — O moreno se virou para si, parecendo não ter o escutado direito.
— Eu não uso as roupas em público. — Sabia que estava sendo observado, mas mantinha o olhar para baixo. Enquanto isso o outro rapaz piscava surpreso, antes de deixar uma risada de descrença escapar dos seus lábios.
— Espera, deixa eu ver se eu entendi. — O rapaz deu alguns passos para frente, fazendo com que o menor recuasse e agora era ele que estava preso contra o espelho – Você tá mesmo me pedindo pra deixar de comprar essas roupas lindas que eu adoro só porque você quer continuar comprando elas pra deixar mofando na sua casa? Você ao menos percebe que além de egoísta está sendo um tremendo babaca?
Gêmeos estava completamente estático, sua boca estava aberta mas nenhuma palavra saia dela. Ele não tinha argumento algum.
— Tem mais alguma coisa pra me dizer? — Não recebeu resposta nenhuma do outro. — Então você já sabe a minha resposta.
Gêmeos só conseguiu assistir o garoto colocar a mochila em um ombro e sair do provador.
***
Parou sua corrida assim que chegou na esquina do terceiro quarteirão. Estava arfando e com as mãos apoiadas no joelho, ele havia demorado apenas alguns minutos antes de sair daquela paralisia e finalmente reagir saindo em disparada para a rua atrás do garoto que acabará de ter aquela conversa. Mas não conseguia encontrar aquele cara em lugar nenhum, não achava que era possível que ele tivesse ido muito longe em tão pouco tempo. Mesmo que não chegassem em nenhum acordo, ele simplesmente não podia deixar aquelas últimas palavras repercutindo em eco na sua mente, não, ele não podia carregar mais um peso como aquele. Gêmeos estava totalmente absorto no seu turbilhão de pensamentos, e por isso quando sentiu duas batidinhas rápidas em suas costas o trazendo de volta para a realidade pulou assustado.
— Eu tenho a impressão que você está me procurando? – Reagindo ao susto do bicolor, o garoto mais alto deu alguns passos pra trás erguendo uma das mãos em posição de ataque ninja enquanto a outra carregava um copo de papel – Opa, vamos com calma.
— Você tá errado!
— Ahn... Okay, então você tá correndo pra lá e cá mas não tá me procurando?
— Não! Tsc, quero dizer, você tá certo nisso – Gêmeos achava extremamente esquisito como o outro conseguia deixar as coisas ainda mais confusas com tanta facilidade – Mas você tá errado sobre o que disse de mim.
Vendo que o outro permanecia quieto o olhando, Gêmeos tomou aquilo como um sinal para continuar a falando. Dessa vez ele aquilo do modo certo, inspirou fundo e lentamente soltou o ar, sem perder o contato com os olhos do rapaz.
— Se você acha que eu gosto de guardar todo o dinheiro que ganho pra vir aqui comprar algumas roupas e não ter coragem de usar elas fora de casa, você não poderia estar mais errado. Eu nunca pedi pra ser desse jeito, eu nunca quis ser um covarde. – Gêmeos sentiu seus olhos levemente arderem e um nó se formar em sua garganta, mas ele tinha que aguentar firme, ele precisava terminar de falar aquilo. – Mas eu posso te dizer que eu amo aquelas roupas, e quando eu me vejo as usando é também o único momento que eu consigo me amar. Então se quando eu te peço pra continuar me deixando comprar minhas roupas no único lugar que me sinto bem soa egoísta, tudo bem, você pode me chamar assim. Mas eu não vou abrir mão disso.
O garoto de cabelos castanhos encarava surpreso o menor que estava diante dele. Mesmo notando que o bicolor mantinha os punhos cerrados para não demonstrar estar tremendo, não parecia se tratar do mesmo garoto que encontrou momentos antes dentro daquele provador. Não podia negar que toda aquela revira volta e determinação o havia impressionado e mexido com alguma coisa dentro de si.
— Qual é mesmo o teu nome?
— G-Gêmeos. – Parecia que aquela pergunta fora de contexto o tinha pegado de surpresa, fazendo que o mesmo desfranzir um pouco o rosto.
— Gêmeos... – O mais alto parecia estar analisando o sabor do novo nome em sua boca – Pois bem, Gêmeos. Eu vou deixar você em paz com as suas roupas fofinhas.
O menor totalmente surpreendido abriu a boca em formato de O, mas antes de puder dizer qualquer coisa o outro garoto voltou a se pronunciar.
— Mas na única e legítima condição de que... – Não pode evitar fazer um pequeno suspense. – Você enfrente o mundo do mesmo jeito que me enfrentou agora e use as roupas que tanto ama.
Viu a expressão do garoto mudar de esperançoso para preocupado, e poderia entender o por quê. Era um passo grande a se dar, mas estava disposto a dar um empurrãozinho.
— É claro, você não teria que fazer isso sozinho, eu posso te ajudar se você quiser. E... meio que seria legal ter alguém pra conversar sobre roupa nessa cidadezoca. — Puxou uma mecha de cabelo de trás da orelha, enrolando-a no dedo e evitando contato visual. E então, o que me diz?
Quando voltou a olhar para o garoto, a mão de Gêmeos já estava esticada a sua frente.
— Eu aceito.
O mais alto sentiu um sorriso pequeno surgir em seu rosto mas que gradativamente aumentava com a empolgação daquele novo projeto que estava para começar. Apertou firme a mão de Gêmeos de volta, mas rapidamente a soltou como se tivesse lembrado de alguma coisa. Procurou por uma caneta que estava em um dos bolsos laterais de sua mochila e rapidamente começou a anotar alguma coisa naquele copo de papel que ainda segurava.
— Ah Gêmeos, Gêmeos, Gêmeos! Isso vai ser incrível, cara! I can show you the world~ — Cantarolava a canção de Aladdin enquanto Gêmeos expressava o mais puro significado de confusão no seu rosto. – Toma, aqui é meu endereço e telefone. Amanhã depois da escola vamos pra minha casa. Ah e pode terminar de matar o café se quiser.
— Café? – Gêmeos analisava o copo rabiscado que acabara de receber. – Mas quem toma café nesse calor?
— Mais pessoas do que você imagina, meu querido. Ah, e a propósito – O garoto já estava de costas para si pronto para seguir seu caminho, segurando os dois lados do fone a alguns centímetros de suas orelhas, mas virou para olhar Gêmeos por mais um instante. – Eu me chamo Aquário.
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