O Som Do Coração
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Capítulo XIII:
Mal abriu a floricultura no final das férias, Afonso dedicou-se a retirar os efeitos de Natal de lá.
Fez isso numa manhã, enquanto ainda estava sozinho, porém entusiasmou-se e fez uma limpeza a fundo a tudo, trocando até os vasos de lugar.
Quando terminou, afastou-se um pouco do balcão e observou a sua “obra”.
– Perfeito~
Enquanto os minutos passavam, Afonso pegou-se volta e meia erguendo os olhos de seu arranjo de margaridas para encarar a rua pela porta de vidro.
Luciano estava demorando... Bem, ele só trabalhava no período da tarde, porém o português se viu contando os minutos para vê-lo.
Suspirou. No que estava pensando? Talvez fosse só a falta que sentia da presença irritante do mais jovem.
Entretanto, quando ouviu o sininho da porta tocar, seu coração deu um pulo, e ele não conseguiu evitar sorrir ao ver o brasileiro. Luciano lhe sorria, e correu para lhe abraçar.
– Hei~ quanto tempo, chefinho!
O português deu dois ou três passos atrás porque quase foi impulsionado por Luciano.
Retribuiu o abraço mal conseguiu, apertando-o mais que o necessário.
– Já disse que não sou “chefinho”, oh parvo.
O moreno rolou os olhos, porém apertou Afonso mais um pouco.
– E eu já disse que não ligo. – sorriu e se afastou um pouco – Eu trouxe um presente... – comentou desviando o olhar.
Entregou um pacote para Afonso, que piscava.
– N-não precisavas! – sorriu acanhado e abriu o embrulho.
Quando terminou de rasgar o papel colorido, os olhos de Afonso brilharam: ganhara três livros de poesia de Pessoa.
Ele sofria da síndrome de leitor viciado. Pessoa era um clássico e obviamente que ele já tinha aquelas obras mas não aquela versão com aquela capa!
Sem sobra de dúvida, tinha amado o presente.
– O-obrigado! Eu adorei, muito mesmo! – o seu sorriso acanhado era agora um bem aberto e ele apertava os livros contra o peito numa enorme satisfação.
Como se eles fossem tão frágeis como Marisa, pousou-os sobre o balcão e foi até Luciano, abraçando-o apertado – quase que o esmagava – e escondendo o rosto, um pouco corado, no peito do mais novo.
– Obrigado.
Luciano soltou um suspiro aliviado e retribuiu o abraço, encostando seu queixo sobre a cabeça do mais velho. Ele gostava de ser bem mais alto que Afonso, e o português se encaixava perfeitamente em seu abraço.
– Que bom que gostou. – ele sorriu para o nada – Desculpa se não é tão legal ou caro como um par de tênis, mas eu levei dois dias para me convencer de que esse era o presente perfeito para você...
Afonso deu-lhe uma palmada leve nas costas.
– Deixa de ser idiota. É bem melhor que isso!
Decidiu não cessar o abraço e ficou quieto. Luciano era quentinho e o seu abraço era aconchegado.
Como a vontade que tinha de se afastar era mínima, o lusitano apertou um pouco mais o abraço, acarinhando as costas de Luciano.
Luciano também não queria cessar o abraço. Gostava de ter o menor junto de si, e quando percebeu fazia carinho na ponta dos cabelos de Afonso.
– Desculpa. – ele murmurou enquanto ria – Descobri que eu adoro o seu cabelo.
Apesar de ter corado um pouco, o outro riu.
– É só cabelo, parvo.
Fecho os olhos em contentamento e suspirou, tranquilo. Aquilo fazia-lhe tão bem. “Eu descobri que te adoro.” era o que lhe apetecia dizer e foi o que passou pela sua cabeça mas... Era ridículo pensar isso.
– Mas é bom~ – Luciano disse.
Cessando o contato entre eles, o moreno espreguiçou-se e esfregou a mão pelo próprio cabelo, bagunçado os cachos.
– Ahn... Chefinho? Eu não vou mais poder ir na sua casa às quartas... O dono do bar quer que eu trabalhe lá nesse dia também... – suspirou – Queria mesmo continuar com os filmes, mas não vai dar... Desculpa. – baixou o rosto.
O português sorriu e levantou-lhe o queixo.
– Deixa lá, é por uma boa causa.
Tinha pena de não poder fazer serão com ele mas sabia que aquele emprego fazia Luciano feliz então não se importava.
Então, sem saber muito o porquê, Afonso se viu sorrindo e convidando:
– Jantas comigo hoje?
Completamente surpreso pelo pedido, o moreno corou adoravelmente.
– E-Eu não sei se posso...
– Vá lá, eu faço o jantar mais cedo para não te atrasares. Posso tentar fazer feijoada também.
O mais jovem piscou. Como era recém segunda ele não trabalharia, e estava louco de saudades de conversar besteiras com Afonso... E simplesmente não se recusava comida! Ainda mais feijoada!
– C-certo, eu aceito. Mas vou precisar passar na pensão antes, esqueci o presente da Bia e--
– Eu? – ouviram-na dizer quando entrou na floricultura com sei pai – Tio Luci!
António cruzou os braços e observou com um certo amuo a sua filha quase escalar o brasileiro para conseguir chegar ao seu colo.
– Tive muitas saudades tuas!
O sorriso que Luciano dirigiu à pequena foi enorme, e ele a encheu de beijos.
– E eu suas~ – riu – Ah, oi Antônio... – sorriu ao espanhol, abanando com a mão.
Recebeu um breve aceno de volta e um montão de beijinhos nas bochechas da sua “sobrinha”.
– Muitas mesmo? Quando é que vens ver um filme comigo?
Luciano sorriu abertamente e encarou os claros olhos verdes de Sofia, nem percebendo quando comentou que iria na casa de Afonso naquela noite mesmo. Viu os olhos da menina brilharem em expectativa e ela virou o rosto em direção ao do pai:
– Papá! Posso jantar na casa do tio hoje?
Os lusófonos piscaram e se entreolharam. Luciano percebendo que “convidara” Sofia e Afonso soltando um suspiro. Desejava passar a noite a sóscom Luciano. Mas o que...
– Afonso, teremos de ir ao hospital. A Mari está com tosse e a Nina está preocupada. – coçou a nuca – Podes cuidar da Bia até voltarmos--
– Até depois do jantar! – a menina enfatizou, agarrando o pescoço de Luciano.
O português voltou a suspirar e sorriu.
– Claro, não há problema.
Sofia sorriu satisfeita e encarou Afonso:
– Mesmo?! És o melhor tio do mundo!
Ainda na porta, António observava com atenção os dois lusófonos. Havia ali coisa... E ele ia descobrir o quê, de alguma forma. Mas no momento a sua prioridade era regressar para junto de Lovina. Agradeceu ao irmão e deu um beijinho em Sofia, saindo de seguida.
Mal Antônio deixou a floricultura, Sofia apertou um pouco seu tio emprestado.
– Tio Luci, por que sumistes? Não gostas mais de nós?
O moreno piscou e riu dando um beijo na testa dela.
– Não diga isso, Bia. Eu adoro vocês. – sorriu – Mas eu estava e férias, não podia vir à floricultura.
– Podias ter ido lá casa! – fez uma expressão amuada – O tio deixava! Não deixava?
Afonso corou um pouco e acenou com a cabeça:
– Claro que sim.
Luciano encarou Afonso e sorriu acanhado, as bochechas rosadas.
– Seu tio precisava de “férias” de mim, Bia.
Ela apressou-se a responder:
– Precisava nada! Ele gosta de ti e é teu amigo! Os amigos não tiram férias uns dos outros!
Afonso corou ainda mais e pigarreou:
– Bia, queres lanchar alguma coisa?
Sofia piscou e balançou a cabeça enquanto sorria e abria os braços, forçando Luciano a lhe apertar para que não caísse.
– Gelado!
Afonso negou, pondo as mãos na cintura.
– Mas não é hora de tomar gelado. – sorriu – Mas tenho bolinhos~
– Mas eu quero gelado. – cruzou os braços.
O português suspirou.
– Então ficas sem comer nada, Bia. Não sejas embirrenta. – ela começou a protestar mas Afonso interrompeu – Tenho macarons de chocolate e baunilha...
Como se Afonso tivesse dito as palavras mágicas, Sofia parou de se balançar no colo de Luciano e riu:
– Eu quero! – ela disse, e em seguida voltou a se remexer, assustando o brasileiro – Podemos ir para casa, tio? Aqui está chato!
O mais velho sorriu um pouco e abanou negativamente com a cabeça.
– Não Bia, o tio tem de trabalhar, sabes bem disso...
A menina fez bico, mas voltou a sorrir assim que Luciano lhe beijou a bochecha esquerda. O brasileiro adorava aquela criança, e já comentava com todos como se a própria fosse mesmo sua sobrinha. Lovina achava uma graça, mas ambos mantinham esse segredo de Antônio. Era um pai muito ciumento.
– Bia, se você se comportar, o tio Luci canta uma música para você depois do jantar, o que acha?
Os seus olhos brilharam em expectativa.
– Prometes?
– Prometo!
A mais nova sorriu e abraçou-o pelo pescoço outra vez.
– Acho boa ideia~"
Afonso também sorriu. Achava fofa a amizade de sua sobrinha com um rapaz que gostava tanto.
Mas por que andava pensando tanto sobre Luciano e gostar dele?
Pigarreando para chamar a atenção dos mais jovens, Afonso se aproximou deles e tocou o ombro do brasileiro, fazendo este virar o rosto em sua direção.
E ficar próximo demais de si.
– Temos muito trabalho a fazer, Luci.
O brasileiro corou um pouco, pois também não contava com a proximidade e novamente deu por si a observar bem os olhos verdes de Afonso.
– J-Já vou, chefinho.
Afonso piscou, deslizando a mão do ombro por toda a extensão do braço de Luciano, trazendo-a para junto do corpo em seguida. Ele não reclamou sobre o apelido chato – carinhoso –, apenas voltou a sorrir ao mais jovem antes de retornar ao seu arranjo.
Luciano sentiu o coração falhar uma batida e sorriu à menina em seu colo, que lhe apertava as bochechas.
– Gosto delas~ – Sofia disse, risonha, e em seguida ganhou outro beijo de Luciano.
– Opa, o tio precisa trabalhar. – ele riu e pousou a menina no chão – Quer me ajudar num arranjo, Bia?
A resposta da menina foi interrompida pelo tinir da campainha da entrada.
Um homem, com os seus cinquenta anos, entrou devagarinho e olhou em volta. Quando o seu olhar cruzou com o de Afonso, ambos empalideceram um pouco.
Antes que ele sequer tivesse oportunidade de dizer alguma coisa, o português murmurou:
– Luciano, vai com a Bia para a estufa.
– Está tudo bem, chefinho? – o moreno disse com preocupação ao ver a expressão do outro.
– Sim. Faz o que mando. – a contragosto, o moreno obedeceu. E mal ficaram só os outros dois sozinhos, Afonso encarou o homem e suspirou – Que estás aqui a fazer, pai?
O senhor voltou a desviar o rosto, a mão direita tocando nas pétalas de algumas rosas.
– Estive a te ligar, mas um tal de Luciano não te conhecia, Luís. – sua voz demonstrava descaso – Soube que sou avô outra vez, e queria falar com meu filho.
O lusitano rolou os olhos. Como é que era possível ele saber disso?
– Não me parece que ele queira falar contigo, por isso, pouca sorte. – respondeu-lhe no mesmo tom desinteressado e passou a regar os vasos.
– Eu quero conhecer as minhas netas, Luís. – ele disse, a voz um pouco mais alterada – Passa-me a morada do Antônio.
Pousou o regador no chão e encarou-o:
– Sabes bem que não vou fazer isso a menos que ele me dê permissão.
– Ah, Luís... – o mais velho baixou os ombros, seu semblante parecendo tristonho – Eu não vejo meu filho há anos... Não conheci a minha nora ou as minhas netas...
Joaquim aproximou-se do menor e lhe tocou o ombro, porém Afonso desviou seu olhar dos olhos castanhos de seu pai. Não tinham o brilho gentil dos de Luciano.
– Eu não sei... – murmurou, e sentiu o senhor lhe apertar o ombro.
– Eu mudei, Luís. – fingiu uma tosse – Ah... Eu estou doente... E gostaria de conhecer minhas netas antes que me aconteça algo de pior.
Afonso ficou um pouco preocupado...Apesar de tudo, não deixava de ser seu pai. Mas havia coisas que lhe custavam perdoar e pessoas em quem custava confiar.
– Eu tenho de falar com ele primeiro. Depois arranjo forma de te contactar – afastou-se e foi para trás do balcão.
Joaquim passou a mão direita sobre as pálpebras, como se limpasse lágrimas.
– Certo, Luís. – estendeu-lhe um cartão – Tens aqui o telefone do hotel onde estou hospedado. Liga-me.
E então, ele deixou a floricultura.
Afonso guardou o cartão no bolso e suspirou. Aquilo não podia ser bom sinal. Fazia anos que não falava ou via o seu pai e este nem sequer perguntou como ele estava... Aquelas coisas magoavam.
Olhou para baixo e tentou terminar um arranjo que ia a meio mas as suas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar as flores.
– Chefinho? – mal ouviu a voz de Luciano, Afonso sentiu-se abraçado por trás, o rosto do brasileiro colado ao seu. – Você está bem?
Acenou afirmativamente com a cabeça. Se falasse, muito possivelmente acabaria por chorar, tamanho era o aperto na sua garganta, e não queria isso.
Luciano via que ele tremia imenso e apertou-o um pouco mais.
– Precisa de alguma coisa?
Afonso balançou a cabeça em negação, e respirou pesadamente, os olhos fechados enquanto ele se concentrava para não chorar.
Luciano suspirou e beijou o topo da cabeça de Afonso, acarinhando-lhe as mãos trêmulas.
– Hei, a Bia está fazendo um arranjo para a Marisa. – decidiu mudar de assunto para que o menor melhorasse o ânimo – Ela misturou cravos, rosas e margaridas e está uma gracinha! – sorriu e apertou um pouco mais o português. Queria tanto protegê-lo de tudo e de todos... – Mas queremos sua opinião, chefinho.
As mãos sempre tão quentinhas de Luciano eram agradáveis e ele enlaçou os seus dedos nos dele:
– E-Eu já vou... – murmurou baixinho e respirou fundo novamente.
– Certo. Quer que eu fique mais um pouco ou você precisa de um tempo?
Engoliu em seco. Precisava de um tempo mas não queria ficar sozinho...
Apertou um pouco a mão do brasileiro.
– Fica...
Luciano assentiu com a cabeça, fechando os olhos quando encostou sua cabeça no ombro de Afonso.
– Eu fico. — também apertou a mão do mais velho – Sempre.
O menor corou um pouco e pendeu a cabeça para o lado, apoiando-a na de Luciano. Depois de mais um suspiro tristonho, fechou também os olhos.
– Obrigado...
O mais jovem deu um meio sorriso, a aproximação sutil de Afonso lhe aquecendo o peito, uma sensação agradável de carinho fazendo seu coração acelerar.
– Chefinho...
Afonso abriu os olhos no mesmo instante, percebendo que, devida a posição, sua boca agora encostava no canto da de Luciano, e ele podia sentir a respiração do mais jovem em sua pele, quente e pesada.
Quando sentiu os braços de Luciano lhe apertar a cintura, as maçãs do europeu tornaram-se ainda mais rubras, e ele estremeceu de leve. Bastavam milímetros para que suas bocas se tocassem completamente e um beijo fosse concretizado.
Luciano arriscou, torcendo os lábios num biquinho e beijando o limite da boca de Afonso, que suspirou. Fez isso duas vezes, se demorando cada vez mais, porém quando reuniu coragem o bastante para beijar o mais velho, uma voz inconfundível soou atrás deles:
– Tio! Olha meu arranjo!
Quase ao mesmo tempo, os lusófonos puseram-se muito direitos e Luciano afastou-se, pigarreando discretamente. Deu uma desculpa qualquer e foi à staff room, muito apresado.
Afonso corou ainda mais e baixou-se para ficar da altura de Sofia.
Tinha o seu coração a sair pelo peito. Agora tinha a certeza absoluta que o mais novo o tinha tentado beijar... Mas por quê? E... Por que é que tinha ficado na espectativa? Aquilo não era correcto mas... agora queria tanto...
– E-Está muito bonito, Bia.
A menina sorriu:
– Mesmo? Quando for grande posso trabalhar aqui contigo e com o tio Luci?
O mais velho retribuiu o sorriso e fez-lhe festinhas no cabelo.
– Claro que podes..."
– Hum...Tio?
– Sim?
– Estás muito vermelho. Estás doente?
Afonso enrubesceu ainda mais, os olhos verdes sendo piscados enquanto ele forçava um riso.
– N-não! O tio está com calor. – ele disse a primeira coisa que lhe veio à mente e mudou de assunto: – Tens o dom para arranjos, Bia! O Luci-- Luciano disse-me que é para a Mari.
Acenou afirmativamente.
– Sim! Misturei todas as flores por não saber qual delas é a que ela gosta mais. – olhou por toda a floricultura – Onde está o tio Luci?
A simples menção do nome do brasileiro fez Afonso sentir o peito e as bochechas aquecidas, o seu estômago dando voltas. Ainda sentia o calor da boca do mais jovem próximo da sua, e ele não conseguia esquecer do beijo que trocaram no shopping.
– Deve ter ido preparar um café... – sorriu.
Ela desatou a correr para a outra divisão, começando logo aos saltos quando viu o brasileiro:
– Tio Luci! O tio Afonso disse que estava bom! Achas que a mana vai gostar?
Luciano havia praticamente corrido até a estufa, seguindo até o banheiro para lavar o rosto com água fria para espantar os pensamentos impróprios. Sabia que aquilo era errado: simplesmente aproveitar-se de que Afonso estava triste para beijá-lo! Mas não fora intencional! Ter o português em seus braços, calmo e sem repeli-lo apenas lhe atiçou uma vontade reprimida...
Ao ouvir a voz de Sofia, o brasileiro balançou a cabeça, dando toda a sua atenção à menina:
– Claro que vai, Bia! – ela lhe pediu colo, e ele cedeu – A Mari vai amar o seu presente.
A pequena olhou para o raminho e sorriu:
– Se dizes, eu acredito em ti. – beijou-lhe a bochecha e depois acrescentou – Eu acho que o tio Afonso está doente.
– Doente? – o moreno piscou, ajeitando Sofia em seu colo antes de seguir até a floricultura, procurando por Afonso.
O português, ainda absorto em pensamentos, nem viu os mais jovem chegar, e continuou parado, encarando a porta de vidro.
– Chefinho? A Bia disse que você está doente... – a menina olhava para as flores – Tudo bem com você?
Ele deu um salto mal ouviu a voz do moreno e voltou a corar.
– Não! Eu estou bem.
– Mas Tio... Tu estavas muito vermelho.
O lusitano, para esconder o seu rosto retomou ao balcão.
– É do calor, Bia. O ar condicionado está ligado...
Os mais jovens piscaram, não acreditando muito na desculpa de Afonso.
Sofia pediu para ir para o chão e Luciano seguiu para o balcão, indo verificar os pedidos de início de ano. Sorriu e resolveu fazer quatro: um de rosas, um de margaridas, um de orquídeas e outro de crisântemos.
Ao perceber que o europeu parecia nervoso em sua presença, anunciou:
– Vou trabalhar na estufa hoje... Com licença...
O menor levantou a cabeça e pestanejou:
– N-Não! – Luciano olhou pelo ombro, confuso, e Afonso pigarreou – D-Digo, é mais fácil estarmos ambos aqui e atender em turnos caso venha alguém.
Luciano voltou a piscar, sorrindo logo em seguida.
– Certo, eu vou buscar as flores e já volto!
Saiu, novamente apressado, e Afonso bateu com a palma da mão na testa. Óptimo, agora parecia uma adolescente assustada.
Sofia piscou perante a cena.
– Tio? Estás bem?
Suspirou e encarou a mais nova, sorrindo.
– Eu já disse que sim, parvinha.
Ela riu:
– Estás a bater com a meio na testa, tio! Papá diz que isso é coisa de louco!
Afonso sorriu de lado.
– Diz ao teu pai que o único louco por aqui é ele mesmo.
Sofia riu e abraçou seu tio pelo pescoço, dando-lhe um beijo em seguida.
Luciano retornou com as flores, e mais que depressa a menina correu em sua direção:
– Tio Luci! Deixa-me te ajudar! – pediu.
– Claro. – ele sorriu e puxou a menina para o seu colo quando sentou-se no banco atrás do balcão. – Pode ajudar o tio escolhendo as rosas mais abertas?
– Sim!
Afonso sorriu perante a cena. Luciano tratava a si e a sua sobrinha com tanto carinho... Por que Arthur não podia fazer o mesmo?
Antes que sequer conseguisse pensar numa resposta, a campainha da Colubris voltou a tocar.
Fez um sorriso e olhou para a frente:
– Boa tarde!
Um homem alto, loiro e aspecto assustador entrou lentamente, meio envergonhado na verdade, e coçou a nuca.
– Boa tarde...
Afonso saiu de trás do balcão.
– Precisa de ajuda? – perguntou ao notar o aspecto confuso que o outro tinha.
– Sim... Precisava de um ramo de flores para oferecer à minha esposa-- esposo.
– Sua esposa-- digo, esposo tem alguma preferência?
O homem, que não aparentava ter mais de trinta anos, moveu seus olhos claríssimos por toda a floricultura, ajeitando seus óculos de armação retangular em seguida.
– Lírios do vale. – disse por fim, e Afonso sorriu.
– Só um minuto, por favor. – pediu e seguiu até a estufa.
Quando o dono deixou a loja principal, os olhos daquele distinto homem pousaram sobre a figura de Luciano e Sofia, e a menina ria no colo do brasileiro. Como a criança era muito parecida com Afonso, ele pensou que os três estivessem na mesma situação que si e seu amado Tino, dois homens que adotaram um pequeno menino, Peter.
– Desculpe a intromissão, mas você e o outro rapaz são casados? – questionou ao brasileiro.
Luciano ficou muito quieto a olhar para o homem, as bochechas ficando cada vez mais vermelhas à medida que processava o que lhe foi dito, como “loading” lento.
Ele e Afonso? Casados?
Abriu a boca para responder mas Sofia foi rápida.
Apesar de o loiro parecer um pouco assustador, a pequena fez uma expressão amuada e cruzou os braços:
– Não... Eles são chatos e não querem casar um com o outro!
O loiro, com um fortíssimo sotaque sueco, piscou os olhos, sua expressão continuando ameaçadora, mas sem realmente causar essa expressão aos mais jovens. Soia por ela ser uma menina corajosa que tinha como a Fera seu príncipe encantado, e Luciano poque ele estava acostumado com a carranca matinal de Martin. Nunca se deve acordar o argentino.
– B-Bia! – Luciano, completamente corado, olhou para Sofia, num pedido para que ela retirasse o que havia dito.
– Mas é verdade! – fez bico.
– O que é verdade?
Os três olharam em direção a Afonso no mesmo instante em que ele passou pela porta, os olhos verdes analisando cada um deles.
– N-nada--
– Eu estava a dizer para esse senhor que tu e o tio Luci não se casam porque são chatos!
A cara de Afonso ficou a condizer com a de Luciano, de tão vermelha que ficou. Pigarreou e pousou as flores no balcão, contornando-o depois para ficar ao lado de Luciano.
– Foi um mal-entendido. – encarou Berwald e disse em tom de brincadeira – A minha sobrinha é que gosta imenso do meu “estagiário” e depois diz estas coisas.
Luciano acenou com a cabeça, como confirmação mas Sofia não se deixou resignar.
– Eles gostam um do outro, senhor.
– Bia, por favor... – o moreno pediu baixinho, mas ela continuava a insistir:
– Gostam sim! – fez bico – Mas são bobos para não se casarem!
– Bia--
– Por que vocês não se casam? Eu gosto do tio Luci, tio!
– Bia...
– E ele gosta de mim, né tio Luci? Por que tu não te casa com ele, tio?!
– Porque eu não gosto dele, Sofia! – Afonso disse, o tom de voz um pouco alterada.
Assim que percebeu o que disse, desviou o olhar de Sofia para Luciano, que havia baixado o rosto, concentrado em seu ramo.
A mais nova encheu as bochechas com ar, no típico gesto amuado:
– Não acredito em ti!
Com alguma paciência, Afonso explicou:
– Bia... Eu gosto do Luci como--
– Vês! Gostas dele.
– Claro que gosto! Ele é meu amigo. Mas é um “gostar” diferente, Bia. – suspirou – Isto são coisas de adulto."
Sofia bufou chatiada.
– E por que não gostas nesse “gostar diferente”?
O lusitano suspirou mais uma vez.
– Tanto eu como o Luci gostamos de outras pessoas no “gostar diferente”. Se ele casasse comigo o namorado dele ia ficar triste. Queres isso?
Ela encolheu-se um pouco e abraçou-se em Luciano.
– N-Não...
Luciano retribuiu o abraço, os olhos escuros fixos nas rosas vermelhas.
Berwald, um pouco atrapalhado, coçou a nuca:
– Desculpa-me. Não quis ser inconveniente. – disse num murmúrio, o tom de voz sempre o mesmo.
– Não foi. – o brasileiro disse – Não se preocupe com isso, moço.
Afonso concordou e terminou, em minuto, de fazer o ramo. Colocou um laço para segurar as flores e encarou o loiro.
– Quer que junte algum postal para poder escrever ou vai assim?
Berwald encarou o lindo ramo e ponderou por um tempo, em seguida balançando a cabeça em negação.
– Assim está bom, obrigado.
Afonso sorriu de canto e recebeu o dinheiro, logo vendo o loiro deixar a floricultura.
Berwald seguiu até seu carro e em seguida dirigiu até o outro lado da cidade, parando em frente a uma bela casa com um enorme jardim florido. Desceu e foi recebido por um pequeno cachorrinho mal abriu o portão branco.
– Olá, Hanatamago. – disse com sua voz típica e o animal latiu, contente por ver seu dono.
O latido de Hanatamago chamou a atenção de Tino e Peter, e os dois foram receber Berwald, o menino correndo até seu pai:
– Papai!
O sueco baixou-se para que o mais novo o pudesse abraçar e sorriu.
– Olá.
Peter apertou-o mais e espreitou pelo ombro do pai:
– O que tens atrás das costas?
– Shh é uma surpresa para a mamã.
Tino fingiu irritação quando se aproximou de sua família, os olhos violetas fixos nos cerúleos de Berwald.
– Já disse que não sou “mamã”, Be. – o pequeno homem pôs-se na ponta dos pés e beijou os lábios de seu esposo, sorrindo em seguida – Peter e eu fizemos panquecas para o almoço.
O mais velho sorriu ligeiramente e tirou o ramo de detrás das costas, oferecendo-o ao finlandês:
– Feliz aniversário.
Tino piscou ao ver o lindo ramo de lírios do vale, as flores pequenas e delicadas balançando suavemente por culpa do vento gélido. As maçãs do finlandês começaram a se tornar cada vez mais rubras, e ele não conseguiu evitar sorrir adoravelmente, pegando o ramo com ambas as mãos.
– B-Be! – Berwald adorava aquele apelido – S-são lindas! – Tino abraçou o mais velho pelo tronco e escondeu seu rosto no tronco do esposo – Eu amo-te.
– Hei! Papai, e para mim? – Peter fez biquinho.
Seus pais riram e Berwald tateou seus bolsos, estendendo à criança um ioiô. Peter piscou ao ver o brinquedo desconhecido.
– Gostaste?
– O que é isso, papai?
– Um ioiô. – o sueco sorriu e mostrou como se brincava com o ioiô, fazendo os olhos do menino brilharem.
– Ah! Papai, isso é incrível!Ensinas-me?
Acenou com a cabeça e começou a explicar como funcionava, porém Tino pigarreou e chamou a atenção da sua família:
– Só depois do almoço!
– Mas- Mas mamãa! Eu quero agora!
– Obedece à mamã...
Como não se atrevia a desobedecer Berwald, o pequeno amuou um pouco e deu a mão ao finlandês, seguindo-o para dentro de casa.
A mesa já estava devidamente posta, porém Tino colocou as flores que ganhara de Berwald no centro desta, com um belo vaso cheio de água, visando manter as flores vivas por mais tempo. O tempo frio ajudava as pétalas a permanecerem bonitas.
– Elas são tão lindas! – o finlandês comentou outra vez, sorrindo contente pelo presente de Berwald.
O início do seu relacionamento com o sueco não fora um mar de flores: Berwald sempre foi uma pessoa tímida, e Tino confundia seu jeito reservado como uma carranca e má personalidade. Como o mais velho não costumava sorrir, acreditava que este o detestava por ser um adolescente animado e cheio de intimidades.
O primeiro beijo fora roubado pelo sueco na cena mais romântica que Tino já pudera imaginar: sob a luz do luar durante uma chuva de pétalas de cerejeira quando eles fizeram uma excursão para o Japão como aniversário de formatura de sua turma.
– Be, como foi a reunião hoje? – sorriu enquanto servia Peter.
Berwald era contabilista numa empresa de informática e ultimamente passava a vida em reuniões chatas de trabalho.
Naquele dia em especial, o aniversário de casamento de ambos, o sueco conseguira arranjar forma de adiar a reunião do final do almoço e assim poder ficar em casa junto da sua família.
– Normal, creio. Não se fez muito a não ser discutir.
Tino sorriu, pondo-se a servir seu esposo, como sempre fazia.
O relacionamento deles fora difícil: primeiro a perda de contato com vários amigos e familiares por culpa de sua opção sexual; depois a união estável, ainda ilegal – tiveram de se casar em Las Vegas –; e por fim a adoção de Peter. Como não eram considerados casados perante a lei de Portugal, a criança é legalmente apenas adotada por Berwald, que possui a maior renda. Se algo acontecesse com o sueco, Peter não poderia ficar com Tino, o que deixava o pequeno finlandês aflito, e por isso se mudaram para um país calmo como Portugal.
O almoço ocorreu como sempre, agradável, e logo Peter correu para o jardim limpo de neve para brincar com Hanatamago, que ladrava sempre que o menino se aproximava de si, alegre.
Tino lavava a louça enquanto Berwald a secava, a divisão de tarefas sempre feita por ambos.
– Gostaste do almoço, Be?
O sueco acenou com a cabeça e Tino sorriu satisfeito. O mais velho não era pessoa de muitas palavras, mas com o tempo, tinha-se acostumado a isso e na verdade até gostava.
Por natureza, o finlandês falava sempre muito, algumas coisas sem importância até e Berwald ouvia sempre tudo, nunca reclamava por ele falar de mais e o entusiasmo frequente do seu esposo deixava-o feliz também.
Ao terminar de limpar e arrumar a louça, ele comentou:
– Eu adorei as flores, obrigado.
– De nada. – o maior disse, um sutil sorriso dirigido ao mais jovem.
Tino sorriu também, de canto a canto, e em seguida puxou o rosto de Berwald para baixo, beijando-lhe os lábios.
– O Peter vai dormir na casa da Wy hoje... – disse – Eu... Eu reservei nosso restaurante favorito, mas nem te perguntei se trabalhavas hoje...
O outro abraçou-o pela cintura e trouxe-o para mais próximo.
– Eu tirei o dia de folga. Não tem problema.
Não era muito comum, mas Berwald sorriu um pouco porque o sorriso do mais baixinho era contagiante.
Tino sorriu ainda mais, abraçando como pode o pescoço de Berwald, esse tendo de se abaixar e o mais jovem quase ficar sem tocar os pés no chão.
– Eu amo-te, Be. – encarou os olhos claros de seu amado e lhe beijou com carinho.
– Eu também te amo, Tino.
~※~
Mal Hansen chegou dentro de casa, teve o cuidado especial de não sujar tudo com terra – não queria dar trabalho a Bella. Tinha colhido algumas tulipas do jardim, as que estavam mais abertas, e trouxe-as para dentro.
Ao ouvir a porta, Bella espreitou:
– Irmãozão? O que foste fazer?
Ele pegou numa das tulipas e ofereceu-lha.
– Apanhar as flores antes que murchem, devem caber no vaso da sala, não?
Bella sorriu e pegou a flor, cheirando as pétalas rubras enquanto sorria. Hansen sempre lhe oferecia flores quando eram crianças, porém fazia algum tempo desde que ele não o fazia.
– Tão lindas! – deu um beijo na bochecha do irmão antes de comentar – Sim, temos um vaso, que tu me destes, perfeito para elas~
Ficou um tanto surpreso por ela ainda ter o vaso – ele quase nunca reparava nessas coisas – e sorriu ligeiramente.
– Se tu o dizes, eu acredito em ti.
Pousou as flores sobre o balcão e apoiou uma mão no ombro dela, baixando-se para desapertar as botas e deixá-las a secar lá fora para sair a terra.
A belga sorriu, encarando a cicatriz que Hansen tinha na testa. Ele a ganhara após defendê-la de alguns pivetes arruaceiros, e Bella sempre se sentira um tanto culpada por aquilo.
Sem realmente perceber, ela acarinhou a cicatriz, a mão quentinha parada na têmpora direita de Hansen enquanto o polegar deslizava pela linha fina acima da sobrancelha.
Como não estava a contar com carinho, ele levantou o rosto em confusão. Porém, ao entender o que ela fazia, não reclamou nem se afastou. Inclinou-se para o toque na verdade e suspirou de contentamento.
Bella prosseguiu com o carinho por mais um tempo, porém estagnou assim que percebeu o que estava fazendo.
– A-ah! Desculpa-me, irmão! – riu nervosa e pegou as tulipas – D-deixa os teus sapatos cá, eu vou colocar as flores num vaso.
Ele pestanejou.
– N-Não tem mal... Eu...
Ia dizer que gostava do carinho mas preferiu calar-se e obedecer-lhe. Pousou as botas no lado de fora e voltou descalço para dentro.
Bella apressou-se em se afastar de Hansen, subindo as escadas até seu quarto, fechando-se nele enquanto abraçava as tulipas junto ao peito. O que estava fazendo? Aproximando-se tanto do irmão após anos? E se Hansen suspeitasse? Pior! E se ele descobrisse sua paixão platônica por ele? Preferia morrer!
– Calma, coração... – ela dizia a si mesma, os olhos claros fixos no seu reflexo no espelho.
Tinha as maçãs coradas, a respiração descompassada e o coração batendo a mil. Depois do que acontecera na noite de Natal, o holandês ficara ainda mais protetor em relação à sua irmã, que se sentia derreter perante tanto carinho. Gostava de ter os cabelos novamente acarinhados por Hansen, e ultimamente se sentia ainda mais tentada a jogar seus medos para cima e beijar o irmão em uma noite que fosse fugir para o quarto dele com a desculpa de que estava com medo, de que ainda se lembrava do caso com Felipe.
Felipe fora denunciado pelos irmãos, e além de perder o emprego, o rapaz passou dois dias na penitenciária, saindo após pagar uma gorda fiança. Nunca mais o viram, porém a belga às vezes se sentia observada e seguida por ele, e ela evitava a todo custo andar sozinha. Luciano, então, mesmo trabalhando em dois lugares diferentes, sempre estava ao seu lado, pois Hansen nem sempre podia.
Após se acalmar, Bella voltou para a sala, as tulipas bem-postas no lindo vaso de cristal que o holandês lhe dera de aniversário. Colocou as flores na mesa de centro da sala, recebendo reclamações de Alfred:
– Hei, Bella! – o estadunidense resmungou – Assim eu não consigo jogar!
– Pois então desliga o videogame, oh parvo. – ela riu e olhou em direção a porta – Luci! Boa noite!
Luciano sorriu e foi lhe dar um beijo na bochecha, fazendo-a sorrir – e causando ciúmes em Hansen, que olhava tudo de longe.
– Oi, Bella. – cumprimentou Alfred com um aceno, sendo ignorado porque o mais velho ainda tentava jogar – Eu vou jantar na casa do chefinho com ele e a Bia, e acho que volto tarde.
Ele nem notou o sorriso malicioso que ela deu.
– Ok~ – sorriu – Caso precises, liga.
O brasileiro acenou e deu outro beijo na amiga, indo tomar um banho.
Quando Bella seguiu para a cozinha, Hansen alfinetou, enciumado:
– Não acho correto uma moça de família deixar um desconhecido a beijar tanto...
A belga encarou-o com uma expressão confusa:
– O Luci não é desconhecido!
Hansen resmungou alguma coisa baixinho, que passou despercebido à loira. Ela não entendeu de onde vinha o comentário.
– E 'tadinho dele...Tão longe de casa e da familía. É só um carinho.
– Para carinhos ele tem o namorado.
Bella suspirou e colocou as mãos na cintura.
– Irmãozão... Estás a ser muito injusto.
Hansen murmurou outra vez, e a belga sorriu para si mesma. Fazia-lhe bem aquela pequena demonstração de ciúmes de seu irmão.
– Não tenhas ciúmes. Sempre serás meu irmãozão querido! – sorriu mais uma vez e beijou a bochecha do irmão antes de ir se despedir de Luciano, que saia.
Hansen suspirou. Não queria ser apenas o irmãozão de Bella. Queria ser seu homem.
~※~
Depois de ter ouvido uma ou outra implicação amigável vinda de Bella, Luciano saiu apressado de casa, ajeitando a gola do seu casaco para não ter tanto frio.
Por ser ainda Inverno, já estava escuro e Guimarães parecia adormecida naquele fim de tarde gelado, o que dava ao brasileiro uma animação maior por poder caminhar naquelas ruas sozinho.
Os seus pensamentos acabaram, como sempre, por irem parar a Afonso.
Mordeu o seu lábio inferior e suspirou, quase o conseguira beijar novamente... Mas havia algo que lhe fazia confusão e borboletas no estomago: o português não se tinha afastado mesmo percebendo claramente as suas intenções mas depois comentara que não gostava dele “dessa forma”.
O pobre brasileiro estava confuso.
– Tio Luci! – a voz de Sofia foi a primeira coisa que Luciano ouviu quando tocou a campainha, e foi a pequena quem veio lhe receber – Demorastes! – ela fez beicinho assim que foi pega ao colo, mas sorriu quando ganhou um beijo do brasileiro – Tio! Olha quem eu achei na porta~
Afonso veio espreitar, segurando uma travessa com algumas carnes. Mal viu o brasileiro, sorriu abertamente, corado um pouco:
– Bem-vindo. E Bia, depois das pessoas entrar, fecha-se a porta, certo? Não queremos que o calor fuja lá para fora.
Sofia riu.
– Nem o calor nem o tio Luci~
Os mas velhos se entreolharam, um tanto erubescidos. Ótimo, agora Luciano sentia que o clima estava estranho por sua segunda tentativa falha de beijar Afonso.
Sofia fechou a porta, porém logo voltou a se enroscar nas pernas de Luciano, que ainda não conseguira cumprimentar Afonso devidamente – com um beijo na bochecha, como sempre.
– Tio Luci, que tens aí?
O brasileiro piscou e em seguida sorriu, entregando uma das sacolas para a menina.
– Seu presente de Natal.
– Sério?!
– Sério. Pode abrir.
A criança correu até perto da lareira enquanto Luciano fugia para perto de Afonso.
– Oi, chefinho...
– Eu não sou “chefinho”. – repetiu pela bilionésima vez aquela frase e virou-se para que Luciano lhe pudesse cumprimentar.
Porém, ele voltou o rosto para o mesmo lado que o brasileiro e por uns segundos ficaram atrapalhados, a tentar alcançar a bochecha um do outro.
Pelo processo, os seus lábios roçaram-se subtilmente e Afonso teve de manter o seu auto-controlo para não o beijar novamente.
Luciano riu e segurou o rosto de Afonso com ambas as mãos, mantendo-a imóvel e fazendo seu nariz roçar no do europeu. Eles se encararam por um segundo antes do mais jovem fechar os olhos e virar o rosto, beijando delicadamente a bochecha de Afonso.
– Tio! Olha o que eu ganhei do tio Luci!
Sofia entrou na cozinha e os adultos se afastaram mais uma vez, a menina inocente percebendo coisa alguma.
– E o que ganhastes?
Ela lhe mostrou um estojo de pintura, cheio de lápis de cor, giz de cera e tintas.
– Tens folha? Quero desenhar!
– O que é que se faz antes disso?
Sofia pareceu confusa por uns momentos mas logo sorriu e correu até Luciano, abraçando-lhe as pernas.
– Obrigada, tio Luci!
Luciano riu e puxou a menina para seu colo, recebendo um beijo na bochecha.
– De nada guria.
Sofia fez uma cara engraçada.
– Que é “guria”?
– É como chamamos as... raparigas? – olhou para Afonso e este lhe confirmou – As raparigas onde eu nasci.
– E onde nascestes?
– Nasci no sul do Brasil, lá em Porto Alegre... Mas vivi quase a minha vida inteira no Rio de Janeiro.
A menina sorriu, não fazendo ideia de onde ficavam tais cidades.
– Tio Luci! Dissestes que ias cantar para mim!
O moreno riu, acenando com a cabeça.
– Certo, mas vamos precisar do seu presente e de folhas.
– O que é que uma coisa tem a ver com a outra?
Luciano sorriu.
– Logo você vê.
O português foi ao seu pequeno escritório e trouxe de lá um montão de folhas que eram da impressora.
– Chegam?
Luciano pegou as folhas – acarinhando a mão de Afonso com os dedos – e voltou a sorrir.
– Chegam.
Levou Sofia até perto da lareira e sentou-se com ela no meio de suas pernas, várias folhas abertas no chão, o estojo de pintura à sua direita.
“Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo”
E ele desenhou um sol sorridente.
“E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo...”
Desenhou um castelo torto, fazendo Sofia rir.
“Corro o lápis em torno
Da mão e me dou uma luva”
Usando a mãozinha da menina, Luciano contornou-a, logo revelando uma “luva” na folha.
“E se faço chover
Com dois riscos
Tenho um guarda-chuva...”
Afonso sorriu e foi para a parte da cozinha, terminar o jantar, ouvindo o brasileiro cantar.
A mais pequena, logo pegou num lápis e desenhou um guarda-chuva antes que Luciano o pudesse fazer e o moreno riu um pouco, cantando mais depressa para brincar com ela.
“Se um pinguinho de tinta
Cai num pedacinho
Azul do papel”
Luciano pegou um pouco de tinta e pingou sobre a folha, logo usando o pincel para modificar sua forma, os olhos verdes de Sofia prestando atenção em cada gesto do brasileiro.
“Num instante imagino
Uma linda gaivota
A voar no céu...”
A canção era linda. A voz de Luciano era linda. Ele era lindo.
Afonso terminou o jantar – fizera feijoada apenas para mimar Luciano – e voltou à sala, onde o mais jovem já cantava outra música para Sofia, que estava com as costas encostada no peito de Luciano enquanto brincava com os dedos dele.
“Sou eu que vou seguir você
Do primeiro rabisco até o be-a-ba
Em todos os desenhos coloridos vou estar
A casa, a montanha, duas nuvens no céu
E um sol a sorrir no papel...”
Ele não queria atrapalhar o momento dos dois, porém estava frio e não gostaria de ter de aquecer a comida novamente. Então aproximou-se dos mais jovens e acarinhou sem realmente perceber os cachos de Luciano.
– O jantar está pronto.
O brasileiro calou-se e deu um pequeno salto. Amava que mexessem no seu cabelo e aquele carinho, assim sem contar, fê-lo corar um pouco e inclinar-se para o toque.
– No final do jantar, cantas outra vez para mim, Luci? – Bia pediu de imediato.
Luciano sorriu e acenou com a cabeça.
– Só se você comer tudinho.
– Tá! – ela também sorriu e se agarrou no pescoço dele para que se levantassem e seguissem até a sala de jantar.
Enquanto Afonso sentava na ponta, Luciano sentou-se à sua esquerda e Sofia ao lado do moreno, porque “não queria separá-los”, mesmo que não dissesse exatamente isso.
O jantar, como sempre, foi elogiado pelo brasileiro.
– Tudo maravilhoso, como sempre. – disse enquanto pousava sua mão sobre a de Afonso, inocente.
Afonso levantou o olhar, um pouco acanhado e abanou negativamente com a cabeça, – Exagerado, como sempre. – para si, o jantar estava normal. – Hás-de me ensinar a fazer feijoada brasileira decente.
Luciano riu e cessou o contato, bebendo um pouco de suco antes de ajudar Sofia a cortar a cenoura.
– Mas para isso eu vou ter de dormir aqui... ou você me levar na pensão depois, porque demora.
– Tio Luci, quero sumo.
– Sumo? Que isso?
O lusitano sorriu de lado e pegou na garrafa de sumo de laranja.
– É isto aqui. – encheu o copo de Sofia – Podes ficar cá, eu não me importo.
– Nome esquisito para suco. – ele fez uma careta – Tá, mas temos que marcar com antecedência... eu gosto de comprar os ingredientes... E ainda preciso ver uma noite de folga.
– Por que, tio?
– Porque o tio Luci é cantor num bar de noite, Bia.
Sofia não sabia disso e logo retomou as suas inumeras perguntas. Para divertimento de Afonso, ela ficou a achar que Luciano era um daqueles cantores famosos cujos videoclips passam muitas vezes na tv.
Ao término do jantar, o lusitano arrumou a mesa e foi lavar a louça, ordenando aos mais jovens para escolherem o filme.
Sofia correu para a gaveta onde Afonso guardava os DVDs e vasculhou entre eles, logo puxando “O Corcunda de Notre Dame”.
– Tio! Quero esse!
Afonso terminou a louça e Luciano fez pipoca de micro-ondas, e logo os três se acomodaram no sofá, o moreno entre os outros dois – Sofia à sua direita e Afonso à sua esquerda.
Embora tivesse escolhido o filme, Sofia adormeceu antes mesmo da cena do Festival dos Tolos, e Luciano, exausto por seus dois trabalhos e sem entender muito bem o que os personagens cantavam, acabou por adormecer logo Esmeralda fugiu da Catedral.
Afonso mantinha-se acordado mas quando ouviu os mais jovens ressonar levemente, levantou-se para ir buscar um cobertor e tapar ambos.
Retomou ao seu lugar, mas como ficava só com a pontinha do cobertor, aconchegou-se ao lado de Luciano, levemente encostado no seu ombro e como seria de esperar, também ele adormeceu.
Os créditos do filme já passavam quando a campainha soou, despertando Afonso. Sonolento, o português coçou os olhos antes de perceber o que estava acontecendo – e corando de leve ao perceber que havia adormecido ao lado de Luciano. Levantou-se e foi atender a porta, onde seu irmão caçula já se preparava para tocar a campainha novamente.
– Estavas a dormir, Afonso? – questionou curioso, e pôs-se na ponta dos pés à procura de um certo brasileiro.
– N-não. Queres entrar? – convidou.
– Só vim buscar a Bia... A Marisa está melhor, voltamos para casa não tem meia hora, mas a Lovi insistiu que queria as meninas conosco.
Afonso sorriu e acenou com a cabeça.
– Ela está a dormir, espera cá que eu já volto.
O português voltou para dentro de casa e recolheu as coisas de Sofia – sua mochilinha rosa e o presente de Luciano. Depois, lembrou-se de que Luciano havia mencionado que a sacola extra que trouxera era presentes para Marisa, Antônio e Lovina, e pegou-a também.
Depois, com todo o cuidado do mundo para não acordar Luciano, pegou Sofia no colo e jogou o casaco dela por sobre os ombros, a menina resmungando em seu sono por ter sido mexida.
– Cá está. – ele sorriu ao irmão ao lhe entregar a filha – Aqui está a prenda que o Luci deu a ela... – Afonso ignorou a cara de Antônio perante o “Luci” – E aqui tem umas prendas para ti e para a Lovina-- e para a Mari! – riu – Queres ajuda?
– Sim, leva as sacolas para o carro.
Afonso concordou e fez o que foi pedido.
Após ajeitarem Sofia na cadeirinha, os irmãos se despediram e Antônio segurou a vontade de perguntar se alguma coisa estava acontecendo entre seu irmão e Luciano.
O espanhol foi embora e Afonso voltou para o quentinho da sua casa.
Luciano estava torto no sofá, quase a cair para um dos lados e o lusitano teve imensa pena do acordar de um sono tão profundo.
Com delicadeza, deitou-o no sofá, ajeitando-lhe as almofadas. Ao afastar-se, sentiu que o brasileiro lhe agarrava a ponta da camisola e então, apesar de achar má ideia, deitou-se ao lado dele, bem na pontinha do sofá.
Só cinco minutos não fariam mal, certo?
Ainda um pouco sonolento, aconchegou-se junto ao pescoço do moreno e adormeceu.
Os cinco minutinhos se transformaram em duas horas, e foi num susto que Afonso percebeu que havia adormecido. O calor de Luciano era agradável e o cheiro dele – canela – viciante, porém o europeu não queria que o clima ficasse estranho caso o brasileiro acordasse e o visse em seus braços. A muito contragosto, afastou-se do mais jovem e lhe de um beijo na testa, seguindo para seu quarto.
Trocou suas roupas pelo pijama e deitou-se na cama gelada. Ugh, como queria voltar para o calor do sul-americano! Porém estava tão cansado que logo voltou a adormecer.
Algum tempo depois, foi a vez de Luciano se levantar. Já quase amanhecia e o moreno, vítima de um sono estranho, pesado e leve, quase um sonambulismo, seguiu até o banheiro. Tateou até seu destino, não percebendo que não estava na pensão, mas sim na casa de Afonso. Assim que esvaziou a bexiga, ele entrou na primeira porta à direita, imaginando entrar em seu quarto. Porém entrava no de Afonso.
Deitou-se atrás do português e o abraçou pela cintura, despertando-o.
– L-Luci?
Pensava falar com Martin, e o abraçou ainda mais.
– Está frio na sala... Me deixa dormir aqui... Só hoje, amanhã eu volto para lá.
Afonso ficou confuso e um pouco atrapalhado por ter sido assim abraçado do nada.
– A-Amanhã?
O brasileiro, usando a sua força, puxou-o para mais próximo, o seu peito ficando encostado nas costas do menor.
– Sim, amanhã. – mordeu-lhe subtilmente a nuca e murmurou – Martin, você encolheu?
O menor piscou, ainda confuso. Ah... Luciano pensava que estava com Martin...
Mesmo que soubesse do namoro de Luciano, Afonso não conseguiu evitar se chatear com aquilo.
– E-eu não--
Luciano, mais adormecido do que desperto, passou a ponta do nariz pelo pescoço de Afonso, e o cheiro gostoso do europeu invadiu seus sonhos. Aquele cheiro de flor – cravo – fez o brasileiro ser inundado de imagens e pensamentos sobre seu chefinho e, como estava acontecendo há algum tempo, ele começou a reagir ao sonho.
Excitado, o brasileiro acarinhou a lateral do corpo de Afonso, levando a mão esquerda até a cintura dele e o puxando para trás, fazendo com que o corpo menor pressionasse seu membro semidesperto, e ele gemeu, rouco e baixo, após mordiscar o lóbulo do mais velho:
– Chefinho...
O português corou até ás orelhas e soltou um suspiro profundo ao ser mordido. Luciano tinha o seu corpo quente e agora parecia mais quente ainda.
– Vejo que seguiu o meu conselho de engordar um pouco. – Luciano voltou a comentar baixo, levando a sua mão até ás pernas de Afonso, acariciando-lhe o interior das coxas.
A prever o potencial “perigo” no que aquilo podia dar, o lusitano tentou rolar para ficar de frente ao moreno.
– L-Luci?
O brasileiro continuava meio adormecido, e quando sentiu Afonso/Martin/ele não tinha certeza de quem, se revirar, deslizou sua mão mais uma vez e acarinhou a intimidade do mais velho.
O português quase deu um salto e instintivamente juntou mais os corpos, gemendo baixo por causa do contacto.
– L-Luci, estás a c-confundir-me...
Só que Luciano não estava se confundindo. Bem, ele pensava estar com Martin, mas estava tendo um sonho com Afonso.
Luciano voltou a gemer ao sentir Afonso perto de si, e, de uma maneira toda atrapalhada e apressada, venceu a barreira das vestimentas do europeu, tocando-lhe o membro nu. O português estremeceu e ergueu o rosto, tentando encontrar uma maneira de se afastar, mas foi só sua respiração quente e úmida tocar a boca de Luciano que o brasileiro o puxou para mais perto e o beijou.
Afonso pensou em retribuir ou talvez deixar-se levar mas a sua consciência não permitia isso. Para si, Luciano estava a pensar em Martin e seria incorrecto deixar aquilo acontecer.
Quando apartou do beijo para poder respirar, mordeu-lhe subtilmente o lábio inferior.
– Luci... Acorda...
– Ai! – Luciano gemeu de dor e se afastou, levando a mão esquerda até o lábio ferido. Abrindo os olhos, e esfregando as pálpebras, piscou ao ver Afonso – C-chefinho?
Afonso respirou fundo, procurando controlar a sua respiração trêmula e alterada. Graças a Deus estar escuro e não ser possível ver o seu rosto muito corado.
– É, s-sou eu.
Luciano piscou.
– Por que você está no meu quarto?
– Tu ainda estás cá em casa, parvo. – fingiu irritação para que o mais jovem não percebesse sua voz alterada. Ainda conseguia sentir os dedos de Luciano em seu membro.
– S-sério?
– É... Dormistes cá...
– Desculpa... – mesmo pedindo desculpas, Luciano continuava abraçado em Afonso.
– Não tem problema.
Eles ficaram em silêncio por um momento, até que Luciano riu.
– Que foi?
– Nada... É que eu estava sonhando com você.
Afonso voltou a ficar rubro, sentindo a sua cara bem quente.
– E f-foi um sonho bom ou mau?
Luciano também corou. Como poderia dizer que estava tendo um sonho erótico com Afonso? De novo?
– Foi... Foi bom. Muito. – sorriu – Mas daí eu acordei e-- por acaso você me mordeu?
O português encolheu-se um pouco e abanou com a cabeça.
– N-Não. Deves ter mordido o lábio.
Ele ficou quieto, pensativo, e em seguida acarinhou o próprio lábio.
– Será? Ainda dói...
Luciano se remexeu e sentiu que estava alterado. Nervoso, afastou-se bruscamente do mais velho e se sentou na cama.
O português apoiou-se nos cotovelos, tirando o cabelo da frente dos olhos.
– Queres que vá buscar gelo?
O mais jovem sorriu e colocou uma mecha do cabelo de Afonso atrás da orelha dele, acabando por lhe fazer carinho.
– Já está frio o bastante para precisar por gelo. Falando em frio. Por que eu estou na sua cama?
O português inclinou o rosto subtilmente para o carinho e pestanejou.
– Não sei, acordei contigo aqui já.
– Ah... – Luciano se aconchegou um pouco mais perto de Afonso, os dois se encarando – Desculpa ter invadido sua cama... Eu achava que estava na pensão... – sorriu de lado, lhe acarinhando o queixo.
O lusitano fechou os olhos em contentamento, quase como um gato.
– Não tem mal.
Luciano trancou a respiração. Sabia que aquilo era errado, que era uma pessoa compromissada, que Afonso não gostava de si. Sabia. Mas estava pouco se importando para aquelas coisas no momento.
Ele só se importava com Afonso, pertinho de si e com os olhos fechados. Nos lábios secos e finos do europeu, e de quanto gostara de beijá-lo aquele dia no shopping. E o quanto queria repetir a dose.
– Desculpa. – tornou a dizer, e Afonso sorriu:
– Já disse que não tem ma--
Luciano se preocuparia em ser rejeitado ou levar um soco – ou até mesmo ser despedido – depois. Naquele momento, ele apenas queria matar a vontade de beijar e morder o mais velho.
Inclinando o tronco para frente, o brasileiro foi mais rápido e direto do que naquela manhã – ou manhã anterior, ele nem mais sabia – e colou sua boca na de Afonso, ansioso.
Afonso abriu os olhos nesse momento, surpreso pela atitude do outro, mas, ao contrário de antes, desta vez não rejeitou. Ele não sabia explicar o motivo mas foi como electricidade tivesse passado pelo seu corpo. Sem realmente ter consciência do que estava a fazer, inclinou-se um pouco para frente, ficando sobre Luciano.
Os lábios carnudos e macios do moreno eram-lhe convidativos e por isso aprofundou um pouco mais o beijo. Conseguia sentir a animação do brasileiro um pouco mais abaixo mas decidiu ignorar para não tornar a situação mais embaraçosa.
Ter a permissão cedida por Afonso fez o peito de Luciano se aquecer, como há tempos não fazia. Levou a mão que antes estava na bochecha do menor até a nuca deste, puxando-o para mais perto e aumentando a intensidade do beijo, temeroso de que Afonso fosse se afastar a qualquer momento.
Por via das dúvidas, o sul-americano enlaçou o mais velho pela cintura e o puxou para seu colo, dando-lhe uma espécie de abraço enquanto se aventurava em mordiscar e beijar os lábios finos dele.
O lusitano deixou-se ser arrastado para o colo do mais jovem, colocando uma perna de cada lado do tronco de Luciano.
Não se queria afastar e também ele, tal como Luciano, tinha receio que o outro se afastasse e por isso abraçou-o pelo pescoço, puxando-o para mais próximo.
Quando ambos puxaram um ao outro para mais próximo, um “acidente” aconteceu: Afonso deslizou sobre o colo de Luciano, acabando por pressionar a ereção do mais jovem.
Apressado, acanhado e querendo morrer, Luciano apartou bruscamente o beijo e baixou o rosto, a respiração ofegante e o rosto em brasas.
– D-d-desculpa.
O mais velho apressou-se em esconder-se no seu pescoço – o que não ajudou muito por causa do cheirinho a canela – e voltou a murmurar pela terceira vez.
– N-Não tem mal... Eu é que devia pedir desculpa...
– E-eu te agarrei, desculpa. – continuou de cabeça baixa – Devia pedir desculpas por quê?
Afonso suspirou, a sua respiração ainda descompassada. Não fez a mínima menção de se afastar.
– D-Deixa lá, já disse que não tem mal...
– Não, me- – Luciano ergueu o rosto e virou-o para a direita, na menção de encarar o mais velho, mesmo que a escuridão não ajudasse. Entretanto, ainda estavam muito próximos, e suas bocas se encontraram outra vez – diga...
O português entreabriu os lábios para lhe responder mas foi noutro impulso e mordiscou o inferior de Luciano, mantendo-o entre os seus.
– Não foi nada...
Luciano sentiu-se estremecer, mas sorriu. Afonso sentiu os lábios do mais jovem se esticando, e sorriu também, mesmo que não soubesse o motivo.
– Você é um chato. – murmurou e voltou a fechar os olhos, beijando o menor mais uma vez.
O lusitano não teve tempo de pensar numa resposta então apenas suspirou levemente, retribuindo o beijo.
Uma das mãos que estavam nas suas costas passou para a sua nuca e ele fez-lhe cafuné.
Aproveitando-se de que Afonso continuava em seu colo, Luciano usou a mão esquerda para mantê-lo firme naquela posição e a direita aventurou-se pelos cabelos soltos do europeu. Gostava dos fios finos, lisos e macios, e achava um desperdício o mais velho sempre andar com eles presos num laço azul. Sempre o mesmo laço azul.
Quando o ar lhes foi solicitado, o brasileiro mordiscou o lábio inferior de Afonso, tanto para indicar que não desejava que a carícia acabasse ali como para provar melhor aquela carne macia e pequena. Tudo em Afonso parecia ser pequeno, mas Luciano adorava isso nele. Estava cansado do corpo grande, magrelo e sem graça de Martin.
– O-o Martin! – ele lembrou-se do namorado e apartou por completo o beijo, batendo a mão direita na testa – Porra, o Martin!
O português fez um pequeno loading, do que estava a fazer e do que estava a acontecer, e de imediato saltou para fora do colo de Luciano e olhou para o relógio, já eram quase seis da manhã!
– T-Tu não o avisaste que ficaste cá?
Afonso ligou o abajur do lado da cama e encarou Luciano, que ajeitava as roupas e se erguia da cama.
– Não, eu... – esfregou os cabelos para arrumá-los – Ele trabalha até tarde, eu esperava chegar antes dele. O-onde está meu celular?
– Não sei...
Luciano estalou a língua e seguiu até a sala, sendo seguido por Afonso. Procurou por seu celular no sofá, cozinha... mas só foi achá-lo no chão, perto do local onde brincou com Sofia.
– Caralho. – ele resmungou ao ver a quantidade de sms e ligações não atendidas do namorado – Eu vou ser castrado.
Afonso mordeu o lábio e caminhou para a cozinha.
– Eu devia ter-te acordado quando adormeceste no sofá, desculpa...
Luciano sentou-se no sofá e calçou os sapatos, pegando sua jaqueta de sobre o encosto de uma das cadeiras, seguindo então para a cozinha.
– Não foi sua culpa. Você não sabia. – queria abraçar o pequeno, porém tinha medo de ser rejeitado. O que queria, afinal? Estava namorando Martin e acabara de beijar Afonso outa vez. Não prestava – Eu quem devo desculpas... Por tudo: por ter dormido, por ter invadido sua cama... Por ter te beijado...
Afonso olhou para baixo, enchendo um copo com leite para o seu pequeno-almoço. Voltou a repetir a mesma frase de antes.
– Não faz mal...
Luciano ficou tentado a beijar a bochecha do menor. Mas não o fez.
– É melhor eu ir embora. – avisou e advertiu – Eu sei onde fica a saída. Desculpe-me mais uma vez.
Afonso até girou o corpo em direção ao mais jovem, mas esse se apressou e deixou a casa.
Suspirou, tristemente, e foi para a janela terminar de comer.
Ainda sentia o calor do mais novo e os seus lábios mas sentia-se péssimo, mais uma vez, se estar a meter entre um casal.
Talvez se devesse afastar... Quer de Luciano quer de Arthur.
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