O Sugador de Almas
1 Chegada do Desespero
Notas iniciais
11 de abril de X872, vila de Kallar, país de Setwin.
Não havia nenhum outro lugar melhor para se viver que a vila de Kallar. Haviam grandes plantações, o tempo estava sempre bom, campos de grama imensos para as crianças poderem correr, brincar e relaxar debaixo da sombra de uma árvore. As pessoas eram gentis, não havia barulhos e nenhuma vez ocorreu qualquer tipo de tristeza, preocupação ou medo entre os habitantes da vila. Uma das pessoas mais generosas que vinha a vila com frequência era o senhor Marco, um mercador a trabalho. Era um homem alto, de barba e cabelos castanhos e usava óculos de meia- lua. Ele era casado, tinha uma esposa e uma criança de 9 anos, as quais ele amava muito. Ele trabalhava muito para poder sustentar a sua família e para comprar remédios para sua esposa que estava se recuperando de uma doença. Toda vez que chegava em Kallar ao meio dia em ponto era recebido por vários sorrisos das pessoas.
– Faz tempo desde a última vez que você veio, Marco! — disse a senhora Diz, uma mulher corpulenta e dona de um pequeno mercado.
– Ah, desculpe! Eu tive que passar em outros lugares também! – respondeu ele, sorrindo enquanto descia da carroça para pegar as mercadorias para Diz.
– E como vai a sua esposa? – perguntou o velho Vraz.
– Muito melhor! O médico disse que essa semana ela já poderá sair então estou pensando em traze- la aqui com a minha filha.
– Oh, isso seria ótimo! Faz tempo que eu não a vejo! – respondeu o velho.
Dadas as boas- vindas ao senhor Marco e as mercadorias a senhora Diz, ele foi almoçar no restaurante “Bia’s Restaurant”, cujo o nome foi dado em homenagem a filha do dono, Bianca. Lá ele comeu o tanto pode e jogou conversa fora com o pessoal que lá estava. Conversavam sobre família, sobre crianças, a vila e então sobre a política.
– Eu li nos jornais que o governo está roubando todo o tipo de objetos mágicos com desculpas ridículas. – disse Bard, dono do restaurante que estava atrás do balcão.
– Mas também falaram que tem vários de assassinatos por magia. – disse a senhora Diz – É aceitável que eles estejam fazendo isso para nos proteger.
– Você não sabe de nada, Diz! – berrou Bard – Existem muitas pessoas que fazem o uso da magia como trabalho. E existem muitas lojas mágicas pelo país.
– De fato, sem falar que uma guilda já aceitou um dos nossos pedidos nossos uns anos atrás. – falou o velho Vraz enquanto levava o capo de cerveja até a boca.
Marco não falava nada. Na vila de Kallar não havia nenhum tipo de loja mágica ou guilda, e ele também nunca havia visto uma durante suas viagens. A magia é algo recente no país e por causa dela as guildas surgiram com a esperança de usa-la como forma de trabalho e ajudar o país a se tornar um país desenvolvido. Mas não era apenas em guildas, em vários outros lugares há magos ou simplesmente pessoas com objetos mágicos que são usados em seu dia- dia como por exemplo em uma ferraria ou em um restaurante, em brinquedos até mesmo armas.
– Bom, – Marco respondeu depois de tomar um longo gole de café – magia pode ser uma coisa tanto boa quanto má. Acredito que o governo também está pensando em aumentar o seu poder de fogo com ela.
Diz não tinha pensando nisso, Bard e Vraz concordaram com ele.
Após a conversa, Marco teve de voltar ao trabalho e entregar sua mercadoria para outra vila mais próxima até chegar em casa finalmente. Ele subiu na carroça e se despediu das pessoas com o mesmo sorriso de sempre. Ele passou pela vila Gabard, onde foi recebido da mesma forma quando chegou em Kallar. Estava perto de casa agora. Antes de deixar Gabard, um homem corcunda de cabelos longos e grisalhos, aparentava ser um velho, e de capuz se aproximou de Marco enquanto ele mais uma vez subia a carroça. O velho tinha um sorriso estranho mas falava num tom sério com ele.
– Aconteceu alguma coisa? — Marco perguntou.
– Eu posso ver... – disse com uma voz tremula – Eu posso ver...sua morte... – agora ele sorria assustadoramente mas disse com uma voz tão baixa que Marco não conseguiu ouvir.
– Desculpe, poderia repetir?
– Não é nada importante... Boa viagem, meu jovem.
E assim, Marco deixou Gabard sem nenhuma preocupação graças a voz baixa do velho que não deixava de fita- lo enquanto ele deixava a vila. Assim que não pode mais o ver, o velho se virou e ao passar por um poste de iluminação da vila...simplesmente...desapareceu.
***
Marco foi recebido pela esposa e pela filha, ambas de cabelos loiros, com um grande abraço e um beijo da mulher. A filha não parava de pedir colo para o pai só que este repetia inúmeras vezes que não conseguia carregar uma garota tão grande. Ela ficou chateada com a resposta do pai mas era natural dela que esquecesse em cinco minutos. A esposa, Marta, perguntava sobre a viagem como de costume quando todos eles jantavam na mesa de madeira. Ele contava tudo pra ela, inclusive sobre os incidentes com o governo e sobre os crimes por magia.
– Certamente, — disse Marta – é assustador pensar que isso esteja acontecendo.
– Papai, o que é crime? – perguntou a filha, curiosa, enquanto terminava de comer uma fatia de carne de porco, especialidade da mãe. O pai que não queria tocar muito no assunto com ela respondeu resumidamente.
– São coisas que pessoas más fazem, querida.
– Que coisas? – perguntava mais curiosa.
– Ahm...coisas que as pessoas não gostam. Que deixam elas tristes.
– Ahh, eu não gosto quando os meninos da escola zombam de mim. Isso é um crime?
O pai que não queria entrar em detalhes com a pequena decidiu acabar com o assunto. “Quando você for mais velha você vai aprender melhor”, ele disse mas a garotinha parecia que não queria esperar mais alguns anos para entender estas coisas. Muitas vezes ela falava que era adulta o suficiente para entender tais coisas, mas tudo em vão.
Mudando de assunto, Marco falou sobre a viagem de volta para a vila Kallar, o que deixa a garotinha muito sorridente. Marta já estava quase completamente recuperada então eles decidiram que em três dias eles fariam uma visita para a vila mas após três dias, Marta piorou por razão desconhecida. O marido desesperado porque a febre a esposa aumentava cada vez mais chamou os médicos. Eles tentaram de tudo, mas nada funcionava para diminuir a febre a mulher. A filha também estava muito preocupada com a mãe mas os médicos não a deixavam entrar no quarto para ve-la. Ela queria estar lá com ela e com o seu pai. Não sabia o que fazer até que ouviu uma voz misteriosa sussurrando em seu ouvido. Ela não sabia o que ela dizia, parecia ser uma língua diferente mas depois ela ouviu corretamente. “Eu posso ajudar”, dizia.
– Como? – ela perguntava surpresa.
“Eu posso tirar todo esse sofrimento dela, e o de seu pai também”
– Por favor! Ajude minha mamãe! – gritava em lágrimas – Eu não quero ver a mamãe sofrendo!
“Tudo bem. Eu farei isso”, disse a voz. E menina parecia estar contente agora mas então uma pergunta a deixou confusa. “Mas você está disposta a pagar o preço?”.
– Preço?
“Minha magia irá acabar com o sofrimento de sua mãe e o desespero de seu pai. Mas eu exijo algo em troca”
– Tudo bem! Apenas ajude ela! – chorava.
“Não queres saber das condições?”
– Eu não me importo! Apenas salve ela! – gritou uma última vez.
“Muito bem...”, a voz atendeu o pedido da menina que estava disposta a qualquer coisa para acabar com o sofrimento da mãe. Ela juntava as mãos, rezando para Deus para que salvasse sua amada mãe enquanto um vento de cor azul anil e preto a rodeava com muita força, e aos poucos aumentava cada vez mais. Seus cabelos balançavam para todo o lado. Uma luz forte e azul brilhava debaixo dos joelhos dela, quando ela tentou abrir os olhos viu as tábuas do chão da casa sendo quebrados e os vidros das janelas serem rapidamente quebrados. Ficou preocupada com o que pudesse acontecer aos seus pais no quarto ao lado e rapidamente soltou as mãos e se levantou mas logo quando o fez sentiu uma queimação terrível na barriga. Ela abraçava forte a barriga, tentado fazer com que a dor parasse. Quando finalmente a queimação passou, ela levantou sua camiseta onde estava desenhado um símbolo grande e esquisito que cobria grande parte da barriga. Era um círculo e dentro dele haviam vários desenhos, um grande que deveria simbolizar uma chama ou algo do gênero, e outros menores que também poderiam ser letras antigas. Ela realmente não sabia mas estava completamente assustada.
A ventania de dentro da casa e a luz desapareceram. Os joelhos da menina chorona caíram sobre o chão que mais uma vez tentava com todas as forças se levantar. Ela ouvia as vozes no quarto ainda e eram vozes de alegria. O pai chorava de felicidade por ver a esposa inexplicavelmente bem. Sem poder aguentar tamanha alegria, a pequena loira correu para a porta do quarto dos pais, chorando de felicidade. Assim que ela abriu a porta pode ver o sorriso e as lágrimas deles. O que deixou a menina confusa foi que o quarto não havia sido destruído pela a ventania mas nada importava para ela agora. Ela só queria correr e dar um grande abraço na mãe. E ela foi fazer isso. Saiu correndo da porta em direção a eles. Parecia ser um sonho. Só que não.
“Hora do pagamento”, ouviu de novo a voz no ouvido da menina, fazendo com que a expressão de seu rosto mudasse completamente. Uma expressão de medo.
Ela foi jogada no chão por uma força inexplicável. Os pais que se assustaram e iam tentar socorre-la foram completamente imobilizados. Eles não conseguiam ver mas alguma coisa estava segurando eles ali. Marco sentia como se fossem mãos muito grandes e fortes que o apertavam e o mantinham imóvel. Ele não conseguia pensar. Quando finalmente achou que estava tudo bem, algo bizarro estava acontecendo e então, o pior. Sua esposa começou a fazer gemidos estranhos, quando ele virou o rosto para ela pôde ver que ela estava se contorcendo de uma forma assustadora, com a boca aberta e então seu olhar se voltou para os médicos que estavam da mesma forma que Marta só que era como se alguma coisa estivesse sendo retirada deles através de alguma coisa mas não havia nada. Aos poucos via uma luz pequena e azul saindo da boca deles. As luzes pairaram no ar por uns segundos e rapidamente se dirigiram até a boca de sua filha. Marco ficou aterrorizado. Os médicos caíram no chão e então a próxima luz saiu da de Marta que imediatamente parou de se mexer. Marco ficava cada vez mais desesperado, seus olhos se enchiam de lágrimas. Ele certamente seria o próximo mas antes de disso ouviu uma voz. Uma voz conhecida, que tinha certeza de já ter ouvido três dias atrás na vila de Gabard.
“Eu disse: Eu vi a sua morte...”
O desespero mais uma vez tomou conta de Marco. Agora ele sentia uma profunda dor que vinha de seu estomago. Era como se uma mão fosse enfiada goela a baixo e aos poucos subia. Cada vez que subia, Marco sentia- se como se fosse desmaiar a qualquer momento, ficando fraco, os joelhos querendo cair e sua visão ia escurecendo. Quando finalmente não sentia mais nada dentro dele sua última visão foi a de sua luz, não, sua alma pairando diante dele. Sua alma foi de encontro com a de sua filha que certamente estava inconsciente. A força que segurava Marco em pé desapareceu e ele caiu no chão.
Passando pelas frestas da casa de madeira, surgiu uma sombra a frente da pobre garota. A sombra tomou a forma de um humano. O homem que Marco encontrara na vila três dias atrás mas estava com uma aparência jovial. Sua expressão séria se desfez em um sorriso psicótico.
– É isso que ganha por não escutar as condições, garotinha. – dizia pondo uma das mãos na cintura enquanto olhava a sua volta. – Só 4 almas? – disse agora decepcionado mas reajustou sua postura e em um estalar de dedos fez com que o selo na barriga da menina brilhasse forte. A luz podia ser vista por todos os vizinhos que curiosos foram checar o que era mas mesmo antes de conseguirem se aproximar da casa, uma grande nuvem azul saia das janelas e todos os que se aproximaram sentiram o mesmo que Marco e sua esposa.
– É aqui que o desespero começa.
E um grande show de luzes azuis voaram em direção de uma única pessoa.
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