Susan caminhava pelos escombros no campo fúnebre de batalha de Nárnia, havia corpos mortos por todo canto em que olhava. Corpos mutilados, ensanguentados, com espadas fincadas em seus peitos, além do gramado morto nos seus pés.

As várias criaturas mágicas e os homens de Nárnia haviam travado a sua batalha para salvar as próprias terras, e Susan sentia que ela própria tinha perdido uma, sendo que sequer havia segurado uma espada.

Ela parou e olhou fixamente para o centauro a sua frente, a criatura metade cavalo e metade homem estava com a garganta cortada e os olhos sem vida a encaravam, a espada cortada ao meio repousada no seu flanco e ela não conseguia desviar os olhos do seu corpo já morto, ela sentia pena dele. Sentia culpa.

Ela pensou na vida que ele poderia ter tido se não houvesse morrido nesta batalha, na família que ele perdera e nos familiares que deviam sentir sua falta.

Sabia como era aquilo, havia perdido seus pais e entendia muito bem a sensação de falta, de perder alguém... Se não fossem seus irmãos para ficar com ela, para confortá-la e ajudá-la a passar por aquela situação juntos não saberia o que poderia ter acontecido.

Ela olhou em volta, confusa. Mas onde estavam? Não era para estar ali, com ela? Eles sempre visitavam Nárnia juntos, certo? Então por que ela estava sozinha?

Lucy poderia dar uma gota de seu licor que ressuscita a vida das pessoas para aquele centauro, aquela pobre criatura. E ele poderia viver com sua família novamente.

Ela passou por cima do centauro e continuou andando pelo campo lúgubre, melancólica. Não sabia o que estava acontecendo.

Enquanto olhava para os seus pés e andava, ela pensava. Havia visto, presenciado e participado de várias batalhas, já, então por que se sentia daquele jeito tão... Mal? Tão culpada e cabisbaixa? Ela já havia sido a rainha de Nárnia, sabia como era dar a vida por ela, mesmo se morresse tentando, sabia que não devia estar se sentindo assim.

Mas era diferente naquele momento.

Ela de repente levantou a cabeça, estupefata. Havia ouvido a voz dos irmãos. Ela correu os olhos pelo campo, desesperada para encontrá-los, e lá estavam na sua frente correndo e rindo, como podiam estar tão alegres daquele jeito naquele lugar? Mas eles pareciam não perceber onde estavam, na verdade pareciam nem percebê-la.

Ela disparou em direção a eles, gritando e chamando-os, mas eles pareciam não ouvir. Quanto mais chegava perto mais longe pareciam estar.

De seus olhos brotaram lágrimas, lágrimas de medo e frustração, por que eles não a ouviam? Por que estava ficando tão longe? Suas pernas estavam fraquejando. Apesar de suas vozes estarem chegando apenas por sussurros pelo vento até sua audição, suas risadas martelavam em sua cabeça, eles a haviam esquecido, ela fora deixada para trás.

Ela desabou no chão, fraca. "Não, fui eu que os esqueci, fui eu que os deixei, fora egoísta e egocêntrica e os havia abandonado" ela pensou subitamente e enterrou o rosto nas mãos, caindo aos prantos. Ela lembrara agora, ela havia deixado eles, havia deixado Nárnia, tentara esquecê-la com todas as forças e havia ficado mesquinha, por um simples luxo havia deixado Nárnia, aquelas pessoas haviam lutado por ela enquanto ela havia tentado apenas ignorá-la.

Ela se arrependia, queria seus irmãos de volta, queria Nárnia novamente, queria vivenciar aquelas histórias de Nárnia nem que fosse mais uma única vez com seus irmãos, daria de tudo por isso. Daria até sua própria vida.

Ela se sentia desolada, só e abandonada. Estava desnorteada e não queria mais viver daquele jeito. Ela havia cometido o maior desvio de sua vida.

–Criança, por que choras? -uma voz familiar chegou aos seus ouvidos, ela arquejou. A voz era calma e reconfortante, era aquela voz de que tanto sentira falta, era Aslan. Um arrepio percorreu o seu corpo, estava envergonhada de olhá-lo. O que ele diria se soubesse que tentara até esquecê-lo? Ou pior: de fingir que ele nem existia.

–Susan, você está aqui agora. Você se reencontrou, eu estou aqui. Não se preocupe mais.

A respiração de Aslan chegava até ela quente e suave, como uma brisa de verão depois de um longo período de inverno rigoroso.

Ela ergueu o olhar, cheio de pesar.

–Aslan? -ela sussurrou, incapaz de fazer qualquer outra coisa. Aslan, o leão, estava diante dela, imponente como sempre, mas com as feições amigáveis e compreensivas de que tanto se lembrava.

Ele sorria para ela e arqueou suas sobrancelhas.

–Às vezes temos que cair e aprender a nos levantarmos para podermos aprender a como andar sem tropeços. -ele disse, deitando-se ao seu lado, o seu pelo macio tocava seus ombros dando uma sensação de reconforto, algo de que precisava inexplicavelmente.

–Você sabe? -ela perguntou em um murmúrio trêmulo, olhando-o.

–Sim, criança. Eu sei.

Susan abaixou a cabeça, estava cansada e machucada por dentro, todas as coisas que fizera, todos as palavras que usara para insultar os irmãos quando ficava irritada por um simples prazer vieram a tona e ela desabou em lágrimas novamente.

Aslan ficou lá, apenas com sua presença que já a reconfortava, ela apoiou-se em seus pelos e fungou, viu que Aslan esperava, olhando para o horizonte.

–Eu queria pedir... — ela tentou, mas não sabia como dizer, como ele podia perdoa-la? Depois de tudo que ela fizera?

Aslan virou a cabeça e olhou-a com os olhos brilhando, ele assentiu encorajando-a a continuar.

–Eu queria me desculpar, mesmo que talvez seja tarde demais e Você não as aceite... -ela então disse, com a voz baixa.

Ela sentiu Aslan se remexer e ela enrijeceu-se, ele sentou-se e soprou em seu rosto, deixando-a com uma paz profunda.

–Minha criança, eu não só as aceito como lhe dou mais uma chance de consertar seus princípios, não a culpo nem nunca a culpei pelo que aconteceu a você, tu és sábia e eu sabia que me seguiria novamente, nunca se esqueça de que nunca é tarde para se arrepender e voltar ao meu caminho, eu sempre estarei esperando por isso, agora não se preocupe, que tu serás perdoada.

Susan não conseguia pensar em nada, Aslan havia acalentado seu coração e ela sentia como se todo o peso de suas costas houvesse sumido, ela enterrou o rosto em sua juba e chorou agradecida e sentindo-se novamente como antes. Como a Susan de antes.

–Obrigada, Aslan. Muito obrigada. Eu prometo me esforçar ao máximo e ser melhor. -disse ao se separar, Aslan lhe lançou um olhar sereno e divertido, Susan franziu a testa, receosa, apesar de tudo sentia como se ainda faltasse algo.

Ela olhou para o longe e falou, sem notar.

–Eu queria tanto poder pedir perdão a meus irmãos, por não ter ficado com eles. Será que isso é possível? Afinal, eu ao menos sei onde eles estão agora.

Depois de uma longa pausa, Aslan quebrou o silêncio.

–Não vês onde estás? Não está sentindo isso? Você pode mudar o que aconteceu. -ele disse simplesmente, Susan sentiu o vento em seu rosto, o vento pacífico e puro de Nárnia, sempre sentira falta de estar naquele lugar novamente.

Aslan se levantou e contemplou o céu azul e claro, vívido, bem diferente do campo abaixo.

–Vejo que já está na hora de partir. -ele falou e Susan entristeceu-se, mas não questionou.

–Eu poderei vê-lo novamente?

–Sim, certamente. Você me verá de novo.

– Iremos nos encontrar de novo? Como hoje?

Aslan riu e seu riso reverberou pelo campo vazio, ele voltou-se para ela com os olhos meigos.

–Nunca acontece algo duas vezes igual, minha criança, mas garanto de que na próxima será muito melhor.

Ele andou alguns passos e Susan levantou-se, antes de partir ele virou-se para ela novamente e disse:

–Nárnia sempre estará com as portas abertas e dará boas-vindas para aqueles que acreditarem nela.

Então ele rugiu, um rugido grave e forte que ecoou por todo o vale e despertou a todos que ali se encontravam, o campo reviveu e os mortos que há pouco estavam jogados por ali foram desaparecendo e tudo voltou a viver novamente.

Quando Susan voltou a olhar para onde Aslan estava há segundos antes, ele não se encontrava mais por lá. Susan suspirou e sorriu, olhando o céu.

–Obrigada, Aslan. Obrigada, irmãos.

Antes de acordar, ao longe, ela viu três figuras sobressaltando-se, ela prendeu a respiração, surpresa. Seus irmãos estavam ali, eles corriam e se divertiam junto com os outros seres mágicos que os rodeavam, Aslan apareceu em seu encontro e falou algo para eles, eles viraram-se e olharam fixamente para Susan, ela pensou que nunca a perdoariam, porém para seu espanto eles sorriram para ela e acenaram, mas não como uma despedida e sim como cumprimento, estariam esperando por ela. Aslan sacudiu a juba e rugiu novamente, a imagem ao seu redor ficou turva e se despedaçou e ela acordou, de bruços na mesa onde dormia, estava estudando há poucos minutos antes, seus olhos estavam úmidos e inchados, como se tivesse chorado ali também.

Ela levantou-se e olhou ao redor, ela não sabia como explicar, mas sentia que seus irmãos não se encontravam mais entre ela, eles estavam em Nárnia, rodeado por criaturas mágicas e se divertindo, esperando por mais uma vez vê-la e pudessem se reencontrar novamente.

Mas antes tinha que cumprir sua promessa e para isso tinha que ser forte e esperar.

Não podia decepcionar Aslan mais uma vez. Ele contava com ela. E ela sabia que agora seguia o caminho certo.


Notas finais
Então, o que acharam? Podem criticar ou elogiar, aceito de tudo. ^^
Tenho novas fics no caminho... Quem gosta de Jogos Vorazes? (:
Comentem e me ajudem a melhorar o que for necessário. :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!