O Som da Alma

2 Sobre choro e chuva


Notas iniciais
Okay, vocês foram maus comigo, but, eu resolvi postar mais um capítulo, um maior e mais detalhado para vocês saberem quem é quem. :) E dessa vez, eu realmente só vou postar se vocês comentarem, não conduzirei uma história às cegas e.e Beijos

– Eu estou grávida.

Os lábios bem desenhados de Gabriel Jones se entrabriram. Os olhos azuis naquele tom tão chamativo se arregalaram levemente enquanto ele levava uma das mãos aos cabelos lisos, que entre seus dedos se desalinharam quando o rapaz conseguiu esboçar alguma reação, ainda em choque:

– Grávida, Andy? — Finalmente disse, ainda atônito.

– Eu... — Andy suspirou. Passou a mão pelos cabelos loiros, sem saber bem o que dizer. Estava tão chocada quanto Gabe, nem ao menos conseguia encará-lo, fitando os pés como se eles fossem muito interessantes. — Aquela noite...

Gabe suspirou, agora mais calmo. Passou a mão pelo queixo, sentindo os pelos da barba roçarem na própria mão enquanto assimilava aquilo tudo.

– Sim. — Admitiu, por fim. — Aquela noite. — Comentou, referindo-se à uma das várias noites que ele e a loira à sua frente dormiram juntos, como acontecia há tanto tempo que ele nem contabilizava. Não é como se fossem namorados, era um tipo de sexo casual, algo sem compromisso e sem maiores cobranças. Quando estavam afim, rolava.

O problema é que na noite em questão Andy tinha o procurado por estar com problemas, problemas que causaram frustração e uma agitação que foi prontamente descarregada no sexo. A consequência daquelas horas prazerosas... Bem, ela estava grávida. Tinham evidentemente se empolgado.

Gabe gemeu, suspirante, tendo os pensamentos totalmente interrompidos quando um choro ressoante ecoou pelo apartamento até então silencioso. Antes de levantar-se do sofá, o moreno olhou as horas no relógio da parede.

2h45 da manhã.

Aquilo o fez bocejar, se arrastando pelo corredor escuro. Talvez fosse a calça de moletom puída, ou a regata preta, mas ele parecia absolutamente cansado, muito embora não aquilo não diminuísse em nada a beleza do moreno. Os músculos harmônicos do peitoral definido era visíveis sob o tecido da camisa, assim como os braços fortes que pendiam lado a lado do corpo do rapaz quando ele entrou no quarto, sentindo a cabeça doer quando o choro tornou-se ainda mais alto sob seus ouvidos.

Suspirante, Gabe encaminhou-se até o berço perto da parede e pacientemente pegou o pequenino bebê que chorava de forma angustiante. Era até um pouco cômico de observar que em meio àqueles braços enormes e fortes, o bebê encontrou uma forma se aninhar enquanto o moreno o embalava suavemente.

– Ei campeão, ssh, não chore. — Murmurou, passando os dedos de forma singela pelos ralos cabelos da criança, tão pretos feito os seus. De alguma forma, o choro diminuiu com aquele gesto. Gabe sorriu, abobalhado, enquanto observava o filho voltar os enormes orbes azuis, como os seus, em direção ao rosto dele, embora ainda chorasse. — Ssh, acalme-se. — Murmurou, e depositou um pequeno beijo na testa do bebê enquanto o embalava de um lado a outro do quarto, pacientemente.

Muitas coisas tinham mudado naqueles seis meses, a começar pelo filho que ele tinha nos braços, James Wilshire Jones. Aquela pequena criaturinha que agora tinha se aquietado em seus braços tinha feito sua vida mudar de água pro vinho e bem, ele já não era o mesmo. Aquilo era algo notável só pela maneira que Gabe segurava James, sendo tão cuidadoso quanto podia ser para um pai solteiro.

Porque sim, apesar de ter gestado James por nove meses, bastou Andy dar a luz para simplesmente desaparecer, e pelos deuses, só Gabe sabia o quanto sua vida tinha mudado desde então. As constantes discussões entre ele a loira iniciaram logo cedo, quando ela quis abortar e Gabe a fez jurar que não o faria. Eram adultos e tinham que assumir suas responsabilidades, embora Andy, ou Andrea, que era o nome real da garota, tivesse evaporado da maternidade antes mesmo que Gabriel pudesse vê-la.

Fora duro. Muito duro. Se um bebê saudável já dava trabalho, imagine um sem a mãe. Com alguma ajuda dos pais, felizmente Gabe havia dado conta, embora não fosse nem um pouco fácil. As noites em claros, tantas e tantas, tinham lhe feito sair da banda. Era normal vê-lo com olheiras escuras que se formavam abaixo dos brilhantes olhos azuis quando ocorriam situações exatamente como aquelas, de Jamie acordar no meio da madrugada chorando desesperadamente de tempos em tempos, embora estivesse alimentado e sem necessidade de trocar as fraldas. O pediatra havia dito que talvez a ausência da mãe explicasse a carência do pequeno Jamie.

Gabe suspirou, inclinando-se de forma cuidadosa para colocar o filho dentro do berço, apoiando-se no móvel em seguida. Foi impossível não sorrir quando viu o bebê estender os bracinhos para tocar as pequenas estrelas que pendiam acima do berço, uma distração para a agitação. Estendeu o dedo indicador e deixou que Jamie o agarrasse, risonho.

– É hora de dormir, campeão. — Murmurou, vendo o pequeno bocejar. — Amanhã tenho que acordar cedo, temos um dia comprido e sua vó vai vir buscá-lo logo cedo. — Sussurrou, vendo os olhos azuis do filho observarem-no de forma curiosa. Abriu um enorme sorriso e então passou os dedos pelos cabelos pretos e ralos novamente. — Boa noite.

Deixou o quarto alguns minutos depois, quando o filho já dormia, sentindo-se extremamente cansado. Para sua sorte ele tinha o apartamento próprio antes mesmo de Andy engravidar, portanto morava ali com o filho sem maiores problemas, sempre tinha sido independente. Depois de sair da banda, tivera que abandonar a carreira musical em ascensão para dedicar-se ao filho e agora trabalhava num café que havia ali próximo, cuja dona, uma mulher madura, tinha sido bondosa de compreender a situação e aceitá-lo como empregado, mesmo que ele tivesse que cair correndo as vezes ou em raras ocasiões precisasse faltar.

Gabe suspirou novamente, largando-se na cama. Não demorou para pegar no sono. Estava exausto.

XxX

Era pouco mais do que nove da manhã quando um grito ecoou pelo ar, assustando os pássaros que tranquilamente estavam sob os fios elétricos do pequeno bairro:

– LUKE, VOLTE JÁ AQUI, SEU PESTINHA! — Os passos rápidos e descoordenados faziam os pés femininos se afundarem na lama, enquanto a garota de expressão raivosa corria pela grama. — ANNIE, NÃO VÁ COM ELE, NÃO... ANNIE!!!!

Aquela era Lorens Hayes. Mais: aquela era Lorens Hayes correndo pelo quintal enorme e verde depois de uma chuva, perseguindo duas pequenas pessoas que riam dela escandalosamente, afundando os pés (descalços) na lama proveniente da chuva que tinha caído poucos minutos antes.

– Olha a cara da tia Lorens!!! — Luke, o pequeno loirinho de olhos azuis, corria pelo jardim apontando para a mulher que o perseguia, se atrapalhando para manter-se em pé no meio daquela lama toda. — Olha Annie!

– Ela parece o Hulk! — Annie berrou, na outra extremidade do jardim, saltitando pela grama verde e marrom. — Ei tia Lorens, você está ficando verde! — A menina gritou, risonha.

Lorens a olhou feio. A franja grudava na testa úmida, o rabo de cavalo há muito tinha deixado de ser um rabo de cavalo, grudando em sua nuca, e ela não conseguia dar conta de cuidar daqueles dois pestes, Luke e Annie Summers, filhos dos vizinhos. Ela cuidava deles as vezes, quando precisava de grana e Scar não estava em casa, e embora falhasse miseravelmente em controlar as duas crianças, ambas com sete anos de idade, aqueles dois pivetes viviam dizendo que a adoravam.

– Droga. — Murmurou, cansada, quando viu os dois loirinhos pularem em poças de água se agitando enquanto empurravam um ao outro. — Onde diabos está Scar? — Questionou a si mesma, olhando para o céu de cenho franzido quando um trovão ressoou quebrou as risadas infantis no ar.

Foi outra agitação sem igual, pois os dois morriam de medo de trovão. Lorens não sabia como as pessoas gostavam de crianças, porque ela sinceramente queria sair correndo e gritando a cada hora que passava com Luke e Annie. Teve que os colocar para tomar banho, cantando músicas infantis e tendo toda paciência do mundo em explicar porque existiam trovões. Estava no meio da explicação, enquanto secava o cabelo de Annie, tentando fazê-los abstrair da chuva pesada que caía, quando a porta da frente se abriu e a salvação de Lorens entrou, encharcada e pingando.

– Scar! — Berrou, aliviada.

– Tia Scar!!!!! — Annie e Luke deixaram Lorens para trás para atirarem-se nas pernas da garota que tinha entrado, abraçando-a.

– Pilantrinhas. — Lorens resmungou.

– Ei pessoinhas. — Uma Scar alegre os cumprimentou, agachando-se para abraçar os dois pequenos.

Aquela era Scarlett Evans. Com longos cabelos castanhos (agora molhados) que lhe alcançavam a cintura, aquela era Scarlett Evans. Agachada devia ter uma altura bem inferior aos seus 1,70 de altura de quando estava em pé, embora aquilo não fosse a única coisa que chamava atenção nela. Scar possuía um rosto tão simétrico que era impossível não se deslumbrar por alguns segundos quando ela surgia, animada. Os olhos tinha uma cor exótica, um verde esmeralda que se fundia à delicada coroa alaranjada que ela tinha em torno da pupila suavemente.

– Onde estava? — Lorens, agora largada no sofá, questionou.

– Eu... — Scar espirrou. — Droga. — Praguejou. — Eu estava na agência de empregos. — A morena explicou, aproveitando que Luke e Annie tinham a liberado para ficar em pé para amarrar os cabelos molhados num coque embaraçado.

– Por isso o vestido? — Lorens questionou, observando que a amiga usava um jeans mais comportado, camisa social e salto alto.

– Yep. — Scar respondeu, dando ombros, e então inclinou-se para a enorme mochila que carregava nas costas, voltando-se para Luke e Annie. — Quem quer desenhar?! — Perguntou, animada.

– Eu, eu!!!! — Luke e Annie imediatamente correram para a mesinha de centro da sala, que para eles servia como uma mesa normal, sentando-se comportadamente enquanto Scar distribuía folhas de sulfite e giz de cera aos dois.

Lorens observava à cena de forma abismada. Os olhos verde-oliva dela acompanhavam a tudo atentamente.

– Que tipo de bruxa é você? — Perguntou, abismada. — Eu estou a três horas tentando fazer isso.

Scar espirrou mais uma vez, antes de rir e responder:

– Faça parte de uma família de quatro irmãos e saberá. Aliás — A morena caminhou até a cozinha. — Viu se tem cookies no armário?

Lorens abriu um enorme sorriso, dando um pulo do sofá, enrolada numa toalha enquanto saltitava até a amiga.

– Scar, você não existe.