O Som Do Coração
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Capítulo XXII
O nervosismo do menor aumentou mais ainda mas pensou que o pior ia acontecer. Olhou de Arthur para Francis algumas vezes até encarar o francês e engolir o seu choro:
– Q-Que se passa?
– Francis, não! – os irmãos ouviram Arthur implorar, o cenho franzido enquanto agarrava o namorado pelo braço direito.
O francês deu-lhe um safanão, os olhos azuis e cristalinos encarando Afonso.
– Melhor que entremos.
Afonso até concordou com o loiro, porém permaneceu parado, encarando o brilho estranho nos olhos claros de Francis. Coube a Antônio tirar as chaves do bolso do irmão e abrir a porta, entrando e sendo seguido pelo francês. Arthur foi o terceiro a chegar na sala, ainda implorando para que fossem embora. O português apenas criou coragem para imitar seus amigos quando percebeu que não podia fugir do que quer que fosse.
– E-então--
– Eu sei de tudo, Afonso. – a forma crua como Francis o tratou fê-lo piscar. Aquilo não era algo bom.
– T-tudo? Tudo o que?
– Afonso, cala a boca! – Arthur berrou ao menor, percebendo que nada faria Francis mudar de ideia – Fran, vamos para casa.
Ignorando os puxões de Arthur, e sempre encarando Afonso, Francis foi direto:
– Que vocês dois estão me traindo. Que tu e o Arthur vão para a cama enquanto eu trabalho para dar tudo – encarou o namorado... ou ex-namorado – para esse inglês insatisfeito, – voltou os olhos para Afonso – que meu melhor amigo e meu namorado transam debaixo do meu nariz!
O português empalideceu e o seu irmão mais novo aproximou-se de Francis, procurando acalmá-lo mas sem sucesso.
Na verdade, António estava também em choque por saber que Afonso tinha feito uma coisa daquelas mas defenderia-o se fosse preciso.
No entanto Afonso não tencionava continuar com as mentiras e por mais que sentisse uma culpa enorme e avassaladora.
– Eu...– suspirou e respirou fundo, procurando as melhores palavras para lhe dizer – Isso só aconteceu uma vez e foi culpa minha. Tinha bebido de mais e deixei-me levar... Desculpa.
Não era exactamente verdade porém o lusitano, mesmo depois de tudo, não queria piorar a situação de Arthur.
– Uma? – o mais velho sorriu de lado, erguendo a mão para Antônio, pedindo para que o espanhol o soltasse – Eu sei que não foi apenas uma, Afonso.
– Fran, por favo--
– Arthur, cala a boca! – deixou-se levar pela raiva e berrou com o inglês, que finalmente se calou – Eu só quis confirmar... Desejava que estivessem a mentir, que tu – ele encarava Afonso, parecendo estar mais magoado com a traição do amigo do que com a do namorado... – não estivesse envolvido. – ...e ele realmente estava.
Afonso apenas olhou para o chão e não disse nada. Não tinha desculpa nem desculpas. O francês tinha toda a razão e todo o direito em ficar magoado e com ódio.
Questionava-se como é que o loiro tinha descoberto isso...Teria sido Arthur a contar-lhe? Não fazia muito sentido.
– Desculpa...
O francês ajeitou mais uma vez o seu cabelo, inspirando profundamente.
– Acredito que isso seja um adeus. – ele disse e seguiu em direção a porta. Entretanto, antes de sair, olhou por sobre o ombro e fitou o português de costas para si – Desejo sua felicidade. De verdade.
Quando Francis foi embora, Arthur encarou Afonso e franziu o cenho. Fechando as mãos em punho, rosnou:
– Eu te odeio, Afonso. – e também foi embora, deixando os irmãos a sós, finalmente.
António ficou parado na porta e mesmo sabendo que Afonso não era pessoa de gritar ou histerismo, todo aquele silencio do lusitano incomodava-o.
Foi até ele e segurou-o pelos ombros.
– Afonso... Por que disseste aquilo?
Afonso continuou estático, os olhos fixos no nada.
– Não sei... Talvez... talvez dizer que o Arthur e eu... nos envolvíamos só pioraria as coisas. E eu não aguentaria magoá-lo mais ainda...
Antônio suspirou, ainda próximo do irmão, as coisas parecendo fazer sentido para si.
– Afonso? Diga ao teu irmãozinho: Luciano ou Arthur? A quem tu amas? De verdade?
O mais velho encarou-o com uma expressão perdida. Era óbvia a resposta e até mesmo António a sabia, mas precisava de uma confirmação... Precisava de ouvir Afonso dizer alto.
– Faz alguma diferença agora? – o lusitano murmurou.
O espanhol suspirou, soltando o menor.
– Quem sabe se faz ou não diferença és tu, irmão. – sorriu – Mas estaremos contigo. Sempre.
O menor voltou a soluçar e abraçou o irmão, escondendo o rosto junto ao peito dele.
– Obrigado...
Antônio sorriu outra vez, retribuindo o abraço. Depois de anos, ele finalmente poderia proteger seu irmão.
~※~
Quando Afonso e Antônio a deixaram sozinha no bar, Michelle resolveu voltar para casa. Caminhava devagar, os olhos castanhos fixos na lua cheia. Estavam úmidos, assim como seu coração pesava.
Ela abrira mão de uma paixão pelo bem de seu melhor amigo, mas nem mesmo assim Luciano seria feliz. Acabara por tê-lo longe de si, e ela acabou sentindo-se só. Não tinha muitos amigos, e embora adorasse Natália, a russa não lhe era íntima.
Baixou o rosto e soluçou baixinho, limpando os olhos. A solidão era horrível.
– Senhorita? Estás bem?
Ela deu um pequeno salto ao ouvir aquela voz tão baixa e meiga.
Limpou os olhos com as costas das mãos e levantou o olhar, deparando-se com um rapaz alto que estava sentado na soleira da porta de uma loja antiga.
– S-Sim... – forçou um sorriso e pestanejou – ...Conhecemo-nos?
Matthew levantou-se e tateou seus bolsos, estendendo em seguida um lenço azul-marinho para Michelle.
– Acho que não. – seu sorriso era tímido e delicado, e sua voz gentil – Mas chamo-me Matthew.
– Obrigada pelo lenço, Matthew... – usou o lencinho para se assoar e engoliu em seco para não chorar mais.
Matthew era quase tão alto quanto Luciano, Michelle pode notar, e tinha um ar que lhe agradava.
– Não há de que. Foi um prazer. – então o rapaz corou e balançou as mãos em frente ao corpo – D-digo! Não é um prazer vê-la chorar! E-eu só quis ajudar...
Michelle riu um pouquinho por causa de o ver atrapalhado:
– Eu entendi, não te preocupes... – esticou a mão para o cumprimentar – Eu-- Não me apresentei... O meu nome é Michelle.
Matthew voltou a sorrir, cumprimentando Michelle.
– É um lindo nome, Michelle.
A rapariga corou um pouco e ao afastar a mão alisou o seu vestido, um vício nervoso que tinha.
– O-Obrigada...
O rapaz apenas sorria, acenando com a cabeça.
Michelle lhe estendeu o lenço, porém Matthew balançou a cabeça, sempre com aquele tímido sorriso.
– Tudo bem, podes ficar com ele. – pegou sua pasta que estava no chão – D-desculpe se estou a ser invasivo, mas queres companhia? Já está tarde...
Ela olhou para o relógio e pode confirmar isso. Era já tarde e estava escuro. Guimarães não era um lugar perigoso, mas, mesmo assim, ela tinha um certo receio de andar sozinha pela rua.
– Se não for muito incômodo...
– Não será! – ele garantiu – Estou a voltar para casa.
– Estavas a trabalhar? – ela corou ao perceber que o tratara por “tu” – P-perdão...
Matthew sorriu, caminhando ao lado dela, mas sutilmente afastado.
– Não tem problema. – garantiu – E sim... Sou garçom em um restaurante para pagar a faculdade. — sorriu e coçou a nuca.
– Faculdade? – olhou para cima, por ele ser alto, de forma a encará-lo – Qual é a tua universidade?
– É a do Minho. – ele comentou com um sorriso envergonhado.
– E o que estudas?
Matthew tinha olhos lindos, ela notou quando passaram por um poste de luz.
– Licenciatura em Línguas e Literaturas Europeias... – ele tinha aquela mania engraçada de falar baixo.
– Não é da minha área, mas parece interessante. – ela disse com sinceridade e colocou as mãos no bolso – Falas sempre baixinho, Matthew?
Matthew corou outra vez e apertou a alça de sua maleta, que transpassava seu peito.
– A-ah, me perdoe, Michelle. – ele riu, também baixinho – Fazes o que?
– Sou estilista. Estudei artes toda a minha vida e agora trabalho numa empresa. – ela explicou mais ou menos onde ficava, para o caso de Mathew eventualmente conhecer.
– Oh, isso é incrível! – disse com grande entusiasmo, o que chamou a atenção de Michelle.
– Por quê? – sorria sempre que se encaravam.
– Ah, perdão. – Matthew coçou a nuca outra vez – Nos finais de semana trabalho em um hospital com outros colegas, e faremos uma peça no próximo mês.. Mas não sabemos onde e como conseguiremos nossas fantasias... – baixou ainda mais o tom de voz – Perdão, mas pensei em pedir-te ajuda...
– Eu-- Eu não me importo de ajudar! – disse de imediato e parou de andar – Isso seria uma oportunidade excelente para aumentar o meu currículo e ainda teria oportunidade de fazer algo solidário! Tereia todo o gosto em ajudar!
– M-mesmo? – a gratidão nos olhos de Matthew era quase palpável, e o rapaz tomou-lhe as mãos – Oh, isso seria formidável, Michelle! Caíste do céu para todos nós! – em seguida ele se afastou, atrapalhado – Perdão novamente! Mas tua ajuda alegra-me tanto! – sorriu tímido.
Michelle riu um pouco, achando graça à timidez dele.
– Não tem mal. – durante o resto do caminho foi-lhe perguntando mais pormenores e quais as ideias que ele tinha, apenas para saber mais ou menos o que desenhar. – Estou mortinha por começar.
Gostaram um do outro de imediato, e Matthew questionou, tímido:
– P-podemos ver-nos novamente? P-para trabalhar!
– C-claro! – ela logo respondeu também atrapalhada e tirou um pequeno caderno da bolsa, onde apontou o eu número e lhe entregou – Quando quiseres combinar alguma coisa, é só ligar.
O canadense guardou com todo cuidado o papel em sua maleta e, sorrindo, anotou o seu número no caderninho de Michelle.
– Mais uma vez, obrigado.
– Obrigada eu... – sorriu educadamente e ficou a brincar com a ponta do seu cabelo por vergonha.
– Não há de que. — sorriu mais uma vez, ambos parados em frente ao edifício que Michelle morava – Espero que não chores mais...
A morena corou bastante e mordeu o lábio inferior:
– J-Já passou...
Matthew achou que ela ficava fofa corada, e lhe estendeu a mão.
– Bem, desejo-te uma boa noite, Michelle.
De forma relutante, ela esticou a sua, reparando que a dele era quentinha.
– Para ti também, Matthew.
Ele sorriu mais uma vez, e apenas seguiu para o seu pequeno apartamento quando Michelle começou a subir as escadas.
Mal podia esperar para vê-la novamente.
~※~
Hansen correu pelas escadas e entrou no seu quarto – agora de Bella também – e deitou-se na cama ao lado da belga:
– Voltei.
Bella, que já apresentava uma barriga bonita e arredondada, sorriu e beijou Hansen, que lhe estendeu um pêssego.
– Aqui está. – disse.
A belga, então, corou.
– Hansi... Não quero mais pêssego... Tenho vontade de comer espaguete com sardinha...
O holandês encarou-a um por uns momentos e ganiu baixinho. Estava cansado.
– Tem de ser agora...?
Ela fez biquinho.
– A não ser que queiras que nosso bebê nasça com cara de espaguete com sardinha...
O loiro ficou quieto por uns momentos:
– Eu já faço isso. Deixa-me só descansar um pouco...
Ela rolou até o irmão, lhe beijando o queixo.
– Vou tomar um banho, então.
Hansen sorriu e beijou-lhe a testa.
Só passado uns dez minutos depois dela já ter entrado na casa de banho é que o holandês se levantou e foi para a cozinha fazer o esparguete.
Por mais cansado que estivesse, faria qualquer coisa por ela.
Quando já servia um prato – e ignorava o cheiro forte e desagradável da comida – Hansen ouviu Bella cantarolar pela pensão vazia, e acabou por sorrir.
A menor se aproximou e abraçou o irmão por trás, a barriga encostando na cintura do holandês.
– Hansi, a Liza ligou-me e diz que tem novas. – sorriu e lhe beijou as costas, não tendo altura para lhe morder a nuca – Vais comer comigo?
O mais velho engoliu em seco e acarinhou-lhe as mãos:
– Digamos que...sardinhas com esparguete não é uma coisa que goste mas... Faço-te companhia.
– Ok~ – ela sorriu e sentou-se na mesa, logo começando a comer. – Está delicioso! – disse e sorriu, comendo depressa.
– Come devagar.– ele advertiu, sentando-se em frente a ela – Ainda te faz mal!
Bella sorriu, obedecendo ao mais velho.
– A Liza disse que tem uma surpresa para nós... Podemos vê-la agora?
Pousou a bochecha na mão e pestanejou:
– Suponho que sim?
A loira voltou a sorrir e se inclinou para beijá-lo, porém o cheiro forte fez Hansen se afastar.
– Desculpa. – pediu, e Bella riu.
– Eu amo-te, Hansi. – disse, e Hansen sorriu.
– Amo-te. – lhe beijou a testa – Agora termina o espaguete para podermos visitar a Liza.
Demorou mais de meia hora para que ambos ficassem prontos para sair de casa. Bella insistia que estava frio mas depois tinha calor e então não decidia que roupa escolher, passando por um pequeno drama sobre “estar gorda” o que fez Hansen preocupar-se mais ainda e garantir que estava optima como sempre.
Como não tinham carro e Hansen não permitia que Bella andasse de bicicleta, foram de táxi até a casa de Elizabeta. Como era sábado, Natália quem lhes recebeu, com sua eterna seriedade. Entretanto, sempre reservada.
– Liza, teus amigos chegaram. – a russa chamou, indo preparar um café.
A húngara, que recém-havia saído do banho, chegou sorridente e cumprimentou o casal, afagando a barriga da amiga.
– Estás linda! – sorriu.
Bella corou e agradeceu e, enquanto bebiam café e comiam biscoitos, a loira perguntou:
– Então? Que tens a nos dizer?
A morena sorriu e retirou as xícaras das mãos deles, fossem eles derrubar o café.
– Bella, Hansen... Passei o último mês viajando para lá e para cá... – sorriu nervosa – Desculpa se invadi a vida de vocês... Mas eu descobri que vocês não são vistos como irmãos perante a lei.
O holandês quase que se engasgou com uma bolacha porque realmente não esperava por aquela notícia.
Porém, Bella sorriu abertamente, feliz com a novidade:
– Não? Então... P-Podemos casar?
Elizabeta sorriu, mas Hansen se engasgou de novo:
– C-casar?
Bella pestanejou.
– Sim? Podemos, certo?
Elizabeta sorriu e explicou que os pais de Hansen não haviam adotado formalmente Bella, e que isso os possibilitava o matrimônio.
Hansen apertou a mão de Bella, que sorria bobamente.
– Bella? C-casa comigo?
A loira corou e só não sorriu mais porque era impossível. Limpou os olhos com a mão e acenou afirmativamente com a cabeça:
– S-Sim!
Hansen assentiu com a cabeça, trazendo Bella para perto e lhe beijando a bochecha direita. Ele estava surpreso, nervoso... E extremamente feliz.
– Eu não tenho um anel, sabes que não tenho dinheiro... Mas quero me casar contigo.
– T-Tratamos disso depois. – ela riu e escondeu-se no ombro dele para limpar as lágrimas de felicidade.
Elizabeta, que observava a cena com um sorriso, comentou em tom de brincadeira:
– Estás a chorar porquê, parva?
– D-De felicidade, Liz.
A húngara sorriu e resolveu deixar o casal a sós, saindo da sala e seguindo para o escritório, onde Natália desenhava alguma coisa.
– Como eles reagiram?
A morena sorriu outra vez e abraçou a namorada por trás, beijando-lhe o pescoço.
– Com choro. – riu quando a loira se arrepiou – E um pedido de casamento-- que estás a desenhar?
A russa mostrou seu desenho inacabado, os olhos claros fixos nos da mais velha.
– O vestido de casamento da tua amiga.
Elizabeta observou o desenho com um interesse genuíno. Era só um rascunho, ela sabia, no entanto não deixava de ser lindo e incrível.
– Wow... Que espanto!
Natália curvou os lábios num sorriso sutil, quase imperceptível, e agradeceu.
Elizabeta assentiu e encheu a namorada de beijos pelo rosto, sendo puxada para um beijo decente em seguida.
– Natália? Que pensas sobre termos um filho?
A loira piscou e balançou a cabeça.
– Não penso. És advogada, trabalho com moda, vivemos a viajar. Não temos tempo para uma criança.
Elizabeta suspirou. A lógica dela era incontestável mas...
– Podíamos ter uma família...
Natália voltou ao seu desenho, agora trabalhando no véu.
– Nós já somos uma família.
A morena suspirou e afastou-se dela, ficando a brincar com o seu cabelo enquanto observava-a a desenhar.
– Se tu o dizes...
A russa nada disse, concentrada demais em seu trabalho. Seus olhos claros fitavam o desenho a ser criado, mas ela ouviu quando Elizabeta deu meia-volta e seguiu para a sala. Deixando o lápis sobre a folha, Natália olhou em direção a porta por onde sua namorada saíra, suspirando em seguida. De onde surgira toda aquela conversa sobre terem um filho? A russa nunca havia pensado na maternidade, assim como não teriam tempo para cuidar de uma criança...
Suspirou outra vez, voltando ao seu desenho.
Fale com o autor