O Som Que Me Leva Até Você
7 Entre Mundos
Os dias seguintes se desdobraram como um sonho perigoso.
O que começou com trocas discretas de olhares e mensagens sussurradas na madrugada transformava-se aos poucos em uma rotina clandestina, intensa e arrebatadora. Hiashi havia viajado a negócios, ficaria fora por um bom tempo. Então, usando a desculpa de intensificar os ensaios de violoncelo e cumprir compromissos sociais da família, Hinata aprendeu a driblar a vigilância rígida da mansão. Eles se encontravam onde era possível: em pequenos cafés afastados, no terraço do estúdio que ela frequentava... A timidez dava lugar a uma coragem nova, alimentada pelo desejo urgente e incontrolável de estar com Naruto.
Em um desses dias, ela cruzou a porta do galpão de mãos dadas com Naruto, os dedos entrelaçados nos dele com firmeza enquanto a outra mão segurava o case de veludo do violoncelo. Os nós de seus dedos estavam levemente trêmulos de puro nervosismo; afinal, estava prestes a entrar no universo da banda que era a maior paixão da vida dele.
O espaço, no entanto, a surpreendeu imediatamente. Longe de qualquer ambiente caótico, o estúdio ensolarado e adaptado era extremamente acolhedor e intimista. Lâmpadas de luz amarelada e cordões de luzes pisca-pisca pendurados no teto criavam uma atmosfera quente. O chão era coberto por tapetes antigos e sobrepostos para abafar o som, e o ar trazia um aroma de café recém passado e madeira. As paredes exibiam discos de vinil e guitarras penduradas com cuidado. Era o refúgio perfeito.
— Fica tranquila, eles não mordem — Naruto sussurrou ao pé do ouvido dela, apertando sua mão com carinho antes de anunciar para o recinto: — Galera, essa é a Hinata.
Shikamaru parou de ajustar a chave de afinação do bumbo, ergueu uma das mãos em uma saudação preguiçosa e soltou um sorriso divertido:
— Então você é a famosa dona do coração do nosso vocalista? — ajeitou o coque no alto da cabeça. — Seja bem-vinda, Hinata. Se você fizer esse aloprado parar de errar a entrada do segundo refrão, a casa é sua.
Sai, acomodado numa poltrona confortável no canto com um bloco de folhas no colo, mal ergueu os olhos do desenho rápido que fazia, mas comentou com sua costumeira análise tranquila:
— O tom da voz do Naruto subiu cerca de três semitonos e ele não para de sorrir desde que te conheceu. É uma alteração fisiológica bastante curiosa.
— Cala a boca, Sai! — Naruto protestou, ficando vermelho, o que fez Shikamaru rir alto.
Foi então que Sasuke se aproximou. Ele encostou a guitarra no suporte com cuidado e caminhou até eles. O olhar do moreno era atento, mas não havia hostilidade ali; ele cumprimentou Hinata com um aceno respeitoso e uma gentileza genuína, oferecendo um sorriso brando que desarmou ainda mais a garota.
— Seja bem-vinda, Hinata. O Naruto fala muito de você — Sasuke disse, a voz baixa e polida. — Fique à vontade. O café é do Shikamaru, então está bom.
— Obrigada, Sasuke... é um prazer enorme finalmente conhecer vocês — Hinata respondeu, a voz doce transparecendo a alegria sincera de estar ali.
Aos poucos, a tensão nos ombros de Hinata derreteu por completo. Eles a acomodaram em um sofá macio de couro no centro da sala, oferecendo uma caneca quente.
Quando a banda começou a passar o repertório, a transformação no ambiente foi mágica. O som fluía com uma cumplicidade absurda. Quando Naruto agarrou o pedestal do microfone e soltou a voz — limpa, forte e transbordando um sentimento cru —, o peito de Hinata estremeceu. A música deles era viva. Diferente das suas longas horas de treino solitário no violoncelo, ali a melodia não vinha da obrigação, mas do prazer puro de criar.
A liberdade daquele lugar era contagiosa. Um desejo profundo acendeu em seu peito: a vontade de tirar o instrumento do case e juntar seu som ao deles, sem medo de errar, sem medo de repreensões...
— Ela é incrível, Naruto. De verdade. Dá pra ver o quanto é uma pessoa pura — Sasuke começou. a cautela dele ainda permanecia viva. O guitarrista admirava a doçura de Hinata e via claramente a luz que ela trouxera para a vida do amigo nesse tempo que passavam juntos. Porém, quando os ensaios acabavam e a garota ia embora, seu pragmatismo falava mais alto. Cruzando os braços e mantendo o tom sério, porém amigo. — Mas você sabe em que terreno tá pisando? O sobrenome Hyūga não é brincadeira, eu já te falei. Se o pai dela descobre isso aqui... ele destrói esse estúdio e acaba com a nossa banda num estalar de dedos.
— Eu sei do perigo, Sasuke — Naruto respondeu, a expressão ficando séria e convicta. — Mas a Hinata não é o pai dela. Pela primeira vez, eu sinto que tô escrevendo algo de verdade, sabe? Eu não vou deixar nada nem ninguém fazer mal pra ela, nem estragar o que a gente tá construindo na banda. Fica tranquilo.
Sasuke suspirou, dando um tapinha no ombro do loiro. Ele via a sinceridade nos olhos de Naruto, mas no fundo sabia que quando mundos tão opostos se chocam, o impacto raramente deixa algo inteiro.
...
No quarto de casal, o silêncio da noite só era quebrado pelo som suave de Tenten desfazendo o penteado em frente à penteadeira. Neji estava de pé junto à janela, observando o jardim iluminado, com as mãos nos bolsos da calça social.
— Até quando você vai continuar cobrindo as escapadas da Hinata, Tenten? — Neji soltou a pergunta de forma pausada, sem se virar.
Tenten não piscou. Continuou escovando os cabelos com calma, olhando o reflexo do marido pelo espelho.
— Não sei do que você está falando, querido.
Neji virou-se devagar, caminhando até a penteadeira com passos firmes. Ele se inclinou ligeiramente, apoiando as mãos na borda do móvel e encarando Tenten através do espelho.
— Não tente me fazer de bobo — Neji continuou — Sei o quanto ela confia em você e como você usa essa posição de companheira impecável para criar o álibi perfeito. Eu conheço a minha prima e conheço você, Tenten. A Hinata mudou. Ela sorri olhando pro celular, a agenda de ensaios dobrou misteriosamente e você está acobertando cada passo dela. Você também é uma filha de família, sabe o valor que o sobrenome tem pro meu tio, e é só por isso que ele permitiu que você ensinasse música à Hinata e logo depois, nosso casamento. E agora você quebra essa confiança assim?
Tenten virou-se na cadeira, encarando-o de frente. O olhar dela sustentou o dele com uma firmeza polida, sem jamais confirmar uma única suspeita.
— Você fala do seu tio como se ele fosse um santo protetor, Neji — Tenten rebateu, o tom baixo e ironicamente afiado. — Você sabe melhor do que ninguém o quanto essa casa é sufocante. Se a Hinata está finalmente demonstrando um pouco de paixão pela própria música e pela própria vida, em vez de ser só a herdeira obediente que o seu tio moldou, qual é o problema? Ela só está aprendendo a andar com os próprios pés. E como amiga dela, eu jamais vou atrapalhar isso.
Ela se aproximou dele, o tom desafiador voltando a se misturar com a química inevitável entre os dois. Ajeitou a gola da camisa de Neji com uma leveza provocante, roçando os lábios no pescoço dele antes de sussurrar perto do seu ouvido:
— Em vez de gastar esse seu intelecto genial tentando inventar teorias sobre a Hinata... Por que não foca um pouco na sua esposa? Você tem passado muito tempo na empresa, estou com saudades...
Por um segundo, a postura analítica de Neji ameaçou ruir diante da audácia dela. Ele fechou os olhos, respirou fundo e segurou a cintura de Tenten com firmeza, puxando-a para junto de si para impedir que se afastasse. A expressão em seu rosto perdeu a rigidez, dando lugar a uma preocupação genuína e dolorosa.
— Não é um jogo, Tenten — Neji murmurou, a voz grave e baixa contra os lábios dela. — O meu tio não é cego. Ele pode estar fora, distraído com os negócios agora, mas assim que notar a menor falha, vai investigar até as últimas consequências. E quando ele descobrir o que quer que vocês estejam escondendo... a Hinata não vai ser a única a pagar essa conta. Você também vai estar no meio do fogo cruzado.
Tenten desfez a expressão provocativa por um breve instante, sentindo a sinceridade crua na fala do marido. Neji a olhou nos olhos, antes de beijá-la, deixando a dúvida e o perigo rondando o quarto do casal.
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