O Senhor de Gondor
6 Cápitulo 6 - A Decisão
Ao deixarem o Condado, Wallor observou Tuandil e os outros seguirem em direção à Grande Estrada do Leste. Cavalgavam rápido, afastando-se até se tornarem apenas pontos no horizonte.
O próprio grupo avançava devagar. Aratus sugerira que dessem tempo aos companheiros, para não chegarem a Rohan cedo demais, já que o caminho deles seria muito mais longo. Seguiam pelo sul, pelo Caminho Verde. Foram alguns dias de viagem até alcançarem a margem da Velha Estrada do Sul, na ponte que cruzava o Rio Cinzento, quando se depararam com o primeiro sinal de vida inimiga.
Ainda cavalgavam lentamente quando escutaram passos pesados vindo pela estrada. Aratus ergueu a mão num gesto imediato, ordenando que saíssem do caminho. Desceram dos cavalos e os conduziram para o interior da floresta que margeava a via empoeirada. Depois, aproximaram-se da estrada, ocultando-se entre arbustos e troncos, atentos à origem daquele som ameaçador.
Não demorou para uma longa fileira de orcs surgir, marchando pelo caminho como uma corrente negra. Eram muitos, talvez perto de trezentos. Entre eles, alguns homens montados em cavalos escuros conduziam a tropa para o norte. Wallor sentiu um aperto no peito ao imaginar que o destino pudesse ser Bree… ou até mesmo o Condado.
Quando o último orc desapareceu de vista, ele deixou seu esconderijo. Barad saltou de trás de uma árvore, e os dois se encontraram no meio da estrada.
— O que você acha que foi aquilo? — perguntou Hildwyn, voltando-se para Aratus.
— Orcs rumando para o norte, pelo Caminho Verde — respondeu ele, com o olhar carregado de preocupação. — Temo que o destino seja Bree ou o Condado.
— Não podemos deixar que cheguem lá. Temos que fazer alguma coisa — insistiu Wallor.
Aratus virou-se para ele, sério.
— Não podemos enfrentar um exército desses. Somos apenas quatro. E você não percebe? Eles provavelmente estão procurando por você. A essa altura, Eithor já deve saber que o herdeiro foi encontrado.
— Eu não posso deixar que pessoas morram por minha causa — retrucou Wallor, dando alguns passos para o norte. — Não vou permitir que eles cheguem ao destino.
Aratus segurou-o pela capa.
— Não. Você não vai. Não seja tolo. Você não pode morrer agora.
— Você não me dá ordens! — gritou Wallor.
Barad e Hildwyn perceberam a tensão crescer e se aproximaram.
— Acalmem-se — interveio Barad. — Estamos do mesmo lado.
Wallor tentou se soltar, empurrando Aratus.
— Me solte.
— Não, Wallor!
Num impulso, Wallor acertou um golpe no rosto de Aratus, atingindo seu olho branco e derrubando-o no chão. Hildwyn correu para ajudar Aratus enquanto Barad conteve Wallor.
Aratus manteve a mão sobre o olho, mas a dor que carregava não parecia apenas física.
Ele se levantou lentamente.
— Você tem razão — disse, com a voz contida. — Eu não te dou ordens. Você pode ir atrás deles e tentar impedi-los. Mas, quando chegar lá, encontrará apenas a morte. E quando morrer, a missão deles estará completa. Não precisarão mais ir ao Condado ou a Bree atrás de você. Mas quando toda a Terra-média souber que o herdeiro está morto, a esperança do povo morrerá junto com você. E a honra pela qual seu pai deu a vida desaparecerá.
Wallor permaneceu em silêncio. Por mais que virar as costas parecesse errado, ele sentia o peso da verdade nas palavras de Aratus.
— Você é rei — continuou ele. — Um rei não se sacrifica pelos outros. É o contrário. Agora você tem dois caminhos.
Aratus sustentou o olhar de Wallor.
— Se seguir em frente, será rei de Gondor e encontrará a guerra. Muitos morrerão em seu nome. Muitos se sacrificarão por sua causa. — Fez uma pausa. — Ou você pode voltar, ir atrás dos orcs e morrer. O povo do norte será poupado agora, mas no futuro será esmagado pela ambição de Eithor. Decida-se: seja um homem… ou seja um covarde.
O silêncio se estendeu.
A mente de Wallor se encheu de lembranças. Karick lhe ensinando a manejar a espada, ocupando o lugar de pai que nunca tivera. As brincadeiras de infância com Barad e Hildwyn. A vida simples do vilarejo, tão distante daquela estrada poeirenta e daquele destino pesado.
Gondor ainda lhe parecia uma ideia nebulosa, quase abstrata. Mas Karick não.
“Ele é a esperança de Gondor.”
As palavras ecoaram em sua memória. Karick sempre soubera quem ele era. Nunca lhe contara, para protegê-lo. E morrera por isso.
Wallor respirou fundo.
— Vamos em frente — disse.
Montaram novamente seus cavalos e seguiram pela Velha Estrada, enquanto o sol se dissolvia lentamente no horizonte.
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