Pisco meus olhos e a única coisa que vejo são zumbis devoradores de cérebros. Minhas pernas começam a tremer. De fato, estou com medo. Sem saber o porquê, corro como um jato sobre as ruas de Infernuum, uma maldita cidade que só quer me matar. Olho todos os prédios em procura do meu, alguns são altos, alguns são baixos e alguns são muito esquisitos. Meu prédio é o mais baixo, não sei por que, mas prefiro os mais baixinhos. Deve ser porque tenho medo de altura. Após alguns minutos correndo, consigo despistar os zumbis que estavam correndo atrás de mim. Mas por algum motivo sinto que estou sendo vigiado. É uma sensação estranha, já que sou o único da cidade. Corro pela pequena praça que fica a uns dois quarteirões de distancia do meu prédio. É uma praça humilde, porém é o único local onde me sinto vivo. Ela também fica perto de um cemitério daqui. Nunca fui lá, porque parece horrível.

_Lá está! – Grito eu ao ver meu prédio.

Uma pequena sensação de alegria me preenche. É raro isso acontecer, mas já faz horas que estou fora de casa. E ficar nas ruas de noite é perigoso, pois os zumbis saem para fazer sua ceia antes de dormir.

Entro em meu prédio. Ligo as luzes. Tranco a porta e vou em direção ao meu andar. Vejo o velho elevador que não funciona há décadas. Ele é tão velho que um dia tentei usar e ele despencou. Quase morri naquele dia. Chego às escadas e então subo lentamente, degrau por degrau até chegar ao meu andar. É uma residência humilde, tem poucos cômodos, mas consigo sobreviver. Às vezes penso no porquê de eu ter escolhido este prédio ao invés dos outros, que são muito mais espaçosos. Então uma resposta chega a minha mente. É porque aqui eu me sinto seguro e aconchegado. Diferente de outros prédios e casas. Gosto da minha vida do jeito que está. Medíocre.

O silencio toma conta de toda casa, por um momento os zumbis lá fora pararam de fazer terríveis ruídos e os morcegos param de gritar. Por um momento lembro que tenho medo do silencio. Olho para o corredor que liga as duas extremidades da minha casa e vejo meu espelho. Minha silhueta escura e baixinha desaparece quando eu ligar das luzes. Ando até ele lentamente sobre o silêncio da noite. Fico a uns dois metros de distancia dele. Tenho 14 anos, sou baixinho, com cabelo curto e visto uma roupa especial para sobrevivência. Olho-me todo dia no espelho. Não que eu seja vaidoso, mas tento achar no reflexo quem eu sou. Porém só acho o reflexo vazio de uma alma fracassada e perdida na sua própria realidade. De repente sinto meu corpo pesado. Caio de joelhos sobre o duro piso do corredor, abaixo minha cabeça e consigo ver as lagrimas saindo de meu olho. Sinto como se um pedaço do meu espírito caísse sobre o piso em forma de gotas que refletem a minha alma.

Em um piscar de olhos vejo um vulto se formando atrás de mim. Não consigo tirar meus olhos do espelho. Sem saber como, me levanto e sinto minhas pernas tremerem de medo. Viro-me vagarosamente sobre o corredor.

_ Zumbi! – Grito.

Ele não demonstra nenhuma emoção. Somente me olha com aqueles olhos vermelhos e penetrantes. Eles não têm boca nem nariz, apenas olhos assustadores.

O olhar dele penetra na minha alma e me faz lembrar um local em que houve uma chacina. Não consigo pensar em nada, meus olhos ficam cansados e minhas pernas bambas.

Mas de repente uma voz vinda do fundo da minha consciência fala: “Pegue a arma, é a sua única chance para sobreviver”. Nunca usei a minha arma. Sempre achei que no dia em que eu usasse me tornaria igual a eles. Faminto por morte.

Não tenho escolha. Puxo a pistola que fica na alça de minha mochila. Minhas mãos começam a tremer. Aponto sobre a cabeça do zumbi. Bem no meio dos seus olhos vermelhos. É um tiro queima-roupa. Impossível de errar.

Fecho meus olhos. Sinto meu dedo escorregando sobre o gatilho da arma. O barulho do tiro toma conta de Infernuum. Sinto minha alma pesada demais para ficar de pé. Então caio de joelhos sobre a poça que acabara de se formar. Começo a chorar. Não são lágrimas de dor. Mas sim de culpa.

Sinto as gotas de lágrima limpando as manchas de sangue em meu rosto. Abro meus olhos e vejo a arma na poça de sangue que se formou sob o cadáver.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.