O Sussurro da Academia
14 CAPÍTULO 14: AS REGRAS DO JOGO
SÁBADO À NOITE
A pergunta pairava no ar do quarto bagunçado de Shikamaru, pesada e inevitável: O que fazemos agora?
O silêncio que se seguiu foi denso, preenchido por três respirações irregulares e pelo zumbido baixo de uma lâmpada no teto. Hinata permanecia perto da porta, o corpo encolhido, os dedos torcendo a alça da sua bolsa com uma força que deixava os seus nós brancos. Eu devia ir embora, a sua mente gritava em pânico. Eu sou uma intrusa. Isto é um problema deles. Eu só vou atrapalhar. Mas os seus pés pareciam pregados ao chão, uma mistura de medo e uma estranha e nova lealdade a impedi-la de fugir.
Sakura, por outro lado, estava de pé no meio do quarto, sua postura tensa como a de um predador enjaulado. Ela não parava quieta, dava pequenos passos de um lado para o outro no pouco espaço livre, o som dos seus sapatos a marcar um ritmo ansioso no chão, os braços cruzados firmemente contra o peito. Ok, respira, dizia a sua mente analítica. Você tem os factos. Agora precisa de um plano. O Shikamaru é a chave. Ele é o estratega. Mas ele está fraturado. Preciso de o pressionar, mas não demasiado. Ela avaliava a situação como um médico a avaliar um paciente em estado crítico.
Shikamaru sentia os dois pares de olhos sobre si, um peso a somar-se ao que já lhe esmagava os ombros. Ele era, por defeito, o centro daquela nova e fodida aliança. A sua primeira inclinação, a sua resposta instintiva a qualquer problema, era suspirar, dizer "que problemático" e ir dormir por uma semana. Mas ele sabia que essa opção já não existia. O jogo tinha mudado.
Ele soltou um longo suspiro, o ar saindo de seus pulmões num som pesado, quase um gemido. Ele fechou os olhos por um momento, as pálpebras tremendo com o esforço, como se o simples ato de olhar para o caos do seu quarto fosse pesado demais. Passou a mão pelo cabelo, o gesto desarrumando-o ainda mais.
Ok — disse ele, a sua voz quebrando o silêncio, soando rouca e cansada. Ele moveu-se, não para se sentar, mas para sua escrivaninha. Com um movimento brusco do antebraço, ele empurrou uma pilha de livros e papéis para o lado, um deles caindo no chão com um baque surdo que fez Hinata estremecer. Ele ignorou. Tinha criado um pequeno espaço limpo no meio do caos. Era a sua forma de criar um tabuleiro de jogo. — Primeira regra: a partir de agora, não há mais segredos. Entre nós três. — Ele olhou para cada uma delas, seu olhar sério, a sua mão ainda pousada sobre a secretária como se para selar um pacto. — Tudo o que descobrirmos, tudo o que sentirmos, tudo o que suspeitarmos… partilhamos. Imediatamente. Concordam?Sakura foi a primeira a reagir. Parou de andar e assentiu, um movimento de cabeça curto e decidido. — Concordo. E isso começa agora. — Ela descruzou os braços, sua postura mudando da de uma vítima para a de uma médica fazendo um diagnóstico. — O que exatamente o Sussurro disse a você e à Hinata no porão? Você disse "coisas pessoais", mas eu preciso de dados. Padrões. Qual é o método de ataque dele?
E por que é que eu te daria essa informação? — retorquiu Shikamaru, a sua desconfiança natural a vir à tona. — Você acabou de entrar nisto. Como é que eu sei que posso confiar em você?Porque eu sou a única aqui com a cabeça fria — disse Sakura, a sua voz cortante como um bisturi. — Vocês os dois estão a afogar-se em medo e culpa. Eu estou a tentar dissecar o problema. A minha perspetiva de médica é a única coisa que pode nos dar uma vantagem. Então, pare de ser um idiota teimoso e me dê os dados.Shikamaru olhou para a Hinata, uma pergunta silenciosa nos olhos. Era o trauma dela. Ele não o ia expor sem a sua permissão.
Hinata estremeceu ao lembrar-se, mas ergueu o queixo. A presença de Sakura, sua abordagem lógica, parecia dar-lhe uma estranha força. — Ele… ele usou uma coisa que aconteceu comigo no ensino médio — disse ela, a voz tremendo, mas clara. — Uma coisa que me magoou muito. Ele usou as palavras exatas que as pessoas usaram na altura. Ele sabia.
E comigo — acrescentou Shikamaru, para desviar a atenção dela, a sua mão fechando-se num punho sobre a secretária. — Ele usou o meu medo de falhar. A minha tendência para desistir. Ele não nos ataca com correntes ou facas. Ele entra na nossa cabeça e encontra a ferida mais profunda que temos. E depois, ele torce a faca.Sakura processava a informação, seu rosto uma máscara de concentração, o dedo indicador tocando-lhe o lábio inferior. — Então o método dele é a tortura psicológica, usando traumas passados como arma. Isso significa que ele tem acesso às nossas memórias. Puta merda. — Ela olhou para o Shikamaru. — E o Sasuke. A "traição" com a Karin. Foi o ponto mais baixo dele. O momento de maior fraqueza e auto-aversão. Se essa coisa ataca a vulnerabilidade…
…ele era o alvo perfeito — completou Shikamaru, a teoria que ele tinha tido antes sendo agora verbalizada, soando ainda mais terrível. — Um peão a ser sacrificado para causar o máximo de dano no tabuleiro.Ele… ele parecia estar sofrendo — disse Hinata, sua voz suave fazendo com que os outros dois a olhassem. Ela estava segurando a alça da sua bolsa com tanta força que os seus dedos estavam brancos. — No porão. A raiva dele… parecia vir de uma dor muito grande. Uma solidão.Dor? — questionou Sakura, a sua sobrancelha a arquear-se. — É uma projeção empática ou você tem dados concretos para suportar essa afirmação? Como você pode ter a certeza de que não era apenas uma manipulação?Eu… eu senti — respondeu Hinata, a voz a vacilar sob o escrutínio clínico de Sakura.Hinata tem uma perceção que nós não temos, Sakura — interveio Shikamaru, o seu tom a defender a sua parceira original. — Se ela diz que sentiu, é um dado. Talvez o mais importante que temos.Ok, segunda regra — disse Shikamaru, a sua mente começando a organizar as peças. — Não subestimamos o inimigo. Ele é inteligente, é pessoal e, aparentemente, tem emoções. Isso o torna imprevisível pra caralho. — Ele apoiou-se na escrivaninha, o peso do seu corpo sobre os nós dos dedos. — Terceiro ponto: os nossos primeiros passos. O que, em nome de Deus, fazemos com esta informação?Precisamos de saber tudo o que pudermos sobre o Hayate Gekko e sobre esse clã Kurama — disse Sakura imediatamente, voltando a andar de um lado para o outro. — Se eles criaram o selo, eles devem saber como funciona. E talvez… como desfazê-lo.Já tentei — disse Shikamaru. — A informação é escassa. Encontrei o artigo do desaparecimento e a referência ao clã num livro antigo. Nada mais.Talvez não tenhamos procurado nos sítios certos — sugeriu Sakura, parando em frente a ele. — Registos da academia, ficheiros de alunos, arquivos disciplinares… coisas que não estão online.A ideia pairou no ar. A biblioteca. O arquivo. O porão.
Hinata encolheu-se visivelmente, a memória do frio e dos sussurros voltando. — Aquele lugar… — sussurrou ela. — Eu não sei se consigo voltar lá.
Você não precisa — disse Shikamaru, a sua voz protetora. — Eu e a Sakura podemos ir.Não — disse Hinata, surpreendendo-os. A sua voz era baixa, mas cheia de uma nova determinação. Ela soltou a alça da sua bolsa. — Nós vamos. Juntos. — Ela ergueu o olhar, e pela primeira vez, não havia apenas medo nos seus olhos, mas também desafio. — Eu não vou me esconder mais.A cena terminou com os três ali, à volta da secretária de Shikamaru, olhando para a foto do símbolo no celular de Sakura. Uma pequena ilha de luz no meio de um quarto escuro e caótico. A aliança era frágil, nascida do medo. As suas relações pessoais estavam em ruínas. Mas, pela primeira vez em dias, eles não estavam sozinhos. Tinham um plano. Tinham um inimigo. E tinham-se uns aos outros.
SÁBADO À NOITE
O ginásio de kendo estava silencioso como um túmulo. O sol da tarde, baixo no céu, projetava longas barras de luz dourada através das janelas altas, pintando o chão de madeira polida com o padrão de uma jaula. No centro exato dessa jaula de luz e sombra, Sasuke estava sentado, exausto após uma manhã de treino punitivo. A sua armadura de treino estava desmontada ao seu lado, e ele apenas olhava para a sua espada de bambu, a shinai. O toque na madeira desencadeou uma memória dolorosamente feliz. Uma memória de Sakura.
[FLASHBACK INÍCIO] ...o cheiro do seu cabelo, uma mistura de shampoo e algo doce que era só dela... a sua risada, um som cristalino que ecoou no ginásio... tudo pareceu simples. Perfeito. [FLASHBACK FIM]
De volta ao presente, a memória dela foi como um soco. A dor da perda, a culpa avassaladora pelo que ele tinha feito, ameaçou sufocá-lo. Ele amava-a. Essa era a única verdade sólida no meio do seu caos.
Mas então, como uma doença, outro pensamento, outra imagem, infiltrou-se na sua mente. Karin. O cheiro dela, mais forte, mais picante. O toque dela, mais faminto. A forma como o corpo dela se tinha moldado ao seu. Um calor sujo e indesejado espalhou-se pelo seu corpo, e ele odiou-se por isso.
Como é que eu posso sentir isto?, a sua mente gritava. — Eu amo a Sakura... mas o pensamento da Karin... porra.Ele era o vilão. O monstro. Não por causa de uma memória perdida ou de uma influência externa, mas por causa deste desejo podre que existia dentro dele, a lutar contra o seu amor pela Sakura. A decisão de a afastar, as palavras cruéis... talvez não tivessem sido apenas manipulação. Talvez tivessem sido ele. A sua pior parte.
E essa parte queria um replay.
A ideia era repugnante e excitante em igual medida. Ele levantou-se, os seus movimentos agora bruscos, impacientes. Ficar ali a remoer a sua culpa não ia adiantar. A única forma de silenciar esta guerra na sua cabeça era render-se a um dos lados. E naquela noite, a escuridão parecia mais forte.
O som da porta do ginásio a fechar-se atrás de si foi um clique metálico e definitivo. A sua caminhada pelo campus não era uma marcha por respostas; era a caminhada de um viciado em direção à sua droga. Cada passo era uma traição à Sakura, e cada passo o enchia de uma mistura doentia de auto-aversão e antecipação. Ele era um predador, mas a presa era a sua própria redenção.
O beat termina quando ele chega ao portão principal do campus e desaparece na noite. A caçada tinha começado.
A rua de Karin era diferente do campus. Mais escura, mais silenciosa. As luzes dos postes de rua eram poucas e distantes entre si, e as árvores antigas que ladeavam a calçada projetavam sombras longas e distorcidas sobre o asfalto. Ele caminhava, procurando pelo número do prédio, sua mente voltando a uma conversa de algumas semanas atrás.
[FLASHBACK INÍCIO] Eles estavam no café do campus, livros e papéis espalhados pela mesa.
— A gente precisa terminar aquele relatório até sexta — disse Karin, sua voz uma mistura de estresse e oportunidade. — Meu apartamento é mais silencioso que a biblioteca, se você quiser passar lá.
— Tanto faz — respondeu Sasuke, sem erguer os olhos do seu próprio livro.
— Ok... bom, se mudar de ideias, eu moro na Rua Elm, 142. É um prédio de tijolo vermelho, meio acabado — disse ela, sua voz um pouco desapontada com a falta de entusiasmo dele. [FLASHBACK FIM]
Ele encontrou o prédio. Tijolo vermelho, meio acabado. Exatamente como ela tinha descrito. Ele se aproximou da porta, seu olhar se fixando na lista de nomes ao lado do interfone. Sua mão se levantou para tocar, mas hesitou, o dedo pairando a milímetros do botão. E nesse momento de hesitação, a outra memória, a memória que ele tentava suprimir, atingiu-o com a força de um soco.
[FLASHBACK INÍCIO] O quarto dele. O cheiro forte do perfume dela misturado com o dele. Seus corpos juntos na cama, uma confusão de pele quente e suada. Ele sentia as mãos dela em seu cabelo, o puxando com força, os lábios dela em seu pescoço, famintos, deixando uma trilha de fogo. Uma parte dele, uma parte sombria e primitiva que ele не reconhecia, estava sendo levada pela fome dela, seu corpo reagindo por instinto.
Mas outra parte, sua alma, gritava em silêncio o nome de Sakura. Ele estava relutando, seu corpo querendo recuar, lutando contra seu próprio desejo amplificado. Mas era como tentar nadar contra uma correnteza. Ele estava sendo levado, se afogando na sensação, se odiando a cada segundo. [FLASHBACK FIM]
Abalado pela memória, ele finalmente pressionou o botão do interfone, o gesto agora carregado de desespero. O som do zumbido elétrico ecoou brevemente na noite. Ele esperou, o coração batendo descontroladamente no peito.
Um segundo. Dez. Trinta. O silêncio foi a única resposta.
Merda, pensou ele, sua determinação dando lugar a uma impaciência irritada.Ele tocou de novo, desta vez mantendo o dedo pressionado no botão. O zumbido foi mais longo, mais agressivo. Nada. Sua respiração ficou mais pesada.
Numa das janelas do segundo andar, uma cortina se mexeu. Apenas um pequeno movimento. Mas na rua silenciosa, pareceu um grito. Sasuke virou a cabeça bruscamente, seus olhos perscrutando a janela. Não havia ninguém. Apenas a escuridão. Mas a sensação de estar sendo observado se instalou em sua nuca, fria e desconfortável.
Sasuke recuou do interfone, afastando-se da porta como se esta o tivesse queimado. A frustração era um gosto metálico na sua boca. Ele não ia ser parado por uma porta fechada. Não ia ser parado pelo silêncio. A sua missão, a sua necessidade de respostas, era mais forte do que isso.
Com um movimento rápido e irritado, ele enfiou a mão no bolso do casaco e puxou o celular. A luz fria da tela iluminou o seu rosto, acentuando a dureza da sua expressão. Seus dedos moveram-se com uma precisão furiosa, o polegar a deslizar pela lista de contactos até encontrar o nome dela: Karin. Ele apertou o botão verde para ligar, o gesto um ato de desafio contra o silêncio da rua.
Ele levou o aparelho ao ouvido, esperando o som familiar da chamada a completar-se. Em vez disso, o que ouviu foi um clique e o início de uma voz robótica e impessoal.
A caixa postal de...Ele desligou antes de a voz terminar, um rosnado baixo a formar-se na sua garganta.
Não, pensou ele, a sua mente a recusar-se a aceitar. — Ela não pode ter o celular desligado. Não agora.A negação era uma defesa frágil contra a realidade que se avizinhava. Ele olhou novamente para a janela escura do terceiro andar. A sensação de estar a ser observado voltou, mais forte desta vez. Era como se o próprio prédio estivesse a zombar dele. Com o maxilar cerrado, ele ligou de novo.
Desta vez, ele forçou-se a ouvir. O clique. E depois, a voz dela. Não a voz robótica, mas a da própria Karin, gravada e insuportavelmente alegre.
"Oi! Aqui é a Karin. Deixe o seu recado depois do sinal e eu ligo de volta assim que puder. Beijo!"O "beijo" no final, tão casual e despreocupado, foi como um insulto, uma punhalada de ironia que o atingiu em cheio. A realidade assentou, fria e pesada como uma laje de betão. Ela não estava apenas a evitar a sua chamada; ela estava incontactável. Desligada. Fora de alcance. A sua caçada, a sua única linha de ação, tinha chegado a um beco sem saída.
A sua mão fechou-se à volta do celular com uma força esmagadora. Ele sentiu o plástico do aparelho a ranger sob a pressão do seu polegar, os seus nós dos dedos a ficarem brancos. Uma onda de raiva impotente subiu-lhe pelo peito, quente e sufocante. Ele estava preso. Preso do lado de fora de um prédio escuro, a ser assombrado por memórias que não controlava, a ser puxado por desejos que odiava, e agora, completamente bloqueado, sem nenhum próximo passo lógico para dar.
Sasuke recuou do interfone, afastando-se da porta como se esta o tivesse queimado. A frustração era um gosto metálico na sua boca. Ele não ia ser parado por uma porta fechada.
Com um movimento rápido e irritado, ele enfiou a mão no bolso do casaco e puxou o celular. A luz fria da tela iluminou o seu rosto, acentuando a dureza da sua expressão. Seus dedos moveram-se com uma precisão furiosa até encontrar o nome dela: Karin. Ele apertou o botão verde para ligar.
A chamada foi diretamente para a caixa de correio.
A caixa postal de...Ele desligou antes de a voz automática terminar, um rosnado baixo se formando na sua garganta. Com o maxilar cerrado, ele ligou de novo. Desta vez, forçou-se a ouvir. O clique. E depois, a voz dela. Não a voz robótica, mas a da própria Karin, gravada e insuportavelmente alegre.
"Oi! Aqui é a Karin. Deixe o seu recado depois do sinal e eu ligo de volta assim que puder. Beijo!"O "beijo" no final, tão casual e despreocupado, foi como um insulto. A alegria na voz dela desencadeou outra memória, uma de irritação.
[FLASHBACK INÍCIO] Ele estava na biblioteca, tentando se concentrar num texto complexo sobre selos antigos. Karin estava sentada à sua frente, balançando os pés, tamborilando com os dedos na mesa.
— Nossa, Sasuke, você fica tão sexy quando está sério assim! — disse ela, sua voz um sussurro alto que fez várias pessoas olharem na direção deles.
Ele não respondeu, apenas virou uma página.
— A gente podia sair depois, o que você acha? Tem um bar novo que abriu...
— Estou tentando ler, Karin -- disse ele, sua voz fria, sem olhar.
— Ah, qual é! Você é tão chato às vezes! [FLASHBACK FIM]
De volta à rua escura, a memória da sua personalidade borbulhante, tão oposta à sua, apenas serviu para aprofundar o seu conflito. Como é que ele podia sentir este desejo por alguém que, em tantos aspetos, o irritava profundamente?
A realidade assentou, fria e pesada. Ela estava incontactável. A sua caçada tinha chegado a um beco sem saída.
Uma onda de raiva impotente subiu-lhe pelo peito, quente e sufocante. Ele ergueu o braço, o celular na sua mão, prestes a atirá-lo com toda a sua força contra a parede de tijolos do prédio. Mas parou. Seu braço ficou suspenso no ar, tremendo com o esforço de conter a sua própria fúria. Lentamente, ele baixou a mão, seus dedos apertando o aparelho com uma força esmagadora.
Controle-se, ordenou a si mesmo, sua voz interna um chicote.Nesse exato momento, sentiu um arrepio. A sensação de estar sendo observado voltou, dez vezes mais forte. Não era uma impressão. Era uma certeza. Ele virou-se bruscamente, seus olhos varrendo as janelas escuras, as sombras profundas entre os prédios. Não havia nada. Mas ele sabia. Alguém o tinha visto. Tinha testemunhado o seu momento de fraqueza, a sua perda de controle. E isso era, de alguma forma, mais assustador do que o silêncio de Karin.
SÁBADO, TARDE DA NOITE
O relógio na torre da academia tinha acabado de bater as onze da noite, o som abafado chegando até eles através das paredes de pedra da biblioteca. O edifício principal estava silencioso, um labirinto de sombras e livros dormindo. Mas o trio não estava ali. Estavam em frente a uma porta de metal pesado, no final de um corredor mal iluminado no porão. A porta do arquivo.
O ar ali era mais frio, carregado com o cheiro de pó, de papel velho e de uma umidade sutil que parecia vir das próprias paredes. A única luz vinha de uma lâmpada solitária no teto, a uns bons dez metros de distância, seu brilho fraco criando mais sombras do que iluminando. O corredor era um túnel de escuridão e silêncio, e a porta de metal no final parecia a entrada para uma tumba.
Shikamaru parou a alguns passos da porta, os braços cruzados, uma hesitação visível em sua postura. Sua mente, normalmente um turbilhão de estratégias, estava estranhamente silenciosa, dominada por uma memória sensorial. Ele conseguia sentir o frio do porão em sua pele outra vez, ouvir o eco dos sussurros em sua nuca. Sua lógica lhe dizia que era apenas uma sala cheia de papel velho, mas seu instinto, um instinto primordial que ele raramente sentia, gritava perigo.
Ao seu lado, Hinata estava ainda mais tensa. Seu corpo estava encolhido, e ela segurava a alça da sua bolsa com uma força que deixava seus nós dos dedos brancos. Seu coração batia descontroladamente contra suas costelas, um tambor frenético no silêncio opressivo. Cada sombra que dançava na periferia de sua visão parecia tomar uma forma, cada estalo do edifício ecoando como um passo. Voltar àquele lugar era um ato de coragem que lhe custava cada grama da sua força de vontade. Ela lutava contra o impulso de se virar e correr para a segurança da luz lá em cima.
Foi Sakura quem quebrou a inércia. Ela olhou para os dois, para a paralisia estratégica de Shikamaru e para o terror silencioso de Hinata. O medo estava lá, ela o sentia como um nó gelado no estômago, mas sua mente de médica via dois pacientes em estado de choque. E numa situação de emergência, seu treino assumia o controle. Ela tinha de ser a calma. Tinha de ser a líder.
Ninguém vai nos atacar aqui em cima — disse ela, sua voz um sussurro firme que cortou o silêncio. — A porta está fechada. Estamos seguros por enquanto. Vamos a isso.Ela caminhou até à porta, seus passos soando deliberadamente firmes no chão de cimento. Colocou a mão na maçaneta de metal fria e sentiu um arrepio percorrer-lhe o braço. Ignorou-o. Respirou fundo e rodou-a. A porta abriu-se com um gemido de protesto longo e agudo, o som de metal raspando em metal enferrujado, revelando uma escada de concreto que descia para a escuridão total.
Merda — sussurrou Shikamaru, mais para si mesmo do que para os outros.Sakura pegou no seu celular, ligou a lanterna e apontou o feixe de luz branco e clínico para os degraus. — Fiquem perto.
A escada de concreto descia em espiral para uma escuridão que parecia quase sólida. O feixe de luz da lanterna do celular de Sakura era a única coisa que a cortava, revelando degraus úmidos e paredes manchadas. O cheiro de mofo e de papel velho se intensificava a cada passo, um cheiro de tempo esquecido. Seus passos ecoavam, amplificados pelo espaço confinado, e parecia que não estavam sozinhos; o som de três pessoas soava como o de seis, de dez.
Quando chegaram ao fundo, encontraram o interruptor. Sakura o pressionou. Com um zumbido relutante, uma única lâmpada nua no centro do teto piscou antes de se acender, banhando a sala numa luz amarelada e doentia. A luz era fraca, insuficiente, e parecia ser engolida pelas sombras que se agarravam às estantes de metal altas e poeirentas, que se estendiam como as costelas de uma carcaça de leviatã.
Ok — disse Sakura, sua voz ecoando ligeiramente, soando alta demais no silêncio opressivo. Ela tentava projetar uma calma profissional, a médica assumindo o controle. — Vamos ser metódicos. Hayate Gekko. Procurem caixas com os registros de alunos do final dos anos 90. Fichas disciplinares, listas de clubes, qualquer coisa.Ela foi a primeira a se mover, caminhando para uma das fileiras de estantes, sua lanterna varrendo as etiquetas das caixas, seu movimento um ato de desafio contra a atmosfera pesada do lugar.
Shikamaru não a seguiu. Ele ficou parado no centro da sala, as mãos nos bolsos, seus olhos percorrendo o layout do arquivo não como um investigador, mas como um jogador de shogi analisando um tabuleiro. Se eu quisesse esconder alguma coisa, pensou ele, sua mente procurando padrões no caos, não a poria no lugar óbvio. Não no arquivo principal. Seu olhar foi atraído para um canto escuro e esquecido da sala, onde uma pilha de anuários encadernados em couro falso estava atirada de qualquer maneira, parcialmente coberta por uma lona poeirenta. Problemático, mas menos óbvio. Ele caminhou lentamente nessa direção.
Hinata, por sua vez, ficou mais perto da escada. — Eu… eu vou verificar os registros de entrada aqui perto — disse ela, sua desculpa fraca. Na verdade, ela estava assumindo o papel de sentinela. Seu corpo inteiro era um sensor, sua audição apurada captando cada som do edifício acima – o estalo distante de uma tubulação, o zumbido da eletricidade, o som do vento assobiando por uma fresta. Cada som a fazia enrijecer, seus olhos dardejando para a escuridão na entrada da escada. Ela não estava procurando em papéis; estava vigiando as sombras.
O tempo começou a se arrastar. O único som era o farfalhar frustrante de papel velho, o ranger metálico de uma gaveta de arquivo sendo aberta, a tosse seca de Sakura quando uma nuvem de poeira a atingiu. A poeira parecia estar em todo lugar, irritando seus narizes, arranhando suas gargantas. A sensação de estarem sendo observados crescia a cada minuto que passava. Hinata, várias vezes, virou-se bruscamente, convencida de que tinha ouvido um passo na escada, mas nunca havia nada. Era apenas o edifício respirando. Ou talvez não.
Nada — disse Sakura, sua voz ecoando de uma das fileiras distantes. — Apenas registros de notas e de presença. Nenhuma menção a problemas disciplinares.Aqui também não — disse Shikamaru, sua voz abafada do seu canto. — Apenas fotos de grupo e sorrisos falsos. É um beco sem saída.A frustração começava a assentar, misturando-se com o medo, tornando o ar ainda mais pesado. Eles estavam perdendo tempo. Estavam expostos. E não tinham encontrado absolutamente nada.
Passou-se quase uma hora. O ar no porão estava viciado, pesado com o cheiro de papel a apodrecer. A frustração era uma camada de pó que assentava sobre eles, tornando tudo mais difícil. Sakura esfregava as têmporas, a sua mente lógica a esbarrar contra um muro de falta de dados. Tinham encontrado o registo de matrícula de Hayate, a sua foto a preto e branco a olhá-los do passado, mas nada mais. Nenhuma menção ao clã Kurama. Nenhum registo disciplinar que indicasse qualquer problema. Era como se a sua história oficial tivesse sido limpa.
Não faz sentido — disse Sakura, a sua voz a ecoar de uma das filas distantes. — Tem de haver mais alguma coisa.Talvez não haja — disse Shikamaru, a sua voz abafada do seu canto. Ele estava sentado no chão, encostado a uma estante, a folhear o último anuário da pilha com uma indiferença derrotada. A capa de couro falso estava rachada e se desfazendo em suas mãos. — Talvez a gente esteja num beco sem saída. Problemático.Ele estava prestes a fechar o livro, a render-se à exaustão e ao fracasso daquela noite, quando sentiu um toque leve no seu braço. Ele olhou para cima. Hinata estava de pé ao seu lado, o seu rosto pálido na luz fraca. Ela tinha se aproximado tão silenciosamente que ele não a tinha ouvido.
Espera… — sussurrou ela, a sua voz pouco mais que um sopro. O seu dedo trémulo apontava para a página aberta no colo dele. — Aquela foto.Shikamaru baixou o olhar, a sua curiosidade se sobrepondo ao seu cansaço. Sakura, ao ouvir a mudança no tom de voz de Hinata, aproximou-se, a sua lanterna projetando um círculo de luz branca sobre o livro.
Era a foto do clube de esgrima. Uma imagem a preto e branco, um pouco desfocada pelo tempo, de uma dúzia de estudantes em uniformes de esgrima, segurando as suas máscaras e floretes. No centro do grupo, com um sorriso fácil e despreocupado, estava um Hayate Gekko de ar juvenil. E ao seu lado, com um braço casualmente sobre os ombros dele, estava uma rapariga de cabelo escuro e espetado, um sorriso selvagem e cheio de dentes no rosto, a sua energia saltando da página mesmo depois de tantos anos.
Anko Mitarashi — leu Sakura, o seu dedo seguindo o nome impresso debaixo da foto.Eu a conheço — disse Shikamaru, a sua mente fazendo a ligação instantaneamente, a sua voz ganhando uma nova energia. — Puta merda, eu a conheço. Ela é uma das supervisoras dos exames Chūnin. Uma veterana. Lembro-me dela das provas do ano passado.Sakura processava a informação, a sua mente catalogando este novo dado. Um nome. Uma ligação ao presente. Era a primeira pista real que tinham.
Mas Hinata não estava olhando para o nome. Estava olhando para os rostos na foto.
Eles pareciam… amigos — disse ela, a sua voz baixa, a sua intuição se focando na emoção congelada no tempo. — Próximos. Olha a forma como ela está olhando para ele.Shikamaru e Sakura olharam de novo. E agora, viam o que ela via. Não era apenas uma foto de grupo. Era um momento. A familiaridade fácil entre os dois, a cumplicidade no sorriso partilhado. Não eram apenas colegas de equipa.
Eles tinham-no. Não era um documento, não era um registo. Era uma ligação humana. Uma pessoa que conhecia o Hayate, não como um fantasma numa história de terror, mas como um rapaz que sorria numa foto de anuário.
Um silêncio caiu sobre os três, mas desta vez, não era um silêncio de medo. Era um de admiração. Eles olhavam para a foto no anuário, para o rosto sorridente da jovem Anko Mitarashi. A escuridão opressiva do porão, os sussurros imaginados, o peso do fracasso... tudo pareceu recuar por um instante, empurrado para trás por uma pequena e frágil fagulha de esperança. Eles tinham uma pista. Uma pista real.
Um pequeno sorriso formou-se nos lábios de Sakura. — Conseguimos — sussurrou ela.
Ainda não — disse Shikamaru, sendo o primeiro a quebrar o feitiço. — Chega. Vamos sair daqui antes que a nossa sorte mude.Ele fechou o anuário com um baque suave e segurou-o firmemente debaixo do braço. A subida da escada foi um contraste total com a descida. Eles moveram-se depressa, com um novo propósito. Quando chegaram ao topo, Shikamaru empurrou a porta de metal pesado, fechando-a atrás deles. O som da fechadura a trancar foi um alívio coletivo.
Já no corredor, sob a luz amarelada e solitária, Shikamaru abriu o anuário na página da foto novamente. Os três inclinaram-se sobre ele.
Ela era amiga dele — disse Sakura, a sua mente a trabalhar. — Talvez a melhor amiga. Se o que aconteceu com o Hayate foi um trauma que o transformou nisto, ela é a única testemunha viva que nos pode dar o "histórico do paciente". Ela sabe o que aconteceu.Mais do que isso — acrescentou Shikamaru, o seu olhar fixo na foto. — Se ela estava lá, ela pode saber sobre o selo. Sobre o clã Kurama. Ela não é apenas uma testemunha, Sakura. Ela é a porra da chave.A palavra ficou a pairar no ar. A chave. A chave para entender tudo. A vitória momentânea deu lugar à realidade do seu próximo desafio.
Ok — disse Sakura, a sua voz agora séria. — Como é que a gente encontra uma veterana reclusa que provavelmente não quer ser encontrada?A pergunta pairou no ar, o seu novo e problemático obstáculo. Mas desta vez, eles não estavam sozinhos para a enfrentar.
A porta pesada da biblioteca fechou-se atrás deles, o som a ecoar brevemente na praça silenciosa do campus. Por um momento, os três ficaram parados, a respirar o ar frio da noite, um contraste bem-vindo com a atmosfera viciada do porão. Havia uma nova energia entre eles, uma fagulha de propósito que não existia antes. A sua primeira missão como equipa tinha sido um sucesso.
Sakura sentiu um alívio tão profundo que foi quase físico. Pela primeira vez em dias, a ansiedade que se tinha alojado no seu peito como uma garra fria pareceu afrouxar o seu aperto. Eles tinham uma pista. Uma pista real, lógica, acionável. Não era uma teoria louca ou um sentimento vago; era um nome, uma cara, um ponto de partida. Era um problema que podia ser dissecado, analisado e, com sorte, resolvido. Um pequeno sorriso formou-se nos seus lábios, o primeiro genuíno em dias.
Shikamaru também sentia o alívio, embora o seu fosse mais contido, mais pragmático. O peso esmagador da responsabilidade ainda estava lá, mas agora tinha uma direção. Já não era um caos de variáveis desconhecidas; era um tabuleiro de shogi com um próximo movimento claro. Encontrar Anko. Era um movimento perigoso, mas era um movimento. E isso era infinitamente melhor do que a paralisia.
Para Hinata, o sentimento era diferente. Era uma orgulho silencioso e trémulo. Ela tinha enfrentado o seu medo, tinha voltado ao lugar que a aterrorizava, e tinha sido ela a encontrar a chave. A sua contribuição não tinha sido um acidente; tinha sido o resultado da sua perspetiva única. Ela não era apenas uma vítima a ser protegida. Era uma peça ativa no jogo.
Ok — disse Sakura, a sua voz baixa, mas cheia de uma nova determinação, o vapor da sua respiração a formar uma pequena nuvem à sua frente. — Amanhã, a primeira coisa que fazemos é descobrir tudo o que pudermos sobre a rotina da Anko.Vai ser problemático. Ela é discreta — respondeu Shikamaru, mas pela primeira vez, a sua palavra de assinatura soou menos como uma queixa e mais como a análise de um desafio.Hinata não disse nada, mas caminhava ao lado deles, a sua postura já não tão encolhida. Ela segurava o anuário contra o peito, como se fosse um escudo.
Eles começaram a caminhar, as suas sombras a esticarem-se e a dançarem sob a luz dos candeeiros do campus, as suas vozes um murmúrio baixo de conspiração e estratégia. Eram três ilhas de luz e som a moverem-se na escuridão, unidos não por amizade, não ainda, mas por um propósito partilhado e pela frágil esperança de que, juntos, poderiam encontrar uma saída para o pesadelo.
Eles continuaram a caminhar, um pequeno grupo unido contra a noite. O ar frio parecia limpar os seus pulmões do pó do arquivo, e a conversa deles, embora em sussurros, era cheia de uma nova energia. Pela primeira vez em dias, havia um plano, uma direção. A sensação de impotência tinha sido substituída por uma frágil, mas real, sensação de controlo.
Mas a perspetiva é uma coisa traiçoeira.
Enquanto eles se afastavam, o som dos seus passos no caminho de pedra começou a diminuir. A sua conversa estratégica tornou-se um murmúrio indistinto, as palavras a serem roubadas pelo vento frio da noite. A pequena poça de luz amarelada dos candeeiros que os rodeava começou a encolher, a tornar-se apenas mais um ponto de luz num mar de escuridão.
A nossa visão recua, flutuando silenciosamente para trás, deixando as suas figuras se tornarem mais pequenas, mais vulneráveis. Sobe, para além do alcance da luz, em direção à escuridão da copa de um grande carvalho antigo que se erguia do outro lado da praça, as suas folhas a sussurrarem na brisa.
O movimento para entre os ramos nus e retorcidos, que formam uma teia escura contra o céu noturno. Desta perspetiva, o trio é apenas um pequeno grupo de figuras distantes, emolduradas pela madeira escura e áspera dos ramos. As suas vozes já não são audíveis. São apenas formas a moverem-se, alheias.
Eles sentiam-se como caçadores. Não sabiam que, naquela noite, eles eram a presa.
A perspetiva agora está presa dentro da árvore, a olhar para o trio através de uma teia de folhas escuras. A respiração do observador é ofegante, silenciosa, o som abafado pelo som do vento a assobiar nos ramos. O coração bate descontroladamente, um tambor de pânico contra as costelas. Lá em baixo, o trio parece perigosamente ingénuo, as suas vozes distantes a soarem como os murmúrios de crianças a brincar perto de um ninho de cobras.
Uma mão agarra o tronco da árvore com uma força que faz os nós dos dedos ficarem brancos, a casca áspera a cravar-se na pele. Um tremor incontrolável percorre o corpo do observador, não de frio, mas de um medo primordial, a memória de um terror antigo a ressurgir. Um soluço é engolido, um som pequeno e desesperado na escuridão.
Nesse momento, um rasgo de luar atravessa as nuvens e as folhas, a iluminar uma parte do rosto escondido. Primeiro, vemos apenas um olho, largo, a refletir a luz distante, a íris escura dilatada, cheia de um terror que vai para além da simples preocupação. A luz move-se, revelando o resto do rosto.
É a Anko Mitarashi.
Mas esta não é a mulher dura e sarcástica que todos na academia conhecem. O seu rosto está pálido, banhado por um suor frio que brilha à luz da lua. Os seus lábios estão entreabertos, a tremer, a formar palavras que não saem.
O foco está inteiramente no seu rosto aterrorizado. O seu monólogo interno é uma única frase, repetida como uma oração desesperada.
Eles não sabem. Oh, deuses, eles não sabem o que estão a fazer.Ela não está com medo deles. Está com medo por eles. E por todos os outros. A sua expressão é a de alguém que já viu o apocalipse uma vez e sabe, com uma certeza que lhe gela a alma, que ele acabou de começar de novo.
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