O Sussurro da Academia

11 Capítulo 11: A Ferida e a Chave


O sol da tarde entrava pelas janelas altas do ginásio de kendo, cortando o ar poeirento com feixes de luz dourada que iluminavam a dança silenciosa das partículas de pó. O cheiro era uma mistura de madeira de bambu, verniz do chão polido e o odor metálico e fraco de esforço. Ao longo da parede, várias armaduras de treino, os bōgu, estavam alinhadas nos seus suportes, sentinelas vazias e silenciosas. O único som era o assobio agudo e vicioso de uma espada de bambu cortando o ar, seguido pelo baque surdo e oco do golpe num boneco de treino. E depois, o silêncio. Um silêncio pesado, preenchido apenas pela respiração ofegante e controlada de Sasuke Uchiha.

Para ele, o dojo era o único lugar no campus que fazia sentido. Era um lugar de regras, de disciplina, de uma dor física limpa e honesta que abafava a confusão suja da sua dor emocional. Aqui, não havia espaço para as complexidades das relações, para as palavras não ditas e os olhares de acusação. Havia apenas o peso da espada de bambu na sua mão, o suor escorrendo pela sua testa e ardendo em seus olhos, e o objetivo singular de aperfeiçoar o próximo golpe. Era a sua forma de meditação, a sua forma de penitência.

Ele atacou o boneco de novo. Men! O golpe na cabeça. Kote! O golpe no pulso. Do! O golpe no torso. Cada movimento era preciso, económico, brutal. Cada golpe era uma tentativa de exorcizar as imagens que o assombravam na quietude da noite. O rosto magoado de Sakura, seus olhos verdes, antes tão cheios de admiração, agora olhando para ele com uma mistura de dor e desprezo. A voz frustrada de Naruto, ecoando a sua própria consciência: "Por que vocês não conversam e resolvem isso de uma vez?"

Ele sabia que Naruto estava certo. Sabia que sua frieza, seu silêncio, a estava destruindo. Mas o que poderia ele dizer? A verdade era uma arma que ele não se atrevia a usar contra ela, ou contra si mesmo. Porque a verdade era que ele não a compreendia.

A "traição". O incidente com a Karin. A memória era uma fotografia rasgada, com o centro em falta.

Flashback

O barulho de uma festa universitária. Música alta pulsando no seu peito, uma batida que ele sentia nos ossos. Copos de plástico vermelhos por todo o lado. Ele e Sakura tinham tido uma discussão estúpida mais cedo, uma daquelas brigas pequenas que nascem de uma tensão muito maior e não resolvida. Ele se sentia sufocado, irritado, e saiu para a varanda do apartamento para respirar um pouco de ar frio da noite.

Karin estava lá, fumando um cigarro. O cabelo dela, um vermelho vivo sob a luz fraca da varanda, destacava-se na escuridão. Eram colegas no curso de Ciências Políticas, mas raramente se falavam. — Dia difícil? — perguntou ela, soltando a fumaça. — Você parece que está pronto para começar uma guerra.

As palavras dela eram diretas, sem rodeios. Ele apenas deu de ombros, mas a sua frustração devia estar estampada na sua cara. — Brigou com a namorada? Acontece. Às vezes, a gente só precisa de um pouco de espaço.

Era um veneno sedutor, validando a sua frustração mesquinha daquele momento. Eles ficaram ali conversando. A conversa era fácil, superficial. Ela não exigia nada dele, não o analisava, não o desafiava. Era um alívio. Um alívio perigoso. Ele bebeu mais do que devia, não para ficar bêbado, mas para silenciar a voz na sua cabeça que lhe dizia para voltar para dentro e fazer as pazes com a Sakura.

A memória seguinte era mais desfocada. O corredor do seu próprio dormitório. O riso dela. A porta do seu quarto se fechando. O quarto dele, antes um refúgio, agora parecia um palco para o seu pior erro. A luz da lua entrava pela janela, desenhando formas prateadas nos seus livros e no seu equipamento de kendo.

Ele se lembrava dela o despindo, os dedos dela frios na sua pele quente. Lembrava-se de a ver tirar a blusa, sua pele pálida brilhando na penumbra, seu cabelo vermelho caindo sobre os ombros. A imagem era vívida, sensual, mas a sensação era de uma estranha distância. Ele estava ali, seu corpo estava reagindo, mas sua mente estava em outro lugar. Estava no seu quarto com a Sakura, rindo de um filme. Estava no banco do campus onde se beijaram pela primeira vez.

E depois... a confusão. Sua memória do ato em si era uma colagem de fragmentos, de sensações que ele não conseguia ter certeza se eram reais ou imaginadas. Ele sentia a culpa o corroendo mesmo enquanto acontecia. Cada toque parecia um erro, uma traição que o manchava de forma indelével. Ele queria parar, mas foi levado pela noite, pela bebida, pela validação fácil... por sua própria e estúpida fraqueza.

A próxima memória nítida era a manhã seguinte. O cheiro estranho de um perfume que não era o de Sakura em seus lençóis. Karin nua, dormindo ao seu lado, um braço sobre o seu peito. E a onda de pânico frio e arrependimento amargo o atingindo como uma onda gelada. O que ele tinha feito? Tinha mesmo ido até o fim? Ele não conseguia ter certeza absoluta, e essa incerteza era uma tortura.

E depois, a pior memória de todas. O som da porta se destrancando. Sakura. Ela tinha sua própria chave. Tinha ido procurá-lo, preocupada. A expressão no rosto dela... o choque, a incredulidade, e depois, a dor pura e devastadora quebrando seu coração em tempo real, bem na sua frente.

Fim do Flashback

Sasuke gritou, um grito de luta que era mais um rugido de frustração, e desferiu um golpe final e selvagem no boneco, a força do impacto fazendo a espada de bambu vibrar violentamente em suas mãos. Ele parou, se apoiando na arma, o peito arfando, o suor pingando no chão de madeira.

Como explicar aquilo? Como dizer à mulher que ele amava que, por um momento, ele não tinha sido ele mesmo? Soaria a uma desculpa esfarrapada, a desculpa de um mentiroso patético.

A frieza era sua armadura. Era mais fácil deixá-la odiá-lo por uma traição simples e suja, algo que ela podia compreender e condenar, do que a assustar com uma verdade incompreensível que nem ele próprio conseguia aceitar. Era a sua forma distorcida de a proteger, mesmo que o preço fosse a sua própria solidão e a reputação de um canalha.

Ele deixou a espada de bambu cair com um baque surdo no chão e olhou para seu reflexo distorcido na madeira envernizada. A figura ali, ofegante e coberta de suor, parecia um estranho. Ele estava completamente só. E, pela primeira vez em muito tempo, admitiu para si mesmo que odiava aquilo com cada fibra do seu ser.

O quarto de Sakura era seu santuário de ordem. Livros de anatomia e farmacologia estavam empilhados em pilhas perfeitas na sua escrivaninha, seus cadernos de notas abertos, sublinhados com um código de cores meticuloso. Cada caneta, cada clipe, tinha seu lugar. Era um espaço que refletia sua mente: disciplinada, focada, lutando pelo controle num mundo caótico. Mas, nos últimos meses, o controle era uma ilusão.

Ela estava sentada à escrivaninha, o brilho da tela do notebook iluminando seu rosto, mas seus olhos não viam o diagrama complexo do sistema nervoso à sua frente. Eles viam outra coisa. Viam o quarto dele, um lugar que antes era um refúgio para ela, agora manchado para sempre pela imagem dos lençóis amarrotados, do cabelo vermelho de Karin espalhado no travesseiro ao lado dele. A imagem era um caco de vidro alojado na sua memória, e cada vez que sua mente se acalmava, ela tropeçava nele e se cortava de novo.

A raiva era a emoção mais fácil de acessar. Era quente, limpa, lhe dava energia. Raiva dele, por tê-la traído. Raiva dela, por ter se deixado enganar. Raiva da Karin, por ter sido a arma. Mas por baixo da raiva, havia algo mais profundo e muito mais doloroso: a confusão.

Não fazia sentido. O Sasuke que ela conhecia, o rapaz com quem tinha compartilhado segredos silenciosos e sorrisos raros, o rapaz cuja dor ela conseguia sentir como se fosse sua... ele não faria aquilo daquela forma. Ele era distante, era orgulhoso, mas não era... descuidado. A cena toda, a forma como ela os encontrou, parecia muito crua, muito óbvia. E a reação dele depois... não tinha sido a de um culpado pedindo perdão, mas a de um estranho fechando uma porta. Sua frieza era uma muralha, e o que mais a matava era não saber o que havia do outro lado.

Ele nem sequer tentou explicar, pensava ela, apertando a caneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ele apenas... aceitou. Aceitou que eu o odiasse. E essa era a parte que sua mente lógica e seu coração teimoso não conseguiam conciliar.

Uma batida na porta, seguida pela porta se abrindo sem esperar por uma resposta, a tirou de sua espiral. — Terra chamando a testa de marquise! Estudando para ser a melhor médica do mundo ou pensando no Uchiha idiota de novo?

Ino Yamanaka entrou no quarto como um furacão de perfume floral e energia, pousando dois copos de café gelado na escrivaninha de Sakura. — Eu trouxe reforços. Você está com olheiras que fariam um panda ter inveja.

Sakura forçou um sorriso, sua armadura se erguendo instantaneamente. — Muito engraçada. Eu estava revendo neuroanatomia. E não, eu não estava pensando nele. Já superei isso.

— Ah, sim, claro que superou — disse Ino, se sentando na cama de Sakura com uma familiaridade total, seus olhos azuis analisando a amiga com uma percepção aguçada. — Você superou tanto que seu histórico de pesquisas no celular provavelmente é uma mistura de "sintomas de infarto" e o perfil dele nas redes sociais.

Sakura sentiu o rosto corar. — Eu não faço isso!

— Não faz? — Ino pegou uma almofada e a abraçou. — Sakura, eu te conheço desde que éramos crianças. Você pode enganar o Naruto com essa sua fachada de "estou bem", mas não a mim. Você está péssima. E honestamente? Eu não te censuro. O que ele fez foi nojento.

Ouvir outra pessoa dizer aquilo em voz alta era ao mesmo tempo uma validação e uma facada. — Não importa mais. Acabou — disse Sakura, sua voz mais firme do que se sentia. — É melhor assim. Ele era complicado. Agora posso me focar nos meus estudos.

— Ah, por favor! — Ino revirou os olhos. — Você amava a complicação dele. E ele também te amava. É isso que não entendo. O Sasuke pode ser um idiota arrogante e emo, mas ele nunca pareceu estúpido. E o que ele fez... foi estúpido.

As palavras de Ino eram um eco perfeito dos próprios pensamentos de Sakura, o que era terrivelmente irritante. — As pessoas fazem coisas estúpidas, Ino.

— Sim, mas não ele. Não assim. — Ino ficou em silêncio por um momento, sua expressão se suavizando. — Eu o vi hoje, perto do ginásio. Ele parecia... um fantasma. Mais magro, mais... vazio. Ele não parece um cara que está curtindo a vida de solteiro. Parece que está cumprindo uma pena de prisão.

A descrição atingiu um ponto vulnerável na armadura de Sakura. A imagem de um Sasuke sofrendo, se sentindo tão miserável quanto ela, era uma tortura. Uma parte dela queria que ele sofresse, mas outra, a parte que ainda o amava, sentia uma dor imensa só de imaginá-lo. — Isso não é problema meu — disse ela, a voz um sussurro.

— Talvez não. Mas se você não for falar com ele e exigir uma explicação de verdade, não por ele, mas por você, esta coisa vai te comer por dentro para sempre. Você merece respostas, Sakura. Nem que seja para o mandar para o inferno com conhecimento de causa.

Ino se levantou e deu um beijo na testa da amiga. — Pense nisso. Agora, vamos beber este café antes que o gelo derreta. E amanhã à noite, nós vamos sair. Sem desculpas.

Depois de Ino sair, o quarto pareceu ainda mais silencioso e vazio. As palavras dela — "Você merece respostas" — ecoavam na mente de Sakura. Ela olhou para a tela do seu notebook, para o cérebro humano com suas complexas redes de neurônios. Ela passava seus dias tentando entender como o corpo funcionava, como curar suas doenças. Mas o órgão mais doente e confuso de todos era seu próprio coração, e ela não fazia a mínima ideia de como o consertar.

A raiva não era suficiente. A tristeza não era suficiente. O orgulho não era suficiente.

Ino tinha razão. Ela precisava de uma coisa.

Precisava de uma resposta.

Depois da conversa com Ino, a determinação de Sakura se solidificou. Já não era uma questão de orgulho ou de reatar o que quer que eles tivessem. Era uma questão de sanidade. Ela precisava de uma resposta, de um ponto final, para poder virar a página e começar a se curar. Com o coração martelando no peito, uma mistura de medo e resolução, ela caminhou até o ginásio de kendo.

Ela parou à porta, observando em silêncio por um momento. O espaço estava vazio, exceto por ele. Sasuke estava no centro, de costas para ela, sua silhueta escura contra os feixes de luz dourada que entravam pelas janelas altas. Ele estava parado, a respiração ofegante criando pequenas nuvens de vapor no ar frio. Sua camiseta estava encharcada de suor, colada às costas musculosas. Ele parecia exausto, vulnerável. Por um instante, a raiva dela vacilou, substituída por uma onda de compaixão e pela memória do rapaz que ela conhecia, não do monstro frio em que ele tinha se transformado.

Foi essa visão de vulnerabilidade que lhe deu a coragem para dar o primeiro passo. O som suave dos seus tênis no chão de madeira fez com que ele se virasse.

Seus olhos se encontraram através do ginásio silencioso. A surpresa no rosto dele foi rapidamente substituída pela sua máscara habitual de fria indiferença, mas ela viu. Tinha visto a surpresa, a centelha de algo mais. — Sasuke — a voz dela saiu mais firme do que esperava. — Precisamos conversar.

Ele não respondeu de imediato. Apenas pegou sua espada de bambu do chão, sua postura se tornando defensiva, sua armadura deslizando para o lugar. — Não há nada para conversar.

— Há sim! — ela insistiu, caminhando lentamente na direção dele, o som dos seus passos ecoando no silêncio. — Há tudo para conversar. Eu mereço uma explicação. Não uma desculpa, não o teu silêncio. Uma explicação. Eu preciso entender, Sasuke. Por quê?

Ele virou o rosto, se recusando a encará-la. — Já acabou, Sakura. Deixe isso para trás.

— Como eu posso deixar para trás algo que não entendo?! — a voz dela subiu, a frustração quebrando sua calma. — Nós... nós tínhamos alguma coisa. Eu sei que tínhamos. E de um dia para o outro, você jogou tudo fora como se fosse lixo. Por ela? Foi por causa da Karin? Foi assim tão fácil?

Cada pergunta era uma facada, tanto para ela como para ele. A mente dele gritava. Não foi por ela! Não foi por ninguém! Não fui eu! Mas as palavras não saíam. A memória fragmentada, a sensação de ser um fantoche... como ele podia explicar aquilo? Soaria a uma mentira, a desculpa mais patética de todas. — Isso não te diz respeito — foi tudo o que ele conseguiu dizer, sua voz um rosnado baixo e frio.

A frieza dele foi como um balde de água gelada. A compaixão que ela sentira momentos antes se evaporou, substituída pela raiva e pela mágoa. — Não me diz respeito? Eu compartilhei minha vida com você! Meus segredos, meus medos! E a forma como nosso relacionamento acaba não me diz respeito? E tudo o que a gente viveu? Não significou nada para você?

— Significou que eu fui fraco — as palavras saíram da boca dele, cruéis e cortantes, a última linha de defesa de um homem encurralado. Ele se virou para ela, seus olhos negros ardendo com uma dor que ele disfarçava de raiva. — Foi um erro. Um momento de fraqueza que eu não vou cometer de novo. Agora, me deixe em paz.

Foi o golpe final. A palavra "erro". Todo o seu amor, sua dedicação, sua paciência... reduzidos a um erro.

Sakura sentiu seu coração se partir. Não de forma dramática, mas numa fratura silenciosa e definitiva. As lágrimas que ela tinha jurado não derramar encheram seus olhos, mas ela se recusou a deixá-las cair. Recusou-se a dar-lhe essa satisfação. Ela olhou para ele, para o rapaz que amava, e pela primeira vez, viu um estranho. Um estranho que a tinha magoado de uma forma que ela nunca pensou ser possível.

— Ok — sussurrou ela, sua voz vazia de toda a emoção. — Você conseguiu. Estou deixando você em paz.

Ela se virou e caminhou para a saída, cada passo um esforço monumental para não desabar. O som da porta se fechando atrás dela foi suave, mas para ambos, soou como o fim do mundo.

Sasuke ficou sozinho no ginásio, o silêncio agora o esmagando. Sua máscara finalmente caiu. Ele cambaleou para trás e socou a parede com força, a dor aguda em seus nós dos dedos uma distração bem-vinda da dor no seu peito. Ele se odiava. Se odiava pela sua fraqueza, por sua incapacidade de lutar contra o que quer que tivesse acontecido naquela noite, e acima de tudo, se odiava por ter magoado a única pessoa que alguma vez tinha visto para além da sua escuridão. Ele a tinha afastado para a proteger, mas no processo, tinha destruído a ambos.

Sakura caminhou para longe do ginásio, sem ver para onde ia. O mundo era um borrão de cores e sons distorcidos através do filtro das suas lágrimas não derramadas. Cada palavra de Sasuke ecoava na sua cabeça, uma cacofonia de crueldade girando em loop. "Foi um erro." "Me deixe em paz." Ela se sentia oca, como se ele tivesse arrancado seu coração e deixado um buraco vazio e frio em seu lugar. O orgulho que a tinha levado até ali tinha desaparecido, deixando apenas a dor pura e crua, uma dor tão intensa que era física, uma pressão no seu peito que a impedia de respirar direito.

Suas pernas fraquejaram. Ela precisava se apoiar em alguma coisa antes de cair. Cambaleou até a parede exterior do prédio, ao lado da grande porta de madeira do ginásio, e encostou a testa na madeira fria e áspera, fechando os olhos com força, tentando controlar a respiração, lutando contra os soluços que ameaçavam rasgar sua garganta.

A madeira era velha, cheia de ranhuras e imperfeições. Enquanto ela tentava se acalmar, sua mão deslizou pela superfície, seus dedos traçando distraidamente as texturas, um gesto para se ancorar no mundo físico, para se lembrar de que ainda estava ali. Foi então que sentiu. Sob a ponta dos seus dedos, havia um padrão que não era natural. Não era um veio da madeira, nem um dano aleatório. Era uma gravação. Intencional.

A princípio, ela ignorou. Sua dor era muito grande para se importar com um rabisco velho. Mas sua mente, mesmo no meio do sofrimento, era a mente de uma cientista, treinada para reconhecer padrões. A forma se repetiu sob seu toque. Sua curiosidade, uma faísca fraca no meio da sua dor, a fez abrir os olhos e olhar para baixo.

Ali, gravado na madeira escura da moldura da porta, quase invisível pela idade e pelo verniz escuro, estava um símbolo. Para o ver melhor, ela pegou seu celular, a mão tremendo, e ligou a lanterna, o feixe de luz branca cortando a escuridão crescente do fim de tarde.

Um círculo, com três formas curvas girando para dentro, como um remoinho.

Era muito deliberado, muito simétrico para ser um simples rabisco. E havia algo nele... algo que lhe parecia vagamente familiar, como a letra de uma canção que se ouviu uma vez e ficou presa no subconsciente.

Onde ela já tinha visto aquilo?

Ela fechou os olhos, forçando sua mente a rebobinar os últimos dias, a procurar através da névoa da sua própria miséria. Não foi num livro... foi recente... A memória veio em flashes. Shikamaru, em seu quarto, de costas para a porta. O brilho da tela do notebook. Ela tinha entrado para lhe perguntar algo sobre as notas da aula, e ele tinha fechado o aparelho rapidamente, quase em pânico. Mas não antes de ela ter visto um vislumbre de um desenho na tela. Tinha sido rápido demais para registrar na altura, mas agora, a imagem se sobrepôs com uma clareza chocante. Era o mesmo símbolo.

E a Hinata... seu comportamento assustado, seu isolamento. E sua súbita e intensa proximidade com Shikamaru.

As peças começaram a se encaixar, mas não da forma que Temari e Naruto pensavam. A mente de Sakura, como uma médica diagnosticando uma doença complexa, começou a ligar os sintomas. Não era um caso. Era um segredo. Um segredo que envolvia aquele símbolo. Um segredo que estava fazendo seus amigos agirem como loucos, se afastando de todos.

Um segredo que, ela agora começava a suspeitar com uma certeza arrepiante, poderia ter algo a ver com a estranha lacuna na memória de Sasuke.

Sua dor ainda estava lá, uma ferida aberta e latejante. Mas agora, misturada com ela, havia algo novo. Uma faísca de intriga. Um mistério a ser resolvido. A mente de médica deu lugar à de investigadora. Ela não ia ficar sentada chorando. Ia encontrar respostas.

Com as mãos ainda tremendo, mas agora com um novo e feroz propósito, Sakura apontou a câmera de seu celular para a gravação e tirou uma foto nítida e bem iluminada do símbolo. Ela olhou para a imagem na tela, depois para o caminho que levava de volta ao campus. Sua dor ainda estava lá. Mas agora, havia algo mais. Uma pergunta.

E Sakura Haruno não era do tipo que deixava uma pergunta sem resposta. Ela ia descobrir o que raio estava acontecendo.

A noite caiu sobre o campus, mas para Sakura, a escuridão já se tinha instalado há muito tempo. Ela estava deitada na sua cama, de lado, a olhar para a parede branca sem ver nada. O seu corpo sentia-se pesado, cada membro feito de chumbo. A dor do confronto com o Sasuke tinha-se transformado numa apatia cinzenta e dormente. O quarto, normalmente o seu santuário de ordem, parecia agora a cela de uma prisão, e ela era a sua única prisioneira. A foto do símbolo estava no seu celular, esquecida. A sua mente não tinha espaço para mistérios; estava completamente cheia de dor.

Foi então que a porta do seu quarto se abriu com um clique, sem aviso. — Nem pense em me dizer para ir embora. Eu trouxe sorvete de chocolate com menta, a sua única fraqueza. E filmes de comédia romântica péssimos. É uma intervenção.

Ino entrou, equilibrando um pote de sorvete, duas colheres e seu notebook. Ela não pediu permissão, apenas colocou tudo na cama de Sakura e sentou-se, olhando para ela com uma mistura de preocupação e determinação. — Eu te avisei que a gente ia sair. Como você não saiu, eu trouxe a saída até você.

Sakura não se moveu. — Eu não estou com cabeça, Ino.

— Eu sei. É por isso que eu estou aqui — disse Ino, sua voz perdendo o tom brincalhão e se tornando suave. — Você não precisa estar com cabeça. Você só precisa não estar sozinha.

Ino abriu o pote de sorvete e estendeu uma colher a Sakura. O gesto era simples, mas era um ato de amizade tão puro que fez com que um nó se formasse na garganta de Sakura. Ela se sentou devagar, pegando na colher.

— Sabe quem também anda super estranha? — perguntou Ino, de forma casual, pegando uma grande colherada de sorvete. — A Hinata. Mal a vejo, e quando a vejo, ela parece um ratinho assustado. Com o Naruto agindo como um idiota ciumento e o Shikamaru virando um eremita, acho que nós, as garotas, precisamos nos unir.

Ino pegou seu celular e, antes que Sakura pudesse protestar, enviou uma mensagem. “Intervenção de emergência no quarto da Sakura. Traga seu pijama. Ordem da chefe.”

Dez minutos depois, uma batida tímida soou na porta. Hinata estava ali, parecendo pequena e incerta, abraçando um travesseiro. Seus olhos estavam um pouco inchados, e era óbvio que também tinha andado chorando. Sua primeira reação ao ver Ino foi recuar um passo, seu instinto gritando para ela fugir. Ela só veio porque era Sakura quem chamava.

— Entra, Hina, не fica aí parada como se a gente fosse te morder — disse Ino, sua voz mais gentil do que o habitual.

Hinata entrou e sentou-se na ponta da cama, o mais longe possível das outras duas, seu corpo tenso. O ambiente a princípio era um pouco estranho. Três amigas, cada uma carregando o peso do seu próprio drama, sentadas na mesma cama. O som de um filme péssimo passando no notebook era a única coisa a preencher o silêncio.

Foi Ino que quebrou o gelo, como sempre. — Certo. A situação é a seguinte: a Sakura está agindo como a protagonista de um drama, e você, Hinata, está agindo como se tivesse visto um fantasma. Eu sou a única normal aqui? — ela perguntou, tentando usar o humor para aliviar a tensão. Ela se virou para Hinata. — Sério, Hina, o que está acontecendo? Você está mais pálida que o normal. E mais quieta, o que eu nem achava que fosse possível.

Hinata se encolheu, abraçando seu travesseiro com mais força. — Não é nada... eu só... não ando dormindo bem.

— Ninguém anda dormindo bem — retorquiu Ino. — Mas há uma diferença entre não dormir por causa das provas e não dormir porque parece que o mundo está acabando. O seu parece o segundo caso.

Ver Ino pressionando Hinata, mesmo que com boas intenções, despertou o instinto protetor de Sakura. Ela viu o desconforto genuíno nos olhos da amiga e sentiu uma pontada de empatia. — Ino, deixe ela — disse Sakura, sua voz suave. Ela se virou para Hinata. — Hinata... me desculpa. Pelo outro dia. Quando você veio me procurar, assustada. Eu não te levei a sério. Eu estava tão focada nos meus próprios problemas que não vi que você precisava de mim.

Hinata ergueu o olhar, surpresa. Ver Sakura, normalmente tão forte e controlada, admitir uma falha, parecer tão vulnerável quanto ela se sentia, criou uma conexão instantânea. — Está tudo bem, Sakura... — sussurrou ela. — Eu entendo.

— Não, não está — continuou Sakura, uma lágrima escorrendo pelo seu rosto. — Nenhum de nós está bem. O Sasuke... ele... nós acabamos. De vez.

E com isso, a barragem se rompeu. Ela começou a chorar, e Ino e Hinata se aproximaram, envolvendo-a num abraço. Não fizeram perguntas. Não deram conselhos. Apenas ficaram ali. E, pela primeira vez em dias, no meio daquele abraço, rodeada pela sua dor, mas também pela amizade, Sakura não se sentiu completamente só.

Depois que os soluços de Sakura se acalmaram, Ino, com sua sensibilidade de um tanque de guerra, voltou à carga. — Certo. Agora você, Hina. A Sakura já abriu o jogo. Sua vez. O que está acontecendo entre você e o Shikamaru que fez o Naruto virar um animal ciumento e a Temari declarar guerra fria?

Pressionada pela preocupação genuína das duas, e se sentindo esgotada de carregar tantos segredos e medos sozinha, Hinata desabou. Mas ela não contou sobre o Sussurro, sobre o símbolo, sobre o terror. Contou a única parte da história que ela conseguia verbalizar, a parte que a estava consumindo com humilhação. — Eu... eu fiz uma coisa estúpida — sussurrou ela, as palavras saindo com dificuldade. — Com o Shikamaru.

Ino e Sakura trocaram um olhar chocado. — Ele tem andado me ajudando com... umas coisas — continuou Hinata, a voz tremendo. — E eu estava me sentindo tão grata, e ele parecia tão triste por causa da Temari, e eu... eu confundi tudo. E eu... eu o beijei.

O silêncio no quarto foi total. Ino estava de boca aberta. Sakura parecia confusa. — Foi só na bochecha! — se apressou Hinata a acrescentar, o rosto em chamas. — Mas ele... ele me afastou. E eu me senti tão estúpida. E depois o Naruto me viu e nós brigamos...

A confissão, mesmo que parcial, confirmou a pior teoria de Ino. — Aquele desgraçado! — explodiu ela. — Então é isso! Ele está fazendo um jogo duplo com você e com a Temari! Te usando para fazer ciúmes, te afastando quando convém... Eu não acredito!

— Não, Ino, não foi assim... — tentou Hinata, mas era tarde demais.

Sakura, no entanto, estava processando a informação de forma diferente. A dor de Hinata parecia real. Sua confusão também. A história não se encaixava perfeitamente na teoria de um "caso secreto". Parecia... mais triste e mais complicado do que isso.

Mas, naquela noite, no silêncio compartilhado do quarto de Sakura, a conclusão de Ino se tornou a verdade aceita. Elas se uniram, не apenas na sua dor, mas na sua raiva coletiva contra os rapazes que as tinham magoado. Uma nova aliança se formou. Não uma aliança de investigação, mas uma de corações partidos, unidas por uma perigosa teia de meias-verdades e mal-entendidos.