O Sol que me aquece
2 Capitulo 2
Notas iniciais
... Em alguns minutos eu estaria no palco, e por um momento aquilo me parecia assustador, os pensamentos contrários lutavam para vim à tona, mas eu precisava ouvir a voz da razão. Iria dar tudo certo.
Assim que sai do carro, mal coloquei a mochila nas costas quando senti alguém me puxando.
— Aí, o que é isso? — Camila, só poderia ser. Ela também é bailarina e irá se apresentar junto comigo, pra ser sincera foi ela que me incentivou a se inscrever.
—Estou tão feliz que irá voltar a dançar. — Diz já me arrastando.
—Espera um pouco louca, meus pais iram junto.
—Há, oi tios posso roubar ela um pouco?
—Sem problemas. — Diz minha mãe, sabendo que um não, iria ser mesmo que nada. — A gente já vai filha, ainda iremos estacionar, iriamos demorar mesmo, podem ir indo. -Meu pai concordou. Camila enlaçou o braço no meu e praticamente me arrastou escola a dentro.
—Espera, vai devagar.
—Porque seu pé está doendo? -Parou abruptamente avaliando meus pés.
—Não, é só que temos tempo, mas você está correndo desde que chegamos, se acalma um pouco.
—Desculpa, acho que me empolguei. — Sorri, sempre foi assim ela esse furacão e eu calma, talvez por isso nós damos tão bem.
—Certo. — Enlacei o braço no dela novamente e voltamos agora a andar.
Minutos depois já estávamos atrás das cortinas e prontas para o primeiro ato, ficamos de lados opostos, ela deve ter percebido meu nervosismo pós fez sinal para eu olhar o celular, franzi o cenho, mas ao conferir vi que era uma mensagem. A selfie em que eu estava com o bigode de leite, a encarei e ela estava sorrindo, enviei um “há, há” e guardei o celular, não sem antes percebe que o nervosismo tinha cessado.
—Meninas, está na hora. Quebrem a perna. -Disse-nos a instrutora de dança. “eu consigo” repetia pra mim mesma.
O primeiro ato foi tudo bem, sorri ao ver meus pais sorrirem tanto que é possível que tenham distendido um músculo.
Mas no segundo ato, não sei o que deu em mim, as lembranças do incidente voltaram com tudo, eu simplesmente não conseguia me concentrar e cai. Eu cai. No palco, na frente de todos.
A apresentação continuou enquanto eu sai desnorteada, sinceramente não sabia pra onde estava indo, a visão ficou turva era como se algo estivesse me sufocando, eu só queria sair dali.
Quando o corredor começou a ficar movimentado, entrei na primeira sala que encontrei.
— Como eu pude ser tão idiota. — Comecei a extravasar toda minha raiva, quando percebi já estava gritando. — Como as coisas puderam sair do controle assim, arg.. — Dei um chute em algo, o que doeu um pouco, mas eu não estava me importando muito.
— Calma, vai acabar se machucando. — Dei um pulo pra trás com o susto. Tinha um garoto me encarando lá atrás, mas eu não o tinha percebido.
— Desculpa, eu achei que estava sozinha. Eu já estou saindo. — Dei um passo pra sair da sala, mas gemi com a dor no pé.
— Você está bem?
— Sim. — Tentei andar, mas meu pé não estava legal.
— Eu não acho que esteja. — Ele se aproximou e olhou pro meu pé como quem diz "posso?", fiz que sim. — Isso está feio.
— Que ótimo. — Falei sarcástica, mas completei rapidamente. — Desculpa não é com você, eu só...
— Sem problema. Vamos. — Fez sinal de sair.
— Pra onde?
— Pra enfermaria, alguém tem que cuidar disso.
— Não precisa eu já estou melhor. — Tentei andar me apoiando nas coisas, sem sucesso. Ele balançou a cabeça de leve.
— Você não quer sair daqui, não é? — Fiz que não. — Ok, espera um minuto.
Fiquei sem entender nada, mas fiquei o esperando, o que mais eu poderia fazer. Alguns minutos depois ele estava de volta, com um kit de emergência.
— Obrigada. — Sentei no chão e comei a tirar a sapatinha, meus dedos estavam sangrando, provavelmente pelo chute que dei. Mas eu já estava acostumada.
— Tem certeza que não quer ir à enfermaria? – Quis sabe encarando o estado do meu pé, sorri de leve.
— Não precisa, de verdade. Uma bailarina sempre está acostumada a isso, faz parte da rotina. — Comecei a enfaixar o pé e só aí me toquei, eu não sabia seu nome. — Desculpa, você está sendo legal e eu nem perguntei seu nome.
— Gabriel.
— Bianca, e obrigada pela ajuda. — Terminei de enfaixar o pé e levantei. — Desculpa me intrometer, mas o que você estava fazendo aqui sozinho?
— Acho que o mesmo que você. — Franzi o cenho.
— Se irritar e machucar o pé? – Sorriu de leve.
— Não, ficar sozinho.
— Muita gente lá fora?
— Eu precisava de um lugar tranquilo — Olhei pro violão lá no fundo da sala.
— Entendi. Você toca?
— Sim, e você dança. Não deveria estar no palco? — Eu sei que não foi por mal, mas eu meio que voltei pra realidade e lembrei do porque fui parar ali.
— Sim, hã... longa história. — Hora de voltar pra realidade. — Eu preciso ir.
— Certo. Te vejo por aí Bianca. — Falou como se estivesse decorando meu nome, sorri de leve e concordei.
Sai da sala e fui em direção a saída. A apresentação já tinha acabado, fui em direção ao carro e vi meu Pai conversando com minha mãe segurando em seus ombros como que para tranquiliza-la, respirei fundo e fui em sua direção, tentando não mancar.
Minha mãe levantou a cabeça e quando me viu veio em minha direção.
—Bianca, minha filha. Como você está?
—Um pouco cansada, será que a gente poderia ir pra casa? — Ela concordou e entramos no carro, fomos todo o caminho em silêncio, eu não queria falar sobre o que aconteceu agora porque nem eu mesma entendia o porquê ter acontecido.
Chegando em casa foi direto pro quarto e lá passei o resto da tarde, quando ouvi batidas na porta.
—Pode entrar. — Eram meus pais, nem sei se estava pronta pra essa conversa. Provável que iriam me pedir para parar com a dança e eu iria aceitar.
—Bianca. -Sentaram ao meu lado na cama. — Eu e sua mãe conversamos...-Se entreolharam um instante, lá vem. — E decidimos te matricular na escola que você participou do concurso. -Sabia que iriam dizer isso, já tivemos essa conversa antes e...
—Espera, o quê!? — Minha mãe continuou.
—Sim filha, vai ser bom pra você.
—Mas...
—Bianca, você tem que continua, nós vimos como você foi ótima e...
—Viram errado, eu cai, não terminei. Achei que estava boa, mas não estou e agora vocês querem me matricular em uma escola profissional, só podem estar brincando.
—Bianca...- Meu pai tentou argumentar e por mais que eu saiba que estava sendo grossa com eles, estava com raiva e acho que a deixei me dominar.
—Estou cansada, quero dormir. -Quando vi que eles não se mexiam insisti. -Por favor.
Amanhã seria outro dia, mas hoje queria ficar sozinha.
Fale com o autor