O Sofá
1 One-shot
Notas iniciais
Era uma noite de comemoração, todos estavam felizes, o que era sonho no outro dia se tornaria realidade e tudo que Naruto queria era beber. Muitos diriam que o excesso era para comemorar, mas Shikamaru era perspicaz e logo os sorrisos escancarados, as bebidas consumidas de forma exagerada e os gestos tipicamente bruscos não conseguiram ocultar-lhe os olhos distantes. Os amigos bebiam para comemorar, mas Shikamaru percebeu que Naruto bebia por outro motivo.
Uzumaki Naruto ainda não era Hokage, mas era um herói, talvez mais que isso: uma lenda. Aos dezessete anos foi responsável por salvar o mundo ninja e, por mais que tentasse delegar feitos, ele foi o salvador do mundo. Um salvador tinha uma imagem a zelar, tinha que carregar nas costas o peso de ser uma lenda e Shikamaru sabia que Naruto carregaria este peso sem hesitar, com a cabeça erguida e com um sorriso no rosto.
Mas ele não havia alcançado a posição de conselheiro e braço direito do Hokage por nada. Ele era amigo e companheiro de batalhas antes de ser o conselheiro. Alguém que acompanhou Naruto desde que este era apenas um irritante garoto de voz estridente. Shikamaru era o único que poderia dizer, sem titubear, que conhecia Naruto melhor que Sasuke. O motivo da comparação com Sasuke? A relação de ambos era toda baseada em uma ligação transcendental. Algo de outras vidas, de karma e um monte de sentimentos intensos, raramente compartilhado entre duas pessoas, a intensidade era tanta quando estavam na presença um do outro, que Sasuke dificilmente poderia reconhecer os sutis detalhes da personalidade de Naruto e vice-versa.
Shikamaru facilmente poderia detalhar a personalidade de ambos, detalhar sem o véu dos sentimentos intensos e de maneira quase clinica. Ele era bom nisso e era isso que o tornava um ótimo ninja.
Então ali estava Naruto mostrando toda a alegria de um homem que acabava de alcançar um sonho, mas que claramente estava bebendo para se entorpecer. Naruto, quando verdadeiramente feliz, entorpecia-se com esse sentimento. Ele ficou entorpecido no nascimento dos filhos, ficava entorpecido após uma longa conversa descontraída com Tsunade, Iruka ou Kakashi e se entorpecia de alegria quando Sasuke o visitava por motivos não oficiais. Ali, sentado com eles, sorrindo e contando anedotas, Naruto bebia para alcançar o entorpecimento que a felicidade deveria lhe proporcionar.
Há um tempo Shikamaru desconfiava, mas hoje a desconfiança havia se tornado certeza: Naruto estava com o seu sonho de infância nas mãos, mas não era o suficiente.
Após algum tempo permitindo à Naruto seu entorpecimento alcoólico, Shikamaru sinalizou aos outros que já estava na hora de levar o Hokage para casa, pois o dia seguinte exigiria muito dele. Todos concordaram prontamente e carregaram o amigo. Durante o trajeto cantaram e soltaram mais algumas comemorações, mas breve Naruto simplesmente apagou e o silêncio reinou sobre eles.
O levaram à casa e Hinata indicou que o colocassem no sofá do escritório, ninguém mostrou estranheza sobre isso, todos sabiam que o casal não dividia aposentos há muito tempo. Após fazerem o que foi indicado, todos se despediram educadamente e saíram da casa. Enquanto se afastava a passos preguiçosos, Shikamaru teve tempo de ver um vulto entrar pela janela do escritório em que Naruto dormia, outro teria ficado em alerta, mas ele conhecia muito bem aquele “vulto” e havia facilmente percebido que estavam sendo seguidos desde que saíram de Shushuya*. Os homens mais poderosos do mundo ninja eram extremamente transparentes.
Naruto estava largado sobre o sofá, roncando e deixando saliva escorrer pelos cantos dos lábios, o outro se inclinou sobre o homem adormecido e emitiu um som de desaprovação.
— Dobe — sussurrou. Naruto resmungou e virou, ficando de frente para o encosto do sofá. Sasuke então deu um sorriso lateral, colocou a mão sobre o ombro do homem adormecido e o puxou.
Naruto caiu no chão como um saco de batatas, sentou-se assustado, mas bêbado demais para ter uma reação violenta, então lentamente levantou o olhar e se deparou com o “invasor”.
— Sasuke! — abriu um grande e brilhante sorrido de bêbado.
— Naruto — respondeu o Uchiha com uma inclinação de cabeça.
— Sasuke! — exclamou novamente, já se levantando de forma cambaleante. — Você está aqui! — a voz saiu alta.
— Estou — assentiu como se falasse com uma criança. — E você está bêbado.
— Estou — rebateu sorridente e puxou o Uchiha para um abraço de urso. — Eu achei que você não vinha mais! Você disse que viria comemorar o título comigo e você não veio.
— Eu estou aqui, não estou? — Levantou o braço para dar uma leve batida nas costas do outro, tentando evitar que Naruto entrasse no modo “bêbado chorão”. Sasuke odiava ter que lidar com esse modo. — E você tem mais álcool que sangue no corpo, usuratonkachi! ‘Tá querendo ganhar o posto de Hokage mais bêbado? Vai ter que se esforçar para superar Hashirama e Tsunade.
Naruto saiu do abraço dando uma risada baixa. Ironicamente, quando bêbado e longe de outras pessoas, Naruto ria baixo e falava baixo. Milagres do saquê.
— Eu só bebi para comemorar, mas não teria bebido tanto se você tivesse ido.
— Eu não faço parte desse grupo, Naruto, e você vai ter que aceitar isso. Shikamaru é o único com quem eu consigo manter uma conversa.
— Vocês nunca conversam, só ficam observando e mandando a gente parar de beber.
— Sempre trocamos palavras sobre o quanto você não tem noção de seus limites físicos.
Naruto fez uma careta: Shikamaru sempre pedia para ele diminuir o ritmo. Ele ainda não havia assumido oficialmente o cargo, mas já estava lidando com as mais diversas funções de Hokage há quase um ano. Sasuke, pelo jeito, tinha a mesma opinião que seu amigo e conselheiro.
— Você veio para me parabenizar ou me lembrar dos meus tropeços? — resmungou.
Sasuke deu um sorriso lateral e se sentou no sofá, indicando que Naruto deveria sentar-se ao seu lado, este o fez. Ambos estavam sentados lado a lado, ombro com ombro e as mãos tocando levemente uma na outra. O Uchiha fitou a mesa bagunçada diante deles e o Uzumaki fez o mesmo, ambos recostados no sofá de forma quase relaxada, acostumados a compartilhar aqueles momentos de silêncio naquele lugar, fitavam de maneira absorta o ambiente.
— Parabéns por se tornar, oficialmente, Hokage. — Sasuke murmurou.
Naruto abriu um sorriso apagado e fitou o perfil de seu companheiro.
— Hoje eu facilmente trocaria esse título por aquilo que realmente quero — respondeu e pegou a mão de Sasuke, entrelaçando os dedos e deitou a cabeça no encosto do sofá, deixando os olhos fechados.
Sasuke apenas suspirou e apertou suavemente a mão presa a sua.
— Hoje você não pode fazer isso e eu não posso abandonar minha missão, o mundo precisa de nós.
— Eu sei, mas hoje ‘tô bêbado demais para me importar, teme!
Sasuke balançou a cabeça de forma negativa e imitou a posição em que o outro estava. Logo Naruto adormeceu e a seguinte coisa da qual se lembra, é do peso de Boruto sobre seu estômago, acompanhado de uma intensa falta de ar que, quando voltou com intensidade para seus pulmões, trouxe com ele um aroma muito conhecido. Um perfume que estava no tecido do sofá.
Naquele dia ele se tornaria oficialmente Hokage, mas tudo que queria era continuar deitado ali e dormindo por mais algum tempo, embalado pelo perfume. Naruto ainda não sabia, mas seus filhos o ajudariam a conseguir esse secreto desejo.
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