Capítulo IV

— Boa madrugada, ou manha, como preferir- Disse Anderson. Ele apertou no botão ‘’ gravar’’ no aparelho gravador- Pode dizer seu nome completo, idade, onde mora e a profissão... por favor.

— Meu nome é Cicero Freitas Alves. Tenho trinta e cinco anos. Moro no bairro Expansão... morava, desculpe. Moro agora no bairro Aparecida. Atualmente estou desempregado.

— Há quanto tempo você mora em Campos Sales?- Anderson conferiu em uma folha a sua frente à próxima pergunta que iria fazer.

— Nove semanas- Não tardou a responder. Tais perguntas já tinha uma resposta elaborada em sua mente.

Na mente de Cicero passava uma forte analise dos agentes ao mesmo tempo em que deduzia friamente as próximas perguntas.

— Nove semanas? Porque veio morar nessa cidade?

— Afinidade. Meu pai morou aqui.

Os olhares de Cicero e Eduardo encontraram-se. Naquele momento o assassino percebeu qual dos dois agentes era sua maior ameaça naquele instante. Precisava ser cauteloso. Cicero começou a ficar ansioso.

— Você sabe manusear uma arma? Sabe disparar?- Continuou Anderson. Seu olhar era atento ao do interrogado.

— Não- Respondeu. Sua cabeça era direcionada a Anderson, mas seus olhos visavam Eduardo. Não demorou a o interrogador perceber.

— Você conhecia Francisca Oliveira?- A expressão facial do interrogador estava completamente seria.

Ao ouvir o nome de sua vítima, Cicero voltou completamente a sua atenção para Anderson. Eduardo levantou uma sobrancelha, ele sempre fazia isso involuntariamente quando percebia algo duvidoso.

— Não pessoalmente.

— Onde a conheceu?

— Em um congresso. Algumas semanas atrás... não lembro exatamente quando.

— Me diga, em que horário você chegou ao Caricatura ontem?

— Acho que por volta de onze horas. A banda estava tocando a oitava música. O meu colega de mesa que me disse isso- Mentiu.

— Você... — Anderson foi interrompido por Eduardo.

— Eu vou lhe entregar um papel com uma frase. Você me diz o que entende sobre ela.

Eduardo levantou. Pegou sua caneta e seu bloco de notas, anotou, novamente, a mesma pichação do banheiro e entregou a Cicero. O interrogado leu e, por dentro, vangloriou-se. Após dois minutos de silêncio ele fala:

— É evidente que isso é uma ameaça. A primeira palavra indica uma quantidade de pessoas, eu acho. O ‘’ assinaram’’ indica um grupo especifico de pessoas. É como se o autor mandasse uma espécie de mensagem para essas pessoas. Um aviso, eu acho.

— Bem, correto. Sua capacidade de interpretação é muito boa. Apenas três dos outros interrogados tiveram interpretações semelhantes- Mentiu, pois não havia mostrado a frase para mais ninguém.

— Obrigado. Eu fiz faculdade de letras, me ajuda bastante.

Houve vários segundos de silêncio. Eduardo encarava Cicero que alternava entre os agentes.

— É tudo. Esse interrogatório... pode ser que a polícia local mande chamar você para o depoimento oficial- Concluiu Anderson.

Cicero acenou afirmativamente e logo em seguida saiu pela porta em que entrou. Anderson parou a gravação do gravador e da filmadora.

— O que foi, Eduardo? Você... — A segunda pergunta de Anderson foi interrompida.

— Todos os interrogados são suspeitos, mas alguns chamam a atenção mais que outros. Vamos continuar.