O Som Do Coração
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Capítulo XX:
Quando Afonso acordou, já o sol se estava quase a pôr. Tinha dormido quase o dia inteiro e isso surpreendeu-o.
Sentou-se na cama e esfregou os olhos. Olhou em toda a volta e então percebeu a ausência de Luciano.
Levantou-se rapidamente, enrolando-se no lençol e foi até à sala:
– Luci?
O silêncio frio e doloroso foi a sua resposta. Afonso permaneceu de pé no meio da sala, o lençol meio frio cobrindo seu corpo cansado e meramente dolorido. Os olhos verdes fixavam-se no canto onde as coisas de Luciano sempre ficavam, os ouvidos atentos a qualquer ruído que pudesse ser ouvido.
Nada além do vento.
– L-Luci? – ele chamou para o nada, os olhos umedecendo de leve e a sensação de ter sido usado esmagando seu peito.
O europeu voltou para seu quarto, quase aflito, a procura de seu celular. Haveria uma explicação: talvez o brasileiro tivesse ido à padaria, como costumava fazer, para lhe trazer bolinhos; talvez ele apenas estivesse no quintal olhando o crepúsculo.
Ao chegar perto da cama, entretanto, observou a caixinha de tic-tac.... e o bilhete.
Sentou-se na beira da cama e pegou no bilhete, como se as letras pudessem formar outra palavra qualquer.
O papel estava manchado com algumas gotas de água que Afonso sabia que não eram as suas lágrimas. Seriam as de Luciano? Não fazia sentido.
Pegou no telémovel e telefonou-lhe, porém a mensagem automática dizia que o número tinha sido cancelado.
A primeira reação de Afonso foi encarar o bilhete, as mãos trêmulas. Suas lágrimas caíam sobre as letras escritas, misturando-se com as manchas já secas e borrando ainda mais aquela curta mensagem: “Me desculpe.”. Desculpar-se de que, Afonso se perguntava. De tê-lo enganado? De tê-lo usado? Ou de tê-lo conquistado aos poucos para depois abandoná-lo? O europeu não tinha certeza sobre o que Luciano se desculpava, e ele não sabia dizer se realmente queria saber da resposta.
– “Me desculpe”. – ele repetiu, tentando imaginar como aquelas palavras seriam pronunciadas se Luciano as proferisse. O “e” sairia como “i”, e o “s” chiado. Era lindo – “Me desculpe”.
O português soluçou alto ao fim do segundo “desculpe”, os dedos amarrotando o bilhete singelo, que logo era escondido na palma direita. Afonso encolheu as pernas e escondeu o rosto em seus joelhos, tentando abafar a dor, mas principalmente o choro.
~※~
Lovina pousou um tabuleiro cheio de bolachinhas em cima da mesa e acomodou-se no sofá que estava livre, uma vez que o grande estava ocupado por Elizabeta e Bella.
– Diz lá, que tinhas para nos contar?
A belga tinha as bochechas rosadas e o olhar baixo, fixo no carpete vinho da sala. Elizabeta, mesmo curiosa, lhe passava uma certa calma, segurando sua mão.
– E-eu... – como explicaria para elas? Estava tão nervosa! – Meninas, eu...
Bella emudeceu por um momento, e suas amigas a incentivaram permanecendo em silêncio, respeitando sua aflição.
– E-eu estou grávida.
As morenas encararam-se por um momento e Bella fechou os olhos com medo da reacção delas.
Porém foi surpreendida ao ser abraçada fortemente, tanto por Liza como por Lovina, que se atirara para cima dela aos gritinhos:
– Parabéns!
Bella sorriu de leve e deixou que suas amigas a abraçassem, ficando entre elas. Como de costume, as morenas começaram a fazer uma pergunta atrás da outra: “Como o Hansen reagiu?”, “Estás de quanto tempo?”, “Quero ser madrinha!”, “Onde ficará o bebê?”.
A loira, depois de pedir para que as outras se acalmassem, passou a explicar, com calma, como havia descoberto a gravidez. O fato é que Bella estava doente, anêmica e com falta de vitaminas. Passara as primeiras semanas de gestação quase que hibernando, apenas acordando para se alimentar e fazer sua higiene. O médico lhe garantira que não corria nenhum risco e que o bebê – de sexo ainda indefinido – estava saudável. Entretanto, ela devia medicar-se diariamente e fazer todos os exames pré-natais regularmente.
– O Hansi está assustado... Assim como eu. – ela disse por fim, o que fez suas amigas suspirarem.
– Vocês não planejam isso, não é? – a italiana sorriu docemente, fazendo carinho nos curtos cabelos de Bella – Devias ter me tido como exemplo e te cuidado! – as três riram, porém a loira logo suspirou.
– O que foi agora?
Bella sorriu de canto, acariciando o próprio ventre.
– Eu estou realmente feliz com isso. Formar uma família... digo, uma outra família com o Hansi me deixa imensamente contente...
– Mas? – questionaram ao mesmo tempo.
– Hansi e eu somos irmãos, mesmo que não tenhamos o mesmo sangue. – ela suspirou outra vez – Nós nunca poderemos nos casar...
Lovina riu e apertou o seu abraço
– Quem disse?"
– Eu já expliquei... Nós somos irmãos no registo civil--
Elizabeta encostou a sua cabeça no ombro dela.
– Quem disse que precisas de casar “oficialmente”?
Ela baixou o olhar.
– Ninguém, mas... Como meu filho vai ficar sem o nome do pai no registro? – as morenas se entreolharam – O-o Hansi não poderia... ele vai ficar sem pai?
– Bella...
– Vai?
Lovina e Elizabeta beijaram Bella, abraçando-a em seguida. Não sabiam o que dizer à belga, que se acomodou no abraço acolhedor de suas amigas.
Naquele momento, Elizabeta prometeu a si mesma que, de uma forma ou de outra, ajudaria Bella.
~※~
António respirou fundo e esfregou as costas do irmão mais velho, já sem saber o que mais fazer para o acalmar, ou melhor, para o fazer sair daquele estado tão distante.
O português já não chorava mas estava ainda mais quieto e calado que o costume, sem se mover do canto do sofá, apenas um pouco inclinado e apoiado no ombro do irmão.
Já se tinha passado três dias desde que Luciano e Afonso se entregaram um ao outro, e qualquer tentativa de Antônio ou Lovina – que se culpava por tudo – de encontrar o brasileiro foi uma desgraça. Era como se Luciano não existisse.
– Afonso? Vou preparar o jantar. Queres algo em especial?
Ele abanou com a cabeça em resposta e António suspirou:
– Tens de comer...
– Não tenho fome.
O mais novo tornou a suspirar e mexeu-lhe no cabelo.
– Não podes ficar assim, Afonso...
– Eu sei...
Antônio deu um sorriso triste, o irmão ainda encostado em si. Afonso se tornara ainda mais quieto naqueles dias, e essa reação estava preocupando o mais jovem. Se ao menos o português gritasse, xingasse ou se revoltasse – algo esperado após um “término” –, ele agiria de uma forma normal... mas aquele semblante de Afonso o intrigava.
O europeu mais velho parecia sentir tudo, ao mesmo tempo que nada. Seu olhos estavam secos, mas sem brilho; assim como não tinha vontade de fazer nada além de girar a caixinha de tic-tacs na mão – ele se arriscara a comer um na noite anterior, depois que Antônio fora para casa. Ele chorou por horas até dormir.
– Vá lá, Afonso... O Luci não ia querer ver-te assim...
Ele deu de ombros subtilmente e murmurou baixo:
– Nem assim nem de forma nenhuma.
O português não conseguia entender o que poderia ter levado Luciano a simplesmente desaparecer assim do nada, sem deixar uma morada ou um número de telefone.
Se calhar o moreno achava o mesmo que Arthur e por isso se tivesse ido embora. Porém, o que custava mais a Afonso era pensar na possibilidade do brasileiro o ter usado. Luciano não era esse tipo de pessoa, Luciano nunca faria uma crueldade dessas e o lusitano acreditava nisso só que... não encontrava respostas para nenhuma das suas perguntas.
– Hermano, sabes que isso não é verdade...
Afonso, que mantinha os olhos fixos no nada, estremeceu:
– Como podes ter tanta certeza? O Luci usou-me e fui descartado como lixo!
O espanhol apertou um pouco o meio abraço e suspirou:
– Tu acreditas mesmo nisso que estás a dizer?
Era verdade que não tinha gostado do brasileiro quando o conheceu mas até mesmo António, lento por natureza, conseguia identificar que havia alguma coisa entre eles.
– N-Não...
Antônio sentiu seu irmão estremecer novamente, e suspirou pela milésima vez. Suspiros não eram tão frequentes por parte do espanhol o que chamou a atenção de Afonso.
– Q-que houve?
– É só que... Isso tudo não faz sentido, Afonso. – ele se lembrou da vez que pressionou Luciano a confessar que tinha algo com o português. Ao negar, o brasileiro pareceu entristecido com a situação, e Antônio acabou por se afeiçoar ao mais jovem. Afinal, não era qualquer um que conseguia deixar Afonso tão à vontade a ponto de uma simples canção o fazer dormir – O Luciano não me parece o tipo de gente que faz isso...
Afonso se afastou um pouco e esfregou os olhos úmidos, encarando o irmão.
– Que queres dizer com isso?
O mais jovem coçou a nuca, mas decidiu comentar:
– Tu sabes onde ele trabalha, certo? Por que não vais lá conversar com ele?
O português encolheu-se um pouco e abanou com a cabeça:
– Se ele fugiu de mim é porque não me quer por perto... Não o vou andar a chatear...
– Se ele fugiu... por que ainda seguras o bilhete dele?
O português olhou para baixo e desdobrou o bilhete pela milésima vez.
– Não sei... Porquê é a única coisa que ele deixou comigo...
O maior sorriu de canto. Esse não era o único motivo.
– E não estás curioso para saber pelo que ele se desculpa?
– Estou... – disse sinceramente e levantou o olhar para encarar o mais novo – Mas se ele não quis dizer, porque haveria de dizer agora? A-Além disso... – virou o rosto novamente para baixo – Ele tem uma nova namorada, não lhe vou fazer falta.
A palavra “namorada” mudava tudo. Após conversar com Lovina sobre o que havia acontecido, Antônio soube pela esposa os planos dela e das amigas para juntar seu irmão com Luciano, e a italiana garantiu que Bella tinha certeza de que o brasileiro estava apaixonado por Afonso. Antônio era o tipo de marido que acreditava cegamente na esposa, mas desejava a felicidade do irmão acima de tudo.
Ele também acreditava que havia amor ali.
– Vou ficar contigo até o fim. – sorriu – E não vou mais deixar que te façam chorar.
O lusitano sorriu um pouco e deu-lhe uma leve cabeçada no ombro.
– Até parece que sou algum bébe chorão. O único bébe aqui és tu, parvo.
Antônio riu e bagunçou os cabelos de Afonso.
– Então... Vamos lá amanhã?
O mais velho suspirou outra vez:
– E-Eu não quero... Ele vai-me evitar e eu... Não aguento isso...
O mais jovem mordeu o canto da boca.
– Hermano... Tentes...
Resignado, ele respirou fundo e acenou levemente com a cabeça:
– O-Ok...
~※~
Era noite quando Michelle voltava para casa de seu novo trabalho. Carregava uma pasta larga com seus novos desenhos, criações feitas com a ajuda de sua nova chefe, uma russa assustadora e mal-humorada, mas incrivelmente criativa e, mesmo que de uma maneira estranha e incomum, gentil.
Natália era uma mulher fina, linda e inteligente, e via em Michelle uma possível pupila. As duas se davam bem, e a morena era a única que conseguia entender – e suportar – a mais velha. Embora a tratasse com rispidez, a russa jamais era arrogante como Amália sempre fora, e Michelle via futuro naquele emprego.
Ao se aproximar do prédio onde morava, Michelle sentiu seu coração acelerar, assim como um nervosismo tomar conta de si:
– L-Luci? – o brasileiro, que estava tristemente sentado no chão, ergueu o rosto para encará-la, sorrindo de canto – O-o que estás a fazer aqui?
Luciano ergueu-se com certa dificuldade, e Michelle pode notar que ele estava mais magro.
– Michelle... Nós precisamos conversar.
Ela mordeu o lábio inferior, incerta do que dizer. Porém, sabia que adiar o assunto era impossível e teria mais tarde ou mais cedo de resolver as coisas com Luciano.
Ou pelo menos achava que era isso que o brasileiro desejava tratar.
– Eu-- Eu sei... Vem, entra. – sorriu timidamente e abriu a porta de casa.
O brasileiro agradeceu num murmuro, aceitando o convite e entrando após Michelle. Subiram três lances de escada antes de chegarem ao apartamento da moça, que se atrapalhou com tanta coisa para achar a chave e conseguir abrir a porta.
Michelle entrou primeiro, largando sua pasta, bolsa e chaves sobre a mesa da sala, voltando até a porta para chamar pelo brasileiro:
– E-entre...
Luciano sorriu de canto e pediu licença, passando pela porta e ficando de pé ali perto.
– Senta-te... Queres beber algo?
– Não, obrigado.
Os amigos ficaram em silêncio por um momento, Michelle mordendo levemente o lábio inferior, enquanto Luciano continuava de pé, as mãos nos bolsos da calça. Eles não conseguiam se encarar, porém Luciano queria esclarecer as coisas. Ainda mais agora que ele iria...
– Michelle, eu te devo um pedido de desculpas... – ele murmurou – Eu não devia ter beijado você.
A morena pestanejou e sentiu um aperto no coração. Gostava imenso dele e custava ouvir uma rejeição. Tinha sido uma idiota em pensar que teria hipótese com o brasileiro mesmo sabendo que ele gostava do seu “chefinho”.
Respirou fundo e desviou o olhar para a janela.
– Tudo bem... Eu é que devo um pedido de desculpa...
A reação de Michelle foi a esperada, porém não deixava de magoar Luciano. Embora quisesse abraçar sua grande amiga, o brasileiro sabia que aquilo não seria uma boa ideia. Não podia mais enganar as pessoas que amava.
– Eu sinto muito... – ele estava sendo sincero – Eu... realmente quero continuar sendo seu amigo.
Michelle acenou timidamente com a cabeça e levantou o olhar para o tentar encarar.
– Eu entendo. Não te preocupes com isso, Luciano. – sorriu um pouco – Eu sei que tu gostas do Afonso e não me devia ter deixado levar. Desculpa.
Luciano balançou a cabeça para os lados. Michelle não devia se desculpar.
Soltando um suspiro tristonho, o brasileiro baixou o rosto, mantendo os olhos fixos na ponta de seus pés.
– Eu sei que estou sendo um babaca de te dizer isso, mas eu não só gosto do Afonso... eu realmente o amo...
A morena engoliu em seco, os olhos umedecendo.
– O-oh... E-então, decla--
– Eu vou voltar para o Brasil.
– P-Para o Brasil? – repetiu o que ele disse e deu um passo em frente, aproximando-se dele – Quando? Por quê?
Luciano sentiu-se acuado. Não gostava de se despedir, porém não queria voltar para o Rio de Janeiro sem acertar as coisas com Michelle. Ele a adorava.
– Amanhã, depois da minha apresentação no bar.
A morena piscou os olhos, reunindo coragem e tomando-lhe as mãos.
– L-Luci? P-por que? É por minha causa? Perdoa-me, n-não foi a minha inten--
– Não é sua culpa. – o moreno sorriu, apertando-lhe as mãos – Eu só não tenho mais espaço aqui... E... – ele suspirou – Eu preciso voltar para o meu avô. Ele está doente...
O olhar de Michelle tornou-se preocupado e ela inclinou um pouco a cabeça em confusão:
– O que teve ele? É muito grave? – apertou-lhe um pouco mais a mão – Tu tens sempre espaço aqui, Luciano.
– Eu não sei direito... foi o meu tio quem me ligou, mas a ligação caiu. – suas mãos suavam – Não tem, Michelle...
Ela lacrimejou e perguntou-lhe como ele tinha tanta certeza. Luciano, então, lhe contou tudo, desde a descoberta de que Martin os estava enganando até a noite que passara com Afonso.
Luciano tinha certeza de que Afonso agora o odiava, e nem mesmo Michelle o faria mudar de ideia.
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