O Som Do Coração
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Ah, queremos tanto agradecer as reviews lindas que vocês estão nos enviando *-*
Ficamos tão felizes em saber que PtBr está sendo bem aceito aqui no site e, se vocês conhecerem amigos que curtam o casal, podem fazer propaganda que nós pagamos com bolinhos virtuais (sim, Ju, estou te copiando).
A querida Labi não consegue responder as reviews que recebemos, então esse será o meu trabalho, ok? :P
Logo eu paro com a procrastinação e vocês terão suas respostas ♥
Esperamos que gostem do capítulo o//
Capítulo III:
Quando Luciano chegou para trabalhar na floricultura no dia seguinte, ele estava um pouco diferente. Embora continuasse a sorrir, fosse simpático com os poucos fregueses que entravam na Colubris e mimasse até não poder mais Sofia – Lovina precisou fazer uma bateria de exames para certificar-se da saúde e sexo do bebê –, ele não continha aquela aura quente e encantadora de sempre.
E não era o único.
Afonso tinha dormido só duas ou três horas e as olheiras já costumeiras no seu rosto tinham ficado ainda mais negras, acentuando o seu aspecto cansado.
Estava demasiado cansado, triste e várias outras coisas ao mesmo tempo. Ao contrário do brasileiro, era-lhe difícil sorrir sem vontade e por isso tentava atender os clientes com a maior simpatia que conseguisse sem ter necessidade de sorrir para lá daquilo que fosse considerado educado.
Estava muito distraído e absorvido nos seus pensamentos e quando, depois de um senhor idoso ter saído, derrubou o terceiro vaso sem querer, suspirou e murmurou para si mesmo:
– Hoje não dou trinta por uma linha... – baixou-se e colocou a terra dentro do vaso novamente.
Luciano foi desperto de seus devaneios ao ouvir o vaso partir. Olhou para Afonso e soltou um suspiro ao ver que ele quebrara mais um vaso e tentava limpar a terra negra do piso branco.
– Bia, querida. Pode trazer uma vassoura e um pano úmido pro tio Luci?
– Sim! – a menina disse risonha, deixando seus desenhos e correndo até os fundos.
O brasileiro sorriu e se aproximou do mais velho, acocorando-se ao seu lado e o ajudando a recolher a terra.
– Você está bem, Afonso? Está distraído...
Levantou o olhar e pestanejou.
– N-Não... Eu estou bem. Só embarrei no vaso sem querer. – tentou impedir Luciano de limpar, agarrando-lhe nos pulsos e sujando-os de terra acidentalmente – Eu fiz asneira, eu limpo. Não te incomodes, é só um bocadinho de terra.
Luciano sorriu, um pouco mais verdadeiro.
– Não me incomodo. Eu gosto da terra. – disse e torceu os pulsos, juntando suas mãos com as de Afonso – Hei... Feche os olhos.
O lusitano ficou um pouco confuso mas fez o que ele pediu, involuntariamente apertando um pouco as mãos grandes e quentinhas de Luciano.
Luciano alargou seu sorriso e também fechou os olhos. Aproveitou que havia terra entre suas mãos e as de Afonso e começou a esfregá-la nas palmas do mais velho.
– Sabe por que eu gosto da terra? – usou seus polegares sujos para massagear as mãos de Afonso – Porque ela tem uma textura gostosa... eu gosto de sentir a terra por entre os dedos, – fez isso nos do mais velho – assim como gosto do cheiro que ela tem quando fica molhada. Eu gosto de afundar os pés na terra, sentir cada poro meu sendo coberto por ela... – subiu suas mãos até os pulsos do português, massageando ali – O atrito natural que ela causa acalma, e seus minerais fazem bem pra gente.
Afonso riu baixo e nem reclamou da “massagem”.
– Eu até gosto de terra mas... Prefiro o mar ou a água, na verdade. – abriu os olhos – A terra faz mais que isso. Ela alimenta pequenas sementes que depois se podem transformar em flores ou até mesmo árvores. Mas a água é mais... Sei lá... Volátil?
Luciano também abriu os olhos, seus dedos cheios de terra se entrelaçando nos de Afonso, suas palmas se juntando.
– Você é volátil, Afonso?
A pergunta podia significar várias coisas e o lusitano não teve bem a certeza do sentido que tinha. Suspirou e olhou novamente para baixo.
– Depende ao que te referes. Se falas de “voar” então não... Sou bem fixo na terra. E também não sou inconstante... Por isso não creio ser volátil...
– E quando você se apaixona? – apertou de leve sua mão.
Afonso continuou a olhar para baixo e deu subtilmente de ombros.
– Não sei...não faz muita diferença.
Luciano sorriu outra vez, seus polegares acariciando os de Afonso.
– Está mais calmo?
Suspirou levemente. Não estava. Os sentimentos ainda estavam magoados por muito que tentasse não mostrar isso.
– Eu estava calmo, estou sempre calmo.
– Certo. – Luciano riu – Não é isso que suas mãos me dizem.
Encarou o brasileiro e inclinou um pouco a cabeça.
– Como sabes? Não me digas que és bruxo e fazes aquelas coisas esquesitas de ler o futuro.
O moreno riu e balançou a cabeça.
– Aqui está tenso. – sorriu e apertou a região entre o polegar e o indicador.
Afonso corou um pouco.
– É por estar com as mãos frias, só isso. – decidido a mudar de assunto, falou na primeira coisa que se lembrou – Como correu o teu jantar?
Luciano enfraqueceu seu sorriso e soltou as mãos de Afonso.
– Não ocorreu.
Franziu ligeiramente o sobrolho.
– Aconteceu alguma coisa grave?
– Martin não dormiu em casa. – forçou um sorriso e ofereceu ajuda para Afonso levantar – Deve ter trabalhado até tarde e dormido na agência.
Aceitou a ajuda e foi com facilidade levantado. O sorriso de Luciano denunciava aquilo que ele sentia e por isso, esquecendo-te que tinha as mãos sujas, o português tocou-lhe no canto da boca e puxou-o levemente para baixo, fazendo o sorriso cessar e dar a Luciano um bigode acidental feito de terra.
– Agência de quê? Bem, pode também ter tido alguma reunião ou qualquer coisa longe e precisar de ter ficado num hotel. Ou até ter ficado até tarde a trabalhar mas a bateria do telémovel ter acabado e ele nem ter conseguido avisar, por exemplo.
Luciano não entendeu o porquê de Afonso tê-lo feito parar de sorrir, mas imaginou que tivesse o rosto sujo. Por precaução, passou o braço pela boca, não vendo nada de mais.
– Martin é modelo. Por isso nos mudamos pra Portugal, ele vai trabalhar com uma tal de Amélia sei-lá-o-quê. – deu de ombros – Pelo o que ele me disse, a chefe dele é uma cretina, então deve ter feito o Martin passar a noite trabalhando e ensaiando e provando roupas e sei lá mais o que.
– Oh entendo, mas faz sentido isso ter acontecido. – suspirou e ficou pensativo – E tu também és modelo ,não? Daquelas publicidades de pastas dos dentes?
Luciano encarou Afonso e não resistiu, caindo na gargalhada logo em seguida.
– P-por que acha isso, Afonso?
– Por que estão a rir? – Sofia perguntou – Tio Luciano, eu não achei o balde.
– Porque me parece que sorris mecanicamente mesmo sem ter vontade. – foi sincero e depois encarou a pequena, um tanto confuso – “Tio” Luciano?
O sorriso de Luciano desapareceu, e ele coçou a nuca, esquecendo-se da terra nas mãos.
– Você está enganado sobre mim. – murmurou, e Sofia balançou a vassoura.
– Não posso chamar o moço bonito de tio, titio? – questionou.
Afonso pestanejou.
– Estou? D-Desculpa! Não queria ser rude... – depois de ouvir a pequena, sorriu-lhe – Não me perguntes a mim, pergunta a ele.
Luciano sorriu outra vez.
– Não foi. – e, voltando-se para Sofia, deu um sorriso maior ainda – Claro que pode, Bia. Mas, por favor, não me chame mais de “moço bonito”.
– Por que? – perguntou, curiosa.
– P-por que eu não sou! – enrubesceu.
– És sim~ não é, tio? – olhou para Afonso.
Ele atrapalhou-se e corou também. Sim, Luciano era muito bonito mas dizer isso dessa forma ia ser estranho então limitou a acenar afirmativamente com a cabeça em resposta.
Ao ver a resposta de Afonso, Luciano corou ainda mais e desviou o olhar para Sofia, que lhe chamara.
– Tio Luciano... Tens o rosto sujo. – apontou para o local onde Afonso havia sujado o brasileiro.
– Tenho? – piscou – Onde?
– No canto da boca... – fez Luciano se ajoelhar e tocou a terra – É terra! – ela riu.
– Terra? – Luciano ergueu o olhar para Afonso e sorriu maldoso, cochichando qualquer coisa para Sofia, que se riu novamente e correu até o português, lhe prendendo as pernas. – Então o senhor chefinho suja seus ajudantes de terra? Que feio~ – Luciano riu e se aproximou do mais velho.
– Huh? Eu não-- – engoliu em seco ao ver o sorriso malicioso – Hey-- Isso é- Hum... Violação dos direitos do trabalhador. – tentou afastar-se mas Sofia prendeu-o melhor, então mostrou as suas mãos – Mais um passo e sujo-te a sério!
Luciano não se deixou intimidar e, mais rápido do que Afonso imaginou que ele fosse capaz, segurou o rosto do mais velho com as mãos sujas, seu nariz encostado no do menor, olhando-o diretamente nos olhos. Só agora havia reparado que eles tinham uma bela coloração escura. E que eram verdes.
– Sempre pensei que portugueses tinham um bigode engraçado. – ele disse baixo, usando os polegares para fazer-lhe um bigode falso de terra.
A proximidade foi tão repentina que Afonso sentiu a sua cara ficar vermelha numa questão de segundos.
– E-Eu sempre pensei que os brasileiros usassem chapéus de palha e mordessem palhinhas.
O mais jovem sorriu.
– Isso se resolv--
– Afonso Luís Barros Moreira!
Os três olharam em direção à porta, onde um casal estava parado. O homem tinha as sobrancelhas franzidas e cara de poucos amigos, e a mulher estava completamente rubra.
Sofia soltou seu tio e correu ao casal, abrindo os braços.
– Mamã! Papá!
Afonso demorou um pouco a raciocinar o que estava a acontecer e quando o fez, afastou-se delicadamente do brasileiro.
– Não é o que vocês estão a--
– Mamã! O Tio Luci desenhou-lhe um bigode~!
– E-estou a ver, Bia. – sorriu de canto e abraçou como pode a filha, que ria.
Luciano permaneceu no mesmo lugar, olhando para a família de Afonso. Antônio lhe encarava grosseiramente e, para quebrar o gelo, o brasileiro sorriu e acenou.
– Olá. Me chamo Luciano e--
– Que estavas tu a fazer com meu irmão? – o espanhol rosnou e Lovina deu-lhe um sutil tapa no ombro.
– 'Tás quieto, Antônio. – franziu o cenho e caminhou até o moreno, segurando-lhe o rosto e lhe apertando as bochechas. Como Luciano riu para ela, a italiana sorriu e olhou para Afonso por cima do ombro, ainda brincando com o rosto do mais novo – Gostei dele, Afonso.
O português levantou uma sobrancelha e tentou limpar o seu “bigode”, resmungando:
– Ele é alto o suficiente para chegar ás prateleiras altas.
Lovina sorriu e Antônio resmungou alguma coisa, dizendo para Sofia ficar junto de si.
– Com licença, senhora--
– Não me chames “senhora”. Tens que idade?
– Dezenove.
Os irmãos piscaram. Luciano era bem mais jovem do que imaginavam.
– Pois eu tenho vinte e um. Não sou assim tão velha. – sorriu.
Luciano também sorriu e pediu desculpas.
– Eu... Com a sua licença, vou limpar a bagunça.
Afonso acenou demissivamente:
– Não, eu faço isso, fui eu que derrubei o vaso.
Primeiro foi lavar as mãos e a cara e só depois foi varrer o chão.
Luciano, vendo que Antônio ainda o encarava com cara de poucos amigos, sorriu torto e pediu licença, “fugindo” para o banheiro na sala de trás. Lavou as mãos e o rosto, encarando seu próprio reflexo no espelho logo em seguida.
– Não faça isso, Luciano. – mordeu o próprio lábio e tentou tirar da cabeça o olhar confuso que Afonso lhe lançou quando ficaram próximos.
Suspirou e molhou o rosto outra vez. Estava apenas cansado e chateado com Martin. Apenas isso.
Ao voltar para a floricultura, Sofia rodava em volta de Lovina, que sorria à filha.
– Mamã! Que disse o médico?
A italiana cansou-se e Luciano lhe levou o banquinho, ganhando mais um ponto com ela. E causando ciúmes em Antônio.
– A mamã tem uma surpresa pra ti, querida.
– Tens? – a pequena sorriu e ficou em frente à mãe. Sabia que Lovina não tinha forças para pegá-la no colo, porém era uma menininha madura o suficiente para entender.
– Sim. – pegou as mãozinhas da filha e colocou-as sobre sua barriga – Tu terás uma irmãzinha.
– Uma irmãzinha?!
A italiana sorriu e acarinhou-lhe o cabelo.
– Isso mesmo.
Sofia sorriu e abraçou-lhe a barriga.
– Olá mana~
Depois de ter terminado de varrer, Afonso aproximou-se deles os três.
– Outra menina? Os meus parabéns!
– Obrigada, cunhadinho. – sorriu-lhe.
Sofia, que agora conversava com a barriga da mãe, sorriu e encarou a italiana.
– Mamã? Qual é o nome da minha mana? – perguntou e acariciou a barriga de Lovina, toda boba por saber o sexo do bebê.
Antônio se aproximou de suas amadas e beijou a bochecha da filha.
– Que tal Marisa? É um nome bonito. – o espanhol sugeriu.
– Eu gosto! – Sofia logo começou as saltos e encostou-se na barriga da mãe – Olá Marisa!
Afonso observou a cena de longe e não conseguiu evitar um sorriso idiota. Estava verdadeiramente contente pelo seu irmão.
Lembrava-se de quando soube que a cunhada tinha engravidado da primeira vez: na altura, ela só tinha 17 anos, quase 18, e tinha sido um “acidente”. Tinha sido muito complicado para o seu irmão, mas no final, com a ajuda dos pais dela, as coisas resolveram-se e agora lá estavam eles, unidos, felizes e à espera de mais uma filha.
Luciano também sentiu-se feliz. Era tão bonito o amor entre pais e filhos.
Em seguida, porém, ele sentiu seu sorriso enfraquecer, e agradeceu o fato do telefone ter tocado.
– Eu atendo. – disse de imediato e foi até o balcão – Alô?
– Afonso, vens jantar conosco? Para celebrar o sexo do bebê. – Antônio convidou.
– É! Anda, tio!
Pousou a vassoura e sorriu.
– Nãh, deixem lá. Já tenho coisas para fazer, mas obrigado na mesma.
Era uma mentira, mas o lusitano não lhes queria dar trabalho desnecessário uma vez que já faziam tanto por si.
– Tio chato! – Sofia fez beiço e foi para o colo de Antônio.
Antônio suspirou e chamou Lovina para irem, já que a italiana precisava de descanso. Estava tudo bem com o bebê, mas o médico recomendou repouso. Lovina sorriu e deu um abraço de mal jeito em seu cunhado, uma vez que sua barriga a impedia de aproximar-se demais do português e a família se despediu, Sofia e Lovina acenando alegremente para Luciano, que desligava o telefone.
– Por que não vai jantar com eles? Tem outros planos? – perguntou, curioso.
Suspirou e ajeitou o seu rabo de cavalo.
– Tenho planos com um livro que estou a acabar de ler. Não gosto de lhes dar trabalho e eles precisam de celebrar em familía.
– Você é a família deles. – Luciano piscou.
– Mas não sou a família. – sorriu um pouco – A família deles são eles os quatro e eu não quero ficar a mais.
Luciano revirou os olhos e colocou as mãos no bolso frontal do avental.
– Você é um chato, chefinho. – depois sorriu – Topa ver um filme comigo?
O português voltou a corar ligeiramente.
– Não sou “chefinho”. Mas...É uma boa ideia. Onde? Cinema ou em casa?
Luciano, sinceramente, não esperava que Afonso fosse aceitar tão facilmente assim seu convite. Mas... o brasileiro ficara tão contente!
– Então admite que é chato? – implicou – Bem... eu não sei o que está passando nos cinemas e... – coçou a nuca, um tanto acanhado – Eu não tenho bem uma casa. – ergueu o olhar e encarou o mais velho – Sabe? Eu moro com a sua amiga, a Bella...
Deu de ombros.
– É o que me costumam chamar. – suspirou – Bem, podes aparecer lá em casa se preferires, tenho alguns dvds para lá.
O moreno piscou.
– Você está me convidando para ir na sua casa? – sorriu e depois usou um argumento do português – E isso é profissional?
Ele riu e deu-lhe um murro leve no ombro.
– Teoricamente é depois do trabalho terminar por isso profissionalismo não conta para nada.
Luciano sorriu de novo e enlaçou seu braço esquerdo no direito de Afonso, prendendo-o contra si.
– Isso significa que posso chamar você de “chefinho” depois do horário de trabalho?
O português corou ligeiramente e resmungou.
– Não. Nem fora nem dentro do trabalho.
Luciano piscou. Jurava que o rosto de Afonso havia enrubescido um pouco.
Riu. Só podia estar enganado.
– Chato~ – sorriu e soltou o mais velho – Eu só vou guardar alguns vasos na estufa, sim?
Depressa anoiteceu, por ser Inverno, e a chuva voltou no final dessa tarde.
O português levou Luciano consigo para casa e apesar do brasileiro ter dito que não era necessário ter trabalho, Afonso fez o jantar e encheu-o com feijoada à transmontana, implicando com ele ao vê-lo devorar tudo de uma vez. Porque para quem “não tinha fome”, Luciano comia bem.
Depois de ter arrumado minimamente a cozinha e acendido a lareira, Afonso foi procurar pelos seus dvds.
Apenas ocorreu um pequeno problema: Sofia, por engano, tinha levado a caixinha com os Dvds dele e deixado os dela e no final, os dois lusófonos só tinham filmes de princesas e da Disney.
– ...E agora?
Luciano chegou atrás de Afonso e remexeu na sacola com a maior intimidade, sorrindo quando pegou “Pocahontas”.
– Ah! Eu adoro filmes da Disney! – riu e depois olhou para Afonso, que lhe encarava com uma expressão curiosa – D-digo... – pigarreou e corou – E-eu não me importo de ver desenho.
O português riu e esfregou-lhe o cabelo antes de se levantar.
– Então que seja a Pocahontas.
E estava tudo ok até ao filme começar porque Luciano fez uma careta ao ouvir a dobragem portuguesa e dali a nada já estava a tentar imitar as palavras o que o faziam apanhar leves chapadas na nuca do lusitano.
Mas no fundo, ele não se importava... Luciano parecia boa companhia e... Não era tão mau assim ver desenhos animados.
Os morenos se entupiram com nada menos que duas gigantes tigelas de pipoca – a doce fora Luciano quem fizera. Após terminarem de ver o filme, começaram a conversar sobre assuntos triviais, como a paixão de Afonso por livros e que o violão de Luciano fora um presente de seu querido avô.
Era engraçado como o papo entre eles fluía naturalmente e de uma maneira gostosa, e eles só se perceberam da hora quando o brasileiro bocejou, coçando os olhos em seguida.
– Acho melhor eu ir embora. – sorriu ao mais velho e esfregou ambas as mãos nos cachos, bagunçando-os um pouco – Deixa eu te ajudar com essa bagunça. – se levantou e pegou as tigelas, indo levá-las até a cozinha.
– Não! Deixa- – o brasileiro já tinha arrumado as coisas e Afonso resmungou que não era justo serem as visitas a arrumar. – Queres que te leve a casa? Está escuro e é tarde.
Luciano olhou para Afonso por cima do ombro, lhe sorrindo e começando a lavar a louça.
– Nah. Eu gosto de caminhar.
– Que bom, eu gosto de lavar a louça. – deu-lhe um empurrão com a anca – Fora daí.
O mais jovem lhe imitou o gesto.
– Me deixa quieto. Já tenho as mãos molhadas mesmo.
– Argumento inválido. – continuou a tentar afasta-lo da banca – Tu já devias estar em casa porque tens pessoas à tua espera, não percas tempo, oupa.
– E você devia ser menos chato. – implicou – Além do mais, não, eu não tenho quem me espere em casa. – empurrou-o de novo e esfregou os pratos.
O português colocou as mãos na cintura.
– Tens o teu namorado, parvo! Vá lá, deixa-me fazer isso.
Os lábios de Luciano torceram-se num bico manhoso.
– O que me garante que ele não vai trabalhar a noite inteira de novo? – suspirou – Mas ok. Eu deixo a louça para você. – desistiu e secou as mãos num pano. – Melhor eu ir andando, então. Obrigado pelo jantar, pelo filme e pela pipoca.
– Nada garante, mas podes sempre ir busca-lo, não? – pestanejou e pegou num pano seco – De nada~
Ele balançou a cabeça em sinal negativo.
– Nah. Eu não posso me meter no trabalho do Martin ou ele briga comigo. – suspirou e esfregou a mão nos cabelos. – Enfim. Boa noite e até amanhã. – sorriu.
– Até amanhã. Hey, leva um guarda-chuva antes que chova torrencialmente. Estão atrás da porta de entrada. – apontou.
– Não precisa! Se eu me molhar, a Bella me deixa tomar banho de banheira! – sorriu como criança e depois fez biquinho – Você não vai me levar até a porta? Sabia que, no Brasil, se a visita abre a porta para ir embora ela nunca mais volta?
Ele riu e limpou as mãos no pano.
– Preferes ficar doente só para tomar banho de banheira? O que farias tu por uma de hidromassagem? Pronto, pronto, eu levo-te à porta. – caminhou até lá.
Luciano riu e pegou seu casaco, quase saltitando atrás do mais velho.
– Venderia meu rim~
Apontou para a porta da casa de banho:
– Tráfico de órgãos dá dinheiro por isso vende-me o teu rim~
O brasileiro riu outra vez e piscou.
– Sério, chefinho. Se eu não soubesse que você está brincando, poderia jurar que está me convidando para tomar banho com você.
Desta vez Afonso não se limitou a corar, ficou bem pior que isso: bem vermelho até ás orelhas.
– N-NADA DISSO! PARVO! – deu-lhe um murro leve no braço.
Luciano piscou e coçou a nuca.
– D-desculpa! Sério, eu só estava brincando! – olhou para a porta e em seguida para o português – O-olha, eu vou pra casa, ok? – deu-lhe um rápido beijo na bochecha e começou a andar de costas, sorrindo torto enquanto balançava as mãos em frente ao corpo. Abriu a porta e despediu-se – O-obrigado por tudo e desculpe qualquer coisa. – saiu e fechou a porta sem muita delicadeza, correndo na chuva.
Afonso observou-o sair e depois disse para si mesmo:
– ...Eu disse para levares guarda-chuva.
Levou a mão direita até a bochecha beijada, encarando a porta por onde Luciano havia saído.
Ah! Ele abrira a porta!
~※~
Logo chegou Dezembro.
Após pegar um resfriado por correr algumas noites seguidas sob a chuva forte – Luciano tinha tanta preguiça em carregar guarda-chuva por aí... –, Luciano apareceu, durante uma noite, na casa de Afonso após o trabalho. Ele sorria enquanto balançava um pendrive, dizendo para o mais velho que ele tinha o direito de ver Pocahontas com uma dublagem melhor – ou seja: a brasileira. Embora tivessem discutido um pouco sobre as diferenças entre ambas línguas, eles viram o filme... e logo aquilo tornou-se uma rotina entre eles: numa semana, Afonso rodava um filme com a dublagem de seu país; na outra Luciano, após fazer download, levava o mesmo filme, mas falado em sua língua. Se encontravam sempre às quartas-feiras, quando Martin trabalhava até mais tarde.
Dito argentino passava cada dia mais tempo na Agência, o que começava a magoar Luciano. Ele adorava seu namorado, porém as brigas entre eles começava a se tornar frequentes. Martin trabalhava demais; Luciano de menos...
– Precisa de ajuda, senhor Santiago? – Michelle questionou enquanto Martin estudava os figurinos que usaria na próxima seção de fotos.
– Claro! – ele sorriu – Mas pare de me chamar de “senhor”, por favor.
– D-Desculpa. É hábito. – ela mexeu na ponta do seu cabelo por nervosismo – Que precisa que eu vá buscar?
– Pare de me tratar formalmente. – Martin resmungou, colocando as mãos na cintura.
– Certo... Que precisas que eu vá buscar, Santiago?
O loiro sorriu, galanteador.
– Gostaria que você me acompanhasse num jantar. Essa noite.
Michelle corou adoravelmente.
– Mesmo? Digo-- Seria um prazer!
A moça, natural de Seicheles, não conseguia mais se enganar: estava apaixonada pelo argentino! Ele era gentil, bonito, engraçado... Faziam as refeições juntos sempre que possível, e o papo entre eles era agradável. Ela, uma garota jovem e inexperiente no mundo da moda, via em Martin quase um professor. Embora mais novo que si – ele tinha recém dezenove enquanto ela já completava seus vinte e um –, havia uma maturidade apaixonante em seu jeito de ser que a fazia suspirar.
Martin aumentou seu sorriso, aproximando-se da morena.
– Fico lisonjeado! – tomou-lhe a mão direita e beijou o dorso – Passo na sua casa às oito em ponto. Use seu melhor vestido.
Ela sorriu acanhada e acenou com a cabeça.
– Fica combinado!
Enquanto isso, na floricultura, Afonso bufava e resmungava sozinho. Tinha a árdua tarefa de enfeitar a loja com luzes de Natal e era-lhe difícil chegar aos lugares mais altos, mesmo estando em cima de uma cadeira.
Obviamente que Luciano se havia oferecido para ajudar mas ele, orgulhoso como era, recusou a ajuda e mandou-o fazer outras coisas (no caso, trazer alguns vasos de pinheiros para a frente da floricultura).
O brasileiro, sempre que passava lá dentro, achava graça ás tentativas frustradas de Afonso chegar lá cima e depois das duas uma: Ou recebia um olhar torto ou era atingido com rebuçados de fruta porque era a única coisa que o português tinha à mão para lhe conseguir atirar.
– Vamos lá, chefinho~ Me deixa te ajudar~
– Não sou-- H-hei!
Ignorando Afonso completamente – Luciano criara essa mania –, o brasileiro pegou o mais velho no colo pelas pernas, deixando-o mais alto que si, e encarou-o terna e bobamente.
– Você nunca vai alcançar os lugares mais altos. Deixa que eu faço isso, guri orgulhoso!
– Hey... P-Pousa-me no chão! Eu chego lá! Estou quase e não sou orgulho. Também não sou “chefinho” nem “guri”! – disse de rajada e num tom amuado.
Luciano deu um sorriso torto e escondeu o rosto no tronco do mais velho, apertando-o de leve.
O lusitano corou e olhou para baixo:
– Luci? – raciocinou um momento – Quero dizer, Luciano, tu estás bem?
O moreno afastou-se e murmurou um pedido de desculpas antes de soltar Afonso no chão e subir no banquinho.
– Como você quer que eu arrume isso?
O português cruzou os braços e continuou amuado mas disse-lhe o que tinha de fazer.
Entretanto o sininho que ficava sobre a porta tocou e o português foi atender o cliente. Era um rapaz com aspecto nervoso e que balbuciou o seu pedido, um simples arranjo para um centro de mesa.
Afonso demorou nem 5 minutos a faze-lo e antes de colocar num saco perguntou.
– É para oferecer?
– S-sim... Quero dizer, não. Bem... Sim...
– Diga-me o seu nome, por favor. Para pôr na etiqueta. – explicou antes que o homem perguntasse.
– Alberto...
O lusitano escreveu, com uma letra bem desenhada e depois passou-lhe o saco.
– Aqui tem senhor. – disse o preço e observou-o sair depois de ter pago.
Luciano, ainda arrumando as luzinhas, olhou para Afonso.
– Ele estava bem nervoso, hn?
– Pois estava. Talvez vá propor a alguém. – especulou e depois suspirou – Tenho fome... Vou fazer lanche. Queres alguma coisa?
– Não, obrigado. – disse e desceu do banquinho ao terminar de arrumar as coisas – Ficou bom?
Afonso olhou para os enfeites.
– Até ficou. Obrigado. Falta só por luzinhas no beija-flor da campaínha, meu servo. – disse para implicar e foi até à 'staff room' fazer chocolate quente. Por ter de andar fora e dentro entre as estufas e a loja, ficava sempre com frio.
Quando voltou à floricultura, piscou os olhos ao ver Luciano, ao telefone, discutindo com alguém.
– Mas você prometeu! – uma pausa – Não tem como você fazer isso amanhã? Ah, não, é? – ele baixou o rosto e esfregou os olhos. Não queria chorar – Ok. Certo. Até.
Aproximou-se dele, segurando a caneca do chocolate quente com uma mão e uma nata com a outra, e encarou-o com o sobrolho franzido, mostrando um tanto de preocupação.
Luciano se assustou ao ver Afonso na sua frente e forçou um sorriso.
– Ah! O-oi, chefinho. – riu e coçou a nuca – Eu... eu poderia sair mais cedo hoje? Eu compenso amanhã de manhã, eu juro!
– Calma- Não tens de compensar coisa nenhuma. Estás bem? – pousou as coisas no balção e esfregou-lhe o ombro.
O brasileiro recusou o toque e baixou a cabeça.
– Desculpa. – murmurou e pegou seu casaco no cabideiro ao lado da porta – Me desculpa. Eu venho amanhã cedo.
Pestanejou e deixou-o ir, mesmo que preocupado.
– Até amanha.
Luciano correu até a Agência onde Martin trabalhava. Estava frio, anunciando chover e ele estava magoado com seu namorado.
Seu namoro estava estranho desde antes de viajarem para Portugal: Martin reclamava que Luciano não se decidia em sua carreira profissional e não desgrudava do violão dado pelo avô. Entretanto, o relacionamento entre eles estava mais azedo nas últimas semanas. Mal se viam, não namoravam – fazia quase dois meses desde a última vez que transaram! –, Martin recusava qualquer toque seu... aquilo estava insuportável!
Quando passou pela porta de vidro, o moreno olhou para todos os cantos. Não conhecia o lugar ou funcionário que fosse, e ele começou a questionar a quem passava onde poderia encontrar Martin Rodriguez. Ninguém “sabia” quem era o argentino, uma vez que agora ele se chamava Santiago. Apenas Santiago.
Michelle tinha ido buscar um café para “Santiago” quando se deparou com o brasileiro perdido.
Tocou-lhe levemente no ombro para chamar a sua atenção.
– Senhor? Desculpe, precisa de algo?
Luciano piscou e encarou Michelle. Ela era uma moça bonita e pequenina, com longos cabelos castanhos, neste dia presos numa bela trança lateral. Usava um vestido azul, um pouco primaveril demais para aquela estação, porém que a deixava realmente bonita.
– Oh, me desculpe. – ele sorriu. Tinha-a achado tão fofa! – Estou procurando meu namorado.
Michelle arregalou os olhos e corou, sua derme morena tingindo-se de um rubor adorável. Namorado? Aquele moço bonito na sua frente era gay? Que desperdício!
– A-ah! – ela tentou concertar-se – C-como ele se chama?
– Martin! Martin Rodriguez! Ele é modelo aqui da agência.
A moça piscou e desfez o sorriso.
– Desculpe, eu não o conheço. – deu de ombros – Me desculpe... Mas por que não me espera? Preciso entregar este café ao meu chefe e depois podemos procurá-lo juntos. – sorriu amigavelmente, e Luciano retribuiu.
– Ah! Eu adoraria-- qual seu nome?
– Michelle.
– Prazer! – tomou-lhe a mão e balançou – Sou Luciano.
No fim de um corredor, Martin estagnou. Encarou os dois morenos a conversar amigavelmente – Luciano coçando a nuca e Michelle segurando seu café –, e engoliu em seco. Eles não podiam vê-lo! Michelle não podia descobrir que ele era compromissado, e Luciano não podia saber que ele... que ele e Michelle...
Puxando a primeira pessoa que passou por si – o pobre Alberto – pela gola da camisa, Martin ordenou:
– Diga à Michelle que eu não preciso mais do café e que fui chamado às pressas para uma reunião.
– M-mas senhor--
– Vá, traste!!
O pequeno e tímido Alberto quase caiu ao ser solto, arrumando como podia seus óculos e os papéis que carregava. Deu o recado à Michelle, que soltou um suspiro e lhe agradeceu. A morena ofereceu-se para ajudar Luciano a procurar o namorado, porém logo Amélia lhe chamou, e o brasileiro agradeceu sua delicadeza.
Despediram-se e Luciano esperou por Martin.
Até a Agência fechar.
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