O Senhor de Gondor
8 Capítulo 8 - O Último Ent
Após uma longa jornada a cavalo, o grupo começou a se aproximar do destino. Seguiam pela Velha Estrada do Sul quando Aratus sugeriu que cortassem por Isengard, atravessando a Terra Parda, para alcançar o Desfiladeiro de Rohan. Talvez assim pudessem rever o velho Barbárvore.
A Terra Parda recebera esse nome por ter sido, outrora, habitada por homens de pele morena. Porém, segundo Aratus, aquele povo havia se espalhado pela Terra-média havia muitos anos.
Ao alcançarem Nan Curunír, uma coluna de fumaça erguia-se sobre Isengard como a respiração de um vulcão desperto. Esporearam os cavalos, temendo o que encontrariam.
O caos os aguardava.
Orcs corriam entre as árvores, ateando fogo aos troncos antigos. Chamas subiam pelos galhos como serpentes vivas. No centro da destruição estava Barbárvore, preso ao solo por suas próprias raízes, lutando como podia. Cordas envolviam seu tronco, puxadas por dezenas de orcs que tentavam derrubá-lo. Outros golpeavam suas raízes com machados, mas muitos eram arremessados pelos galhos que o Ent fazia descer com força.
Havia pânico em seus olhos de madeira. A floresta ardia ao redor, e ele mal conseguia se mover.
Wallor e os demais avançaram a galope contra os orcs próximos às raízes, abrindo caminho com espadas. Hildwyn desmontou e passou a disparar flechas, cobrindo-os enquanto o calor das chamas distorcia o ar.
Mais inimigos surgiam entre a fumaça. Barbárvore esticava-se ao máximo para afastá-los, enquanto o grupo avançava até ele em meio ao tumulto.
Foi então que algo diferente surgiu entre as árvores.
Aratus foi o primeiro a perceber.
Entre os orcs, um comandante avançava montado num cavalo negro. Sua aparência destoava de todos os demais. Tinha traços humanos no rosto, pele clara como a de um homem, cabelos longos que desciam pelas costas e olhos brancos como luz de lua. Uma armadura protegia um dos braços, e em suas mãos descansava uma longa lança negra.
— Aquele é Kazurk, o Meio-Orc. Um dos generais de Eithor — disse Aratus, em voz baixa.
— Meio-orc? — Barad estranhou.
— Eithor fez experiências horríveis. Misturou espécies. Ele é uma fusão de homem com uruk-hai.
Os outros orcs não o respeitavam por achá-lo belo demais para os padrões deles. Ainda assim, obedeciam. Kazurk não era alguém a ser subestimado.
Ele desmontou.
Seus olhos se fixaram em Wallor como os de um predador que escolhe a presa. Num piscar de olhos, avançou como uma flecha.
Aratus interceptou o golpe a tempo, desviando a lança que teria atravessado Wallor. O impacto ecoou como metal contra trovão.
Sem dizer uma palavra, Kazurk tentou atingir o ventre de Aratus, mas o ataque foi novamente repelido.
Outros orcs cercavam o grupo, impedindo qualquer ajuda.
Kazurk girou o corpo e desferiu um chute violento, lançando Aratus vários metros adiante. Ele caiu com um som seco, o ar escapando-lhe dos pulmões.
O Meio-Orc avançou para finalizar o golpe.
Uma sombra enorme desceu sobre ele. Barbárvore tentou esmagá-lo com um braço colossal, mas Kazurk rolou para o lado, escapando por pouco.
Wallor e Barad lutavam para abrir caminho até Aratus. Hildwyn, agora num dos galhos de Barbárvore, disparava as últimas flechas para protegê-los.
Aratus ergueu-se com dificuldade, a mão pressionando o peito.
— Eu me lembro de você — disse, apontando a espada. — Você estava naquele salão.
Kazurk não respondeu. Apenas avançou.
Aratus atacou num golpe alto. A lança bloqueou com facilidade. O segundo ataque veio rápido, carregado de fúria, e dessa vez a lâmina cortou a face do Meio-Orc, abrindo um filete de sangue.
Kazurk reagiu com violência. Golpeou Aratus com o cabo da lança e, num giro brutal, cravou a lâmina na coxa do guerreiro, forçando-o a cair de joelhos.
Wallor tentou correr em sua direção, mas um machado passou rente à sua cabeça. Uma flecha de Hildwyn derrubou o orc no último instante.
Kazurk ergueu a lança para o golpe final.
As chamas refletiam na lâmina negra. O sangue parecia ainda mais vermelho sob a luz do incêndio.
Wallor fechou os olhos.
O impacto veio como um trovão.
Barbárvore acertou Kazurk em cheio, arremessando-o sobre os próprios soldados.
O Meio-Orc ergueu-se cambaleante. A armadura estava destruída, o braço direito quebrado. Mesmo assim, segurou a lança com o braço restante e a arremessou.
Barbárvore tentou proteger Aratus, mas a lança atravessou sua mão e cravou-se no peito do guerreiro, atravessando-o.
Kazurk cuspiu sangue, assoviou chamando seu cavalo e ordenou a retirada. Os orcs desapareceram na fumaça, recuando em direção a Gondor.
Aratus jazia no chão, pálido, a respiração falha.
— Ajudem Barbárvore primeiro… apaguem o fogo… — murmurou.
Encontraram barris em Orthanc e os encheram nos lagos próximos. Enquanto lançavam água sobre as chamas, Barbárvore murmurava palavras longas e antigas em sua língua. Minutos depois, nuvens pesadas se formaram, e uma chuva grossa caiu sobre Isengard, apagando o incêndio.
Quando o fogo cessou, a chuva também se foi.
Aratus estava fraco, a pele quase sem cor.
— Estou orgulhoso de vocês… — disse com a voz trêmula. — Mas minha hora chegou.
— Não diga isso — respondeu Wallor.
— Foi uma lança negra.
O silêncio pesou entre eles.
— Prometa que cuidará do seu povo… e que vencerá Eithor.
— Eu prometo.
— E cuide de seus irmãos. Eles serão sua espada e seu escudo. Vença por seu pai. Por Gondor. Como Aragorn fez.
O coração de Aratus enfraquecia.
Então Barbárvore aproximou-se e lançou uma grande fruta marrom aos pés deles.
— Abram… deem a água a ele.
A água cristalina devolveu cor ao rosto de Aratus.
— Agora preciso ficar sozinho… hm.
Ao amanhecer, encontraram Aratus sentado diante de uma imensa árvore antiga.
Era Barbárvore.
Ele havia se tornado parte da floresta.
— Ele usou o que lhe restava de magia para me salvar — explicou Aratus. — Agora está em paz.
Sentaram-se em silêncio diante da grande árvore.
Dizem que, com o tempo, Isengard voltou a florescer. E que aquela árvore cresceu mais do que qualquer outra na Terra-média.

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