O Som Do Coração
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Já agora, obrigada por todas as reviews que têm deixado, são uns amores.
Após entregar os arranjos daquele dia, Luciano seguiu cabisbaixo até a pensão.
Bella, que estava ao fogão, veio lhe dar as boas-vindas e estranhou suas feições tristonhas.
– O que foi, Luciano? – questionou e tomou-lhe o rosto com ambas as mãos, apertando-lhe as bochechas e as puxando para os lados, tentando fazê-lo sorrir – Estás com fome? Saíste sem comer nada...
– Hn. – ele sorriu – Só estou cansado. – murmurou e riu ao ter as bochechas apertadas para o centro do rosto, lhe forçando a fazer um biquinho – E não, estou sem fome.
A belga fez um bico e franziu o cenho.
– Tens de comer--
– Mas eu não estou com fome~ – riu e abraçou a loira – Vamos, não faça essa cara.
– É a minha única cara~ – sorriu e deu um pequeno gritinho ao ser erguida do chão e rodada.
Hansen, que também chegava da rua naquele momento, apertou as mãos em punho ao ver a cena no corredor. Os mais jovens estavam próximos, e pareciam íntimos.
– Boa noite. – o holandês disse num tom áspero.
Luciano e Bella olharam para o loiro, e a belga pediu para voltar para o chão. Quando o brasileiro o fez, ela correu até o irmão.
– Boa noite~
O moreno sorriu perante a cara ranzinza de Hansen e subiu para tomar um banho quente e relaxante.
Debaixo da água, os pensamentos de Luciano se alternavam na simpatia de Michelle, na frieza de Martin e nos olhos de Afonso. Ele realmente desejava que o jantar com Arthur desse certo e que eles se resolvessem.
Porém...
– Luciano? Onde vais? – ouviu Bella questionar quando passou correndo pela porta da cozinha.
Apenas por educação, avisou, já na porta de frente.
– Vou dar uma volta. Espairecer. – sorriu, ajeitando o estojo do violão sobre os ombros.
– M-mas e o jantar?
– Eu como alguma coisa na rua! – avisou e saiu, fechando a porta.
Luciano não estava sentindo-se bem. Ele tinha uma sensação desagradável no peito e optou por caminhar e ver se as coisas se ajeitavam. Era uma mania sua passear junto de seu violão, pôr os pensamentos em ordem e tocar em alguma praça.
Quando deu por si, passava pela rua de Afonso. As luzes estavam acesas, mas ele não via o – belo – carro de Arthur. Por curiosidade, tocou a campainha.
Podia sempre arranjar uma desculpa... podia dizer que chegaria um pouco mais tarde no dia seguinte... podia inventar qualquer coisa.
O lusitano tinha perdido a fome e deixou a comida intocada sobre a mesa. Odiava chorar porque lhe deixava os olhos vermelhos e porque sempre ouviu dizer que “os rapazes não choram”. Como já não ia fazer mais nada nessa noite, decidiu tomar um duche rápido e vestir uma t-shirt e calças de fato de treino velhas – já que a lareira deixava a sala quente o suficiente para andar assim– e deixou o cabelo solto, ainda a pingar um pouco.
Quando voltou à sala, vinha mais destroçado ainda e com os olhos um pouco inchados de ter chorado. Odiava-se por isso. Odiava-se por levantar as suas próprias esperanças que não davam em nada.
Ouvir a campainha realmente o deixou perplexo porque não contava com visitas, nem mesmo António, que ligava sempre antes de aparecer.
Esfregou os olhos rapidamente no antebraço e foi abrir.
– Luciano?
Luciano estava para desistir daquela loucura quando Afonso abriu a porta. A primeira coisa que o brasileiro reparou foi nas vestes do mais velho: estava acostumado a vê-lo sempre tão bem vestido, com os cabelos presos e as roupas bem alinhadas, e deparar-se com um português mais caseiro e com os cabelos soltos fez Luciano corar.
Afonso era muito mais bonito do que ele achava.
– Ah... O-oi, chefi-- Afonso! – ele forçou um riso, acanhado – E-eu estava passando e resolvi dar um “oi” e... – então, Luciano notou que Afonso tinha os olhos inchados – Afonso? Está tudo bem? Você andou chorando? – questionou enquanto segurava o menor pelos ombros.
Desviou o olhar e balbuciou:
– N-Não. Foi... Uma alergia...
– Alergia? – piscou e se afastou – Alergia de que? Não me diga que você tem alergia à avelã! Eu pus um pouco no café para dar sabor!
Afonso pestanejou, o que fez algumas lágrimas escorrerem pelas suas bochechas involuntariamente.
– Não... D-Deve ser ao pólen dos pinheiros.
Luciano mordeu o lábio inferior e segurou o rosto de Afonso, usando os polegares para limpar suas lágrimas.
– Afonso... Tomou algum antialérgico? Não está com febre? – encarou-o nos olhos – Eu posso ir na farmácia se você quiser, mas não pode ficar assim.
Engoliu em seco, desviando novamente o olhar para o chão.
– Não, já passou. O vento já levou o polén daqui.
Arrepiou-se e estremeceu um pouco quando a brisa gelada da noite acentuou.
Luciano estalou a língua.
– Você está tremendo. Olha, coloque um casaco e tome um chá, ok? – sorriu ternamente – Eu vou na farmácia e trago um remédio...
Afonso suspirou.
– Está frio cá fora, só isso. – esfregou os seus braços e puxou Luciano para a sala quentinha, fechando a porta de seguida.
– M-mas o remédio... – ao ser puxado, Luciano ficou nervoso – S-seu jantar. Não quero estragar o seu jantar. – olhou apressado para todos os lados – Me desculpe, eu não devia ter vindo.
– Não tem mal. – murmurou antes de voltar costas ao brasileiro e ficar à frente da lareira para se aquecer.
Luciano mordeu o lábio inferior, nervoso.
Havia algo de errado ali.
– Afonso... O que houve? Você não teve uma crise alérgica, não é?
O mais velho deu de ombros e ficou a observar as chamas.
– Não foi nada de importante.
O brasileiro suspirou e retirou o violão das costas, ajeitando-o em seu ombro em seguida e pondo-se a tocar e cantar:
“Cai a noite na cidade
Vinda de lugar nenhum
E o dia vai embora
Indo pra lugar algum...
Não sentia fome
Não sentia frio
Sentado num canto
De um quarto vazio...”
Afonso sentou-se no chão, para se aquecer melhor, e continuou a olhar para o fogo mas concentrado na voz de Luciano, que de alguma forma, o encarava.
Luciano não entendia o estado de Afonso. Percorreu o olhar pela casa e, ao não ver Arthur, imaginou que o britânico tinha dado o bolo e não vindo para o jantar. Ah... aquela mesa estava tão bonita. E o cravo, tão bem posto no meio da mesa.
“Quando a chuva cai
Nas noites mais solitárias
Lembre-se que sempre...
Sombras e pensamentos
De um sonho só esperança
Nas paredes ecoavam
O silêncio e a lembrança...”
O lusitano dobrou as pernas e apoiou o queixo nos joelhos, fechando os olhos de seguida para evitar chorar novamente.
Porém, devido a posição que Afonso tomara e as sombras que as labaredas faziam no pequeno português, para Luciano parecia que o mais velho chorava, e ele não sabia mais o que fazer.
Enquanto se aproximava de Afonso, prosseguia com a canção:
“Quando a chuva cai
Nas noites mais solitárias”
Luciano parou de tocar seu violão, retirou-o do ombro e o pousou o instrumento sobre o sofá. Antes que Afonso pudesse reclamar, o brasileiro ajoelhou-se à sua frente e o puxou para um abraço apertado e carinhoso, quase sussurrando as últimas palavras da estrofe:
“Lembre-se que sempre
Estarei aqui”
Afonso abriu os seus olhos e pestanejou surpreso ao ser abraçado. Luciano era tão... delicado.
Retribuiu o abraço e escondeu-se no peito do mais novo, soluçando baixo.
Assim que sentiu os braços de Afonso enlaçando seu tronco, e as mãos dele apertando um punhado da sua jaqueta, Luciano suspirou e fechou os olhos, apertando o abraço e acomodando o português entre suas pernas quando deixou-se escorregar e sentou-se no chão.
Afonso não queria chorar novamente, não em frente a outra pessoa. Mas era tarde demais para isso agora.
Mordeu o lábio inferior para não soluçar alto e apenas soltou um braço para esfregar os olhos.
Luciano nunca sabia o que fazer quando alguém chorava. Era um de seus pontos fracos ver alguém que ele gostava muito triste, e ele geralmente estagnava, perdido.
– Chora... Põe pra fora... – acariciou os cabelos soltos de Afonso, surpreso com a maciez dos fios compridos, e respeitou a decisão de Afonso de ficar quieto e esconder o rosto – Minha mãe sempre disse que chorar faz bem. Limpa a alma.
O lusitano retomou o abraço e pousou o queixo no ombro de Luciano.
– Eu não estou a chorar... – murmurou.
O brasileiro deu um riso nervoso.
– Desculpa. – beijou a bochecha de Afonso, várias e várias vezes, inocente – Mas devia. Não presta guardar dentro da gente o que nos faz mal.
– M-Mas ele não me faz mal... – disse num tom quase infantil e apertou o brasileiro, virando um pouco a cabeça para que ele continuasse o carinho no seu cabelo.
Soluçou mais uma vez e voltou a esconder o rosto.
– Ele? – Luciano piscou – Chefinho, estou falando sobre segurar o choro. – sorriu de canto e moveu o carinho até a orelha de Afonso.
– E-Eu estava a falar do A-Arthur... – disse baixo, fechando os olhos em contentamento. Relaxou no abraço e acalmou um pouco.
– Suspeitei. – suspirou outra vez, seus dedos acariciando entre a orelha e o pescoço de Afonso – Ele não veio, né? Aconteceu algo? Ele adoeceu?
Tentou encostar-se à mão dele porque o carinho era bom e Afonso gostava que lhe mexessem naquela zona.
– N-Não...O Francis... Bem... A pessoa que ele gosta convidou-o para jantar hoje e ele aceitou então... Teve de desmarcar comigo.
– Ah... – o moreno suspirou, entendendo o recado de que devia prosseguir com o carinho – Sinto muito. É ruim a gente gostar de alguém e esse alguém gostar de outro, né?
Afonso olhou novamente para a lareira e suspirou tristonho, respondendo à pergunta com um aceno de cabeça afirmativo.
Ia-lhe perguntar porque dizia isso, afinal, ele não namorava com Martin? Mas algo desviou os seus pensamentos, um barulho bem alto: a barriga de Luciano.
Afastou-se do ombro dele e encarou-o com curiosidade.
Luciano enrubesceu até as orelhas, desviando o olhar para baixo e coçando a nuca enquanto ria nervoso.
– D-desculpa! E-eu saí de casa sem jantar.
O mais velho limpou os olhos com o antebraço e murmurou:
– Não tem mal... Podes comer dalí se quiseres.
Luciano encarou a mesa posta e suspirou.
– Melhor não... – coçou a nuca – Eu nem devia ter vindo, podia ter atrapalhado o seu jantar.
Agora ele sentia-se tão egoísta.
– De certeza? Vai acabar por se estragar... Posso-te arranjar um tupperware ou qualquer coisa para levares embora se preferires...
– Certeza... – a barriga de Luciano roncou outra vez, e o brasileiro a abraçou – D-desculpa.
Sorriu um pouco e levantou-se.
– Tudo bem, não tem mal nenhum.
– T-tem sim! A Bella me disse para jantar, mas eu estava preocupado com você e-- – calou-se.
Ele olhou para trás.
– P-Preocupado? Por quê?
Luciano riu nervoso e pegou seu violão, fingindo afinar as cordas.
– N-nada, não.
– Quem nada é peixe. Vá, desembucha.
O brasileiro pousou o violão sobre o colo e ficou encarando seu velho instrumento, suas mãos acariciando a madeira e o polegar direito mexendo nas cordas.
– Minha mãe dizia que, quando nos preocupamos com alguém... – suspirou e recomeçou a frase – Quando gostamos de alguém, acabamos sentindo se esta pessoa está bem ou não. – corou – Eu me senti inquieto e vim ver se você estava bem...
Afonso observou-o atentamente e depressa percebeu que aquele violão devia ser muito importante para o brasileiro. No entanto, corou um pouco e coçou a nuca atrapalhado, reparando então que tinha o cabelo solto e por isso depressa o prendeu.
Não sabia o que lhe dizer, mesmo estando grato por aquele abraço que lhe tinha dado.
– ...Hey... Podemos adiantar a nossa noite de cinema para hoje?
O moreno ergueu o olhar.
– Você não quer me ver amanhã? – piscou – Vai estar ocupado?
Afonso acenou negativamente.
– Nada disso! Mas já que estás aqui e estás esfomeado...
Luciano corou e voltou a olhar para seu violão.
– N-não quero incomodar. – levantou-se – E-eu nem devia ter vindo.
O mais velho colocou as mãos na cintura.
– Se estou a convidar é porque não me incomodas.
– Mas eu--
Luciano teve de se calar. Um ronco alto e engraçado pode ser ouvido e o brasileiro teve de abraçar a própria barriga mais uma vez, como se a ação a impedisse de fazer barulhos constrangedores.
O português riu baixinho.
– Tens a certeza que não queres comer nada?
O moreno, completamente enrubescido, moveu a cabeça em sinal positivo.
Sim, ele queria comer. Apenas estava acanhado.
– Já vi que a tua barriga canta tão bem como tu. – disse para implicar e empurrou-o levemente até à mesa – Come o que quiseres.
– Desculpa. – foi empurrado até a mesa, sentando-se em seguida – Você não vai me acompanhar?
– Eu não tenho fome... – suspirou e encostou-se no balcão.
Luciano, então, balançou a cabeça e se levantou.
– Então eu não como.
– Chantagem emocional não resulta comigo. – suspirou – Vá lá, não sejas parvo.
– Não é chantagem! – fez bico – Minha mãe me ensinou a só comer na casa de alguém se esta pessoa comer também. E ainda se servir primeiro!
– E a minha mãe ensinou-me que não se deve brincar com a comida, coisa que faria caso me servisse porque realmente não tenho fome. Vá, ou comes a bem ou comes a mal. – tentou parecer ameaçador.
– Não, obrigado. – fez bico e cruzou os braços.
O lusitano semicerrou os olhos e sentou-se à mesa, tirando algumas batatas pequenas e o pedacinho mais pequeno de carne para o seu prato.
Luciano piscou e encarou o mais velho.
– Que foi? Servi-me primeiro e estou a comer.
O brasileiro sorriu e sentou-se.
– O que é isso? – questionou alegremente, apontando para os pratos.
– É assado. – apontou para a travessa e depois para uma caixinha – Aquilo são miniaturas de bolos.
– Cupcakes? – os olhos castanhos e curiosos de Luciano brilharam em expectativa, e ele sorriu – Posso comer um?
O mais velho fez um pequeno sorriso.
– Acho que tem alguns cupcakes. Serve-te à vontade.
O sorriso de Luciano alargou-se, e ele voltou à constante fisionomia alegre e jovial.
– Ahn... Primeiro o prato principal! – riu e afastou um pouquinho a caixinha de si, para não cair na tentação.
Luciano serviu-se de uma quantidade um pouco exagerada de assado e experimentou, soltando um ganido baixinho assim que deu a primeira mastigada.
Cobrindo a boca cheia com a mão, declarou:
– Chefinho! Esse é o melhor assado que já comi na minha vida! – sorriu.
– E-Exagerado... – Afonso murmurou, pegando numa costela à mão para conseguir “rapar” a carne melhor.
Mesmo assim, corou um pouco por ter a sua comida elogiada.
– E eu não sou “chefinho”.
Luciano riu, coçando a nuca e bagunçando seus cachos.
– Desculpa. Me habituei a chamar você assim, Afonsinho.
Afonso continuou a encara-lo.
– Sem “inhos” no final dos nomes se faz favor.
– Ok. Fonfon. – riu.
Ele corou e quase se engasgou.
– M-Muito menos isso!
O brasileiro caiu na gargalhada da expressão engraçada de Afonso. Como seu chefe podia ser um homem tão fofo?
– Ah, chefinho! Qual é, foi engraçado! – sorriu – Então não posso chamar você por um apelido?
– O meu apelido é Moreira. – resmungou, alheio ao facto que “apelido” no português do Brasil tinha outro significado. Corou ainda mais por Luciano se ter rido de si – Não. É só Afonso.
Luciano piscou, o garfo com a carne dentro da boca.
– Achei que “Moreira” fosse seu sobrenome.
Agora a confusão estava instalada.
– E foi o que eu disse. – pousou os talheres e terminou a refeição. Não tinha realmente fome e por isso grande parte ficou intocada.
– Não estou entendendo você. – admitiu enquanto iniciava o terceiro prato – Sobrenome e apelido são coisas diferentes! Meu sobrenome é “Silva”, e meu apelido é... Bem, me chamam de “Luci”, “Lu”... “Lulu”...
– Não... Apelido e sobrenome são sinónimos. – nunca entenderia os brasileiros e a sua mania de trocar as palavras todas. Depois riu um pouco – Lulu?
– Não, não são! – embirrou e depois corou até as orelhas – Q-que que tem? Minha mãe me chamava assim!
– São. – observou-o corar e sorriu um pouco. Luciano era adorável... – Nada, é fofo.
– Não é fofo. É coisa de mãe! – coçou a nuca e terminou sua refeição – Obrigado pela comida. – sorriu.
– De nada... – disse e levantou-se para ir colocar mais lenha na lareira.
Luciano sorriu e olhou mais uma vez para a caixinha onde estavam os bolos. Olhou de soslaio para Afonso e pegou um cupcake, indo pé ante pé até o português.
– Um bolinho? – sorriu e chegou por trás de Afonso, colocando o bolinho na frente da boca dele, infantilmente.
O lusitano deu um salto, assustando-se com o brasileiro silêncioso e abanou negativamente a cabeça.
O moreno voltou a sorrir e mordeu o bolinho, rindo um pouco ao perceber que eles eram recheados.
– Foi você quem fez? São deliciosos!
– Não... Esses eu comprei. – disse e voltou até à mesa para a levantar e arrumar tudo.
– Deixa eu ajudar! – pediu com a boca cheia de chocolate e enfiou o resto do bolinho na boca, esfregando as mãos nas calças para limpá-las – Posso lavar a louça hoje?
– Não se fala de boca cheia. – o português disse por implicação e vestiu o avental para lavar a louça – Não é preciso, deixa estar.
Luciano riu, os lábios cheios de chocolate.
– E não se impede alguém de agradecer um jantar maravilhoso~
O português abanou a cabeça e com a ponta do avental foi limpar-lhe os lábios.
– Agradeço mas não é preciso.
Ele sorriu, lambendo os cantos sujos.
– Então venha jantar comigo amanhã. Como agradecimento!
O português pestanejou, pensativo. Não sabia se deveria aceitar mas... Que mal podia ter?
– P-Pode ser...
Luciano suspirou.
– Sua empolgação foi comovente.
O lusitano voltou a pestanejar e depois coçou a nuca.
– Desculpa... Não estou no melhor humor agora...
– Desculpa eu, mas eu acho que você nunca está no seu melhor humor. – soltou num muxoxo e fez beicinho.
Em seguida, sorriu e segurou o rosto de Afonso com ambas as mãos, puxando-lhe os cantos dos lábios com os polegares, forçando o menor a sorrir.
– Quase nunca vejo você sorrir...
Ele fez beiço, tentando contrariar o sorriso forçado.
– Não tenho culpa... Pelo menos não sorrio sem ser necessário. – mostrou-lhe a língua de forma infantil.
Luciano piscou.
– Está dizendo que sorrio falsamente?
Abanou negativamente a cabeça em resposta.
– Estou a dizer que por vezes sorris forçadamente.
O brasileiro voltou a piscar e apertou as bochechas de Afonso.
– Às vezes, sorrir é a melhor opção. – sorriu.
– Não concordo com essa teoria. – resmungou e sentiu a sua cara aquecer – É mesmo necessário apertar-me as bochechas?
– Ai, não? – riu – Pois eu acho que nunca devemos demonstrar nossa tristeza para as pessoas. Um bom sorriso desarma nossos inimigos e impede que uma tristeza maior nos deprima. – sorriu docemente – Desculpa, mas suas bochechas são mais gostosas de apertar do que eu pensava. – puxou outra vez.
– Eu prefiro não ter ini-- – corou ainda mais – ...Há coisas que são “gostosas de apertar” e as minhas bochechas não são uma delas. – deu-lhe uma palmada leve na mão.
– Tipo a sua barriga? – riu e tentou lhe fazer cócegas, puxando Afonso para si e lhe prendendo num abraço, o português com as costas coladas em seu tronco.
– N-NÃO!!– ele deu um berro e tentou fugir do brasileiro, mas sem sucesso. Começou a rir ás gargalhadas – L-LUCIANO QUIETO! CÓCEGAS NÃO!!
Luciano, claro, ignorou os pedidos de Afonso e aumentou a intensidade das cócegas, aproveitando que era bem maior e mais forte que o português para o prender em seu abraço. Para piorar a situação, o brasileiro ainda começou a soprar o pescoço do mais velho, apenas para aumentar as cócegas que ele sentia.
Afonso dobrou o pescoço para trás, desesperado.
– O-O MEU PESCOÇO NÃO!
– Por que não? – mordeu-o – É divertido!
O português corou e gemeu baixinho, procurando afastar o seu pescoço.
– N-não é.
O gemido hesitante e entrecortado de Afonso fez Luciano reter-se, e ele acabou com as cócegas no mesmo instante, embora mantivesse o menor preso num abraço íntimo.
– C-chefinho...?
O lusitano corou ainda mais e murmurou.
– O-O meu pescoço é... Hum... Muito sensível e... E não gosta de ser mordido.
Luciano, então, também enrubesceu.
– A-ah... – nervoso e hesitante, talvez nem raciocinando direito, ele apertou de leve o abraço – E-eu..
Confuso com a reação do mais jovem, Afonso girou o rosto para a direita no intuito de questioná-lo visualmente.
Péssima ideia.
Luciano estava próximo. Próximo demais de si.
A ponta de seus narizes se tocaram, a respiração quente e acanelada do brasileiro mesclava-se com a sua, um restinho insignificante de chocolate ainda melava o canto esquerdo dos lábios de Luciano.
– Luci... ano...?
Eles não se encaravam, tinham os olhos fechados.
Luciano mordeu o próprio lábio após um suspiro profundo. O chamado de Afonso lhe soou sexy, e aquilo não prestava.
– E-eu... É melhor eu ir embora...
Apercebendo-se de que talvez Luciano tivesse entendido mal a situação, Afonso ficou ainda mais vermelho e tentou-se afastar.
Como o abraço estava demasiado apertado, não conseguiu sequer mover-se.
– L-Luciano... Primeiro tens de me soltar...
O lusitano, então, sentiu-se péssimo. Tinha o coração acelerado e sabia que isso era errado naquele momento. Que estava ele à espera que o brasileiro fizesse?
Compreendia que aquele “ataque” ao seu pescoço tinha sido inocente mas que fazer... Aquele lugar era demasiado sensível ao toque.
Sentia-se também egoísta porque achava que tinha abusado da boa vontade do moreno e da sua simpatia. Se ele não tivesse aparecido, Afonso muito possivelmente ter-se-ia deitado e tentado adormecer por muito cedo que fosse. Mas aquele abraço... Aquele abraço tinha-lhe sabido tão bem e tinha sido tão necessário...
Por que é que Arthur não podia ser assim? Por que é que Arthur sempre o deixava para segundo plano? Por que é que gostava tanto do inglês?
Eram muitas perguntas para o português, cansado e confuso, que sentiu os seus olhos humedecerem de novo contra a sua vontade.
Ás vezes sentia-se muito sozinho e não tinha com quem falar, isto porque não gostava de incomodar o irmão com os seus problemas, já bastava ao espanhol os seus. E se falasse com Lovina, ela contaria ao esposo e por isso dava no mesmo.
Conhecia Luciano há dois ou três meses e sabia que era fácil conversar com o brasileiro mesmo ele tendo uma personalidade bem diferente da sua só que... Pelo que percebia e ouvia do próprio brasileiro, também ele já tinha problemas que chegassem: estava num país diferente, todo aquele desencontro com Martin, o facto de estar confuso com o seu futuro... O lusitano não o queria chatear com mais.
E isso lembrou-lhe que naquele exacto momento, Luciano devia era estar em casa a falar com Martin, a resolver as coisas.
Podia não conhecer o argentino mas considerava-o sortudo por ter alguém como Luciano ao seu lado, sempre tão amável e carinhoso... Esperava sinceramente que as coisas se resolvessem entre eles porém era-lhe um pouco difícil pensar nisso agora que estava quentinho num meio-abraço errante do brasileiro.
Voltou a fechar os olhos por uns momentos, engolindo em seco para evitar chorar alí novamente. Só voltou a abrir quando achou que nenhuma lágrima ia cair e aguardou que Luciano o soltasse.
– Me perdoe. – o brasileiro disse nervosamente, afrouxando o abraço lentamente e libertando o menor – Me perdoe, eu não sabia... Na verdade, eu nem devia ter feito isso...
Afonso voltou-se para trás e encarou-o.
– Está tudo bem. Eu sei que não foi por mal.
Luciano desviou o olhar, dando um passo para trás.
– Mesmo assim... eu não devia ser assim... – coçou a nuca e caminhou até seu violão, guardando-o no estojo – E-eu... Melhor eu ir para casa. Está tarde e você deve estar cansado.
O mais velho deu de ombros. Não estava realmente cansado mas concordava que era tarde.
– Queres que te leve lá? Está demasiado escuro para andar sozinho a esta hora.
Luciano sorriu um pouco e balançou a cabeça negativamente. Talvez, depois daquilo fosse melhor eles não ficarem juntos. Sozinhos. Dentro de um carro.
– Não precisa, obrigado. Posso ir à pé.
– De certeza? É que está um temporal horrível e ainda ficas doente. – constactou o obvio, já conhecendo bem a tendência de Luciano para ser irresponsável com essas coisas
O moreno piscou e depois sorriu acanhado.
– Nah. Já disse que gosto de tomar banho de chuva... E de bônus ganho um de banheira.
– E ainda de bónus ganhas uma gripe. – disse por brincadeira e depois suspirou – Mas como queiras. Precisas de guarda-chuva? – perguntou, dirigindo-se à porta. Mal a abriu, uma ventania horrível entrou pela sala quentinha e fez o lusitano estremecer, esfregando os braços.
Luciano encarou a chuva e mordeu o lábio inferior. Talvez aceitar a carona de Afonso não fosse assim tão mal... Não, era melhor não. O gemido do português ainda ecoava em seus pensamentos, e o brasileiro não queria se arriscar a pensar demais ao lado dele.
– Hn. Aceito o guarda-chuva.
Afonso procurou atrás da porta por um que fosse grande e suficientemente forte para a ventania.
– Aqui está. Manda cumprimentos meus à Bella, sim? Já não falo com ela à muito tempo.
– Claro. – deu outro sorriso e mencionou abraçar Afonso. Com medo da reação dele por antes, estagnou e pensou em trocar o abraço por um beijo na bochecha. Voltou a se reter e bagunçou os cabelos de Afonso – Obrigado pelo jantar. Estava maravilhoso.
O lusitano esperava por um abraço, porque Luciano sempre se despedia dessa forma com toda aquela mania de contacto físico desnecessário, então quando teve a sua divosa juba despenteada, censurou-se mentalmente por esperar isso.
Resmungou, ajeitando o seu cabelo e suspirou.
– Exagerado novamente mas de nada. Sou eu quem tem de agradecer...
Riu.
– De nada. Seja lá por quê.
Encarou o mais velho e voltou a morder o lábio inferior, suspirando para esquecer-se de pensar.
– Mais uma vez, obrigado. – abriu o guarda-chuva e saiu pela porta – Até amanhã.
– Até amanhã. Tem cuidado com a poça em frente ao portão! – avisou-o, espreitando pela porta encostada para que não entrasse frio na sala.
– Cuidado com o que--? – mal formulou a pergunta, pisou com o pé esquerdo na dita poça, sentindo um frio lhe arrepiar a espinha no mesmo instante. Sua meia agora estava encharcada. – Ah, isso. – riu e acenou ao mais velho, sumindo pelas ruas escuras.
O lusitano fez um 'facepalm' e depois de Luciano desaparecer da sua vista, fechou a porta. Como não tinha nada para fazer, vestiu o seu pijama e colocou cobertores no sofá, por ser mais quentinho perto da lareira.
Depois de ter ido à cozinha, regressou ao sofá e tentou adormecer.
~※~
Bella soltou seu décimo suspiro naquele quarto de hora.
Encarando a chuva pela janela da sala, a belga mordia delicadamente o lábio inferior, questionando-se onde Luciano estava e quando o brasileiro voltaria. Estava preocupada com o mais jovem, ainda mais depois do moreno ter adoecido algumas vezes.
Suspirou outra vez.
– Estás preocupada?
Bella piscou e olhou para a sala, sorrindo ao seu irmão.
– Irmãozão.
– O que preocupa?
– O Luciano. Saiu antes do jantar e até agora não voltou. – voltou a encarar a rua, numa esperança boba de que a silhueta do brasileiro apontasse ao horizonte.
Hansen suspirou também e aproximou-se dela.
– Se calhar foi encontrar-se com o argentino e esqueceu-se de te avisar. – esfregou-lhe os ombros – Relaxa.
– O argentino chegou à dez minutos – fez beicinho – O Luci não estava com ele...
O holandês afastou suas mãos da irmã, colocando-as nos bolsos.
– “Luci”?
Bella lhe encarou.
– Ah... Sim, é como ele me pediu para chamá-lo, mas não me habituo. – sorriu.
– Hn. O tratas por “tu”. Estás apaixonada?
A belga corou até as orelhas, se exaltando.
– C-como? N-não! Eu trato a todos por “tu”, tu bem sabes! – Hansen desviou o olhar, o cenho franzido. Bella, então, piscou – Irmão? Estás com ciúmes?
– Não. – disse secamente e afastou-se mais, encostando-se no balcão do lado oposto da cozinha, de braços cruzados.
Ela baixou o olhar, apertando a ponta de seus dedos.
É claro que Hansen não sentia ciúmes de si. Ele era seu irmão – postiço, sem nenhuma relação de sangue, mas era – e sempre a veria como a irmãzinha atrapalhada e que fala alto.
Hansen nunca a amaria como ela o amava.
– Ah, e-entendo. – sorriu e sentiu a garganta arder – E-eu vou para o meu quarto.
O holandês levantou uma sobrancelha.
– Já? – olhou para o relógio de pulso. Ainda era cedo mas... Talvez ela estivesse mesmo muito preocupada com Luciano? Suspirou, mais uma vez – Queres que o vá procurar?
Bella piscou e encarou seu irmão. Por que tivera que se apaixonar por ele?
– N-não--
A porta da frente foi aberta, e os irmãos encararam o brasileiro, que sorria acanhado para eles.
– O-oi, Bella. Pode me trazer uma toalha?
A belga sorriu aliviada e foi até o mais jovem, lhe dando um abraço apertado.
– S-seu parvo! Estava preocupada!
Hansen semicerrou os olhos ao ver a cena e desencostou-se do balcão, saindo sorrateiramente para ir para o seu quarto.
Mesmo antes de Luciano ter hipótese de responder, ela fez-lhe mais perguntas:
– Onde estiveste? Aconteceu alguma coisa? Tens fome?
Luciano riu e retribuiu o abraço.
– Estou bem, jantei na casa do Afonso. – sorriu.
Bella suspirou de alívio e afastou-se um pouco, para poder encará-lo.
– Ah, tu estavas com ele. – sorriu um pouco maliciosa, coisa que Luciano não entendeu.
– É! E ele mandou “oi”.
O sorriso dela aumentou.
– Que simpático da parte dele. Dá-lhe um beijinho meu quando estiveres com ele~
Ela e Hansen conheciam Afonso e António desde crianças. Não eram exactamente vizinhos mas sempre iam brincar para um pomar abandonado que existia perto do lugar onde moravam o que resultava sempre em guerras de fruta que apanhavam do chão. A belga gostava imenso de Afonso e este andava sempre a implicar com o holandês. Eram, geralmente, os rivais durante as lutas com laranjas.
Obviamente que ela fez uma nota mental para escrever uma sms a Elizabeta e Lovina mal tivesse oportunidade. Aquilo era um avanço!
O brasileiro também sorriu, tendo suas bochechas – Bella adorava aquelas bochechas grandes e fofas! – apertadas pela belga.
– Vou-te trazer a toalha, fica aí!
Luciano acenou afirmativamente e ela saiu a correr.
Já no corredor, embateu contra Martin, que depois de resmungar lhe pediu desculpas.
– O Luciano já veio?
Bella fez uma sutil careta, e empinou o nariz.
– Sim. Está na porta. – disse e seguiu seu caminho até o armário extra de seu quarto, onde guardava as roupas de cama e as toalhas limpas.
O argentino suspirou e foi até à cozinha, franzindo o sobrolho ao ver o brasileiro encharcado.
– Luciano?
Luciano, ao ouvir a voz do namorado, ergueu o olhar até ele e sorriu. Tinha dois dias que não se encontravam!
– Martin!
O argentino manteve-se um pouco afastado para que não fosse molhado acidentalmente.
– Você estava trabalhando até agora?
– Não! Eu sempre saio às seis da tarde-- bem, hoje o chefinho encerrou as atividades mais cedo, e eu fui jantar com ele. – sorriu e se conteve sobre ir abraçar o argentino. Estava molhado e não queria molhar o chão de Bella – Vem me dar um abraço! Eu senti a sua falta esses dias! Tem trabalhado tanto.
Cruzou os braços e levantou uma sobrancelha.
– “Chefinho”? Jantar?
Luciano fez beicinho por não ter ganho um abraço.
– É! Sabe, o Afonso? Ele é meu chefe! Já falei dele para você. – soltou num muxoxo – Eu passei na casa dele e acabei jantando por lá.
Martin ia dizer qualquer coisa mas foi interrompido pela belga que voltou com a toalha.
– Aqui está, Luci!
– Obrigado, Bella! – Luciano sorriu.
– Acho melhor deixarmos uma toalha extra ao lado da porta pra ti, hn? – ela implicou e o brasileiro riu.
– Acho uma boa ideia. – concordou.
Martin soltou outro suspiro e anunciou que, quando Luciano estivesse apresentável, ele estaria no quarto, dormindo. Tinha uma reunião cedo na manhã seguinte e precisava descansar.
– M-Martin, espera! – Luciano pediu e, após retirar os sapatos encharcados e dobrar as calças até o joelho, correu atrás do namorado.
Bella, então, soltou um suspiro tristonho.
Desde que se mudaram para sua pensão, nunca vira Martin sendo muito delicado com Luciano, embora o brasileiro fosse o namorado perfeito. Gentil, amoroso, amigável... Luciano tinha muitas qualidades, mas o argentino pisava em cada uma delas, e não foram raras as vezes em que encontrara o brasileiro cabisbaixo pelos cantos. Porém, sempre que alguém aparecia ao seu lado, Luciano voltava a sorrir.
Arrumou as coisas e recolheu-se, subindo até seu quarto.
A porta de seu quarto ficava em frente à do de Hansen, e a belga mordeu o lábio inferior ao encará-la. Eles sempre se davam um beijo de boa noite, e ela não vira seu irmão desde que Luciano chegara, minutos antes. Hesitante, bateu na porta.
O holandês, apesar do frio e chuva, tinha aberto um pouco a janela e apoiando-se no parapeito para poder fumar.
– Entre. – murmurou.
Ao ouvir a resposta positiva de Hansen, Bella abriu a porta e entrou no quarto do mais velho.
– Irmão? Vou-me deitar, precisas de alguma coisa?
O loiro olhou pelo ombro uns momentos e depois voltou a olhar pela janela.
– Não, obrigado. Boa noite.
– Oh... – Bella baixou o rosto. Era certo de que Hansen estava brabo consigo, por algum motivo, entretanto ela não conseguiu evitar lhe questionar: – Não vais dar-me um beijo? – corou.
Hansen voltou a encara-la, um tanto surpreendido pelo pedido. Pestanejou e fez sinal para ela se aproximar.
A belga caminhou lentamente até seu irmão, pondo-se na ponta dos pés para poder lhe alcançar a bochecha direita.
– Boa noite.
Deu-lhe um meio abraço, para a aproximar de si, e baixou-se um pouco, retribuindo o beijo na bochecha esquerda.
– Boa noite. – repetiu.
Bella sorriu e apertou o abraço ao envolver o pescoço do irmão, dando-lhe outros beijinhos na bochecha.
– Dorme bem. Amanhã terei de ir à feira cedo, podes arrumar a cozinha para o café?
Sorriu um pouco e retribuiu o abraço, enlaçando-a pela cintura.
– Tudo bem.
O contato apertado a fez corar, e Bella afastou-se um pouco.
– O-bri-ga-da~ – sorriu outra vez.
– De nada... – fez-lhe um breve cafuné e deixou-a afastar-se.
Ela sorriu com o carinho, e encarou Hansen. Como um homem podia ser tão bonito?
– I-irmão, eu... – apertou de leve a ponta de seus dedos.
Não seria bom se deixasse expor seus sentimentos. Amava Hansen desde que era menina e sabia que o que sentia por ele era algo puro e real uma vez que já se envolvera com outros rapazes e nunca sentira-se plena, porém tinha a certeza de que, para o holandês, ela era e sempre seria a irmãzinha.
Estragar aquele convívio, aquela família, não seria nada bom.
– Bons sonhos. – sorriu ao mais velho e se retirou.
Observou-a sair e suspirou, dando um longo trago no seu cigarro. As vezes ficava com vontade de lhe pedir para ficar consigo mas...
Apagou o cigarro e atirou-o pela janela, estava na hora de ir dormir.
~※~
No dia seguinte, Luciano chegou à floricultura pelas dez horas da manhã. Tarde demais para o turno da manhã e cedo demais para o da tarde.
Entrou quieto, tímido, e apenas acenou com a mão ao ver Afonso.
As olheiras fundas de Afonso tinham voltado pois o lusitano não tinha conseguido dormir quase nada.
– Bom dia. – disse, estranhando o comportamento demasiado silencioso do brasileiro. Olhou para o relógio na parede, "Não é um bocado cedo para estares aqui?
– A-Ah! B-bom dia, chef-- Afonso! – ele atrapalhou-se e tropeçou nos próprios pés. Seus sapatos, os únicos que tinha, ainda estavam molhados, e Ivan, que calçava o mesmo que si, lhe fez a gentileza de lhe emprestar um par, porém Luciano não estava acostumado a andar com sapato social – E-eu tenho muitos arranjos para fazer e... B-bem, você fechou a floricultura mais cedo ontem... E-eu vou trabalhar!
Seguiu-o com o olhar, bem desconfiado.
– Luciano? Está tudo bem?
– C-claro! – disse um tanto alto, olhando para todos os lados em seguida – Hn... Eu preciso de margaridas! – e correu para a estufa.
O português pestanejou novamente e deu de ombros, pegando de seguida num rebuçado e voltando a regar as plantas.
– O que foi isso, Luciano? – o moreno se questionou, andando por entre as flores à procura das margaridas.
Na noite anterior, Martin e Luciano discutiram mais uma vez, o brasileiro pedindo um pouco de atenção, o argentino espaço. A coisa ficou tão séria que Luciano pegou uma coberta e seu travesseiro e foi dormir no sofá da sala – o que assustou e penalizou Bella, quando esta acordou e viu o mais jovem todo torto.
Mas... o que mais lhe intrigava não era a briga idiota e sem sentido que tivera com Martin, mas sim o sonho que tivera sobre Afonso. E fora nada ortodoxo.
Tivera sorte das cobertas serem grossas o suficiente para que a belga não visse seu estado.
– Isso é ridículo. Foi só a droga de um gemido! E involuntário! – resmungou e fez beiço, corando de leve.
Suspirou e pegou as margaridas, voltando para a frente da loja.
Voltou a encara-lo assim que ele regressou. Alguma coisa estava estranha mas o português não sabia dizer bem o quê.
– Estás mesmo bem?
Luciano forçou um sorriso.
– Sim, claro.
Sentou-se maquinalmente no banquinho e tentou se concentrar no arranjo.
Afonso respirou fundo e decidiu não o chatear mais.
Quando terminou de regar os vasos que estavam no interior, foi para o balcão ajeitar algumas contas que tinham ficado por fazer no dia anterior.
Mal abriu uma gaveta, deparou-se com imensas caixas de tic tac, tanto vazias como cheias.
– ...Luciano da Silva...
Algo que sempre deixava Luciano nervoso: ser chamado pelo nome completo.
– O-o que eu fiz? É por ontem? Desculpa, eu juro que nunca mais toco em você!
– Huh? – levantou o olhar para o encarar – Eu estou a falar das caixas de TicTac que estão aqui. As cheias nem são problema mas... As vazias?
Luciano parou por um momento, encarando a gaveta aberta.
Então, seus pensamentos se organizaram e ele foi corando aos poucos, até as orelhas.
– AH! – levantou-se e começou a retirar as caixinhas vazias – E-eu esqueci! Mil desculpas!
O português deu-lhe um empurrão leve com a anca para o afastar e “roubou” uma caixa quase vazia, tirando alguns tic tacs para si.
– Desculpa, isso não vai se repetir. – murmurou e limpou a gaveta, pondo as caixinhas vazias no lixo.
Depois de terminar aquela caixa, atirou-a para o caixote do lixo.
– Tem calma, não faz mal.
O brasileiro acenou com a cabeça e voltou para seu arranjo.
A campainha, nesse exacto momento tocou, e pela floricultura entrou Hansen, a resmungar sobre a chuva.
– Bom dia. – disse e encarou Afonso, depois Luciano, entendendo finalmente ao que Bella se andava a referir nos últimos tempos.
O lusitano sorriu de lado.
– Olha quem é ele~
Luciano encarou o holandês e sorriu, acenando para ele.
– Oi, Hansen! Veio comprar flores?
O mais velho desviou o olhar e coçou a nuca.
– Não... – franziu o sobrolho de seguida ao ver Afonso aproximar-se de si.
– Então?
– Eu- Eu vinha... Que expressão é essa? – resmungou.
– É a minha normal~ Para quem são as flores? Vais querer tulipas, hum? – o lusitano continuou a implicar com ele.
Hansen continuou com sua expressão séria e irritadiça, embora suas bochechas tenham ficado um pouco rosadas.
– Vermelhas.
Luciano, que gostava de tulipas, logo perguntou.
– Posso fazer o arranjo?!
O holandês deu de ombros.
– Se quiseres.
Obviamente que Afonso não perdeu aquela oportunidade:
– Eu quase que aposto que sei para quem são.
– Calado, idiota.
– Como desejares, alteza~ – sorriu de lado e voltou ao balcão.
O brasileiro deixou as margaridas de lado e foi buscar as tulipas mais rubras, voltando com um sorriso bobo no rosto. Eram flores tão bonitas!
– A Bella conhece a moça? Acredito que elas serão boas amigas, a Bella é muito gentil!
Hansen ficou todo atrapalhado e nem lhe conseguiu responder. Afonso começou a rir-se ás gargalhadas e foi para a estufa buscar umas flores que ficaram lá esquecidas.
– ...Eu vou matar aquele idiota um dia...
– Hn? O chefinho? – Luciano piscou e encarou o mais velho, sorrindo em seguida – Ele é inofensivo! Acho...
Hansen permaneceu quieto, olhando para os demais arranjos enquanto esperava Luciano terminar de fazer o buquê. Quando pronto, o brasileiro lhe chamou a atenção.
– Prontinho! – estendeu-lhe o buquê – Paga pro chefinho que eu não sei se arranjo e buquê tem preço diferente. – sorriu – Espero que seus sentimentos sejam aceitos. – disse inocentemente.
O holandês franziu o sobrolho e chamou por Afonso.
Só então se lembrou que Luciano estava lá em casa e podia dizer à Bella que tinha sido ele a oferecer-lhe (uma vez que tencionava entregar de forma anónima).
Bem... Ia ter de mentir ou qualquer coisa.
O lusitano regressou e foi receber o dinheiro, sempre a implicar com o loiro.
Hansen fuzilou o português com o olhar e ignorou o aceno de Luciano, deixando a floricultura e agradecendo mentalmente que havia parado de chover.
O português suspirou e aumentou o sorriso.
– São um caso perdido esses dois.
– Quem? Você sabe de quem o Hansen gosta? – questionou.
O lusitano sorriu ternamente.
– Não é óbvio? Quem é a única pessoa com que ele se preocupa?
Luciano ficou pensativo, e logo seus olhos se abriram em surpresa.
– Não me diga que... – Afonso acenou – S-sério? Ele gosta da Bella?
Fez sinal com o dedo como quem pede silêncio.
– Não é para ela saber.
Luciano concordou com a cabeça, mas ainda estava surpreso.
– Eu nunca imaginei que ele pudesse gostar da Bella. Ela me disse que é adotada e tal, mas ainda acho um pouco estranho... digo, eles cresceram como irmãos, não? Não é a mesma coisa do que eu estar apaixonado por--
– Pelo Mártin? Óbvio que não. – riu um pouco – Ela passou por muito antes de ser adoptada e o Hansen sempre cuidou dela emocionalmente.
– Ahn... Você... – suspirou – E você acha que ela corresponde? Seria uma pena se não.
– Eu o quê? – pestanejou confuso e suspirou – Sinceramente não sei. Não é um assunto que fale com ela.
– Hn? – ele não entendeu a falha de comunicação – Ah... Eu ia perguntar uma coisa e resolvi perguntar outra. – riu – Mas eu espero que sim... Como já disse, é ruim gostarmos de alguém e não sermos correspondidos. – fez beicinho e terminou o vaso de margaridas.
Afonso deu um suspiro profundo.
– É... Mas acaba-se por habituar. – desencostou-se do balcão e voltou ao que estava a fazer.
O brasileiro sorriu e encarou o mais velho.
– Sabe, Afonso? Eu acho que posso te ajudar com o Arthur.
Ele olhou pelo ombro e riu um pouco.
– Ajudar como? Não há nada a fazer, ele gosta do Francis e está feliz com ele.
Luciano suspirou e apoiou o rosto na palma da mão direita.
– Mas você o ama. E eu vi como você ficou ontem por causa dele. – começou a tamborilar com os dedos da mão esquerda – Não acho que valha a pena você desistir de um sentimento tão forte. – deu de ombros – Se você realmente gosta do Arthur, devia lutar por ele, independente de ele estar com outro ou não. – sorriu – Porque, se não, Arthur e esse tal Francis não brigariam tanto.
– Como--
– Posso ser muitas coisas, chefinho, mas eu não sou idiota. Eu já ouvi ele reclamando do namorado para você.
Afonso suspirou e deu de ombros.
– Não faz diferença. Se calhar deves ter achado o Arthur um bocado mal-humorado mas... Ele quando fala com ou do Francis, fica totalmente diferente. Ele gosta realmente dele e não quero ser eu a destruir a felicidade de duas pessoas por egoísmo. Eu conheço o Francis e ele é boa pessoa, um bocado pervertido ás vezes, mas boa pessoa ainda assim. Nenhum dos dois merece isso.
Luciano, então, mudou seu jeito de pensar. Se Arthur era feliz, eram outros quinhentos. Estava dando aquelas ideias para Afonso por imaginar que o inglês estava preso em um relacionamento que não lhe fazia bem.
– Oh, entendi. – suspirou – Então o problema é você, chefinho. – deu de ombros – Você está preso num amor que te faz mal, não o Arthur como eu pensava.
Suspirou e continuou sem o encarar.
– Eu sei. Por isso é que não ligo...
O moreno também suspirou.
– Não liga tanto que ontem estava chorando pelo Arthur...
– Eu não estava a chorar... – disse, no mesmo tom baixo.
– Ah, não? – Luciano, esquecendo-se de que tinha que manter uma certa distância de Afonso, ergueu-se e chegou por trás do menor, porém sem tocá-lo – Se você não esteve chorando ontem, olha para mim.
E obviamente que o lusitano se manteve quieto, olhando para o que estava a fazer no balcão.
Luciano, então, lhe tomou delicadamente o rosto com ambas as mãos, mas não forçou o outro a lhe encarar. Apenas as manteve ali para indicar ao mais velho de que, se precisasse de forças para aquilo, ele nunca hesitaria em ajudar-lhe.
Afonso relaxou o corpo e focou a sua atenção no pequeno ramo que fazia, mantendo o seu olhar baixo.
O moreno sorriu de lado, inclinando-se para baixo para olhar o ramo.
– Está bonito... mas que flores são essas?
Suspirou e murmurou.
– São alfazemas...
– Alfazemas? – alargou o sorriso, as mãos ainda no rosto de Afonso – Traz pra perto do meu nariz? Quero sentir o cheiro~
Pegou num molho delas e dobrou o braço colocando-as perto do nariz do mais novo.
O brasileiro cheirou as flores e sorriu outra vez.
– São cheirosas~
Suspirou.
– Eu sei. Por isso é que usam nas gavetas saquinhos com elas.
Luciano também suspirou, desistindo de manter as mãos no rosto do menor – seus braços já doíam – e afastando-se dele.
– Quem muito suspira, ou ama ou sofre.
– Ou suspira apenas porque sim. – disse e afastou-se para colocar o arranjo num copo de água livre.
Voltou a suspirar, pegando os ramos que já tinha terminado.
– Vou lá entregar estes...
– Ok... – suspirou outra vez e foi para o balcão de atendimento.
Luciano voltou a ficar cabisbaixo, vestindo seu casaco e ajeitando os ramos nas mãos. Devia economizar e comprar uma moto. Facilitaria a sua vida.
A loja ficou demasiado silênciosa e Afonso ligou rádio só para ter música de fundo. Mas era tudo tão deprimente...
Foi então ajeitar alguns arranjos de Natal que faltavam e depois foi atender uma senhora que entretanto entrou.
– Oh, que cheirinho bom de canela. – a senhora disse, sorridente.
O lusitano riu.
– Ah, isso foi o Luciano. Ele andava por ai a comer rebuçados.
A senhora, que já conhecia um pouco o português, estranhou o nome desconhecido, e sorriu mais um pouco.
– Luciano? Teu namorado?
De imediato, ficou rubro e abanou com as mãos.
– N-Nada disso! O Luciano é empregado cá.
Ela riu, cobrindo a boca com o dorso da mão direita.
– Oh, entendo. Me desculpe, querido. É coisa da idade. – sorriu – Pois bem, vou hoje à tarde visitar meu amado Samuel. Que flores me sugeres? – ela só esperava que não chovesse, ou teria que adiar a visita ao cemitério...
O português, que já tinha suspirado vezes sem conta, suspirou mais uma, sorrindo ternamente para a senhora.
– Que tal as que você gosta mais?
– Eu gosto demasiado de lírios. Samuel gostava das margaridas. Ah, sinto tanto a tua falta, meu velho. – suspirou para o nada.
– Podemos usar os dois. – saiu de trás do balcão e aproximou-se da senhora, esfregando-lhe o braço carinhosamente – Tenho a certeza que ele ainda olha por si.
– Certamente. – ela sorriu docemente – Aceitas um concelho de uma velha senhora? Aproveita bem a vida, querido. Abraça, ama. – tocou-lhe o ombro, ainda sorridente – Não tenha medo de ser feliz.
Encarou-a por uns momentos e a sua expressão suavizou. Na sua opinião, parecia que a felicidade é que tinha medo dele.
– A senhora não é velha, não diga isso.
Ela riu.
– Claro que sou! – sorriu e afagou os cabelos brancos – Mas meu conselho se mantém. Nunca sabes se o amor não cruzará a tua porta cedo ou trade.
Mal terminou a frase, Luciano chegou na floricultura, um buquê nas mãos.
– Chefinho, eu não estou me entendendo com um endereço aqui, pode me ajudar?
Afonso encarou o ramo (que escondia Luciano por ser demasiado grande) e pestanejou.
– Eu não sou chefinho, já disse. – caminhou até ele e pegou nas flores – Eu vou entregar. Faz um arranjo com lirios e margaridas para a D. Camila, sim?
– Chato. – ele riu e lhe mostrou a língua, em seguida virando-se para a querida senhora – Bom dia! Meu nome é Luciano! – eles se cumprimentaram – Vou fazer um arranjo lindo para a senhora!
– Podia despedir-te por falta de respeito. – Afonso disse, obviamente a brincar, antes de sair carregado com o arranjo.
O brasileiro riu, logo chamando a atenção de Camila, que estranhara seu sotaque.
Nem é necessário dizer que ela o adorara e eles ficaram conversando por minutos.
Quando Afonso regressou, um tempo mais tarde, ainda estavam ambos a conversar. Ele sorriu de lado e disse por implicação:
– Servir o cliente, Luci- Luciano. Não “empatar” o cliente.
Luciano corou e baixou o rosto, acanhado.
– D-desculpa...
Camila sorriu.
– Ora, Afonso. Este menino me foi tão gentil! Há tempos não me divertia tanto! – riu.
Ao passar por ele, Afonso deu-lhe um leve empurrão na brincadeira, para lhe mostrar que não estava a falar a sério.
– Tudo bem dona Camila. Foi ele o responsável pela canela.
Luciano sorriu acanhado.
– Canela?
– Oh! Foste tu! – ela riu – Nunca este lugar cheirou tanto há algo além de flor!
O moreno corou.
– D-desculpa!
A senhora, tal como tinha feito com Afonso, esfregou-lhe o braço.
– Desculpa de quê?
Luciano piscou, coçando a nuca.
– A-ahn... Pelos tic-tacs?
Sorriu e abanou a cabeça.
– Não tem mal, pequeno.
O brasileiro, então, voltou a sorrir.
– Bem, seu arranjo está pronto! Pague pro chefinho, eu acho essa parte chata. – e, sem a senhora perceber, colocou uma caixinha de tic-tac na sacolinha para proteger as flores.
Camila pagou e acenou contente ao se despedir.
O português acenou de volta e suspirou tristemente.
– Tenho tanta pena dela... O marido faleceu à cerca de um ano por doença prolongada e ela agora está sozinha...
As feições de Luciano tornaram-se tristonhas, e ele piscou.
– Ah! Isso é uma pena! – suspirou – Gostei dela.
– Eu também... Ela é sempre simpática e ás vezes até trás bolinhos. – suspirou – Os filhos dela estão para fora e quase nunca a podem visitar. É uma pena...
– Se eu fosse filho dela, nunca saía de perto. – sorriu e foi limpar a loja, já que havia derrubado um pouco de terra enquanto fazia os arranjos.
– Idem. – voltou a suspirar e limpou as mãos no avental, pegando num rebuçado de fruta que tinha no bolso.
O moreno terminou de varrer a floricultura já havia passado do meio dia. Olhou para o relógio na parede e mordeu a parte interna da bochecha direita.
– Hn... Chefinho? Eu poderia sair mais cedo hoje?
– Bem, vieste trabalhar no turno errado por isso acho que podes. – pestanejou – Está tudo bem?
– Se por “bem” você diz seu namorado pedir um tempo no namoro e você dormir no sofá da pensão, estou ótimo. – deu um sorriso torto, logo se arrependendo de ter falado, outra vez, o que não devia – Desculpe. A Bella quer fazer umas mudanças na pensão e me pediu para ajudá-la, já que todos trabalham ou estudam pela tarde e não podem deixar o serviço. – suspirou – Mas eu recompenso as horas que estou faltando, certo? E... Hn... N-nós ainda vamos jantar juntos hoje? – questionou baixinho, os olhos pidões e o rosto corado.
– Oh... Não sabia, lamento imenso. – disse, preocupado com o brasileiro – Não te preocupes com isso agora e-- – ao vê-lo corado, acabou também por corar e acenou afirmativamente à última pergunta.
Luciano sorriu um pouco.
– Não lamente. – deu de ombros e em seguida corou mais um pouco – O-ok. Eu passo na sua casa às sete e meia, pode ser? Não sei que horas vamos terminar com as mudanças.
Achando que Luciano não queria falar sobre o assunto, Afonso não o pressionou mais.
– Ok, fica combinado. – sorriu.
– Certo! – sorriu outra vez e colocou o casaco.
Como na noite anterior, Luciano mencionou abraçar e beijar Afonso, porém estagnou antes disso e apenas lhe bagunçou os cabelos.
– Até mais. Qualquer coisa, você tem o número do meu celular. – piscou-lhe o olho e saiu.
O lusitano corou mas demorou demasiado a reagir por isso só depois do mais novo sair é que resmungou qualquer coisa para si mesmo. No entanto, depois sorriu um pouco por saber que tinha companhia, ele gostava da de Luciano, só que depressa se censurou com isso. O brasileiro devia estar bem triste por causa de Martin e era seu dever como amigo tentar anima-lo.
~※~
Já era noite quando Hansen chegou na pousada.
O holandês notou que havia algumas mudanças consideráveis pela sala de estar – móveis em lugares diferentes, novas cortinas nas janelas, um vaso cheio de rosas na mesa central... – e ficou curioso.
– Bella...
Subiu até o quarto da irmã, batendo pacientemente na porta até ouvi-la:
– A porta está destrancada.
Ao entrar no quarto, estranhou ao vê-la se arrumando: Bella vestia um vestido negro, belíssimo, e prendia os curtos cabelos num coque arrumado, sua franja bem penteada sobre os olhos verdes. Seus lábios estavam pintados de vermelho, algo não muito comum da belga fazer.
– Vais sair? – questionou, escondendo atrás do tronco o pequeno buquê de tulipas que comprara para ela mais cedo. Iria fingir que lhe mandaram entregar para sua irmã.
– Sim. – ela não o encarou, ainda tentando ajeitar o cabelo – Sabes o Felipe?
– Felipe?
– Sim, sim! O rapaz da livraria que sempre vamos?
O holandês ficou quieto.
– Pois bem, ele sempre está a me chamar para um jantar, e resolvi aceitar.
O holandês ficou especado na porta. Isso explicava o motivo para estar ela estar tão arranjada. Apesar de lhe ficar bem, achava-a ainda mais bonita sem tinta nenhuma na cara.
Mas... Ela ia sair com outro rapaz e Hansen não conseguia evitar um pouco de cíumes. Só que por outro lado, por muita vontade que tivesse, não a podia impedir sem arranjar argumentos válidos... Coisa que ele não tinha.
– Ok. Diverte-te e até amanhã. – murmurou.
Bella, então, o encarou.
Hansen não ia fazer nada para impedi-la de jantar com outro homem. Não que ela esparasse coisa diferente, eram apenas irmãos, mas aquilo a magoara.
Muito.
– Obrigada. – ela sorriu e se levantou, pegando seu casaco e a bolsa – Volto tarde, não me espera acordado. – disse e, ao passar por ele, lhe beijou a bochecha.
Mesmo ela dizendo aquilo, Hansen ia ficar acordado porque não conseguia adormecer sem saber se ela estava bem.
Virou-se um pouco, de forma a manter o ramo escondido e não reparou na marca de batom vermelho que lhe ficou na bochecha.
– Tem cuidado. Se precisares de alguma coisa, liga-me logo, combinado?
– Combinado. – ela lhe piscou o olho e saiu apressada quando a campainha soou – Estou indo!
Viu-a desaparecer no corredor e respirou fundo. Sentia-se um completo parvo...
Encarou o ramo das tulipas e foi para o seu quarto, colocando-o num copo de água vazio que tinha em cima da mesinha-de-cabeceira. E como sempre, foi para a janela fumar.
Sua janela dava para a rua da frente, e ele pensou que talvez a ideia de ir fumar naquele momento não fosse assim tão boa: logo viu Bella e o tal... Felipe? Se cumprimentando. A belga sorriu para o rapaz e este lhe ofereceu o braço, ambos logo pondo-se a caminhar até o carro dele.
Idiota.
Hansen era um idiota.
~※~
Luciano estava um tanto hesitante na frente da casa de Afonso.
Certo, certo. Eles já haviam jantado juntos outras vezes; conversaram, viram filmes... Mas aquilo só acontecia ao acaso, nunca houvera um pedido formal por parte de algum deles sobre um jantar.
– Vamos lá. É só um jantar entre dois amigos. – resmungava para si mesmo – Não é como se estivéssemos num encontro, saco!
No outro lado da porta, Afonso ajeitou minimamente a sala e acendeu a lareira para que quando regressasse a casa estivesse quente. Tinha vestido uma camisa simples e umas calças de ganga escuras, quase pretas. O seu blazer estava pendurado nas costas do sofá, para não amarrotar e mal Luciano chegasse, era só vesti-lo e sair.
Luciano soltou uma baforada, e ajeitou a jaqueta de sempre. Grato por seus tênis terem secado, ele suspirou e tocou a campainha.
Por estar perto da porta, o português pegou no seu casaco e saiu de imediato.
– Já vou, já vou.
Quando Afonso abriu a porta, Luciano deixou o queixo cair.
O português estava... Lindo! Maravilhoso!
– B-b-boa... – piscou e corou de leve – Boa... noite...
Inclinou um pouco a cabeça e levantou uma sobrancelha.
– Boa noite.
Luciano piscou outra vez.
Afonso estava belíssimo! Não que o português não o fosse, mas o brasileiro simplesmente ficara boquiaberto ao ver o mais velho de blazer azul-marinho. A cor lhe caía bem, e o corte do tecido lhe deixava sexy e fino.
Olhou para as próprias roupas e sentiu uma vergonha imensa: usava a mesma jaqueta de sempre – só tinha uma quente o suficiente para o clima de Portugal –; um jeans velho, embora limpo; um moletom vermelho que usara pelo menos três vezes naquela semana e o mesmo par de tênis. Ele estava ridículo perto do português.
– A-ahn...
Olhou também seu meio de transporte arranjado: a bicicleta de Bella. Rosa.
– Você está lindo... – deixou escapar, logo se corrigindo – Q-quero dizer... Hn... Você prefere ir à pé ou de bicicleta? F-foi a única coisa que arranjei em cima da hora, mas o lugar é perto e você não precisa me tocar e acho que vai sujar suas roupas, mas não quero que você caminhe-- – disse nervoso e apressado.
O português não entendeu de onde vinha aquela atrapalhação toda de Luciano. Na verdade, ele nem tinha ligado à roupa que o mais novo trazia porque estava mais concentrado nas bochechas adoravelmente coradas do outro, que lhe davam um aspecto fofo e vontade de as apertar.
Luciano falou tão rápido que o lusitano apenas comentou no final:
– Eu posso ir buscar o carro se quiseres e não me importo de andar a pé nem de bicicleta. Escolhe tu.
O mais jovem ficou indeciso, mas a noite estava tão bela para ser desperdiçada andando de carro.
Sorrindo acanhado, saltou para a bicicleta e brincou.
– Sua carruagem~
O português riu-se e subiu para a bicicleta. Deu um meio abraço no tronco de Luciano, para se segurar.
– Oupa, mexe-te, meu servo.
O abraço, mesmo frouxo e com outras intenções, fez o peito de Luciano aquecer. Na sua imaginação boba e infantil, era a primeira vez que Afonso o abraçava por livre e espontânea vontade.
– Segure-se, hn? – sorriu e começou a pedalar.
– Claro, não quero um acidente-- – mal acabou a frase e já Luciano pedalava num rampa de paralelos. Temendo que a bicicleta saltasse demais, apertou o brasileiro – Devagar!
Luciano riu, soltando a mão esquerda do guidom e pondo-a sobre as de Afonso, fazendo carinho.
– Calma, eu vivo em cima de uma bicicleta. Você está seguro. – e, dizendo isso, fez uma curva rápida.
Deu um berro e esmagou-o.
– Calma!? Como assim, “calma”? Nós vamos bater!
O moreno sentiu dor e soltou um gemido fraco, parando de dar impulso à bicicleta e deixando que a velocidade diminuísse até pararem.
– C-chefinho, já chegamos... – ainda sentia Afonso lhe apertando – C-chefinho, s-sério... Tá doendo.
Afonso, que tinha escondido a cara nas suas costas, levantou a cabeça e pestanejou.
– Mesmo-- Quero dizer, desculpa!! – largou-o.
O brasileiro sorriu, girando o tronco para poder encarar Afonso e lhe bagunçou os cabelos.
– Tudo bem, eu só não imaginava que você fosse tão forte. – riu.
Resmungou e de imediato os tentou ajeitar, encarando-o o brasileiro com uma expressão emburrada, – Obviamente que sou forte.
Luciano riu e coçou a nuca.
– É que você é pequeninho, então pensei que fosse... não tão forte.
Semicerrou os olhos. Se o olhar matasse, Luciano estava já K.O.
– Eu não sou pequeno.
– Claro que é! – sorriu – Menor que eu, ao menos... Enfim! – pegou o menor pela mão esquerda – Vamos lanchar!
Deixou-se ser arrastado por Luciano, mesmo corando um pouco ao perceber que a mão dele era quentinha e agarrava a sua com força. E mesmo assim, isso não impediu o português de ir a protestar que não era nada pequeno nem menor.
O brasileiro tinha a mania do toque, e o fizera sem segundas intenções e, muito provavelmente, sem nem perceber. A mão de Afonso era gelada e pequena, embora revelar isso ao português seria assinar sua pena de morte, e Luciano sentiu-se tentado a entrelaçar seus dedos nos do mais velho. Entretanto, logo o largou quando chegou perto de uma pequenina tendinha de cachorro-quente.
– Eu... Não sei se você gosta de cachorro-quente, mas... – coçou a nuca – Eu gosto e pensei que talvez você também...
Imaginava o quão ridículo Afonso o achava no momento: pobre, sem noções de moda, sem ensino superior, sem bom gosto para comida... Sentia-se um completo idiota, e se perguntava se Arthur não riria de si se o visse jantando cachorro-quente na rua, e forçando o português a fazer o mesmo.
– D-desculpa... Nós podemos comer onde você quiser. – coçou a nuca.
Olhou para o lado, aguardando uma resposta mas o português já caminhava à sua frente para entrar na barriquinha.
– Que disseste?
Luciano piscou e logo se apressou em segurar Afonso pelos ombros, olhando-o de forma acanhada.
– Ahn... Se você não quiser comer aqui, podemos ver outro lugar.
Afonso estava muito arrumado para jantar ali.
Ele pestanejou mais uma vez.
– Por mim é na boa. Já tenho saudades de comer cachorros-quentes e não sou esquisito com comida. – disse sinceramente, já com água na boca só por causa do cheirinho a comida. E desta vez, foi a sua barriga que fez barulho – ...Eis a prova.
O moreno sorriu, porém ainda se achava um Zé Ruela.
Entraram na tendinha pequena e bem ajeitadinha e, já íntimo dos donos, Luciano cumprimentou a todos e pediu:
– O melhor da casa para o meu chefinho!
– L-Luci não me chames isso. – resmungou, encolhendo-se um pouco.
Enquanto o dono da tendinha, um brasileiro chamado José, sorria a Luciano e começava a preparar os lanches, o moreno piscou e encarou Afonso, que tinha uma expressão amuada.
– V-você... – sentou-se de forma desajeitada sobre o banquinho e enrubesceu de leve, coçando a nuca outra vez – Você me chamou de que?
Processamento rápido não era de todo uma coisa que Afonso tinha na maior parte das vezes. Franziu ligeiramente o sobrolho, confuso, e corou quando finalmente entendeu.
– Eu- D-Desculpa! Foi sem querer.
Luciano balançou a cabeça e as mãos, as bochechas rubras.
– N-não faz mal! – diminuiu seu tom e desviou o olhar – Eu gosto.
O mais velho coçou a nuca.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!– É que...hum... O teu nome é comprido então sai o diminutivo...
O moreno riu nervosamente.
– N-não fale como se fosse uma coisa ruim... ahn... E-eu...
– Há pessoas que não gostam e podias ser uma delas, sei lá. – disse, ajeitando-se sobre o banco, que rodava um pouco.
– Não, eu--!
– Aqui está o lanche, rapazes! – José aproximou-se dos mais jovens, sorrindo amigavelmente a eles enquanto entregava os lanches – Vão querer beber algo? Temos suco, refrigerantes... – olhou para Afonso e Luciano e escondeu um sorrisinho – e bebidas alcoólicas.
Afonso ficou pensativo por um pouco e depois pediu.
– Quero uma cerveja, se faz favor. Super Bock de preferência.
José sorriu.
– Claro. E você, Luciano?
– Hn... Refrigerante, seu Zé, estou “dirigindo”. – sorriu – Uma Coca-Cola, por favor.
– Anotado. – o brasileiro mais velho riu e depois falou num tom mais alto para a esposa – Luísa, querida. Uma Super Bock e uma Coca-Cola.
Quando o senhor saiu, Luciano encarou Afonso e questionou:
– Você bebe? Sério?
Afonso acenou afirmativamente.
– Sim, depende da comida. Mas se estiver em casa acabo por nem beber nada por hábito. – sorriu.
Luciano também sorriu, um pouco mais descontraído.
– Ah! Então você tem que experimentar a minha caipirinha! – pegou o cachorro-quente e despejou uma grande quantidade de ketchup – Sem querer me gabar, mas eu faço uma caipirinha super docinha.
Afonso riu e colocou os molhos no seu cachorro.
– Antes de fazeres a caipirinha tens de me fazer feijoada. Ouvi dizer que a dos brasileiros era boa.
O brasileiro, que mordera um pedaço generoso de seu lanche, ergueu o olhar enquanto um pouquinho de ketchup escorria pelo canto esquerdo da sua boca.
– Claro! – riu – Minha mãe era uma cozinheira de mão cheia, e me ensinou muitas coisas. – sorriu – Quando quiser, eu faço os pratos típicos lá de casa.
Afonso pegou num guardanapo e mais uma vez, como tinha feito no dia anterior, limpou-lhe o ketchup antes que fosse cair na sua roupa.
– Fica combinado! E é bom que seja a melhor feijoada que alguma vez comi na vida.
Ele corou um pouquinho e tentou comer de uma forma que não sujasse tudo.
– Vai ser. – piscou-lhe o olho, sorrindo – Eu prometo.
– Não me esqueço das promessas. – riu um pouco e começou a comer.
Era sempre tão fácil conversar com Luciano que por vezes o português achava que já se conheciam à muito tempo.
No segundo cachorro-quente – era simplesmente uma delícia! –, dona Luísa veio verificar se estavam apreciando o lanche, e o brasileiro, sorridente, acenou.
– Bah! Está maravilhoso, dona Luísa! – sorriu.
– Oh, fico feliz, querido. – íntima, a senhora acariciou o cabelo de Luciano e o brasileiro riu, encostando a cabeça na barriga rechonchuda de Luísa – Estou na cozinha, sim? Qualquer coisa, o José está a disposição.
O português terminou o seu cachorro e observou Luciano com algum divertimento.
– Acho que descobri o teu ponto fraco.
Luciano, que olhava Luísa se afastar, encarou Afonso com certa curiosidade.
– Oi? – mordeu novamente se lanche, terminando-o – Como assim “ponto fraco”? – questionou de boca cheia, tomando um pouco de refrigerante para ajudar na mastigação.
Esticou o braço e fez-lhe festinhas no cabelo, perto da nuca.
– O ponto fraco. És como um gatinho.
O brasileiro fechou os olhos no mesmo instante, um arrepio gostoso percorrendo sua espinha enquanto ele entreabria os lábios.
– N-não é um ponto fraco... – murmurou, as bochechas se tornando gradualmente rosadas – É bom...
O português sorriu abertamente e brincou:
– É um ponto fraco~ Dá para te manipular só com isto.
Luciano mordeu o lábio inferior, involuntariamente inclinando o tronco sobre a pequenina mesa que o separava de Afonso.
– Não dá... – continuava de olhos fechados.
– Hum, se calhar tens razão. – continuou a sorrir sem perceber, a reacção do moreno era adorável, e parou o cafuné de propósito.
No mesmo instante, Luciano abriu os olhos e encarou Afonso, fazendo um sutil beicinho enquanto questionava inocente e sem perceber:
– Por que parou?
– Porque as pessoas que me chamam “chefinho” não merecem festinhas no cabelo~
Ninguém o podia censurar. Afinal... Tinha de tentar.
– Ah... – Luciano não conseguiu esconder sua decepção, mas apenas coçou a nuca e se endireitou no banquinho – Seu Zé! Traga seus melhores bolinhos! Pra viagem! – pediu, sorrindo.
O senhor levantou o polegar e foi buscar o pedido.
Afonso acabou de beber a cerveja e depois sorriu.
– Como tencionas pedalar de volta? É que agora é a subir.
– Ué... Com os pés. – piscou.
– Veremos~
Luciano riu.
– Não me subestime, querido chefinho~ – piscou-lhe.
Encarou-o novamente, desta vez com a típica expressão amuada.
– Eu não sou “chefinho”.
– Mas é querido. – sorriu.
Afonso pensou que ele se referia ao diminutivo.
– Não é nada.
O brasileiro não entendeu o erro de comunicação e voltou a sorrir.
O casal dono da tendinha entregou aos jovens os bolinhos numa embalagem de isopor. A noite estava agradável, porém ele tinha de acordar cedo na manhã seguinte para se encontrar com Michelle. Ele ainda não conhecia o shopping da cidade, e muito provavelmente se perderia antes de achar o local certo.
Com um sorriso no rosto, pediu licença e foi pagar a conta – claro que Afonso tentou pagar sua parte, mas como havia sido um convite do brasileiro, ele negou. Ao verificar que não tinha dinheiro o suficiente para pagar pelo lanche, pediu que Afonso destrancasse a bicicleta de Bella, presa com cadeado num poste ali perto.
– D-desculpe, eu não trouxe dinheiro suficiente... – admitiu, acanhado quando ficou à sós com os senhores.
– Ah, não se preocupa, rapaz. – José sorriu – Olha, eu vou anotar neste caderninho aqui o valor que falta e tu vem pagar quando puder, certo?
Luciano sorriu e agradeceu muitas vezes, despedindo-se dos adultos.
Saiu da tendinha e suspirou. Tivera sorte de já conhecer o casal e deles serem simpáticos... Talvez não devesse fazer coisas que a maioria das pessoas fazia.
Não tinha dinheiro para isso.
Aproximando-se da bicicleta, sorriu fracamente ao português:
– Aceita uma carona até em casa?
O português subiu para a bicicleta e agarrou no guiador.
– Quem dá boleia agora sou eu. – conhecia bem aquelas ruas e sabia se um caminho que era menos ingreme. Notou que Luciano parecia diferente e fez a mesma pergunta de sempre – Estás bem?
Luciano balançou a cabeça e riu.
– O que é “boleia”?
Afonso rolou os olhos e sorriu.
– “Carona”. – explicou e Luciano riu outra vez.
Embora acreditasse que Afonso não conseguiria pedalar com um peso extra – ou seja, ele mesmo –, Luciano aceitou a carona de Afonso e sentou-se atrás dele, envolvendo o menor pelo tronco e o abraçando carinhosamente para não cair.
– Se for muito pesado, eu pedalo, ok?
– Sim Sr. Baleia, não se preocupe com nada. – implicou e começou a pedalar.
Como não estava a ser tão difícil como ele esperava, depressa aumentou a velocidade e entrou nas ruelas do centro histórico que eram estreitas e em pedra.
Ao final da primeira curva, um relvado enorme, iluminado apenas pelos postes da via pública, circundavam um castelo onde numa das torres se podia ler a letras garrafais, quase escondidas por uma estátua: “Foi aqui que nasceu Portugal”.
Mas Afonso não deu importância ao castelo porque passava ali muitas vezes e já há muito que tinha deixado de ser novidade. Virou à esquerda e retomou o caminho a casa.
Quando Afonso estacionou a bicicleta, Luciano sequer saltou desta, apenas esperou que o português se erguesse e pulou para o assento, já se preparando para partir.
Afonso espreguiçou-se.
– Obrigado pelo jantar, diverti-me imenso!
– Eu que agradeço. – sorriu e depois olhou para baixo – Hn... Chefinho? – ergueu apenas o olhar, o rosto ainda um pouco abaixado – Você me acha mesmo gordo?
Era um fato que Luciano fosse um pouco mais corpulento que outros rapazes – Martin, por exemplo, era esguio e tinha poucas curvas. O brasileiro tinha um porte atlético, o corpo bem definido e trabalhado pelos anos de natação, futebol e basquete que praticara na vida acadêmica ou por puro prazer.
Entretanto, nunca haviam dito que seu corpo forte fosse gordo.
Afonso tentou manter-se sério mas acabou por se desmanchar a rir ás gargalhadas.
– Claro que não, parvinho! Estava só a implicar contigo.
O brasileiro enrubesceu. Não sabia o que significava “parvo”, porém acreditava que tinha algum sentido idiota.
Coçou a nuca e estendeu a sacolinha onde havia a caixinha de isopor com os bolinhos para Afonso.
– É um presente. – sorriu e ajeitou-se na bicicleta – Tenha uma boa noite. Nos vemos segunda-feira.
Pegou no saquinho e sorriu.
– Obrigado... – adorava coisas doces e era facilmente conquistado pelo estômago. Abriu subtilmente os braços – Onde está o meu abraço de despedida?
Luciano piscou, um pouco confuso.
Afonso queria... ele queria um abraço seu? Ele não iria reclamar nem dizer que aquilo era totalmente desnecessário?!
Sorrindo, o brasileiro ergueu-se da bicicleta e ajeitou o apoio, mantendo-a de pé enquanto se aproximava de Afonso e o enlaçava pela cintura, puxando-o para perto e encostava seu rosto no dele, abraçando-o apertado.
– Boa noite.
O lusitano sorriu um pouco e esfregou-lhe levemente as costas.
– Boa noite, fica bem.
– Você também. – alargou o sorriso e deu um sutil aperto no abraço, beijando calma e delicadamente a bochecha direita de Afonso antes de se afastar e voltar para a bicicleta – Até mais. Qualquer coisa, me liga, ok?
Afonso corou e pestanejou. Como é que era possível alguém ser tão sorridente? Ele não estava triste por causa de Martin?
– O-Ok. Digo-te o mesmo.
O brasileiro acenou e piscou o olho mais uma vez, puxando o apoio da bicicleta para cima com o pé direito e acenou.
– Tchau!
Sorriu outra vez e começou a pedalar, indo embora.
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