Notas iniciais
Sugiro que leiam ouvindo isso: http://www.youtube.com/watch?v=Z6mJUfU5yac Boa leitura! ♥

Seu corpo se ergueu das cinzas, arfante, e milagrosamente inteiro. Sentia-se como a fênix consumida por suas chamas e que ressurgia à vida saída das cinzas. Embora na realidade só estivesse vivo graças a sua teimosia demoníaca que o fizera usar como escudo o corpo de um garoto qualquer. Ainda estava bem ali ao lado, com os membros carbonizados e o rosto desfigurado; não se recordava de suas feições, tampouco, de modo que seu salvador jamais receberia os devidos agradecimentos por seu sacrifício.

Certamente lembrar-se-ia dele como seu bondoso salvador.

O ar estava pesado e fortemente impregnado pelo odor pungente de sangue e carne queimada. Aí está a conclusão da guerra, pensou de modo sombrio. Cães de aparência esquelética ainda disputavam os restos mortais dos soldados caídos. A visão deu-lhe enjoo. Precisava sair dali; levantou-se de sua cova e, escalando com dificuldade o aclive, entre conhecidos e estranhos carbonizados, espiou a imensidão real da tragédia que vivenciava.

A sua frente estendia-se um mar de corpos sem rostos. Abutres, em uma quantidade absurda, vinham pousar sobre os corpos destroçados que não foram completamente carbonizados. Há alguns metros dele um bando de aves de mau agouro disputavam as tripas de um corpo inerte; na ferocidade de bicadas querendo devorá-lo, a cabeça decepada acabou rolando e vindo em sua direção. E quando parou, desfigurada de rasgos na pele e faltando um olho, ele pode ver o que um dia fora o rosto corado e alegre de seu amigo.

O sobrevivente contorceu-se de lado e vomitou.

Movido por nada mais do que suas pernas e sua teimosia demoníaca, cruzou os campos desertos de alma, completamente aéreo e atônito. Caminhou descalço, sentido a terra dura e destruída sob seus pés, enquanto pensamentos nebulosos assomavam-lhe a cabeça. O que seria de sua vida agora? Tudo o que conhecia acabara de ser reduzido às cinzas e transformado em grotesco alimento para carniceiros. Queria voltar e acabar com a solidão que o perseguiria, mas seu demônio interior ainda o propelia para frente, teimando em fazê-lo viver o máximo possível.

Você tem que viver, repetia em seus ouvidos. Viver até o verdadeiro fim!

Ajudado por seu demônio, atravessou o mar de sangue em que se transformara o campo de batalha. Sua mente conturbada não processava as perguntas que deveria fazer. Onde estava o inimigo agora? Há mais alguém vivo? Feridos agonizando no campo ainda, talvez? Ele precisava ajudá-los! Contudo, continuou em frente, impulsionado por forças além dele, levando-o o mais distante possível daquela visão mortal.

A cinco quilômetros o cenário começou a se suavizar. Arrastou-se com aquela determinação vazia em direção a uma casa cujo telhado fora arrancado com força brutal. A guerra chegou até aqui também, lamentou internamente. Tentou arranjar água no poço do terreno, mas o balde ecoou quando caiu no fundo seco. Dentro da casa ainda havia mobília e objetos pessoais dos moradores, mas havia aquele ar de abandono que denunciava a fuga que os acometera antes da tragédia. Não havia nenhum corpo nas localidades, o que confirmava sua ideia.

Não havia comida, tampouco. A falta de alimentos e água o preocupava, mas em seu ouvido soavam-lhe palavras de consolo sombrias. Você está vivo! De todos aqueles, você quem sobreviveu! Comemore soldado! Porém aquilo não aliviava a boca seca e o estômago vazio. Imaginou também como estava sua aparência; definitivamente a de alguém que escapou da morte.

No quarto da casinha encontrou uma cama forrada com palha seca. Não pensou, agiu. Dirigiu-se a cama e deitou suavemente. Havia muito com que se preocupar; muito que fazer e pensar. Agir certamente seria a coisa mais inteligente no momento, mas sentiu uma tranquila sonolência e teve certeza que tinha dedo de seu demônio nisso. Fechou os olhos e repousou tanto o corpo quanto a alma perturbada. E jamais se moveu outra vez.

Comemore soldado! Goze bem os seus espólios! Beba sua vitória!

Porque você estava certo. Seu rei venceu; seu líder acertou; seu presidente não apostou errado. Porque você está vivo! Você é a prova de que seus ideais estavam corretos, e não os do inimigo. É a prova de que as vidas, os corpos lá atrás estavam errados.

Ria! Comemore! Porque você venceu!

Mesmo que ninguém se importe com isso.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!