O Sobrinho do Mago
1 Depois de Nárnia
Depois de Nárnia
~ & ~
Digory de certo não saberia dizer o que realmente gostaria de fazer. Havia desenvolvido gosto para aventuras e esperava cursar um curso que lhe proporcionasse exatamente isso, aventuras. Por esta razão voltara para Londres após anos felizes na casa de campo onde agora morava com seu pai e mãe, para completar seus estudos e cursar na melhor universidade britânica. Outro motivo por ter escolhido Londres era por ter a oportunidade de rever Polly.
A muito que não se viam. Exatamente quatro anos, embora as cartas trocadas continuassem chegando, porém não era a mesma coisa da presença física da menina. Que de menina já não tinha mais nada, chegaria Digory a esta conclusão mais tarde quando encontrasse com a garota. Londres por outro lado não mudará, apenas ficara mais agitada com as inovações que o mercado abria. Pessoas inundavam as calçadas e com suas duas malas e um malão Digory não conseguiria passar por ela se não fosse seu mais novo companheiro, um homem de idade e amigo de seu pai chamado Gomes. Era em sua casa que o jovem Digory se hospedaria. Polly havia oferecido sua casa para hospedar Digory, mas sua mãe não achara aquilo muito certo. Oras um menino e uma menina embaixo do mesmo teto sem serem parentes e nem compromissados (para a vergonha de Digory que nem ao menos imaginava algo assim com Polly), não era um comportamento aceitável. E Digory concordava.
Ainda sabia onde era a casa de Polly então, assim que estivesse acomodado e tivesse resolvido os últimos detalhes de sua matricula iria ao encontro da amiga. No entanto demorou mais do que ele imaginava, os problemas aumentaram, mas por Deus havia conseguido finalizar tudo antes das seis. Ainda poderia visitar Polly e quem sabe jantar com a moça e sua família? Mas Digory estava exausto demais e resolveu que o melhor a ser feito seria ir no próximo dia. Havia um mês ainda para começar na universidade. Assim após o desjejum do dia seguinte Digory saiu da casa de Gomes, avisando-lhe que poderia chegar tarde já que iria visitar uma amiga de infância.
– Oh, uma amiga de infância meu jovem? Pois bem leve flores para a dama! Certamente ficará encantada assim como a mãe e será mais fácil cortejá-la não é mesmo? – Gomes disse com um sorriso no rosto que deixou Digory encabulado com as suposições.
– Nada disso, nada disso! Somos amigos, apenas. Faz tempo que não nos vemos, apenas isso. – e saindo apressado e com o rosto em chamas acrescentou – E não levarei flores nenhuma, oras!
Para Digory era algo impensável levar flores a Polly, afinal era a Polly que visitaria. Claro que era uma menina digo, dama e seria o certo a fazer. Se Digory fosse cortejá-la. O que não era o caso, não mesmo. Demorou muito até que Digory tivesse esfriado a cabeça com todos os pensamentos que lhe vieram, e no fim decidiu que um presente não seria de todo mal. Por isso quando parou na pequena banca onde diversos tipos de flores estavam expostas, pediu a florista um punhado. Não muito para não dar a impressão que estava cortejando alguém (e lembre-se que para Digory era impensável cortejar Polly, sua amiga), mas também não poucas ao ponto de Polly pensar que ele não sabia dar um presente. Quando chegou a rua onde as casas eram coladas uma nas outras e formavam uma fileira que quase poderia dizer que não havia fim, o jovem Digory parou em frente há uma casa, que poderia ser como todas as outras se três damas não estivessem conversado no jardim da frente. Digory reconheceu a mãe de Polly, era a que estava no meio de duas senhoras com vestidos bufantes de cores estranhas.
– Olá! – chamou a atenção das senhoras, a mãe de Polly o reconheceu quase que imediatamente e abriu um sorriso.
– Oh Virgem Santíssima, Digory meu filho á quanto tempo! Entre, entre. – falou entusiasmada abrindo-lhe o portão e o levando até a porta e gritando “Polly, venha cá menina!”.
A mãe de Polly o apresentou as duas senhoras que estavam com ela, e explicou-lhe que eram as mães das amigas da filha que ainda não havia aparecido, que tinham vindo lhe fazer uma visita antes de saírem para o centro de Londres atrás de vestidos para alguma festa. Digory não estava prestando muito atenção na conversa, estava na sala de estar da casa de Polly. As cortinas rendadas abertas para que o vento e a luz da manhã entrasse e desse vida a casa, combinavam com o pano que estava sobre a mesinha de centro e os pratinhos de chá colecionáveis que a mãe de Polly gostava de comprar e coloca-los em exposição. Mas Digory queria saber de Polly, fazia no mínimo cinco minutos que a mãe da jovem dama havia lhe chamado e depois mandara a empregada (que era normal ainda naquela época famílias terem) a chamar.
Digory fazia o possível para responder e acompanhar a conversa das senhoras. Mas sentia-se nervoso, e uma duvida nascia em seu peito. Talvez fosse melhor ter vindo outro dia, pensou amassando as laterais de seu chapéu. Quando tomou coragem para dizer para mãe de Polly que voltaria num outro dia, a menina chegou ás risadas com outras duas meninas, que sinceramente Digory não prestou atenção. Ao entrar na sala e notá-lo meio sentado meio se levantando, pois havia reunido coragem para dizer que voltaria outro dia, a jovem (não poderia mais chamá-la de menina, mas de dama) soltou uma exclamação de surpresa antes de um sorriso cobrir-lhe a face. Digory apenas teve tempo de levantar-se por completo antes que Polly o envolve-se pelo pescoço num abraço, que Digory apreciou ou apreciaria se não fosse os olhares espantados que ambos receberam.
Assim que Polly desfez o abraço, o encarou felicíssima. As mãos estavam nos ombros largos do rapaz, e estavam muito perto para o desagrado das senhoras que estavam sentadas no sofá a quatro passos de ambos, as amigas de Polly soltavam risinhos como se tivessem notado algo que ninguém mais notara. A mãe de Polly tossiu, falsamente claro como para chamar a atenção da filha. Que notando tirou rapidamente as mãos de Digory e dando um passo para trás, colocando o espaço apropriado entre eles como dita as regras das boas moças. Ficaram encarando-se sem nada a dizer, apenas a felicidade de terem finalmente se visto após os quatro anos. Quando Polly o visitava sempre estava de cabelos soltos, presos ás vezes por um laço no topo da cabeça, ali os cabelos dourados estavam num coque alto e mechas emolduravam seu rosto. Já Polly notara que Digory havia espichado, ela tinha que ficar nas pontas dos pés se quisesse alcança-lo, os cabelos escuros não estavam cortados como os dos jovens de Londres, eram um pouco mais longos e uma barba rala aparecia. Definitivamente estavam mudados, nenhum dos dois tinha dúvidas sobre isso.
– Digory! – ainda animada, quase saltitante o saudou – Faz muito tempo, como está? Sua mãe está bem? E seu pai? E Estrela? (a égua que fizemos o nascimento) – o jorro de perguntas despertou Digory.
– Estou muito bem e mamãe e papai também! Estrela está forte e saudável, mansa e esperta. Sente sua falta. – ele gostaria de dizer que todos sentiam falta da presença dela, inclusive ele. Mas pensou que a mãe de Polly e nem as mães das amigas da menina iriam achar isso muito adequado.
Lembram-se do punhado de flores que Digory havia trazido a Polly? Agora as flores silvestres descansavam num vaso na mesa de centro, Digory não conseguiu dizer a mãe de Polly que as flores eram para a filha desta, então as ofereceu a mãe da moça.
– Um cavaleiro do campo?! – uma das amigas de Polly exclamou entusiasmada, analisando Digory.
Polly as ignorou, e perguntou se Digory não queria comer algo, a isto o rapaz falou que já havia feito o desjejum.Seria muito longo contar em detalhes a manhã dos dois amigos. Mas as amigas de Polly e suas mães logo foram embora ao notarem que já não eram o centro da atenção das anfitriãs. A mãe de Polly deixou-os na sala conversando animados sobre as novidades, que eram muitas. Mas o assunto principal que gostariam de falar, mas não citaram, foi Nárnia, e Aslam. Mas não precisavam o dizer. Ao menos não naquele momento.
Quando Polly e a mãe precisaram sair Digory as acompanhou já que não tinha qualquer compromisso durante aquele dia. E enquanto andava no meio das duas mulheres, cada uma com o braço atrelado ao seu, o jovem ficou entretido enquanto ambas se revezavam para contar-lhe as novidades em Londres. Até que a mãe de Polly começou a falar de noivados e Polly calara-se, o humor mudado drasticamente. Digory notou como o assunto incomodava a amiga, mas nada disse até que se encontraram sozinhos, enquanto a mãe de Polly ia pegar um vestido que deixara na costureira.
– Que história é essa de noivado? – perguntou Digory meio incomodado, não havia muito tempo que sua mãe e seu pai conversaram isso com ele.
Polly demorou a responder. Digory já iria desculpar-se por tocar no assunto quando a jovem disse muito resignada.
– Mamãe quer que eu me case. Já até tem pretendentes. – disse emburrada, os cantos dos lábios torcendo-se levemente em sua irritação com o assunto. Digory lembrou-se que o pai de Polly havia falecido á quatro anos atrás, um dos motivos para ela ter parado de o visitar e que também por esse motivo Polly teria que casar-se para ter um novo provedor na família. Digory estava inquieto, mas decidiu soltar a pergunta que estava quase pulando para fora de sua boca.
– Gosta de algum deles? – Polly o fitou meio raivosa meio encabulada, as bochechas um tanto vermelhas.
– Nunca vi nenhum pessoalmente. Se bem que faço ideia de quem poção ser, mamãe sempre solta algo. É simples ligar os pontos.
Digory maneou a cabeça afirmativamente e decidiu que seria melhor deixar o assunto de lado. Nenhum dos dois estava muito confortável com aquela conversa. Digory acompanhou as duas durante a tarde e por fim as levou em casa, Polly ainda demorou com ele no jardim, sentados no banco que o pai da moça pusera lá junto ao muro, aquele mesmo que os dois se conheceram anos antes. Antes de Nárnia. No silencio da tarde ambos riam como se voltassem a ser duas crianças que se aventuravam entre as casa. E então relembravam as aventuras, com uma nostalgia saudosa e alegre. A tia de Digory a muito havia se mudado dali e ido para a América, onde estava muito bem e até casada.
A conversa estava tão agradável que Polly recostou sua cabeça no ombro de Digory que se já não estivesse acostumado com aquele tipo de reação da garota toda vez que falavam de Nárnia teria ficado constrangido dos pés a cabeça. Falar daquele lugar os acalmava de tal forma que se sentiam leves e uma enorme felicidade os inundava, assim como uma paz.
Por fim Digory teve que ir para casa, pois não deveria chegar tarde. Mas Polly o fez prometer que um dia iria jantar com elas, fazia um tempo que não tinham uma presença masculina e embora aquilo fizesse Polly se entristecer, bastava lembrar-se de Aslan e como um filme rápido, seus melhores momentos com o pai lhe viam a cabeça, até aqueles que ela jurava ter esquecido. Digory prometera, mas foi apenas se afastar de Polly para que seus pensamentos voltassem ao assunto ‘noivado’. Não sabia como reagir diante disso, nunca lhe passara pela cabeça que Polly casaria, claro que sabia que ela casaria. Mesmo assim, aquele garoto que subira o muro para olhar do outro lado, que visitara o recanto mais secreto da amiga não conseguia entender. Já o homem que Digory era entendia, mas não sabia lidar com isso. Polly havia se tornado uma formosa mulher, e tinha diversos pretendentes que nem imaginava, mas a mãe os via e os selecionava. Pobre garota. Digory não estava atrás, os anos na casa de campo haviam lhe feito muito bem. Tinha disposição de sobra, e muitas garotas diriam que seu terno lhe dava um ar charmoso, principalmente se não estivesse com seu paletó, o colete e de mangas dobradas.
Os dias seguiam com visitas, passeios, jantares e almoços. Logo a vizinhança estava comentando. Vizinhos nunca foram discretos quanto ao fato de ficarem sentados perto das suas janelas vigiando a vida dos outros. E quanto mais Digory aparecia para visitar Polly durante aquele mês, mas as vizinhas (velhas e jovens) se sentiam impelidas a descobrirem o que estava havendo, pois nenhum pronunciamento havia acontecido, de que um noivado aconteceria. Quando questionada a mãe de Polly respondia a verdade, era um velho amigo da família e de Polly que estava esperando para começar seu curso numa renomada universidade de Londres, após isso perguntas do tipo “É um futuro pretendente?” “Oh e ele está comprometido?” “Os dois parecem tão lindinhos juntos!” deixavam a mãe de Polly um tanto desconfortável. Pois até aquele momento ela não via a constante presença de Digory em sua casa e perto de sua filha, com a intenção de cortejá-la.
Polly estava mais que contente de caminhar pelo parque com Digory enquanto o mesmo falava de seus sonhos e planos para o futuro. Ele queria viajar para vários lugares, descobrindo coisas e as vendo. Polly já esperava isso dele, afinal foi por insistência de Digory que começaram suas aventuras pelo o Bosque Entre Mundos, até assistirem a criação de Nárnia e conhecerem Aslam. Quando pararam para descansar por um momento embaixo de uma árvore com ramos longos cheios de folhas verdes, Digory virou-se para Polly observando o olhar atento dela nas famílias que percorriam o parque com os filhos.
– E você, o que pretende fazer? – ainda a fitando como se tentasse adivinhar os pensamentos que Polly pensava, esperou que ela respondesse.
– Não sei ao certo... – murmurou Polly fixando seus olhos nos de Digory por não mais que meio minuto antes de baixar o olhar para seu colo onde suas mãos repousavam.
– Você escrevia. Melhor, ainda escreve! – Digory sorriu ao notar as bochechas de Polly tornarem-se mais vermelhas e seus lábios se repuxarem num sorriso.
– Bom, não posso dizer que não. – e Polly voltou a sonhar acordada, com um futuro que talvez não conseguisse alcançar caso sua mãe a casasse por agora. Deseja cursa a faculdade de letras para se especializar e quem sabe futuramente publicar algo em seu nome? Não seria impossível.
Enquanto observavam as pessoas passando, um casal sentou-se na frente deles. Como Digory e Polly teriam gostado de não terem sentado ali, teria evitado muito constrangimento quando o casal apaixonado beijara-se, não demoradamente mas o suficiente para fazer Digory engasgar e Polly desviar o olhar procurando uma desculpa para saírem dali. Ainda estavam envergonhados na presença um do outro quando Digory foi levar Polly em casa. Mas antes que ela entrasse demoraram-se um tantinho do lado de fora, o suficiente para Digory pensar em algo para dizer que fizesse aquela situação toda não ficar esquisita.
– Você está tão vermelha quanto um tomate! – provocou o jovem, soltando uma risada que fez Polly bufar.
– Oras essa! Acha que não vi o senhor engasgar e corar também? – Polly rebateu, como se era de se esperar.
Digory riu. Logo Polly também riu. Até que ambos davam boas gargalhadas. Mas quando a graça acabou e fitaram-se questionando se alguma vez haviam beijado. Digory questionava-se sobre Polly e Polly sobre Digory. Mas nenhum teve coragem de perguntar. Mas Digory sendo curioso como era, antes que Polly entrasse em casa, disparou como se não fosse conseguir dormir a noite se não soubesse.
– Você... por acaso, já... sabe? – enrolou-se ao fazer a pergunta. Quando levantou o olhar para analisar Polly, esta segurava o riso, tanto que estava vermelha e desta vez como um tomate. A moça respirou e inspirou algumas vezes antes de com um olhar divertido e um sorriso ainda nos lábios, aproximar-se de Digory como se fosse contar-lhe um segredo.
Polly segurou em seu braço, como se pedisse para inclinar-se e obediente Digory inclinou-se um pouco, com o ouvido esquerdo na altura de Polly.
– Não posso falar! – Polly falou rapidamente dando-lhe um beijo na bochecha e disparando para dentro da casa. Se alguém viu, Digory não notou. E ele deve ficar até aliviado ao saber que realmente ninguém havia visto essa cena.
Quando deitou-se na cama pronto para uma noite de sono, não conseguira pregar os olhos, onde Polly havia depositado o beijo (que mais foi um roçar de lábios rapidamente) parecia formigar. Um suspirou saiu de seus lábios e esses repuxaram-se num sorrisinho.
Veja bem que nenhum dos dois era mais criança, e na idade em que estavam era muito natural ter sentimentos mais intensos e até a mudança e transformação de um sentimento que antes estivera ali, bem quietinho. Mas isso era apenas uma parte de tudo, saber lidar com esses novos sentimentos e transformações de outros, era muito mais complicado. Tanto Digory quanto Polly antes do fim daquele mês desejaram ser crianças novamente, ambos concordavam que era muito mais fácil quando a única coisa séria que tinham que lidar era a Feiticeira.
Enfim Digory começou seu curso de história. Ficava difícil ver Polly, mas acabavam dando um jeitinho. Como nas horas livres do rapaz e nos fins de semana quando ele não precisava ficar com a cara enfiada nos livros. Optavam por passear em parques ou qualquer outro canto longe o suficiente de qualquer conhecido de ambos, até porque não era nada agradável ficar sendo vigiados por toda a vizinhança. Polly naquele domingo estava radiante, fazia quatro meses que Digory estava em Londres e havia começado na universidade, o rapaz sempre chegava com coisas novas para contar e naquela noite ele iria dar-lhe uma grande noticia e por isso convidara Polly e a mãe dela para jantarem na casa de seu amigo.
Quando chegaram Digory e senhor Gomes que estava nervoso em receber as duas damas, alegando a Digory que fazia anos e anos que não recebia uma visita desde sua falecida esposa, – a não ser a velha cozinheira e a filha desta – então foi com grande entusiasmo e alegria que recebera Polly e sua mãe, as conduzindo por sua casa de dois andares, com aquelas janelas bem ornamentadas. A mãe de Polly ficou encantada com a coleção de porcelana que estava guardada num armário, no corredor do segundo andar. Polly conseguira ficar com Digory na sala de estudo, onde o rapaz mostrava-lhe clássicos da literatura.
Polly sentia como se borboletas estivessem voando por seu estomago, suas mãos estavam suadas e ela sentia-se inquieta. Digory não estava muito diferente, estava certo de que passava mal. Os olhos fixos no rosto de Polly enquanto esta analisava um livro, passou pela sua figura vestida em um vestido marfim longo até seus cabelos soltos preso numa fita caiam por seus ombros lustrosos e ondulados. Polly sentia o olhar de Digory, e era como se queimasse.
– Está me deixando embaraçada, olhando-me tão fixamente. – Polly deixou o livro de lado virando-se para Digory, ela estava com dificuldades em regular sua respiração.
– Desculpe-me. – Digory abaixou o olhar, mas não sentia-se de fato embaraçado.
– O que queria dizer-me?
– Oh, verdade. – pondo as mãos no bolso da calça Digory tomou fôlego reprimindo o que estava subindo por seu peito.
Polly notou a agitação do amigo, e tocou-lhe o braço chamando sua atenção. Porém afastou-se quando o olhar de Digory queimou no seu.
– Então? – Polly colocou as mãos para trás.
– Estão abrindo vagas para o meu curso, uma oportunidade para pormos em prática teorias e aprender mais sobre o trabalho de historiador (que você sabe que é viajar atrás de artefatos) e... – Digory parou de falar brincando com uma pena deixada na mesa, tinta seca estava em sua ponta.
– Isso é maravilhoso! – exclamou Polly chegando mais perto de Digory – E você se escreveu, sim?
Digory riu baixinho, nervoso. Polly sentiu a inquietação do amigo, não entendia o que estava havendo. Desde que começara a cursar história, tinha simplesmente se encantado em ser historiador/pesquisador. Viagens para lugares do mundo inteiro, com promessas de descobrir algo único e novo. Mas havia algo errado, e Digory não queria falar para ela.
– Ainda não me escrevi. As vagas são limitadas, abrem amanhã. – o rapaz sussurrou. Polly pegou sua mão que brincava com a pena e a segurou com as suas.
– Está com medo? – Digory bufou e fez menção a se afastar, mas Polly segurou firmemente sua mão. – Diga-me! – Polly falou firme, seu olhar travando o de Digory ou o dele que estava travado no dela.
– Não. – teimoso Digory disse, e desta vez Polly bufou – Só se responder minha pergunta.
– Qual?
– A que eu fiz, naquele dia quando voltamos do parque.
Polly demorou para saber do que se tratava. Mas quando lembrou-se soltou a mão de Digory, de repente sentia-se meio sufocada e calorenta. Precisava de ar, e a janela da sala de estudo estava escancarada, as cortinas brancas esvoaçando.
– Porque quer saber? – indagou Polly querendo escapar daquilo, quase desejou ter um anel verde no bolso (se aquele vestido tivesse algum bolso) – E você, já beijou alguém?
Digory corou e rebateu.
– Isso não é sobre mim! E além do mais eu que perguntei primeiro.
Contra isso Polly não poderia argumentar. Tentou responder, mas a vergonha não deixava. Não entendia porque era importante para Digory saber algo assim, e nem porque ela própria gostaria de saber se por acaso Digory já beijara alguma garota. Desejou que sua mãe aparecesse, mas esta estava empolgadíssima com as historias que Gomes contava-lhe.
– Então? – nervoso pela a demora de Polly, Digory começou a ficar relaxado. A demora da garota só significava uma única coisa: ela ainda não beijara. E Digory estava bastante contente com isso, não saberia lidar com o contrario. Um sorriso queria aparecer, mas Digory tentava ficar sério.
– Porque isso importa? Não estávamos falando sobre mim, mas sim de você!
– Polly...
– Não vejo motivos para você querer saber isso! – quando Polly olhou para Digory nervosa e vermelha percebeu que ele segurava o riso e até dobrava-se! Oras aquilo deixou Polly furiosa e sentiu uma enorme vontade de acertá-lo um belo de um soco!
– Ai!
Polly realmente batera em Digory, não fora forte o suficiente para machucá-lo, afinal ela não tinha essa força toda. Digory esfregou o braço por puro reflexo enquanto ainda dava risos.
– E daí que eu não tenha beijado ninguém?! Você não é melhor do que eu por isso! – Polly batia o pé furiosa, e fechava e abria o punho ao lado do corpo sua respiração saia alta.
– E porque a senhorita acha que eu já tenha dado um beijo? – Digory disse meio chateado por Polly achar que ele beijara alguém sem ele ter realmente beijado. Polly abriu a boca surpresa, mas Digory prosseguiu. — Nunca disse nada de ter beijado qualquer garota!
– Ah.
Um silencio constrangedor pairou entre os dois. Nem ao menos se olhavam, tal era a vergonha de ambos. Polly como sempre se recuperava mais rápido que Digory numa situação difícil, tentou conversar.
– E está com medo de se escrever?
– Mais ou menos. – Digory respondeu sua verdade mais sincera.
Polly aproximou-se dele, tocando-lhe o braço e o acariciando de leve. A vergonha já esquecida.
– Quando tenho medo de algo, eu penso em Aslam e de uma forma estranha pareço corajosa. – Digory abriu um sorriso.
– Obrigada.
Estavam tão perto um do outro, tão aconchegados naquela lembrança quente, de paz e ao mesmo tempo de temor. Envolvidos naquela canção, a canção que ouviram Aslam cantando na criação de Nárnia. E de repente estavam embalados por uma bolha, onde apenas os dois pareciam existir. Os corações batiam num ritmo frenético, Digory embalou uma das mãos de Polly em seu peito. Polly segurou no braço de Digory, suas pernas não apreciam capazes de aguentá-la, a mão esquerda de Digory saiu do bolso para descansar na cintura dela. Digory beijou a bochecha de Polly demoradamente.
O engraçado com os primeiros beijos, normalmente não se sabe como acontecem, apenas acontece. Se perguntassem para Polly e Digory como havia ocorrido, eles apenas sorririam encabulados com seus olhos brilhando e dariam de ombros. Certas coisas apenas se compreende sentindo.
Mas quando os dois se encontraram com seus lábios, Polly achou que provavelmente morreria com a grande emoção que vibrava por seu corpo, mas sentia Digory a segurando. De certo, ou os dois estavam morrendo, ou Polly não sabia como descrever aquilo. Para Digory foi como se uma explosão de cores acontecessem, sentia-se fora de si e apertou um pouco mais Polly.
Fale com o autor