Notas iniciais
Ooooi! Mais um capítulo pra vocês!

O som grave da guitarra ressoou pelas paredes revestidas do galpão, casando-se perfeitamente com a linha de baixo melódica de Sai, o violão de Naruto e a batida precisa de Shikamaru. Quando o último acorde morreu no ar, Shikamaru deixou as baquetas caírem sobre a caixa da bateria, soltando um assobio impressionado.

— O que foi isso, cara? — Shikamaru perguntou, passando a mão pelo cabelo. — A transição da ponte pro refrão ficou absurda. Não parece nada com as coisas mais agressivas que a gente vinha compondo.

— Tem uma sensibilidade diferente aqui — Sai comentou, ajustando o instrumento no suporte enquanto analisava o amigo com seu olhar afiado. — Menos raiva, mais... contemplação. De onde veio essa melodia?

- Não sei, ainda estou encaixando a letra... – respondeu o loiro sem graça.

Sasuke, encostado num dos amplificadores com a guitarra no colo, apenas observava. Ele notara o amigo aéreo durante todo o ensaio, tocando com uma entrega quase urgente.

— Só estou inspirado, sei lá... — Naruto passou a mão pela nuca, subitamente desconfortável com a atenção e olhar de Sasuke. — Fui naquele evento que o Jiraiya pediu. Tinha uma garota tocando violoncelo lá. A música dela me deu o estalo que faltava pra conseguir compor essa música.

A revelação caiu como uma piada pronta no estúdio.

— Uma celista? — Shikamaru riu, balançando a cabeça. — O nosso vocalista tá buscando inspiração nos eventos da alta sociedade agora? Se cuida, cara, daqui a pouco tá trocando a jaqueta de couro por um violino.

— E pelo visto a moça não tocou só o instrumento, tocou a alma do nosso compositor também — Sai completou com sua costumeira franqueza sem filtro.

— Calem a boca, vocês dois — Naruto retrucou, embora a ponta das orelhas vermelhas o entregasse completamente. — Foi só uma conversa rápida no terraço. Apenas isso.

Sasuke continuou em silêncio, apenas acompanhando a tentativa frustrada do loiro em mudar de assunto. Ele conhecia Naruto bem demais para saber quando algo realmente o pegava de surpresa.

Mais tarde naquela mesma noite, o barulho do galpão dera lugar ao silêncio calmo da cobertura de Naruto. Longe das obrigações dos jantares de gala e do público cada vez mais crescente da banda, aquele era o único refúgio entre os dois mundos.

Ele transitava entre dois polos de sua vida; num deles ele era Uzumaki. Esse era o Naruto vocalista e compositor de uma banda, amigo leal... Essa era a parte de sua vida que ele mais amava. Mas, em contrapartida, ele também tinha seu outro sobrenome, vindo do seu pai. Ali, naquele extremo oposto estava o herdeiro da Namikaze Corporation, o que ninguém sabia quem ou como era. Que, por segurança, vivia nas sombras, silenciosamente odiando tudo o que tinha praticamente tirado os pais dele...

A brisa fria da noite entrava pela ampla varanda, enquanto Naruto e Sasuke dividiam algumas garrafas de cerveja, encarando as luzes distantes da cidade lá embaixo.

— Quer me contar o que realmente aconteceu? — Sasuke quebrou o silêncio, dando um gole na bebida. — Você tá com a cabeça longe desde a hora que pisou no ensaio.

Naruto suspirou fundo, apoiando os cotovelos na mureta e encarando o gargalo da garrafa. O tom defensivo de mais cedo deu lugar a uma honestidade nua e crua. Sasuke era seu melhor amigo desde que podia lembrar.

— O nome dela é Hinata — Naruto soltou, a voz baixando. — Hinata Hyūga.

Sasuke parou a garrafa no meio do caminho até a boca. Os olhos escuros se fixaram em Naruto com uma gravidade imediata.

— Hyūga? — Sasuke repetiu, a voz calma, mas carregada de reconhecimento. — A celista do evento era a filha dos Hyūga?

Naruto olhou para o amigo, surpreso.

— Você conhece a família?

— A Sakura conhece — Sasuke explicou, referindo-se à namorada, que trabalhava como jornalista investigativa. — Ela fez uma matéria extensa sobre o império Hyūga há alguns meses e passou uma semana inteira falando sobre isso lá em casa. O patriarca, Hiashi, é um sujeito implacável. Leva a família com uma mão de ferro que beira o doentio. Tudo gira em torno de manter o nome da família no topo absoluto, coisa de lunático.

Naruto ouvia em silêncio enquanto Sasuke continuava, desconstruindo a estrutura do clã:

— O Neji, o sobrinho dele, é o queridinho do mundo corporativo. Assumiu os negócios e levou as empresas ao topo. A irmã mais nova da Hinata, Hanabi, nem terminou a faculdade ainda e já é vista como uma advogada brilhante. E a Hinata... a Sakura disse que ela é o prodígio musical da família. A garota foi modelada desde pequena pra ser a imagem da perfeição. Sem escândalos, sem deslizes, sem vida pessoal fora do roteiro do pai.

Um suspiro pesado e longo escapou dos lábios de Naruto. Ele deu um longo gole na cerveja, sentindo o peso daquela realidade cair sobre os seus ombros. Uma família tradicional e rígida como a de Hinata significava problemas em escala monumental — especialmente para um rapaz que, aos olhos do mundo de Hiashi, não passava de um vocalista rebelde de uma banda de bar.

Ainda assim, ao fechar os olhos por um segundo, Naruto não conseguia ver os milhões do império Hyūga ou as ameaças de um pai austero.

Ele só conseguia se lembrar da serenidade daqueles olhos perolados sob o luar do terraço. Do riso delicado e contido quando ele fez uma piada sobre qualquer coisa. Da eletricidade palpável e avassaladora que fez a pele dele queimar no momento exato em que seus dedos roçaram os dela para entregar o pedaço de papel.

— Eu sei que é complicação pura, Sasuke — Naruto murmurou, encarando a noite com um olhar denso e determinado. — Mas eu não consigo simplesmente fingir que aquela conversa não aconteceu. Eu nunca senti nada parecido.

— Se o pai dela descobrir, ele vai tentar atropelar você, Naruto. E se você não puder usar o nome do seu pai pra se defender sem expor quem você realmente é, o jogo fica bem mais sujo.

— Eu sei — Naruto respondeu, os olhos azuis faiscando com aquela teimosia e impulsividade que só apareciam quando algo realmente valia a pena. — Mas eu tô disposto a pagar pra ver.

Sasuke encarou o amigo por mais alguns segundos, a expressão séria desarmando-se sutilmente. Ele conhecia a teimosia do loiro — quando Naruto colocava algo na cabeça, principalmente algo que tocava sua alma com tanta força, não havia lógica no mundo que o fizesse recuar.

— Então toma cuidado — Sasuke alertou, o tom de voz calmo, mas carregado de uma gravidade protetora. — O Hiashi joga pesado para manter a imagem da família limpa. Se essa história avançar, o impacto não vai ser só em cima de você. A Hinata é quem tá debaixo do teto dele, sob a pressão de corresponder a tudo o que ele exige. Não estrague a vida dela... e não destrua o seu próprio coração no processo.

As palavras de Sasuke caíram com o peso da verdade no silêncio da varanda. Naruto não respondeu de imediato. Ele apenas encarou o horizonte ilimitado da cidade, o reflexo das luzes dançando nos seus olhos azuis enquanto assimilava a responsabilidade do que estava prestes a começar.

Ele ergueu a garrafa num gesto silencioso de concordância, assentindo devagar para o melhor amigo, e deu um longo gole na cerveja fria.

O aviso estava dado, mas a lembrança do toque suave dos dedos de Hinata na sua mão já era uma marca impossível de apagar.

Sasuke despediu-se com um aceno discreto e deixou a cobertura, deixando o silêncio da noite tomar conta do lugar.

Naruto caminhou até a sala e pegou o celular sobre a mesa de centro, com a intenção inicial de finalmente checar os e-mails corporativos urgentes que vinha adiando durante todo o dia — relatórios e aprovações do império, que Jiraya insistia que ele lesse e assinasse.

No entanto, antes mesmo que pudesse abrir a caixa de entrada, a tela do aplicativo de mensagens chamou sua atenção. Havia uma notificação no topo, vinda de um número não salvo.

Seu peito deu um salto instantâneo, e o coração pareceu falhar uma batida no mesmo segundo. Uma ansiedade urgente o fez desbloquear a tela sem hesitar.

A mensagem era curta, elegante e precisa, mas o efeito que causou nele foi avassalador:

"Boa noite, Naruto. Aqui é a Hinata. Guardei o seu número, como prometi no terraço... Espero que seu caderno ainda esteja cheio de boas ideias."

Um sorriso genuíno e inevitável desarmou o rosto do loiro no mesmo instante. Ele encarou aquelas poucas palavras na tela iluminada, sentindo a mesma eletricidade do terraço percorrer suas veias, sabendo que, a partir daquele momento, não haveria mais volta.



Notas finais
Espero que tenham gostado. Se gostaram me deixe saber! Até o próximo!