O Senhor de Gondor
11 Cápitulo 11 - Minas Tirith
A chuva castigava a estrada havia dias, e a ansiedade que pesava nos corações fazia com que cada cavalgada parecesse longa demais para pensamentos tão sombrios. Estavam encharcados, os cavalos afundavam os cascos na lama, e ainda haviam percorrido apenas metade do caminho.
Decidiram abandonar a estrada em busca de abrigo. A noite se aproximava, e permanecer molhados poderia comprometer a viagem até Minas Tirith.
Próximo às Montanhas Brancas, encontraram uma gruta. Acenderam uma fogueira, aproximaram-se das chamas para secar as roupas e aquecer o corpo, e ali acabaram adormecendo.
Na manhã seguinte, restava apenas uma brasa fraca no centro da caverna. Pela abertura da gruta, o sol começava a nascer. Sentada diante do horizonte, estava Hildwyn.
Wallor aproximou-se e percebeu uma lágrima escorrendo pelo rosto da companheira. Era uma imagem que não via havia muito tempo.
— Você está bem, Hildwyn? — perguntou.
— Estou, sim — respondeu ela, sem desviar o olhar do horizonte.
Ele sentou-se ao seu lado e passou o braço por seus ombros. Hildwyn apoiou a cabeça nele.
— Não tivemos muito tempo para chorar a morte do nosso pai — disse Wallor.
— Não — respondeu ela. — Ele foi um grande pai.
— Foi para todos nós.
Karick fazia falta. Se estivesse vivo, certamente estaria naquela jornada. Embora tivesse deixado Gondor por razões desconhecidas, jamais deixara de amar sua terra natal.
— Você acha que vamos conseguir, Wall? — perguntou Hildwyn.
— Tenho certeza — respondeu ele. — Por Karick. Eu jurei que conseguiria por ele.
Os dois observaram o nascer do sol. A chuva cessara, e o caminho até Minas Tirith precisava continuar.
Seis dias de cavalgada se passaram em silêncio. Ao final de uma tarde, encontraram uma estrada branca que conduzia a uma cidade colossal. O sol se punha atrás das muralhas, fazendo com que a cidade emitisse um brilho magnífico, uma das visões mais belas que já haviam presenciado.
Aratus ordenou que parassem. Deixaram os cavalos em um bosque próximo e avançaram a pé, escondendo-se entre as árvores. Havia orcs espalhados por toda parte, conversando e mantendo guarda junto ao grande portão. A entrada parecia impossível.
— O que faremos agora? — perguntou Wallor.
— Como imaginei, entrar pelo portão principal é inviável — respondeu Aratus. — Mas a noite nos favorece. Conheço uma entrada alternativa.
Seguiram mata adentro. À medida que avançavam, antigas lembranças atravessaram a mente de Wallor: corridas entre as árvores, ainda criança, montado nas costas de um Guardião.
Chegaram a um enorme paredão branco. Havia ali uma abertura por onde corria água. Uma grade de ferro bloqueava o acesso. Tratava-se de um antigo esgoto.
Aratus desceu, pisando na água esverdeada, apoiou as mãos na grade.
— Vamos ver.
Com um estalo metálico, a grade cedeu.
— Eu sabia que não haviam consertado — disse, sorrindo. — Fui eu quem deixou isso assim, muitos anos atrás.
Abaixaram-se e entraram no túnel escuro. A visão era quase inexistente. Aratus segurou a mão de Barad, que segurou a de Hildwyn, que segurou a de Wallor. Seguiram em fila, guiados mais pelo tato do que pela visão.
O cheiro era sufocante. Escorregavam às vezes, apoiavam-se em paredes cobertas de musgo e sentiam teias de aranha roçando o rosto.
Após algum tempo, surgiu uma luz acima deles: um tampão perfurado, servindo como bueiro.
Aratus escalou as pedras, empurrou o tampão com cuidado e subiu. Em seguida, ajudou os outros a emergirem.
Estavam dentro de Minas Tirith. Uma rua que outrora fora movimentada encontrava-se deserta.
Um ruído se aproximava. Uma pequena marcha de orcs, carregando tochas, passou diante deles. Esconderam-se em um beco.
— E agora? — murmurou Barad.
— Precisamos encontrar Eithor — respondeu Aratus. — Provavelmente está no salão principal, no topo da cidade.
Barad ergueu o olhar.
— Até chegarmos lá podemos ser vistos a qualquer momento.
— Eu disse que seria uma missão suicida — comentou Aratus.
— Não há tempo para arrependimentos — afirmou Hildwyn. — Mostre o caminho.
Moveram-se entre becos, caixas e muros. O sol começava a nascer, revelando a cidade branca, esculpida na própria montanha. Porém, Minas Tirith estava tomada por sujeira e decadência, transformada em uma verdadeira toca de orcs.
Ao amanhecer, moradores começaram a sair de suas casas: sujos, famintos, abatidos. Orcs arrastavam idosos, mulheres e crianças acorrentados.
Um velho caiu ao chão. Um homem sem uma das mãos aproximou-se e o chicoteou.
— É ele — murmurou Wallor. — O responsável pela morte de Karick.
A fúria subiu-lhe ao peito, mas Aratus segurou seu braço.
— Você terá sua vingança. Agora, controle-se.
Outro orc surgiu. Era Kazurk, conhecido deles. Sua voz era grave e carregava algo quase humano em meio ao tom monstruoso.
— Eithor quer vê-lo — disse Kazurk ao homem maneta.
Após algumas palavras inaudíveis, Kazurk conduziu os prisioneiros adiante. O grupo passou a seguir o homem maneta à distância.
O caminho era feito de subidas intermináveis. Pessoas jaziam jogadas entre o lixo, como sombras humanas.
Em determinado ponto, perderam o homem de vista e se esconderam atrás de uma casa. Alguns orcs invadiram o local, destruindo móveis e ameaçando os moradores.
— Vocês devem dinheiro a Eithor — rosnou um deles.
— Não temos mais nada — respondeu um velho. — A cidade inteira está sem recursos.
O orc sacou uma faca.
— Então uma de suas mãos servirá como pagamento.
Um garoto começou a chorar.
— Nurd, saia daqui — pediu o velho.
O menino correu para fora e deparou-se com o grupo escondido. Aratus fez sinal para que ficasse em silêncio. Hildwyn entregou-lhe um pão, e o garoto sorriu.
— Tragam esse também — ordenou um orc.
Quando o orc se aproximou, Hildwyn avançou por trás, tapou-lhe a boca e torceu-lhe o pescoço. O corpo caiu com força no chão. O segundo orc correu até ali e foi abatido por Aratus.
Dentro da casa, encontraram uma família vivendo em miséria absoluta.
— Quem são vocês? — perguntou o velho.
— Aratus, filho de Barethor. Este é Wallor, filho de Guildor.
O homem se ajoelhou, emocionado.
— Meu rei.
— Levante-se — disse Wallor.
O velho explicou os abusos de Eithor: impostos impossíveis, confisco de comida e água, escravidão.
Antes de partirem, perceberam o garoto dividindo o pão com a família. Sensibilizados, entregaram toda a comida que possuíam.
— Dividam com quem puderem — disseram.
Com gratidão e lágrimas, a família lhes indicou o caminho até o palácio.
E assim seguiram, rumo ao encontro com Eithor.

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