Jade

Algumas horas antes...

Eu não aguentava mais ficar naquele hospital, era tão chato ficar lá
deitada o dia todo, e sem necessidade já que meu ombro estava melhor –
ok, um pouco dolorido, mas, definitivamente melhor – porém Charlie dizia
que eu ainda não estava pronta para ter alta. Charlie estava sendo muito
gentil, e, mesmo com tantos pacientes para atender vinha sempre me ver
quando lhe sobrava um tempinho, ele era atencioso e estava realmente
preocupado com meu estado – até porque eu estava grávida. Meus pais me
visitaram naquela manhã, ficaram um tempo comigo me jogando indiretas
sobre como Charlie era um jovem bonito e bem sucedido, como eu deveria
pensar no caso dele já que estou solteira – só que não – e blá blá blá,
ignorei a maior parte do que eles falavam, eu só queria um descanso e
poder ver Cobra de novo.

– Olá – Charlie surgiu pela sétima vez no quarto, e sim eu estava contando
– Como está?

– Do mesmo jeito que da outra vez que você me viu a alguns minutos
atrás: entediada e irritada – bufei.

– Ei, não fique assim, você precisa repousar – ele pareceu ofendido com
o modo como falei.

– É só isso que tenho feito, preciso sair um pouco! Quero tomar um
ar, sentir o Sol, eu fiquei um mês em cativeiro sem nem ao menos sentir
uma brisa quente de verão! Por favor, me permita sair desse quarto pelo
menos para ir até o jardim do hospital – supliquei, estava realmente
cansada de ficar ali, meu ombro já estava melhor, eu ainda não mexia ele
do modo como fazia antes, mas, eu podia fazer algumas coisas.

– Jade, eu não... – Fiz a maior cara de pidona que pude, até pisquei
meus olhos rapidamente para causar impressão de fofura, Charlie suspirou e
revirou os olhos – Ok, você venceu. Mas eu vou ter de acompanha-la então
– assenti rapidamente.

Me levantei no mesmo minuto e ajeitei minhas roupas, por sorte meus pais trouxeram roupas para mim. Era uma manhã quente de verão e eu queria aproveitá-la, Charlie me observou perplexo e depois disfarçou, ele abriu a porta e caminhou ao meu lado em silêncio. Passamos pelos corredores rapidamente,
chegamos ao jardim mais rápido do que eu imaginava e logo os raios de
Sol brilharam em minha pele e eu suspirei lentamente, eu me sentia livre
e feliz, porém sentia falta de Cobra e ainda não tive notícias dele...
Aquilo me preocupava imensamente, eu tentava me recordar do momento em
que fui trazida ao hospital, mas, era como se aquilo tivesse sido tão
traumático que meu cérebro apagou da minha memória e aquilo me irritava,
eu precisava saber onde ele se encontrava, e Charlie sabia, mas, por algum
motivo ele não me dizia.

Me sentei em um banco do jardim cercado de flores lindas e perfumadas,
não sabia o nome delas, mas, eram incríveis. Charlie se sentou ao meu lado
ainda sem me dizer nada, apenas me observava quieto, estava muito
pensativo e seus olhos azuis pareciam um pouco mais escuros hoje, algo
nele me intrigava e o observando agora me lembrei do que meu pai dissera
“Ele é um bom garoto, definitivamente um ótimo marido, além de ter uma
boa profissão”, eu sabia onde o meu pai queria chegar, ele insistia na
ideia de que eu e Charlie deveríamos ficar juntos, mas, meu coração já
tinha dono e isso não podia ser mudado. Por alguma razão acreditei que
Charlie talvez cogitasse alguma possibilidade de nós dois ficarmos juntos,
e isso me causava certa culpa, mas, eu não o amava, eu pertencia ao Cobra.

– Seu pai conversou muito com você não foi? – ele se pronunciou.

– Sim – respondi.

– Ele disse algo sobre mim?

– Vamos direto ao ponto Charlie, não há necessidade de enrolação – falei
calma.

– Certo... – ele tossiu constrangido – Bem, ele quer que... Você sabe,
nós...

– Ele nos quer juntos eu sei – ri ao observar a vergonha dele – Não
precisa ficar assim.

– E o que você tem a dizer? A respeito disso? – suspirei, odiava dar um
fora em alguém, mas, eu não podia deixar que Charlie criasse expectativas.

– Olha eu sinto muito, eu entendo que meu pai quer que eu me case com um cara bom e tal... Mas, eu não posso te iludir, eu já amo outra
pessoa, e agora estou grávida desse homem que eu amo, eu não posso
mentir pra você. Sinto muito – Ele assentiu mas não olhou para mim,
parecia tão triste.

– Compreendo, eu mesmo criei muitas expectativas. Mas, não se preocupe, agora só cabe a mim esquecer... – Ele se levantou e ajeitou a roupa –Tenho que atender outros pacientes, não fique muito tempo aqui fora ok?
– assenti devagar e o vi saindo. Pobre Charlie, tentei ser o mais doce
possível, mas tive que ser firme também para que nenhuma nova esperança
seja criada. Fiquei um bom tempo no jardim e depois uma enfermeira foi
me buscar para me levar ao quarto novamente, fiz alguns exames rápidos e
fui obrigada a voltar para a cama, e no tédio cabei adormecendo. Lembro
de ter sentido um toque leve em meus lábios, foi quando ouvi a voz dele...

Agora eu estava sentada vendo o meu médico e amigo de infância se
estranhando com meu namorado, Cobra carregava uma fúria nos olhos que
me deixou realmente assustada, nunca o vi daquele jeito. Antes que eles
pudessem sequer pensar em se socar me levantei da cama a corri até eles,
me enfiei no meio deles e revezei olhares de um para o outro. Meu
coração estava disparado, não sei se pelo susto, se era por ver Cobra
ou se era pela adrenalina da briga, a última coisa que eu queria era ver
era esses dois numa briga, e por mais que eu estivesse ali no meio eles
se empurravam vez ou outra.

– Parem com isso por favor – Cobra olhou para mim ainda irritado.

–Jade saia do caminho – olhei para ele irritada e me coloquei na
frente de Cobra.

– Você não vai bater nele Cobra, por favor não faça isso! – implorei,
Cobra ergueu uma sobrancelha para mim.

– Está protegendo esse idiota? – Charlie então delicadamente se colocou a
minha frente.

– Fique tranquila Jade, ele só vai apanhar um pouquinho – Cobra
parecia quase um tigre, achei que naquele segundo ele fosse avançar em
Charlie.

– Não coloque suas mãos na minha mulher! – Cobra segurou minha mão e me puxou para perto dele, depois se colocou a minha frente de um modo tão
protetor que se fosse em outras circunstâncias teria sido fofo – Jade
não se meta, eu só preciso ensinar a esse merdinha babaca a não mexer
com a mulher dos outros – Charlie se enfureceu.

– O único merdinha aqui é você! – Quando percebi que íam começar a
brigar feio me coloquei no meio dos dois novamente.

– Parem! Não vou permitir que briguem dentro de um hospital! – gritei –
Por favor parem com isso! – os dois se entreolhavam, pareciam quase
soltar faíscas.

– Jade, quem é ele? – Charlie perguntou com um misto de raiva e tristeza.

– Eu sou o namorado dela, praticamente noivo – Cobra respondeu ríspido
passou o braço envolta da minha cintura, Charlie observou-o com mais calma
e seus olhos se arregalaram.

– Ele é o seu sequestrador? – Charlie me olhou indignado – Jade você...
Você está namorando o seu próprio sequestrador? – ele parecia ter levado
um grande choque.

– Charlie, você não compreende, as coisas não são desse jeito que você
está pensando! – ele parecia atordoado demais.

– Meu Deus! Ele deve ter mexido tanto com o seu psicológico que agora
você pensa que ama ele – achei aquilo totalmente sem sentido e me
aproximei de Charlie.

– Não, não é nada disso... É uma longa e complicada história, e eu
queria poder explicá-la a você, mas não aqui – Charlie estava muito
confuso e eu não sabia como acalmá-lo, então segurei sua mão e olhei bem
no fundo de seus olhos azuis – Por favor eu preciso da sua ajuda,
preciso que me dê alta hoje mesmo, e se o fizer prometo contar a você
tudo o que está acontecendo.

– Jade eu não posso fazer isso! E o seu pai? O que vou dizer a ele?
Que você fugiu com o seu sequestrador? – acariciei seu rosto levemente
para que ele se acalmasse, senti um leve puxão de Cobra que protestava.

– Diga que me liberou e que eu disse que iria para casa, por favor,
eu preciso da sua ajuda! Prometo que se me liberar eu lhe contarei tudo
– Ele me observou por um tempo, pensando no que faria, depois soltou
um longo suspiro e assentiu.

– Tudo bem, mas, vai ter que me prometer que vai me contar tudo hoje
mesmo! – abracei ele muito feliz.

– Sim! Claro que sim! Vou te mandar uma mensagem do endereço que vou estar, muito obrigada Charlie – olhei para Cobra que não estava com uma
cara muito boa, mas, ele ía ter de entender. Charlie assinou a prancheta e
foi leva-la a recepção.

Cobra e eu saímos discretamente do hospital, chamei um taxi e ele nos
levou até um lugar que meu pai não nos encontraria. Eu a um tempo havia
planejado sair de casa, então com o dinheiro que consegui comprei uma
casa numa parte calma da cidade, meus pais não sabiam disso porque eu
planejava contar somente quando estivesse de malas prontas para ir, mas
então Cobra entrou na minha vida e as coisas mudaram. Não demorou muito
para que chegássemos a minha nova casa, Cobra estava impressionado com
aquilo, uma casa muito simples por fora mas bem sofisticada por dentro.

– De quem é essa casa? – ele perguntou.

– Minha – respondi – Comprei a um tempinho, vim aqui somente uma vez... – sorri para ele – Em breve será nossa – me aproximei de Cobra e o
abracei com todo amor do mundo e comecei a chorar, ele retribuiu e
beijou o alto da minha cabeça.

– Estou tão feliz que esteja viva – sua voz era de choro também.

– Eu te amo tanto, não sabe o quanto senti sua falta amor – Ele parou
para me observar e me beijou, um beijo intenso e apaixonado.

– Prometo que nada mais vai tirar você de mim – Entramos naquela casa
com aquela promessa ecoando na minha mente, e eu também sabia que nada
mais me tiraria dele, eu só precisava acreditar que tudo daria certo
para nós dois.